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Eles comem tudo, eles comem tudo ....

por Jorge Soares, em 20.11.14

Subvenções vitalicias

 

Imagem de aqui

 

Afinal Cavaco Silva tinha razão, PS e PSD podem chegar a consensos, não sei se para resolver os problemas do país e dos portugueses isso será possível, mas está visto que no que toca à melhoria de vida dos políticos, eles conseguem.

 

Hoje foi votada e aprovada com os votos de PS e PSD e com abstenção do CDS, uma norma do Orçamento do Estado que repõe as subvenções vitalícias a ex-políticos.

 

Esta norma não estava contemplada na versão do orçamento apresentada pelo governo, mas o pedido de alteração  foi apresentado na passada sexta-feira pelos deputados Couto dos Santos (PSD) e José Lello (PS), ambos membros do Conselho de Administração da Assembleia da República.

 

Para quem não se recorda, a subvenção mensal vitalícia é atribuída  a membros do Governo, deputados, autarcas e juízes do Tribunal Constitucional sem carreira de magistrados  e foi revogada em 2005, com José Sócrates no Governo. No entanto, os titulares de cargos políticos que tivessem completado 12 anos à data da entrada em vigor da lei de Sócrates mantiveram o direito à subvenção.

 

 

Desde Janeiro de 2014, o valor destas subvenções passou a estar dependente dos rendimentos do beneficiário e do seu agregado familiar, mediante a apresentação da declaração de IRS. Se o rendimento for superior a 2000 euros (excluindo a subvenção), essa prestação é suspensa. Nas restantes situações fica limitada à diferença entre os 2000 euros e o rendimento (excluindo a subvenção).

 

A proposta que foi agora apresentada devolve o valor total das subvenções a todos os políticos que estão em condições de a receber.

 

Gostava de perceber a lógica de pensamento dos senhores que apresentaram a proposta de alteração, o governo nega-se a devolver os salários que foram retirados aos funcionários públicos porque o país não está me condições, o PSD , o CDS e o governo foram unânimes ao criticar o tribunal constitucional quando este proibiu os cortes nos salários que eram inconstitucionais, quer dizer, não há condições para devolver os salários e pensões a quem precisa e a quem trabalhou a vida inteira, mas há dinheiro para devolver pensões vitalícias a quem governou 12 anos? Mas afinal os portugueses não são todos iguais?

 

Com que lata é que estes senhores pedem sacrificou aos portugueses quando depois eles são os primeiros a não os fazer?

 

Já dizia o Zeca:

 

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

 

Jorge Soares

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publicado às 22:55

“Um casebre podre e fedorento”, foi assim que Tony e Jan Jenkinson descreveram o Broadway Hotel

 

Imagem do Sol

 

Um casebre podre e fedorento”, foi assim que Tony e Jan Jenkinson descreveram o Broadway Hotel em em Blackpool, no noroeste de Inglaterra. Estiveram lá, não gostaram e vai de aí decidiram partilhar a (má) experiência no Trip Advisor, um dos mais conhecidos portais da internet para escolha e marcação de hotéis.

 

Passado um tempo chegou-lhes a conta, para além do custo da estadia, havia um extra de 100 libras de multa pela critica negativa.

 

Há muito que a marcação de hotéis pela internet cá em casa se tornou um hábito, já seja a nível nacional ou internacional, usamos quase sempre o Trip Advisor para escolher os hotéis e claro, um dos principais factores a ter em conta são as criticas e comentários de quem já por lá passou e gostou... ou não.

 

Para nós, e imagino que para muita gente as criticas são muito importantes, quando os preços são parecidos estas servem muitas vezes como fiel da balança e  são factor de decisão. Percebe-se que os hotéis tenham muita atenção ao que por lá se escreve, mas esta de taxar os comentários negativos como um extra do consumo não lembra ao diabo. 

