Ter
5 Ago
2014

Fechado para férias

 

Imagem gamada algures da internet

 

 

Pois é, também me calha, eu e o blog voltamos no inicio de Setembro... ou antes, se me apetecer.

 

Cá por casa férias são longe de computadores, telemóveis, televisão, são mesmo férias, caminhadas, passeios pela natureza, muita leitura  e descanso.

 

Por agora vou ali preparar as coisas, ver se cabe tudo no carro e se não me esqueço de nada, depois é partir, por aí, rumo a lugares verdes, frescos e com a água do mar com temperatura de jeito....

 

Volto em Setembro, com certeza com novidades sobre parques de campismo de jeito, sobre lugares bonitos para se passear e bons livros para se ler.

 

Fiquem bem.

 

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 22:18
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Seg
4 Ago
2014

Henricartoon

 

Imagem do HenriCartoon

 

Na sexta feira passada eu perguntava "Quanto tempo dura o BES?", ainda nem tive tempo de responder aos comentários do post, mas a resposta não demorou, tal como eu previa no fim do post, o BES já era!

 

Ontem era dia de encerramento da Feira de Santiago em Setúbal, e encerrou em grande com um concerto de Pedro Abrunhosa que terminou madrugada dentro, não ouvi a declaração de Carlos Costa nem os diversos comentários dos economistas, sei que há neste momento opiniões para todos os gostos, há quem aplauda a solução e quem ache que simplesmente se deveria ter deixado o banco falir.

 

Depois de tudo o que já ouvi e li, continuo na minha, deixar falir o segundo maior banco do país seria o mesmo que convidar a Troika a vir cá passar o natal, as consequências para o estado e para a economia seriam de tal ordem que o melhor era arranjar casa para os senhores da Troika se mudarem para cá por muito tempo.

 

Não sei se a solução encontrada será a melhor ou não, mas não tenho dúvidas que será de certeza muito melhor que deixar milhares e milhares de pessoas com contas e créditos penduradas num banco falido.

 

quem ache que se deveria deixar falir e usar a fortuna da família Espírito Santo para pagar, esquecem-se que essa fortuna estava na sua maior parte nos 20% que eles tinham no BES, 20% que há três meses equivaliam a quase 2 mil milhões de Euros e que agora valem 0. É claro que eles tem mais bens, mas a verdade é que esses outros bens valem migalhas em comparação com o dinheiro e os créditos que existem no BES.

 

Encontrada a solução, resta agora apurar responsabilidades, não só as responsabilidades criminais de quem com uma gestão e decisões fraudulentas, levou o banco a esta situação, mas também as responsabilidades de quem deveria supervisionar e evitar que isto chegasse a este ponto e que pelos vistos esteve a olhar para outro lado durante anos. 

 

Como é que com tudo o que está a aparecer agora, o BES conseguiu passar com boa nota nos testes a que foi submetido há bem pouco tempo?

 

Depois do que aconteceu com o BPN e agora com o BES, a questão que se coloca e que seria bom que alguém respondesse é: Para que serve o Banco de Portugal?

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:49
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Sab
2 Ago
2014
Voar
Gira o copo entre os dedos e o resto de líquido amarelo se agita em redemoinho. É o último gole do whisky roubado do pai. A garrafa atirada no tapete pinga o fim da bebida formando uma pequena poça, suficiente para encher a sala de um cheiro adocicado que faz arder o nariz. Mas Augusto nem repara mais. Tem a garganta aquecida e uma vontade constante de vomitar. E de morrer. O que vier primeiro está de bom tamanho para ele, parado no canto da ampla janela do oitavo andar, nu, a cabeça encostada no vidro há mais de três horas. Augusto olha o mais para baixo que pode e acompanha o movimento dos carros da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, da bifurcação para longe, e imagina que bonito seria se pudesse voar, dali, e pousar no topo da antena telefônica que fica atrás do posto de gasolina. Só para sentir o sol nas costas e o vento nos joelhos enquanto observa o trânsito de uma distância em que o silêncio abafa as buzinas e suas ideias feias. 
 
