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Imagem do Sol

 

J. tem 15 anos e vive há 16 meses na ala pedopsiquiátrica do Hospital Dona Estefânia. A doença que a levou a ser internada nesta unidade já foi estabilizada e os médicos deram-lhe alta clínica há mais de um ano.

 

Há noticias que são difíceis de digerir, esta é muito difícil, até porque há o que está escrito preto no branco e o que está escrito nas entrelinhas.

 

O que está escrito preto no Branco é que uma jovem de 15 anos está há mais de um ano encerrada numa enfermaria de um hospital, onde partilha os seus dias com  "doentes agudos com perturbações mentais", isto porque a CPCJ considera que a sua família, na noticia falam da mãe, não está em condições de a acolher em segurança e não haverá vagas para ela em nenhuma das mais de cem instituições que há neste país.

 

Para quem não sabe em Portugal há mais, muito mais de cem instituições de acolhimento, e por incrível que pareça não há em nenhuma uma vaga para esta jovem que está assim condenada a viver os seus dias entre médicos, enfermeiros e pessoas doentes.

 

Não sai, raramente tem visitas, não vai à escola e os únicos jovens da sua idade com quem se dá são os tais  "doentes agudos com perturbações mentais"... se eu não mandar os meus filhos para a escola de certeza que me cai em cima a CPCJ e a segurança social de Setúbal e haverá até quem me ameace com os institucionalizar, mas pelos vistos isso não se aplica aos jovens que estão à guarda do estado.

 

O que não está escrito preto no branco e se percebe nas entrelinhas é que o verdadeiro problema não será realmente a falta de vagas nas instituições, o problema será que não há vagas para ela devido aos seus antecedentes de problemas psiquiátricos, se fosse uma jovem normal e sem problemas, de certeza que haveria vagas.... que nesse caso não seriam necessárias, pois não fossem os seus problemas estaria com a família... fantástico não é? 

 

É assim que o estado e a segurança social tratam dos jovens que tem ao seu cargo, não é por isso de estranhar que existam mais de 8000 jovens e crianças institucionalizadas, ora se demoram mais de um ano em arranjar solução para uma jovem que está a perder a sua vida encerrada num hospital...

 

Há mais alguém que  pense que tudo isto não passa de uma forma de maus tratos do estado para alguém que está à sua guarda? Qual é a CPCJ que protege as crianças dos maus tratos do estado?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:41

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Imagem do Público

 

Vivi num país em que mesmo de dia era difícil sair à rua sem medo, num país em que ao fim de 10 anos, mesmo não saindo de casa depois das oito da noite, eu era a única pessoa que eu conhecia que nunca tinha sido assaltado. 

 

Era outra vida, outro mundo, vim para Portugal e demorei anos a conseguir andar na rua ou estar sentado num sitio qualquer, sem saber e ver a todo momento tudo  o que estava a acontecer à minha volta.. e as pessoas não sabem o que isso significa e a diferença que isso faz para o nosso bem estar.

 

Por isso nego-me a aceitar que no meu país, no país que escolhi para viver e criar os meus filhos, aconteçam coisas como as que aconteceram a Sara Vasconcelos.

 

Segundo esta noticia, Sara foi barbaramente agredida por um energúmeno qualquer que guia um táxi no porto, pelo simples facto de que se despediu de uma amiga com um beijo na boca.

 

Há coisas que não tem desculpa, imagino que haverá outra versão da história para além do que a Sara conta, mas seja qual for essa versão, não pode haver desculpa para que alguém agrida desta forma cobarde, assim como não pode haver desculpa para quem assistiu a tudo e não fez nada nem denunciou.

 

Em pleno século XXI, num país que se diz europeu e desenvolvido não podem acontecer estas coisas, as pessoas não podem ser agredidas barbaramente simplesmente porque tem preferências sexuais diferentes, a liberdade sexual é um direito de cada um e todos devemos poder expressar carinho por alguém sem ter medo.

 

Eu quero que no meu país as pessoas possam sair à rua sem medo, até porque hoje agrediram a Sara porque é lésbica, amanhã o mesmo animal, que imagino continua a conduzir o táxi como se nada se tivesse passado, vai agredir alguém porque tem cor da pele diferente, ou porque é de outro clube, ou de outra religião, ou ...