 

Se calhar alguém devia explicar aos senhores que a maneira correcta de ter clientes satisfeitos é melhorando a qualidade do hotel e do serviço, não extorquindo o clientes desta forma... que nem me parece que seja muito legal...

 

Se a moda pega, como o meu mau feitio e a minha mania de reclamar, estou feito ao bife .

 

Jorge Soares

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publicado às 22:28

quaresma.jpg

 

Imagem do Sapo

 

A seguir ao jogo com a Albânia disse aqui que o verdadeiro valor da selecção portuguesa não seria o que naquele dia não tinha dado para ganhar à Albânia, mas também não seria o que tinha mostrado nos últimos 15 anos, estaria sim algures no meio, nem tão má como a daquele dia, nem tão boa como a maioria dos portugueses que gostam de futebol querem acreditar que temos.

 

Entretanto mudou-se o treinador e em lugar da renovação que tanto se criticou que Paulo Bento não fez, o que temos visto é que apesar das estreias (quase) forçadas de um ou outro jogador jovem, regressaram à selecção jogadores que por um outro motivo estavam fora das escolhas de Paulo Bento e sem fazer as contas, diria que no jogo contra a Arménia a média de idades deve ter subido um ou dois anos.

 

Também é verdade que depois de uma derrota contra a França no primeiro jogo da era Fernando Santos, se seguiram 3 vitórias por um zero, incluindo a de hoje contra a Argentina, vice campeã mundial, naquele que de certeza foi um dos jogos mais fracos e aborrecidos dos últimos anos.

 

É verdade que o que interessa é ganhar e quanto a isso Fernando Santos está a fazer um excelente trabalho, mas também é verdade que o que vemos é uma selecção que em lugar de mostrar jogo o que mostra é uma cada vez maior dependência dos momentos de génio de Cristiano Ronaldo e que quando este falta deixa de saber muito bem para onde jogar.

 

Um destes dias alguém dizia num dos muitos programas sobre futebol que  o que faltou no jogo contra a Albânia foi o Cristiano Ronaldo e que se este tivesse jogado, de certeza que Paulo Bento continuaria a ser seleccionador e que dificilmente alguma coisa teria mudado. Mas Ronaldo não jogou e na altura não havia Quaresma para tirar um dos seus passes mágicos como os que tem tirado ultimamente, três jogos, três momentos à la Harry Potter e três golos da selecção... o resto é história.

 

Hoje viu-se algo da tão necessária renovação, estrearam-se 4 jogadores pela selecção, infelizmente nenhum deles é avançado e por muito que se olhe para as selecções mais jovens, dificilmente se vislumbra que apareça algum nos próximos anos e não será de certeza a marcar só um golo por jogo que conseguiremos ir a algum lado.

 

Quanto ao jogo de hoje, valeu pelo mais de um milhão de Euros que a federação recebeu de cachet, mas não passou de um enorme tédio, do prometido e desejado duelo pela conquista da bola de ouro que tanto se tentou vender, nada se viu. Messi e Ronaldo jogaram o quanto baste, a Argentina foi melhor, Fernando Santos tirou conclusões importantes sobre o muito trabalho a fazer, quanto a futebol que se visse,... muito pouco mesmo.

 

De todos modos não é todos os dias que se ganha à Argentina, Portugal não ganhava há 42 anos e de certeza que Raphael Guerreiro, grande jogador cheio de raça e personalidade que em boa hora escolheu jogar pela selecção portuguesa em detrimento da francesa, não esquecerá nunca o dia em que se estreou a marcar pela selecção.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:42

Karl Stefanovic

 

Imagem de aqui 

 

A resposta é nada, Karl Stefanovic é australiano e em conjunto com Lisa Wilkinson apresenta um programa de televisão muito popular na Austrália, o Today. Farto de ver  a sua colega de trabalho avaliada e criticada não pela forma como trabalhava mas sim pela roupa que utilizava no programa, decidiu utilizar o mesmo fato azul de imitação da Burberry todos os dias durante um ano.