Augusto acha que tem ideias feias. Ele próprio, de fora, não é feio inteiro. As orelhas de abano se disfarçam muito bem entre os cabelos desalinhados e compridos. Os lábios grossos, rosados, e os grandes olhos castanhos compensam com sobra a perna ligeiramente mais curta do que a outra. Ele escorado numa parede, ninguém diz. Faz um tempo, aparecem na cabeça de Augusto uns pensamentos-apito, daqueles que soam de repente e depois estancam, como que produzidos por um sopro forte. Não são iguais, mas tem por constância o objetivo de dolorir. Se Augusto se demora em pensar, quer explodir o açougue do João com garrafa de álcool gel e fósforos longos; quer cortar os tornozelos do padre com a tesoura de podar; quer vazar os olhos da diarista com a agulha de costura da mãe, depois de cavoucar a mãe pelo umbigo com a faca de churrasco; quer ver pane no semáforo para os carros baterem de frente; quer martelar a testa do vizinho enquanto ele dorme. Quereres que não cessam. 
 
Desde ontem cresce uma vontade nova, finalmente um pensamento para si. Já entendeu que precisa escrever e vai usar a pele em lugar de papel. O que registrar ainda não decidiu. Uma carroça carregada de areia grossa e pedra brita cruza a rua e some na esquina. De onde está, vê com nitidez a cola preta abanar enquanto o cavalo caga verde no asfalto. Que bonito seria se pudesse voar e pousar entre as orelhas do animal, cogita Augusto, que bonito. O copo já vazio escorrega das mãos e se estilhaça no piso frio. Os cacos transparentes estão por toda parte. Augusto, descalço, não se move: paralisa. Quer dominar o desejo absurdo de sambar que o inunda, hoje eu vou tomar um porre não me socorre que eu tô feliz. Não consegue. Samba. Samba feito passista nascida e criada em barracão do Rio de Janeiro. Que bom seria se pudesse voar e desprezar os pés que agora ardem, ardem, ardem. Então cata um pedaço pontiagudo de vidro e risca, começando entre os mamilos em direção à barriga, “Que bom seria se pudesse voar”. O sangue escorre pelas pernas. Augusto se afasta da janela uns cinco passos. Convencido de quão bonito é ser livre, toma impulso, corre, atravessa a vidraça e voa.

 

Andréia Pires

Retirado de Samizdat

 


publicado por Jorge Soares às 21:16
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Sex
1 Ago
2014

Bes

 

 

Imagem do Henricartoon 

 

Há uns 15 dias o Banco de Portugal assegurava que não havia problema nenhum com o BES, o problema era só mesmo com o GES, uns dias depois já diziam que afinal poderia haver algum problema mas que o banco tinha dinheiro mais que suficiente para tapar o buraco, com a entrada dos novos gestores a mensagem passou a ser que se esse dinheiro não chegasse haveria gente com vontade de investir no banco para tapar o buraco.

 

No inicio desta semana o buraco chegou aos 3500 milhões, hoje já se fala da intervenção do estado e já há quem diga que os mais de seis mil milhões que restam do acordo com a Troika não vão ser suficientes, começo a ter medo do que virá a seguir... será que o BES dura até ao fim da semana que vem?

 

Comparado com o BES o BPN era muito pequeno e é difícil saber onde está o fundo do buraco financeiro que restou depois da nacionalização, não sou economista e tenho algumas dificuldades em imaginar quais seriam, para o país e para todos nós, as consequências da falência do segundo maior banco do país.

 

Há quem aposte que a nacionalização vá acontecer brevemente, há quem grite a todo pulmão que o estado não deve meter as mãos nas asneiras dos privados e que deverão ser estes a pagar os prejuízos. Eu acho que deixar o banco falir está fora de questão, para além de que teria sempre que ser o estado a cobrir os depósitos até cem mil euros, as consequências na economia seriam de tal forma graves que teríamos de certeza a troika de volta antes do natal.

 

Com tudo isto, já seja pela nacionalização ou pela falência, o BES já era, resta saber quanto tempo demorará a ser tomada a decisão e ditada a sentença.