 

Jorge Soares

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publicado às 22:37

Conto - Maxaqunina

por Jorge Soares, em 13.12.14

 

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Imagem de aqui

 

Bem na palma da cidade de Maputo, agarra-se um subúrbio, uma selva cercada a cal e cimento; selva onde o cifrão traz crinas e jubas, e goza de um eterno reinado. Maxaquene, como quem diz - familiares, ergue-se na assombração da vida humana; entre madeira e zinco, ecoa o rugir de um clamor desnutrido pela desigualdade socializada da cidade.

 

A vida corre asfaltada de raiva e tinha, e vai latindo de lamentações como um canino ao anoitecer da convivência social; estendida à rápida metamorfose e ladra o ser suburbano aliás, sub-humano. “Elas” são sempre o sacrifício da família, o garante dos demais membros verem o amanhã; ver a mesa pelo menos uma vez ao dia. Ter filhas, ser chulo, é algo indiferente. Elas exibem-se no tropel da vida e alimentam a cidade de gemidos, gozos e delírios outrora ocultos à gente da mesma idade. Era, é, e não se sabe até quando será assim a vida, nas maxaqueninas. Essas atletas a mercê da fome, num jogo em que quem ganha o presente perde o futuro e muito mais. Mas o que fazer quando a única saída é só para boca do tubarão?

 

As bonitas vivem pela beleza, as feias procuram outro argumento para encarar a vida, não tendo outro, estas presas a fome e nada. A Maxaquenina eleita aqui, como protagonista, era reunida de uma pigmentação preconceituosa do ser (mulata), quanto mais for clara a pele, maior é o escuro do futuro. É essa a regra e a alma do subúrbio, regra não-negra, desalmada na vastidão não-branca.

 

A Maxaquenina julgava-se na sentença máxima de pertencer a cor; uma rainha (dês) coroada da cor doada violentamente. Só compatibilizava-se pelas mesmas epidermes místicas, as igualitárias oriundas de um passado comum, de mercadores árabes a colónias europeias; que a convivência suburbana esbarra ao preço do pão. Para ela, tudo valia a pena; era a cor o seu preferencial e companheirismo ideal. Vinha sempre uma alma nua, ancorada em mares mistos e místicos; independentemente da faina, labutava neste desconceituo ofício da vida. É triste quando o que achamos que nos é igual de outro, o outro não valoriza. A convivência suburbana é uma aventura sem viagem alguma; um tempo sem compromisso com a hora.

 

A Maxaqunina era, talvez pelo esforço via-se quase, linda; trazia um fogo guardado, que o mesmo afugentava os negrinhos e aquecia os homens de cor; em vivências mal concebidas. Pois, a maldade sentir-se-á triste pela tal comparação; ela passava a vida nas piores das formas que uma moça do seu porte e cor poderia passar. Engraçado, dava tudo para manter aquela aparecia barata, aquela aparência aparentada dela mesma. A preocupação era a aparência, não a essência. Uma vez, no dia em que, não se sabendo por que razão, conseguiu somas consideráveis de cifrão. Pegou e gastou, em o quê? Roupa e cabelo. Dizia a mãe:

- Você nem cama têm, mal come; porque tchunabeibes e tizagens?, coisas caras... minha filha, tenha juízo. Juízo era realmente algo que nem a binóculos a filha contemplaria. A maxaquenina pensava rápido e curto; um pensar típico e suburbano. Aliás, um pensar que qualquer um pode, desde que pense em pensar. Pensar para logo vencer! A Escola é pensar para esperar; esperar é paciência, no subúrbio paciência traz derrota, e escola serve para ter boneca; sonho de toda menina; ela, não querendo ser excepção até na quinta classe foi suficiente para concretizar o sonho, suficiente para deixar de sonhar e ter o seu boneco; um bebé malnutrido, aliás sem nutrição; mas feliz para ele, pois seus companheiros foram anulados enquanto feto, outros jogados vivos na sarjeta. - Que sobreviva assim que estás, quem sabe no futuro... os outros nem presente tiveram. Dizia a Maxaquenina, quando o bebé fazia o que bem sabia fazer: chorar, chorar e chorar.  

 

O tempo dá azo aos seus ensinamentos tardiamente. Quanto ao exemplo desses exercícios fazia-lhe frente, virou frango para os mesmos negrinhos: assado, cozido, por vezes cru. Hoje, os sem cor, os sem alma não a erotizam, ninguém por nada, mergulha neste (mar) morto que um dia foi praia quente e os coloridos navegaram-na descamisados; uma praia virgem e exploraram-na todo atractivo erótico. Hoje paisagem, somente onde o tempo faz delas histórias de uma viagem estática. Uma viagem que traz ao mundo da pequena selva (Maxaquene) dentro da já suburbana cidade de Maputo, mais sentido ao ciclo vicioso; mais índice a obscenidade.  