 

A verdade é que durante todo esse tempo ninguém fez o menor comentário ao facto, pelos vistos a menos que um homem se vista de maneira espalhafatosa, ninguém quer saber o que eles vestem.

 

Perguntaram a Karl se tudo isto é resultado de sermos uma sociedade sexista, "Não sei se será sexismo, é sexismo quando são principalmente outras mulheres as que julgam e criticam?"

 

"A mim avaliam-me pela forma como entrevisto ou pelo meu péssimo sentido do humor, principalmente pela forma como faço o meu trabalho, as mulheres são muitas vezes avaliadas por aquilo que vestem ou pela forma como levam o cabelo"

 

É a mais pura verdade, seja na Austrália, na Europa ou na América, apesar de tudo o que se tem evoluído, continuamos a ser uma sociedade machista e preconceituosa, principalmente com as mulheres, quando há uma mulher numa posição de relevo, principalmente num lugar com exposição pública, olhamos sempre primeiro para a aparência e só depois para a qualidade do seu trabalho.... já avançamos muito, mas como se prova por este exemplo, ainda há muito caminho para andar.

 

 

Jorge Soares

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publicado às 23:14

O que tem de mal os vistos Gold?

por Jorge Soares, em 16.11.14

Miguel Macedo.jpg

 

Imagem do Público

 

Aplauda-se a atitude de Miguel Macedo, ao contrário do que tantas vezes acontece neste país, por uma vez a culpa não morre solteira e há alguém que assume a sua responsabilidade política. A maioria dos detidos estavam à frente de organismos que estão na dependência directa do ministério da administração interna e independentemente da sua ligação ou não ao caso, e há noticias que o ligam a uma das empresas investigadas, a verdade é que existe uma clara responsabilidade política e louve-se a honestidade de a assumir.

 

Há pouco a minha meia laranja perguntava-me se eu sou a favor ou contra os vistos Gold, eu sou a favor, acho que é uma forma como outra qualquer de atrair investimento para o país, acho tão válido como isentar de impostos durante uma série de anos as empresas que criam um determinado número de empregos.

 

As últimas noticias falam de mais de mil milhões de Euros que entraram no país até agora, dinheiro que permitiu a sobrevivência de empresas de imobiliário, de empresas de construção civil e que permitiu a alguns bancos respirar...

 

É claro que no meio de tudo isto há coisas que falharam, pelos vistos alguns destes vistos não foram atribuídos da forma mais clara, tal como alguns dos negócios não terão sido feitos da melhor maneira...louve-se a capacidade do estado em detectar que assim foi e em levar ao banco dos réus quem prevaricou.

 

Mas isto que dizer que o programa é mau e que se deve acabar com ele? Quanto a mim não, eu não tenho nada contra quem cá quer investir, nem tenho nada contra quem ajuda a reanimar a economia, o estado tem que saber separar o trigo do joio, tem que saber avaliar a proveniência do dinheiro que é investido e tem que saber evitar a corrupção, mas isso não é só neste caso, é em todos os casos.

 

Percebo que alguma oposição se tente agarrar a tudo para criticar o governo, mas sinceramente, não consigo perceber como é que não se consegue ver que há coisas positivas e que este é um dos poucos programas que serviu mesmo para ajudar a economia.

 

E não, eu não gosto do Paulo Portas nem do CDS/PP.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:30

Conto - Schadenfreude

por Jorge Soares, em 15.11.14

pernas.jpg

 

 

– Óptimo, óptimo …  

 

As palavras enrolam-se-lhe, pastosas, sob o efeito do antidepressivo que tomou empurrado por um gole de vodka com sumo de laranja.

 

– Óptimo! – ainda repete.

Maria Teresa tinha acabado de dizer-lhe, e ele tem necessidade de expfressar contentamento mesmo sabendo que mente, mesmo perante ela que sabe. Ainda assim, afirma, a compor melhor o quadro:

 

– Estou tão contente, tão feliz por eles.