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:33
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Qua
30 Jul
2014

Diga não à lei da Cópia privada

 

Primeiro foi o PS, depois foi este governo há pouco mais de um ano, das duas vezes a enorme discussão que se gerou à sua volta fez com que o projecto de lei fosse engavetado e quem o propôs saiu de cena de fininho. Agora voltou a aparecer basicamente a mesma coisa... como a coisa é a mesma e os argumentos até são os mesmos, deixo aqui o que escrevi da primeira vez em que se falo disto:

 

Basicamente do que se está a falar é que a partir de agora, todos nós independentemente  de consumirmos ou não artigos digitais (música, filmes, séries, etc), vamos passar a pagar direitos de autor. Cada vez que compramos um computador, uma pen, um disco externo ou interno para o computador, um telemóvel, um ipad, um cartão de memória para a máquina fotográfica, qualquer coisa que sirva para armazenar bytes, uma parte do que estamos a pagar, vai para os direitos de autor.

 

Se pensarmos bem, isto nem é nada de novo, afinal Portugal é aquele país em que qualquer contador de electricidade paga uma taxa de radiodifusão tenha ou não ligado a ele um rádio... imagino que a seguir, e como nas pessoas deixaram de andar nas  ex scuts, vão acabar com as portagens e passar a incluir um valor no preço de cada pneu que se venda, para que todos paguemos as auto-estradas... assim de repente é a mesma coisa.

 

É claro que eu não tenho nada contra a existência dos direitos de autor, a cultura só existe porque há pessoas com a capacidade criativa suficiente para converter ideias em obras de arte e essa capacidade deve ser recompensada, o que não me parece justo é que se tente resolver o problema criando uma lei cega em que todos pagamos independentemente de consumirmos ou não as obras taxadas.

 

Porque tem que pagar a empresa em que eu trabalho um valor para os direitos de autor se quando compra um servidor e/ou discos estes nunca serão utilizados para armazenar o que quer que seja sujeito a direitos  e sim a informação de gestão da empresa? porque tenho que pagar direitos de autor quando compro um cartão de memória para a minha máquina fotográfica se o autor das fotografias sou eu?, será que posso ir a algum lado buscar a minha parte dos direitos de autor?.. é claro que não, eu só tenho direito a pagar. 

 

Evidentemente o que vai acontecer é que vão subir os preços de tudo o que é material informático, o segundo efeito imediato, é que eu, que tal como tinha dito aqui até achava que fazer downloads piratas era crime, vou-me sentir legitimado para passar a sacar músicas e filmes da net como faz a maioria, afinal, eu até já paguei os direitos de autor..

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 17:45
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Seg
28 Jul
2014

http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/quem-faz-as-guerras-594899

Imagem de aqui

 

 

A guerra é um massacre de homens que não se conhecem em benefício de outros que se conhecem mas não se massacram."
Paul Valéry

 

A imagem acima, como muitas outras que mostram momentos de paz e amor entre israelitas e palestinianos andou o dia todo a circular pelo facebook e restantes redes sociais, por momentos parece que a guerra é só um assunto de políticos e militares, se pelos povos fosse não havia guerra....  é bonito sim senhor, mas estará sequer perto da realidade?

 

Em duas semanas chegou-se ao milhar de mortos, principalmente do lado palesteniano em que há todo um povo que para além de mais, não tem muito para onde fugir e que dificilmente poderá escapar à violência desatada.

 

A verdade é que os políticos, quem manda e faz a guerra, foram eleitos pelos mesmos povos que agora sofrem de um e outro lado as consequências do ódio e da raiva convertida em guerra sem quartel e sem tréguas.

 

Para muita gente o Hamas é só mais um grupo de terroristas, para uma grande parte dos palestinianos o Hamas é o depositário da última esperança de que alguma vez todo um povo possa voltar às suas casas e às suas terras de onde foram expulsos há três ou quatro gerações... há quem depois destes anos todos continue a guardar as chaves das suas casas há muito ocupadas ou destruidas pelos israelitas que agoram por lá vivem.

 

O governo de direita de Israel, liderado por Shimon Peres foi eleito democraticamente, nunca escondeu qual era a sua orientação com respeito aos territórios ocupados pelos palestinianos e esta politica terá sido mesmo um dos principais factores que o  levou ao poder.