 

Japone Arijuane - Moçambique

 

Retirado de Literatas

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publicado às 21:29

Padres de calendário

por Jorge Soares, em 11.12.14

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Imagem de aqui

 

Calendários com padres não são novidade, há uns tempos o Vaticano até patrocinou um em que se mostravam uns senhores de carinha laroca, isso sim, com a batina vestida e com a bíblia bem à vista. Esta semana foi noticia um calendário da igreja ortodoxa romena em que ao contrário do de Roma, não se vêem as caras, em contrapartida e a julgar pelas fotografias que me tem estado a passar pelo facebook, vê-se quase tudo o resto.

 

Pelos vistos na igreja ortodoxa os padres são pouco ortodoxos, não faço ideia se o calendário do Vaticano terá tido muito ou pouco sucesso, mas a julgar pelos comentários que tenho lido nas redes sociais, não há duvida que este vai vender e até já há por aí muita gente que de um momento para o outro está completamente convertida à fé, não sei é se é em deus ou ... nos padres.

 

O calendário que já teve versões anteriores em 2013 e 2014, tem em 2015 o objectivo de lutar contra a homofobia na igreja ortodoxa e é um tributo à tolerância dentro da igreja. As diversas fotografias pretendem representar os pecados antigos esquecidos por uma igreja que se empenha em demonizar lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT).

 

Quem estiver interessado, eles tem um site, aqui.. e tem um vídeo promocional, este:

 

 

E pensar que houve gente que ficou escandalizada com o calendário dos bombeiros de Setúbal...

 

Jorge Soares

 

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publicado às 21:51

Então e o superior interesse das crianças?

por Jorge Soares, em 10.12.14

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Imagem do Sol

 

Acho que já o disse antes em algum post, não gosto da expressão "Superior interesse da criança", não gosto porque na maior parte dos casos ela é usada na conveniência dos adultos e não na verdadeira defesa das crianças... mas hoje lembrei-me dela, talvez porque neste caso ninguém a utilizou.

 

O caso é simples de explicar, há dois ou três dias a GNR mandou parar um carro (não sei em que circunstâncias) e verificou que lá dentro iam uma mãe e 4 filhos, dois deles ainda bebes e os outros dois de 5 e oito anos. Após os devidos testes verificou-se que a senhora ia a conduzir com uma taxa de álcool de 2.27, a seguir parou outro carro onde ia o pai das crianças, após os testes verificou-se que o senhor ia a conduzir  com uma taxa de álcool de 1.4. Como o limite é 0.8, e estavam ambos embriagados, as crianças forma encaminhadas para um centro de acolhimento.

 

Li algures que a família já estaria sinalizada pela comissão de protecção de menores tendo sido aberto um processo de promoção e protecção que foi entregue em Novembro, no Tribunal de Família e Menores da Comarca de Aveiro. Entretanto, após mais este episódio, foi-lhes sugerido que deixassem as crianças institucionalizadas até que eles resolvessem os seus problemas e organizassem a sua vida, coisa que não aceitaram e portanto, após a cura da bebedeira, estas foram-lhes entregues.

 

Vamos supor que não tinha aparecido a GNR e a senhora se tinha estampado contra uma parede com as crianças dentro do carro.... de quem seria a responsabilidade?... E se amanhã a senhora voltar a beber e voltar a conduzir ébria com as crianças dentro do carro e se estampar?... não vamos todos bater em quem lhe devolveu as crianças?

 

Eu sei que são muitos ses, mas será que neste caso o superior interesse daquelas 4 crianças não seria mesmo estarem institucionalizadas?

 

Mas sabem o que mais me irrita, é ler alguns comentários às noticias e ver como há tanta gente que acha que as crianças estão bem mesmo é com os pais... mesmo que estes bebam uns copos de vez em quando... até porque há quem beba muito mais e se aguente em pé.

 

Voltando à frase do titulo do post, qual acham que será mesmo o superior interesse destas 4 crianças? será ficar com pais que ébrios conduzem carros com eles lá dentro ou estar  institucionalizados para sua protecção?