E despede-se.

 

Frederico Esteves a baloiçar o corpo magro de um lado ao outro da sala imensa que é o estúdio onde vive. O meu tugúrio, como diz, por graça.

 

Maria Teresa tinha sido directa. Nem boa tarde, nem olá xuxu como ela gosta de tratá-lo. Atirou certeira: é apenas para te dizer que acabei de casá-los. Assim, sem mais delongas, e ele naquele: óptimo, óptimo, tão amaricado que, mesmo pela voz, mesmo ao telefone, se juraria dos seus gostos em matéria de género. E no entanto, ele diz de si mesmo num maneirismo repleto de trejeitos: eu não me assumo bicha, que querem... E jura que gosta é de mulheres. E a dizer assim, ri como só ele sabe, a cabeça ligeiramente descaída para trás sobre o ombro esquerdo, e a mão do mesmo lado a tapar-lhe a boca que propositadamente escancara em demasia.

 

Com que então, José Pedro tinha mesmo casado.

 

Frederico Esteves a remoer no que acaba de saber, senta-se no sofá, as pernas esticadas em cima da caixa que um dia encontrou num contentor de lixo. Trouxe-a para casa numa noite de copos. Recuperou-a ele mesmo. Nela guarda as bebidas além do stock da dispensa. Hoje, faltou suco de laranja, mas é raro, e Frederico Esteves despeja no copo o que resta na garrafa.

 

– Pois que sejam felizes – diz assim em voz que outros ouviriam se ali estivessem, e simula um brinde erguendo o copo no braço esticado para o ar da sala.

 

Que aquele consórcio lhe seja fonte de penas sem medida, pensa Frederico Esteves, como praga que rogasse, mas afasta de si esse sentimento, e emborca o copo de um só gole, e volta a enchê-lo com Vodka ardente.

 

 ***

 

Maria Teresa fez o que ele tinha pedido: quando os casares, por favor, avisa-me. E ela telefonou-lhe.

 

Tinha sido numa outra noite, e tinham jantado. Frederico Esteves chorara-lhe as mágoas daquela paixão, e ela tinha-o aconselhado. Que não dramatizasse, dissera-lhe a notária do alto de uns sapatos muito altos e muito encarnados. Era o seu aniversário e, não estando reduzida à amizade de Frederico Esteves, não lhe tinha apetecido senão ele para comemorar. Gostava daquele seu modo de ser abichanado. Dava-lhe gozo percebe-lo sofrendo pelo lado errado. E com ela Frederico Esteves sofria todo o seu sofrimento sem ensaios nem segredos, que Maria Teresa tinha aquele modo especial de o fazer ficar cada vez mais sofrido, cada vez mais um homem sem rumo e sem sentido, pequenino, perdido de si mesmo, angustiado, e ela deleitava-se a ouvi-lo, e consolava-o exacerbando-lhe os desgostos.

 

Tinham-lhe dito que era sadismo, mas ela achava que era mais a raiva de não ter o pénis dele, de não poder usá-lo. E detestava-o. Que ele sofresse fazia-a sentir-se num quase orgasmo.

 

Fora assim na noite dos seus quarenta e cinco anos. Frederico Esteves sofrendo pelo amor imenso que José Pedro nutria por aquela criatura esquelética e inculta, assim dizia ele da que seria muito em breve a esposa do seu idolatrado. Maria Teresa apressara-se a dizer-lhe: vai casar, está confirmado. E ele chorara de baba e de ranho.

 

Maria Teresa apressara-se a contar-lhe, como se apressou, ainda há nada, a dizer-lhe que os tinha casado.

 

****

 

– Nunca perceberei tanto gastar de tinta, tanta discussão a interpretar o que só poderia ter sido de um modo.

 

É Frederico Esteves remoendo o artigo que acaba de ler numa página do jornal que tem desdobrado sobre a mesa.