 

Há evidentemente quem queira a paz de um e de outro lado, mas duvido que alguma dessas pessoas admita uma paz com base na cedência de aquilo que para eles é um direito que nem admite discussão, muito menos a cedência nem que seja num milímetro.

 

Quem faz a guerra são os políticos e os militares, por trás deles há todo um mar de interesses instalados, mas por trás desta guerra há sem dúvida dois povos que de forma directa ou indirecta, também a escolheram... por muito que agora o tentem disfarçar por trás de bonitas e românticas imagens de amor e amizade.

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 21:53
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Dom
27 Jul
2014

A estupidez não é deficiência

 

Imagem de As coisas do mundo 

 

É uma daquelas coisas que me deixa irritado, mesmo, tanto que andava à espera da oportunidade para falar aqui do assunto... foi hoje.

 

Foi por volta da hora do Almoço no Pingo Doce da Luísa Tody em Setúbal, feitas as compras e arrumadas na mala do carro, enquanto esperava que a minha meia laranja arrumasse o carrinho vazio, reparei como uma senhora após alguma indecisão e troca de ideias com quem ia ao lado, decide estacionar o carro no lugar reservado a deficientes que fica mesmo ao lado da entrada na loja.

 

Puxei do telemóvel e preparei-me para tirar uma fotografia para ilustrar o post, entre o pegar no telemóvel, desbloquear e encontrar o botão certo para disparar, já ela não estava ao lado do carro e até terminei por não tirar a fotografia. Entretanto a senhora e a sua acompanhante, que evidentemente não mostravam sinais de qualquer deficiência física e que até já tinham entrado na loja, foram avisadas por alguém do que eu estava a fazer.

 

Ela voltou para trás e o diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

 

- O senhor estava a tirar uma fotografia ao meu carro?

- Por acaso estava.

- Então espere aí que eu vou tirar o carro dali e já conversamos.

 

Reparem, havia montes de lugares vagos no parque e ela sabia isso e também sabia que não podia estacionar ali, resta saber se teria retirado o carro se eu tivesse dito que não tinha tirado a fotografia. Foi estacionar a cinco metros dali e voltou cheia de genica.

 

- O senhor estava a tirar fotografias ao meu carro, tem que as apagar, se elas aparecerem em algum lugar eu meto-lhe um processo.

- A senhora é deficiente?

- Não, não sou, mas o senhor não pode tirar fotografias ao meu carro.

- Se não é deficiente sabe que não pode estacionar ali, além de uma questão legal, é uma questão de civismo.

- Eu meto-lhe um processo!

- Minha senhora, chame a policia que a gente resolve já o assunto da denuncia.

- O senhor não tem nada de fazer isso!

- E a senhora sabe perfeitamente que não pode estacionar ali!

- Olhe, o seu problema é falta de sexo, vá dar uma volta que isso passa!

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- Pois, falta de sexo, arranje mulher que isso passa!

- No seu caso é falta de civismo mesmo, ou isso ou a senhora é deficiente mental e por isso estaciona ali.

 

Entretanto a senhora voltou para dentro da loja e eu continuei à espera da minha meia laranja.

 

Passado um minuto voltou, acompanhada do segurança da loja... achei aquilo tão surreal que passei a cancela do parque e parei, só para ouvir o que me ia dizer o segurança.

 

- Está aqui o segurança da loja, ele quer falar consigo.

- Então diga lá??!!

- O parque tem câmaras de vigilância e o senhor tirou fotografias

- Sim tirei, porque a senhora estacionou no lugar de deficientes e isso além de ilegal é uma enorme falta de civismo, o senhor quer o quê de mim?

- Eu nada, só vim porque a senhora me chamou 

 

Entretanto a senhora não se calava e continuava com a ladainha de que eu não podia tirar fotografias...  o vigilante ameaçou com chamar o gerente da loja e eu pedi que chamasse também a policia, como aquilo não nos ia levar a lado nenhum, meti-me no carro e vim-me embora, mas depois fiquei a pensar que devia ter esperado pelo gerente da loja, sempre ficava a saber qual era a posição do Pingo Doce sobre clientes que estacionam nos lugares reservados a deficientes mesmo quando há muitos lugares vagos no resto do parque de estacionamento.