 

Jorge Soares

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publicado às 23:27

ManuelLuísGoucha.jpg

 

Imagem de aqui

 

"Entre outras observações, Manuel Luís Goucha não aceita que a juíza tenha dito que ele se “põe a jeito de piadas”, nomeadamente por ter “atitudes e roupas coloridas, próprias do universo feminino”."

 

Não tinha ouvido falar deste caso, aliás, não gosto lá muito do Goucha e tirando a sua participação num dos programas sobre candidatos a chefes de cozinha, não me lembro de ter visto outro dos programas em que ele aparece... mas isso não me impede de achar que tal como qualquer outra pessoa, ele tem direito à sua vida privada e merece o mesmo respeito que qualquer outra pessoa.

 

O caso remonta a 28 de Dezembro de 2009, no programa da RTP2 “5 para a meia-noite”, Goucha, que poucos dias antes tinha revelado a sua homossexualidade,  foi eleito por Filomena Cautela como a  “a apresentadora do ano”, concorria com  Cláudia Vieira e Carolina Patrocínio.

 

O apresentador não gostou e decidiu processar o programa, foi aí que apareceu a juíza citada acima que pelos vistos tem um modo muito peculiar de interpretar as leis e que baseada entre outras coisas no facto de  ele ter" atitudes e roupas coloridas, próprias do universo feminino", decidiu  a favor dos apresentadores do programa e contra Goucha.

 

Entendo a revolta de Manuel luís Goucha e entendo muito bem a sua decisão de apresentar queixa contra o estado português. Até posso conseguir entender o que se passou no 5 para a meia noite, que afinal era um programa em que se fazia humor, nem sempre bem conseguido, mas humor, mas não há forma de conseguir entender os comentários da juíza.

 

A forma como a juíza se expressa é claramente discriminatória e preconceituosa, que alguém se vista de forma mais ou menos vistosa ou que diga mais ou menos piadas, não pode ser motivo nem de preconceito nem de discriminação. Eu não percebo nada de leis, mas não estou a ver qual é a lei que permite que uma pessoa seja achincalhada devido à forma como se veste, se expressa ou aos seus gostos e preferências sexuais.

 

Depois de casos como este, ou como este de que falei aqui, ou de este outro de que falei aqui, ou este outro de que falei aqui, é caso para perguntar: O que se passa com os juízes deste país?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:41

Porque é que a solidariedade paga IVA?

por Jorge Soares, em 08.12.14

iva.jpg

 

Imagem de aqui

É certo e sabido, nos dias a seguir às campanhas do Banco Alimentar contra a fome, alguém desenterra este artigo, ou outro parecido, e durante dias ele anda a circular no Facebook e nas restantes redes sociais.

 

Há muito de verdade no que ali se diz, mas o certo é que a forma como funciona o banco alimentar português leva a que as cadeias de supermercados e o estado sejam efectivamente muito beneficiados com este tipo de campanhas... não sei se será fácil fazer o estudo, mas era interessante sabermos em quanto aumenta a facturação dos supermercados nos dias em que há campanhas do Banco Alimentar.

 

Durante a semana passada a RTP, através da emissora de rádio Antena 3 desenvolveu a campanha Toca a Todos em que foram angariados mais de 365 mil Euros a favor da Cáritas, que em principio utilizará este dinheiro na luta contra a pobreza infantil.  

 

Uma parte deste dinheiro veio de chamadas telefónicas de valor fixo, 60 cêntimos + IVA, no fim cada chamada custa a quem está a ser solidário 74 cêntimos, sendo que pelo menos 14 cêntimos vão directamente para o estado. 14 cêntimos que são ganhos pelo estado à custa da solidariedade do povo português.

 

A questão é, faz sentido que o estado cobre IVA sobre a solidariedade? Ainda por cima quando estamos a falar de uma campanha que no essencial vai servir para cobrir necessidades que deveriam ser cobertas pelo estado? É ao estado que cabe em primeiro lugar garantir que não exista pobreza nem infantil nem de nenhum outro tipo no país, não seria lógico que se não consegue fazer o seu papel, pelo menos não cobrasse impostos a quem o tenta fazer por si?

 

Supondo que um terço dos 365 mil Euros vieram destas chamadas, 120 mil Euros, o estado terá arrecadado perto de 30 mil Euros em IVA, um grão de areia no meio do deserto das contas públicas, mas que de certeza fariam muita diferença nas contas de alguma associação de apoio à infância.

 

Será que não havia forma de criar um tipo de chamadas para este tipo de campanhas que não fosse sujeita a IVA e/ou nas que o imposto fosse directamente para a campanha e não para o estado?