 

Está sentado na esplanada do cafezinho onde, por um costume de anos, passa as manhãs de domingo. Uma esplanada arrumadinha que se debruça, lá de cima, sobre o rio. Frederico Esteves gosta de gracejar dizendo que fica ali na hora em que os amigos, os de infância e muitos dos que ainda lhe restam, ouvem missa em alguma igreja. E acrescenta, impertinente: eu faço a minha consagração com um café bem quente e torradas que lambuzo em doce de cereja. Mas não diz que esse é o seu local de leitura dos jornais semanais, que ele não lê outros, e quase só lê a secção literária. No resto, passa os olhos nos títulos, ou saltita-os pelas linhas de uma notícia ou outra.

 

– Mais um a insistir na versão do Bentinho traído – tartamudeia Frederico Esteves olhando o rio que o sol pintalga de reflexos inquietos.

 

Os articulistas e os estudiosos da obra de Machado, preferem que a culpa tenha sido de Capitolina. Preferem isso, a darem um sentido novo à trama urdida pelo matreirice de mestre Assis.

 

Frederico Esteves sorri-se a imaginar como poderia ter sido com Bentinho e Escobar, e vem-lhe à memória a notícia que Maria Teresa lhe deu nem há dois dias. E nisto vai virando as páginas dos jornais, a ler apenas as mais gordas.

 

E surgem-lhe letras diferentes. Cegam-no, aquelas letras enormes, muito negras. Saltam da folha a dizerem-lhe: acidente mata jornalista e sua jovem esposa. E os olhos de Frederico Esteves cegam-se de lágrimas que eles já se desviaram para a linha debaixo onde as letras gritam acima do ensurdecer que é o silêncio da esplanada: José Pedro Reis e sua esposa mortos num brutal acidente.

 

Frederico Esteves não lê os detalhes ou as pequeninas lhe diriam que o casal ia em viagem de núpcias.

 

Morto seu amantíssimo José Pedro, e no entanto, não é um soluço, e nem um  choro o que lhe está acontecendo. É sim um riso, uma gargalhada sem pejo e sem remorso. Um rir genuíno que condiz com um imenso bem estar, enquanto as lágrimas lhe correm cara abaixo.

 

Morreram os dois.

 

Não lhe resta a quem tenha que dizer, insincero e cínico: que sejam felizes, e aquele ardor no peito, e aquele despeito, e aquele horror de não ter sido com ele.

 

Gargalhadas sonoras tremeluzem-lhe o peito e a garganta, saem-lhe pela boca, e o senhor da mesa ao fundo volta-se perturbado e curioso do rapaz tão despudoradamente hilariante.

– Boas notícias?! – atira-lhe o homenzinho a tentar apaziguar tanta euforia.

 

Frederico Esteves pede desculpas embrulhadas em gestos mudos, e decide ir embora. Afasta a cadeira evitando o ruído que seria o metal a rojar na tijoleira da esplanada: quadrados verdes e brancos, nota ele a arrumar os pertences que tem espalhados pela mesa. Ri ainda, mas apenas no silêncio prudente do modo como coloca os olhos e a boca, e no modo como se desloca, que parece ele que nem sente os pés fazendo pressão para que ande, primeiro na esplanada que atravessa de uma ponta à outra, e alguns olham, de dentro da sua pasmaceira de domingo, aquele homem tão contente: terá tido uma boa notícia, parece que pensam. 


Frederico Esteves a tentar desfazer o desarranjo que possa ter causado na quietude que é suposta numa esplanada debruçada sobre o rio numa manhã de domingo. Atravessa o salão diminuto que é o cafezinho, e sai para a rua, os pés sempre naquele desatino de o fazerem ir voando, e o peito num indecoroso sentir-se com o coração leve.