 

Infelizmente em centros comerciais ou em qualquer outro parque de estacionamento, os lugares reservados a deficientes raramente estão livres, há muita gente que prefere estacionar ali que caminhar mais meia dúzia de metros, mesmo quando o parque é pequeno como acontece no Pingo Doce de Setúbal.

 

A senhora do caso que conto, para além de uma enorme falta de civismo tinha muita falta de educação e a julgar pela quantidade de vezes que ela repetiu a palavra sexo, das duas uma, ou se estava a oferecer, ou estava ela com muitíssima fome.

 

Evidentemente não podemos todos ser policias uns dos outros, mas há coisas que puxam pelo meu mau feitio,  tal como no caso dos cãezinhos  de que já aqui falei (ver aqui), se calhar se todos reagíssemos aos abusos viveríamos num mundo muito melhor e com mais civismo.

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 21:38
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Sab
26 Jul
2014
O anjo Purificador Paula Rego
A mulher esperou, encoberta, que Abílio saísse, antes de subir as escadas para o estúdio e tocar. Lucília veio abrir, convencida de que o modelo, que já não ia para novo, se esquecera de algo, mas não; era Judite, uma sua ex-empregada doméstica, que ultimamente usara como modelo, e que já não via há uns quatro meses.
– Entra, Judite – convidou, sem reparar no olhar duro da mulher. – Estava a ver que já não me vinhas visitar.
– Olá, Dona Lucília – respondeu Judite, fria. – O que cá me traz é do seu máximo interesse e agradecia que me ouvisse com atenção.
– Que se passa, Judite?, não me assustes! Senta-te.
Contornaram uma grande tela, num cavalete a meio da divisão, em que se podia ver Abílio, de kilt e olhar sério, meio pintado, reclinado num sofá. No sofá verdadeiro se sentou a pintora. Judite manteve-se de pé, em atitude decidida.
– O que se passa, Dona Lucília, é que a senhora tem ganho bom dinheiro à minha custa e eu continuo pobre como dantes – disparou a mulher, de olhar alterado. – A senhora usou-me para as suas pinturas, ganhou milhares de contos com elas, e eu não tenho sequer uma casa minha.
– Ó, Judite – estranhou a pintora – eu não te reconheço; o que se passa?
– Ainda bem que não me reconhece, que eu não sou a mesma. Acabou-se a boazinha que ficava horas e horas, feita parva, em posições ridículas, a fazer de urso, ou de galinha – que agora as pessoas até se riem – e a senhora na lua, a olhar para anteontem. E, no fim do mês o que é que eu via? – uns reles contos a mais. Eu já não tenho idade para continuar a trabalhar. Quero a minha reforma!
– Reforma, como, Judite? Não sou eu que dou as reformas. Sempre fiz os descontos a que tinhas direito. Se lá fores, lá devem estar na Segurança Social.
– Eles dizem que ainda me faltam doze anos para pedir a reforma. Ora, eu não aguento mais. Eu vou ser muito direta, Dona Lucília; ou a senhora me dá vinte mil contos por estes dias, ou o patrão vai ficar a saber que a senhora anda enrolada com o Abílio. Tenho os mails todos, sabe? Tanto os que a senhora envia, como os que recebe. Levei a password da sua caixa de correio e fiz cópias de ecrã de todos. Agora, a senhora escolha; quer continuar a sua boa vida de sonsa, com menos uns trocos, ou quer ver como acaba o seu casamento?
– Eu não te mereço isto, Judite! Como podes? – desapontava-se Lucília. – Depois de tudo o que fiz por ti, que eras uma rústica… E que história é essa do Abílio? Enrolada? Tu não estás bem. O Abílio é um bom amigo e um bom modelo, tal qual como tu. Só isso!
– Sim, sim! Pensa que eu não via o seu olhar a lambê-lo de alto a baixo? Depois, quando li os mails, descobri tudo. Agora está tramada, minha santa!
– Estás louca, mulher! Nunca hás de perceber um artista. O pintor olha, com olhos de ver. Mira, sim, completa e exaustivamente o corpo do seu modelo. Conhece-lhe cada centímetro, melhor que ele próprio. E, às vezes, perturba-se, que a intimidade a tanto chega! Sempre se falou da relação ambígua entre pintores e modelos: já ouviste falar em Balthus? Às vezes, mais explícita que ambígua – Rodin, Toulouse-Lautrec… Mas isso, que te interessa!?; pareceu-te ver luxúria onde havia apreensão estética. E isso dos mails, nem quero tentar perceber que bizarros enredos de alcova engendraste. Só te digo que leste mal. E a desfaçatez de entrares na minha caixa de correio. Que cabra me saíste!