 

Jorge Soares

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publicado às 23:00

Conto - Na casa da vizinha

por Jorge Soares, em 06.12.14

sedução.jpg

 

Imagem de aqui 

 

Nós aparecemos como resgate, teríamos de ficar com um quarto da casa e um quarto da sala, teríamos de dividi-la ao meio, enquanto esperávamos um pedreiro para a reforma, porém alojamo-nos mesmo assim, apenas uma cortina separávamos. Eu era nocturno caseiro, meu companheiro nem por isso, vezes eram duas por semana que dormia no seu local de trabalho. A vizinha, como meu companheiro a chamava, era um furacão, sempre em erupção, cujo fogo queimávamos ambos adentro; cautelosa vigiava-me o rosto, com dotes de fisionomista, como quem controla uma fruta prestes a amadurecer. Vinha cheia dela como uma serpente, contemplava-me primeiro e desenhava no ar com a sua voz suave a palavra – olá; eu, firme retribuía-a com um aceno, por vezes de braço, sem encara-la frontalmente, gesto de como quem nada quer. Mas via-lhe nos olhos o veneno da sedução, pronto para atirar como legítima defesa. 

 

Um dia desses, ouvi batidas carinhosas a porta; ouvi na mesma voz que ouvia entre cortinas; não descortinando o real motivo, esbocei a básica questão: quem é? A mesma voz se fez firme.

 

- Eu

- Eu quem?! Como se pelo timbre da voz não reconhecesse a portadora.

- Eu vizinha… Chamou-se. Quando fui abrir, lá estava ela desprotegida exibindo pouco tecido na epiderme, antes mesmo que abrisse a matraca, - disse eu:

- Pois, não!

- Não… É que esquece-me as chaves da minha porta… posso entrar daqui?

 

- Pode! Fica a vontade. Tirou os chinelos sacudiu os pés, num saco que ali estava desempenhando função de tapete. Ao mergulhar seu tronco semi-nu na claridade a sala tornou-se mais iluminada; fingi não olhar, pois as mulheres interessam-se em homens que elas não vêem interesse deles nelas. Mas para chamar-me atenção, parou e assobio, um atrevimento pouco comum nas mulheres, - pensei eu! Quando a olhei acenou o rosto e cuspiu a mais bela frase de agradecimento que jamais ouvi em toda minha vida.

 

- Obrigada… Mantive-me na compostura machista, levantei a mão e nenhuma palavra. Ela manteve-se ali olhando-me de soslaio, eu que propositadamente estava quase de tronco nu; lancei a camiseta que vestia na cadeira ao lado; dando-lhe as costas em direcção ao quarto, senti que alguém me contempla, aliás, eu até que sabia mas fingia. Quando virei a surpreende atónita, fitava-me feito um provinciano que chega pela primeira vez na cidade grande; contemplava-me como se eu não estivesse ali.

 

- Algum problema? Continuo ali fixa e cabisbaixa, sem A nem B, muito menos C! Ganhou fôlego, como quem descansa de uma longa caminhada e disse:

 

- Você é a solução…

- Algum problema? Continuei, como quem não ouviu.

- Não! Alguém é a solução!

- Não entendi?!

 

- Não vais entender, não é para entender, nem eu entendo! Aproximou-se, bem perto olhou-me nos olhos, senti o fogo a queimar-me todo. Seus lábios prontificaram-se com tudo; quando trilharam em mim, o fogo virou uma onda no mar, calma e traiçoeira, quando molhou-me todo, já estava eu a navegar mares e mares, sem medo de nada, muito menos do fogo do mar. Eu disse para mim mesmo, - deixe que tome dianteira.

 

Mergulhei o rosto no decote, como se de um remo se tratasse, agarrei-lhe a cintura com as duas mãos. Colidimos na mesma primeira cadeira onde a minha camiseta estava pendurada. Ia eu fervendo, o furacão transformando-se em tsunami, quando a metade da sala enchia-se de esforços, as posições desfilando num cortejo de deuses. Um barulho fez sentir, quando nos demos do barulho, meu companheiro gemia, lá do lado do quarto. Olhei para o único buraco do quarto não vi, mas via-se a luz acesa reflectindo por cima da porta. 