 

Frederico Esteves num bem-estar que não podia ter previsto ao ler a notícia da morte de José Pedro. E aceita aquele sentimento como dádiva de algum céu que ele nem sequer venera. Nunca mais ter que os ver. Nunca mais ter que os cumprimentar. Não ter que repetir o ardor imenso do ciúme, ou a dor incisiva da inveja que o sufocava de cada vez que os via, de cada vez que os visse: José Pedro e a esposa no restaurante, no cinema, em casa dos amigos que ambos frequentariam.

 

 

E liga para Maria Teresa.

Palavras de desgosto, é o que dizem um ao outro, e que Maria Teresa lhe encomende uma coroa linda, pede Frederico Esteves. Que está destroçado, ia dizer-lhe, mas contem-se, e ela jura que serão as flores mais bonitas no cemitério, e que não desespere, que se precisar dela, a chame em qualquer momento.

 

Maria de Fátima

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:38

Os vistos suspeitos

por Jorge Soares, em 13.11.14

vistosgold.jpg

 

Imagem de aqui

 

Foram uma das bandeiras de sucesso de Paulo Portas ainda antes da sua fase irrevogável, em época de crise foram a bóia de salvação para muitas imobiliárias,  fizeram disparar os preços dos apartamentos de luxo e com a entrada de dinheiro fresco, permitiram respirar melhor a alguns dos bancos. 

 

Os vistos gold não são evidentemente um invento português, há muitos outros países que vendem a autorização de residência em troca de dinheiro ou investimento, para Portugal foi sem dúvida um caso de sucesso, venderam-se muitas casas de luxo, criaram-se alguns empregos e os bancos respiraram melhor com todo o movimento de dinheiro que se gerou.

 

Infelizmente não há bela sem senão e é certo e sabido que onde há dinheiro há sempre interesses obscuros e é muitas vezes terreno fértil para a corrupção e a troca de favores. 

 

Hoje o dia acordou com a noticia que da detenção do chefe do SEF, Manuel Jarmela Palos, que segundo ouvi era o alto funcionário público há mais tempo no lugar, com ele terão caído também 10 outros altos cargos do ministério da justiça e de outros ministérios, entre eles o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), António Figueiredo.

 

Sou dos que acha que em comparação com outros países, Portugal nem será dos mais corruptos, mas se é verdade que a corrupção não é generalizada, está visto que está instalado ao mais alto nível.. podendo inclusivamente a investigação chegar até um dos ministros do actual governo.

 

Espero que a ministra da justiça tenha razão e não fique nada nem ninguém por investigar, que não haja mesmo impunidades.

 

Os vistos gold representaram até agora um ingresso de mais de 1400 milhões de Euros no país, dinheiro de que estamos bem necessitados, mas não pode valer tudo.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:59

Juncker e a mulher de César

por Jorge Soares, em 12.11.14

Juncker.jpg

 

Imagem do Público

 

"Como podemos acreditar em alguém que liderou o Luxemburgo na época em que este serviu de paraíso fiscal para mais de 300 empresas?"

 

Terá sido mais ou menos esta a pergunta que alguém fez a Jean-Claude Juncker quando este hoje se apresentou quase como o paradigma da justiça europeia contra a fraude fiscal.

 

Depois de uma semana em silêncio, o agora presidente da união europeia decidiu que o melhor mesmo era a fuga para a frente e veio a publico apresentar uma campanha europeia contra a evasão fiscal e os regimes especiais que permitem às empresas pagar menos impostos.

 

Do pouco que ouvi concordo com o senhor numa coisa, este tipo de situações só acontece porque não há na Europa uma verdadeira harmonização fiscal, enquanto não houver uma convergência real a este nível, as empresas irão sempre fugir para os países onde a situação lhes seja mais favorável, afinal o objectivo de qualquer empresa é o lucro e a menos impostos, mais lucro.

 

Mas isto não implica que este mesmo Juncker que agora se apresenta como o lutador contra a fraude, não tenha sido o mesmo que durante anos se aproveitou dessa mesma fraude para ter condições excepcionais e muito dinheiro para governar.