– Não adianta negar, Dona. O Senhor Jorge vai perceber muito bem o que lá está escrito. Por isso, pense bem.
– Não percebes nada, mulher! – impacientava-se a artista. – Vieste lá das berças e pensas que este mundo tem alguma coisa que ver com o teu. Isto não é um romance do Eça de Queiroz. Aqui não há primos sabidos, nem eu sou uma cândida esposa imatura. Convence-te, Judite, o mundo dos artistas é mais solto, mais liberal. Também não gostamos de ser preteridos, às vezes choramos, mas não entendemos os maridos e as mulheres como propriedade, nem lhes limitamos demasiado a liberdade. Mas sempre com transparência. Já estive com outros homens, sim, mas o Jorge foi sempre o primeiro a saber. E ele também já teve os seus arrebatamentos. Chegou a viver lá em casa uma de quem ele gostava muito. Depois de algum tempo, como eu previa, acabou-se a chama, e ela foi-se embora. Não ando com o meu modelo, mas se andasse, o Jorge estaria ao corrente. Percebes, Judite? Agora, vai-te embora, que não me apetece olhar para ti.
Antes de sair e bater com a porta, Judite, visivelmente confusa, ainda articulou, sem convicção:
– Se é assim que quer, assim terá! Vaca!
Dois dias depois, Judite voltou.
– Que queres, Judite? – perguntou Lucília, segurando a porta, ao ver o olhar injetado da outra.
Esta empurrou Lucília e entrou, fechando a porta sem olhar para trás. Depois, retirou da malinha uma faca de cozinha e apontou-a à ex-patroa:
– Não te vais livrar assim! Deste-me a volta, deram-me a volta, cambada de badalhocos, mas eu não vou desistir. Se não dás a bem, dás a mal – vociferava a ex-chantagista convertida à extorsão.
A pintora hesitou por um momento, ao ver a faca no braço em riste da outra. Depois, recuou calmamente, de olhar perscrutador. Quem a visse a avaliar a agressora, não demonstrando medo, antes curiosidade, suspeitaria de alguma quebra momentânea de siso, provocada pela situação traumática. Também Judite pareceu surpreendida com a reação da ex-patroa. Mantinha-se parada a três passos de Lucília, faca levantada, atitude expectante. Foi a pintora que quebrou a rigidez da composição:
– Judite, escuta, se me agredires, estragas a tua vida. Vais presa, deixas de estar com o teu filho. Deves estar desesperada para fazer isto. Posso ajudar-te, mas não da maneira que dizes.
– Quero o meu dinheiro! – insistia Judite.
– Ouve, estou-te reconhecida pelos trabalhos que fizeste para mim, não o esqueço. As minhas pinturas vendem-se por muito dinheiro? Nem sempre foi assim. Mesmo então, cumpri o combinado com os meus modelos; paguei sempre no dia certo, não foi? Também um construtor vende os prédios por muito dinheiro, e não é por isso que o pedreiro muda de carro. Às vezes, lá tem um prémio pelo Natal. Queres comparticipação? Vamos fazer o seguinte: posas para mim com essa faca, nessa atitude. Interioriza-a bem: zangada, ressentida, vingativa. Gostei da imagem, é forte. Acho que dá para uma nova série de pastéis. Pago-te o mesmo que te pagava, mas, além disso, quando as obras se venderem, recebes uns três por cento do que eu receber. Parece-te bem?
Judite estava confusa e indecisa. Tentava calcular quantos contos representariam três por cento de, talvez, duzentos mil euros, depois de deduzida a parte da galeria. Nesse momento, ouviu-se uma chave a rodar na fechadura e Abílio entrou. Surpreendido por ver Judite de faca na mão e face afogueada, indagou, em prontidão:
– Há algum problema?
– Não, Abílio, entra! – contemporizou a pintora. – A Judite veio outra vez visitar-me e combinámos uma nova série de telas com anjos justiceiros femininos – uma mistura de Arcanjo São Miguel e empregada doméstica: numa mão, a espada; na outra, o pano do pó. Vou-me rir com as interpretações que a crítica vai fazer.