 

Japone Arijuane - Moçambique

 

Retirado de Literatas

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publicado às 21:27

Discriminação.jpg

Imagem do Expresso

A semana começou com a noticia da morte de um adepto do Corunha, vitima da violência gratuita entre duas claques de futebol, de ideologias opostas mas unidas na utilização do futebol como desculpa para a violência gratuita,  que aparentemente combinaram um encontro em Madrid para se enfrentarem, não num jogo de futebol, mas sim numa luta em que valia tudo, até matar.

 

A meio da semana foi noticia a morte de Tugce Albayrak, uma jovem alemã que teve a coragem de sair em defesa de duas jovens Turcas que estavam a ser assediadas por um grupo de  energúmenos num restaurante de fast Food. Os homens saíram do restaurante e esperaram Tugce cá fora, onde a espancaram de tal forma que esta não sobreviveu.

 

Consta que os agressores já estão detidos, a noticia não diz nada sobre se as dezenas de pessoas que assistiram impávidas ao assédio às jovens turcas e à agressão a Tugce, mas se por mim fosse, estariam todas detidas também.

 

Ontem a noticia veio de Nova Iorque, nos estados Unidos, um tribunal decidiu não constituir arguidos os polícias que agrediram e sufocaram até à um jovem negro desarmado que vendia cigarros na entrada de uma loja, isto apesar de todo o incidente estar gravado num  vídeo que o mundo inteiro viu e onde qualquer pessoa normal pode ver que a morte se deveu a uso excessivo de força sem motivo.

 

Hoje, numa situação que para mim seria inacreditável num país que presumimos civilizado, ficamos a saber que em Marselha, França, as autoridades municipais vão obrigar os sem abrigos colar na roupa um triângulo amarelo como forma de identificação.

 

Para quem já não se lembra, durante a segunda guerra mundial os nazis obrigavam os judeus a utilizar uma estrela amarela como forma de identificação...  com o fim trágico que todos também abemos para quem utilizava tal marca.

 

Se reparamos bem, um triângulo é meia estrela... será que a seguir também os vão fechar em guetos?

 

Uma só semana, 4 países diferentes, em comum violência gratuita, racismo, discriminação, indiferença.... sou só eu que acho que algures a humanidade perdeu a perspectiva do que é viver em sociedade?

 

O que raio se está a passar com o mundo?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:52

tocaatodos.png

 

O “Toca a Todos” é um evento de solidariedade. De 3 a 6 de Dezembro de 2014, a Rádio e Televisão de Portugal acompanha uma emissão de 73 horas, uma missão que convoca Portugal a ajudar na luta contra a Pobreza Infantil.

 

Serão 4 dias, a partir do Terreiro do Paço em Lisboa para todo o país, numa emissão radiofónica que vai durar 73 horas.

 

Ao longo desse período, 3 apresentadores ( Ana Galvão, Diogo Beja e Joana Marques) farão a emissão fechados dentro de um estúdio rádio em vidro, onde poderão receber todos os convidados. Mas eles não podem de lá sair. O estúdio é a sua residência. O seu objetivo é angariar dinheiro para a causa. A causa da Luta contra a Pobreza Infantil.

 

Pelo estúdio passarão personalidades, figuras públicas, que se associam ao evento. O público é convidado a acompanhar in-loco. Dentro do estúdio visível no meio da Praça, vão acontecer showcases musicais e muito mais.

 

O Projeto “Toca a Todos” teve a sua ação inicial há 10 anos na Holanda, onde se tornou já o mais nobre e reconhecido projeto de solidariedade e foi entretanto replicado também em países como a Bélgica, Suíça, Suécia, Quénia ou Coreia. Atualmente países como a Eslovénia, Estonia, Hungria, Noruega, Alemanha e Áustria preparam-se para entrar na operação.

 

Em cada país, a sua causa, a sua missão específica.

 

Em Portugal, em associação com a Cáritas Portuguesa, a RTP escolheu para primeira causa, a Pobreza Infantil. É para esta causa que os donativos e contribuições dos portugueses vão convergir durante os primeiros dias de Dezembro. Contribuições individuais, mas contribuições de associações e empresas.

 

Fonte Site do evento

 

Podem ver o programa completo com todos os músicos e eventos que passarão pelo Terreiro do Paço aqui

 

Podem contribuir indo directamente ao terreiro do paço, aproveitam para ver um dos espectáculo, deitam uma olhadela ao estúdio de vidro da Antena 3 e deixam a vossa contribuição,  ligando para o número abaixo, ou por transferência bancária para as contas que também estão abaixo.

 

 

Jorge Soares

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publicado às 21:38

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