 

Ele pode dizer o que queira, mas não me parece que ele não soubesse de onde vinha o dinheiro que criava as condições para que o Luxemburgo tivesse um enorme crescimento económico. Há quem diga que o que se fazia no Luxemburgo não era crime, era só uso e  abuso de métodos legais, mas a verdade é que com eles as empresas lucraram milhões, milhões esses que deixaram de entrar nos países de origem e que de certeza os prejudicaram na mesma forma em que beneficiavam  o Luxemburgo.

 

A união Europeia abriu um processo de investigação contra o Luxemburgo, processo que dificilmente dará em algo, mas a verdade é que Juncker fica muito mal na fotografia, é que um ex primeiro ministro e agora presidente da união europeia, não só deve ser sério, deve também parecer... e convenhamos que visto desde aqui, não parece lá muito.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 23:33

lavalla.jpeg

Imagem retirada da internet 

 

Não, as pessoas lá ao fundo em cima da rede não são espectadores do jogo de golfe, a fotografia foi tirada algures em Melilla, uma das cidades espanholas no norte de África. A rede na que estão sentadas aquelas pessoas é "la Valla", uma cerca de arame protegida com arame farpado  e vigiada dia e noite pela guardia civil espanhola do lado Europeu e pela policia marroquina do lado Africano.

 

Aquela rede está ali para evitar que as milhares de pessoas que provenientes da África sub-saariana se vão acumulando nas cidades marroquinas à espera de uma oportunidade para de alguma forma conseguirem saltar para o outro lado e conseguirem ter sonhos.

 

De há uns tempos para cá a forma de tentar passar a rede consiste em formar grupos  de dezenas e até centenas de pessoa e assaltar a cerca desbordando os policias marroquinos pelo número. Apesar destes e do arame farpado há quem consiga passar, mas há quem como no caso da fotografia, não o consiga fazer antes da chegada da policia espanhola.. e ficam ali, sem querer voltar para trás, mas sem poder seguir em frente sem cair nas mãos da guardia civil que os espera do lado de cá.

 

Há quem tenha passado quase um dia em cima de um daqueles postes, até que vencido pelo cansaço se deixou cair...  se tiver sorte e cair para o lado espanhol, será levado para um dos centros de acolhimento e com alguma sorte, pode até obter o estatuto de refugiado, a sorte de quem cai para o lado marroquino não é fácil de adivinhar, há quem esteja ali no dia a seguir para tentar de novo.. e há quem vá parar a milhares de kms algures numa fronteira a sul.

 

Mas o que mais me chamou a atenção na fotografia foi a forma desinteressada como os golfistas, aqueles que de certeza nunca tiveram que lutar muito para poder ter uma vida, continuam a jogar apesar do drama que se passa ali a umas poucas dezenas de metros.

 

De resto, é esta mesma indiferença a que se vive em toda a Europa, apesar das dezenas de vezes em que isto já aconteceu, quantas vezes foi noticia em Portugal?

 

Há uns tempos morreram centenas de pessoas num naufrágio de um barco carregado de imigrantes em Lampedusa, uma ilha italiana, entretanto a Itália para evitar outras tragédias como esta, colocou em marcha uma operação em que resgata  e auxilia estes emigrantes dos frágeis barcos nos que se aventuram na travessia do mediterrâneo. Para espanto de muita gente, o governo inglês acusou o italiano de estar a desperdiçar o dinheiro europeu e a incentivar a vinda de imigrantes... palavras para quê?