 

Joaquim Bispo

Retirado de Samizdat


publicado por Jorge Soares às 21:22
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Qui
24 Jul
2014

Ricardo Salgado

 

 

Imagem do Público 

 

A  detenção de Ricardo Salgado foi noticia em pelo menos dois dos principais jornais espanhóis online e imagino que terá tido eco em muitas outras publicações pelo mundo inteiro. Não é todos os dias que ouvimos falar da detenção de um banqueiro e muito menos de um que até chegou a ser convidado a comparecer em conselhos de ministros.

 

Não sou dos que acham que todos os banqueiros são ladrões, os bancos existem porque o mundo precisa deles, são um negócio e os negócios existem para servir quem deles precisa e para dar lucro a quem teve a capacidade de os montar. É claro que os bancos e quem os dirige tiveram a sua quota parte de culpa na crise, tal como a tiveram os políticos e até todos nós que os elegemos.

 

Ricardo Salgado era até há uns dias atrás uma figura poderosa, havia (há?) muita gente a depender dele ou pelo menos do dinheiro que estava ao seu alcance, da politica ao futebol passando pela industria, muito poucos dos poderosos deste país não tinham ligações mais ou menos próximas ao BES e/ou à família Espírito Santo.

 

Hoje o senhor foi detido, interrogado durante horas e teve que pagar a módica quantia de 3 milhões de Euros para poder preparar a sua defesa em liberdade. Curiosamente a sua detenção estará relacionada com o caso Monte Branco, caso pelo qual já tinha sido investigado e na altura ilibado.

 

Imagino que o descalabro do grupo Espírito Santo terá deixado à vista muito lixo que estava escondido debaixo dos tapetes financeiros, mas ficamos sempre a  pensar, o que terá mudado desde a altura em que se concluiu que o senhor era inocente até agora?

 

Poderão ter mudado muitas coisas, mas uma é evidente, Ricardo salgado deixou de ser "o gajo que manda nisto tudo", o banqueiro que até aparecia nos conselhos de ministros, no momento em que se percebeu que o GES era um gigante com pés de barro Ricardo Salgado passou a ser um cidadão comum e até passou a poder ser preso.

 

Eu sei que entre outros Daniel Oliveira já fez esta pergunta, é uma pergunta que nos fazemos todos, com os mesmos indícios que se conhecem agora, Ricardo Salgado teria sido detido e sujeito a uma caução de 3 milhões de Euros há dois ou três meses atrás? Eu quero na justiça portuguesa e portanto quero acreditar que sim.... mas também sei que sou muitas vezes sou lírico.

 

Esperemos é que a justiça à portuguesa não apareça de novo e a montanha não dê em mais um rato do tamanho do que deu com os senhores do BPN.

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:35
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Qua
23 Jul
2014

Anas

 

 

Imagem do Facebook

 

Num comentário ao Post de ontem (Ver Aqui) alguém me acusava de ser Anti Judeu, está enganado, não sou anti Judeu, nem pró palestiniano, sou sim contra a violência, sou sim contra as injustiças e sou contra quem não tem memória histórica e faz aos outros o que não gostou para si, e sou contra todos os responsáveis, de um e outro lado, pelas mais de 600 mortes que já aconteceram desde que começou a escalada de violência na Faixa de Gaza

 

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 20:46
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