 

Jorge Soares

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publicado às 23:00

O que é a Legionella?

por Jorge Soares, em 09.11.14

legionela.jpgA imagem acima chegou-me via Facebook, estava habituado a ouvir falar desta bactéria durante as férias de verão em Espanha, ano sim ano também lia noticias sobre mortes associadas à doença. Por norma os focos estavam ligados a aparelhos de ar acondicionado sem manutenção em empresas ou hotéis, este ano não fugiu à regra e lembro-me perfeitamente de estar a ler o jornal no bar do parque de campismo, e achar estranha a diferença que se dava ao ébola, tinha acabado de morrer em Madrid a primeira pessoa fora de África e era noticia nas primeiras páginas de todos os jornais, em comparação com o último caso de legionella algures perto de Barcelona, onde já tinham morrido três pessoas e que não tinha direito a mais que meia dúzia de linhas.

 

Sempre estranhei que uma doença tão presente em Espanha nunca fosse referida em Portugal, este fim de semana ficamos a saber da pior maneira que afinal por cá também costumam haver umas centenas de casos por ano, felizmente nunca tinha acontecido como esta vez.

 

Vamos no terceiro dia desde que apareceram os primeiros casos e não deixa de ser preocupante, além do continuo aumento das pessoas infectadas, que passado todo este tempo não existam sequer pistas sobre a origem da contaminação de tantas pessoas.

 

Não vou repetir aqui algumas das coisas que já ouvi e que não fazem sentido nenhum, vou sim deixar algumas perguntas e respostas que encontrei no site do Público.

 

O que é legionella?

 

É uma bactéria que vive em ambientes aquáticos naturais, como a superfície de lagos, rios, águas termais, tanques. Entre os locais de risco estão também os sistemas artificiais de abastecimento e rede de distribuição de água de cidades, torres de refrigeração, instalações como duches, sistemas de ar condicionado, humidificadores ou fontes. A bactéria coloniza equipamentos de refrigeração e outros que contenham água tépida (temperatura de água entre os 20ºC e os 45ºC, sendo o crescimento mais favorável entre os 35ºC e 45ºC) onde se multiplica.

 

Como se transmite?

 

Não se transmite de pessoa a pessoa, nem pela ingestão de água contaminada. A infecção transmite-se por via aérea (respiratória), através da inalação de gotículas de água (aerossóis) contaminadas com bactérias. Não se transmite de pessoa a pessoa, nem pela ingestão de água contaminada.

 

A bactéria coloniza equipamentos de refrigeração e outros que contenham água tépida (temperatura de água entre os 20ºC e os 45ºC, sendo o crescimento mais favorável entre os 35ºC e 45ºC) onde se multiplica. Pode ser inalada em gotículas e chegar aos pulmões dando início à infecção.

 

Posso beber água?

 

As autoridades de saúde sublinham que as pessoas não devem ter receio de beber ou cozinhar com a água da torneira. “Esta infecção só se transmite de uma forma especialmente bizarra, só respirando a água pelas gotículas, pelos aerossóis”, sublinha o director-geral de saúde, que explica ainda que vapor de água não é a mesma coisa que aerossóis (que implica a existência de pressão).

 

Quem corre mais risco?

 

A doença atinge especialmente os fumadores. Há outros factores de risco como a idade (afecta preferencialmente pessoas com mais de 50 anos de idade) ou a existência de doenças respiratórias. Afecta duas a três vezes mais homens do que mulheres. São igualmente factores de risco doenças crónicas debilitantes (alcoolismo, diabetes, cancro, insuficiência renal) ou ainda doenças com compromisso da imunidade ou que imponham medicação com corticóides ou quimioterapia.

 

Quais são os sintomas da doença dos legionários?

Os mesmos de uma pneumonia: tosse, febre e dificuldades respiratórias. A doença pode ser confirmada através de testes laboratoriais que identificam a presença do microorganismo. Em regra, cinco ou seis dias depois de um indivíduo inalar bactérias (presentes  nas gotículas de água) poderão surgir as primeiras manifestações clínicas. É o chamado “período de incubação” que, no entanto, pode variar entre dois e dez dias. Em caso de dúvida deve contactar a Linha Saúde 24 (808 242424)

 

Jorge Soares

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publicado às 22:25

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