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O que muda mesmo na lei da adopção?

por Jorge Soares, em 21.05.15

adopção.jpg

 

Imagem do Público

 

Vinha no carro quando na Antena 1 deram a noticia, "o governo quer agilizar os processos de adopção, estes vão demorar no máximo um ano",  a seguir dei por mim a falar sozinho:

 

- Um ano?, então mas a lei actual diz que as avaliações tem que demorar no máximo seis meses, onde é que passar de seis meses para um ano é agilizar o que quer que seja?

 

Cheguei a casa com as garras de fora e o mau feitio no máximo, a preparar-me para cascar forte e feio no Mota Soares e nos restantes governantes, felizmente decidi dar uma olhadela às noticias sobre assunto antes de começar a escrever o post.

 

Na verdade desde o ponto de vista do adoptante pouco irá mudar, os processos de avaliação continuam a demorar no máximo seis meses, o que realmente vai mudar (esperamos que consigam) é a forma como são tratados e avaliados os processos das crianças, não os que envolvem os adoptantes.

 

Actualmente as crianças estão institucionalizadas e passam anos e anos até que entre as instituições de acolhimento e o tribunal decidam qual será o seu processo de vida. Há crianças que chegam às instituições com um ou dois anos e os processos são decididos quando eles tem doze ou treze  e dificilmente alguém os quer adoptar.

 

O que este governo quer fazer é obrigar a que este processo seja agilizado, por exemplo: que ao fim de 18 meses após a sinalização de uma criança  exista uma avaliação da situação de modo a garantir que as medidas de protecção são as mais adequadas. Pretende também  que seja limitado a 12 meses o processo que medeia entre o estudo de caracterização da criança e a sua adopção... 

 

Parece que finalmente alguém percebeu onde está realmente o problema, não sei se haverá forma de fazer com que os responsáveis das instituições de acolhimento e os juízes passem a cumprir estes prazos,  mas que alguém do governo tenha percebido que  deve haver algo errado no processo quando há 8500 crianças institucionalizadas e pouco mais de 400 para adopção, já é um grande avanço.

 

Ver para crer.

 

Aos senhores jornalistas pede-se que antes de dar as noticias tentem perceber do que se está a falar

 

Jorge Soares

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publicado às 22:32

cou-flor-picada.jpg

 

 

Imagem de aqui

 

Há muito que não coloco aqui uma das minhas receitas... bom, esta é mais da minha meia laranja que a encontrou algures.... mas acho que merece a honra do post, mais não seja pela diferença.

 

Estamos na época em que andamos todos a tentar poupar nos hidratos de carbono e nas calorias, não se deixem enganar pelo titulo, o arroz não faz mesmo parte, aliás, a receita é bem simples e até barata.

 

Ingredientes:

1 couve flor média

3 dentes de alho

1/4 de chouriço

Azeite

sal

Pimenta

raspa de um limão

Ervas aromáticas

Lombos de salmão (1 por pessoa)

 

Coloque os lombos de salmão polvilhados pela raspa de limão, as ervas aromáticas e sal ao gosto, num tabuleiro e leve ao forno a 180 graus... os meus estavam congelados e ficaram prontos ao fim de 35 minutos.

 

Pegue na couve flor e pique como se pode ver na fotografia acima, pique o alho e corte o chouriço em cubos pequeninos, eu coloquei o chouriço na Bimby e piquei 5 segundos, depois juntei o alho e a couve flor e piquei mais 3 segundos.

 

Numa frigideira grande coloque um fio de azeite e junte a mistura toda, junte sal e pimenta ao gosto, vá mexendo de modo a que cozinhe de forma uniforme, a ideia é que a couve fique meio salteada e vá adquirindo o sabor do alho e do chouriço... no meu caso ficou pronto ao fim de aproximadamente 15 minutos.

 

O resultado é surpreendentemente delicioso, cá em casa apesar de que tudo começou por torcer o nariz à couve, no fim todos comeram e repetiram, a couve fica com o aspecto do arroz branco e o sabor delicioso do chouriço e do alho.... uma delicia mesmo, apesar de que a R. de inicio estranhou a combinação, combina mesmo com o salmão... os puristas, se lhes fizer impressão a combinaçãoo de carne e peixe, podem usar de acompanhamento para outra coisa qualquer 

 

Para a próxima tiro uma fotografia para colocar aqui

 

Bom apetite

Jorge Soares

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publicado às 22:18

É este o país dos brandos costumes?

por Jorge Soares, em 19.05.15

2015-05-18-foto-confrontos-slb.jpg

 

Imagem de aqui

 

Ando há uns dias com um post atravessado, algo que tem a ver com "ser normal isso acontecer", ainda não é hoje... ainda que tenha tudo a ver.

 

Há pouco no canal do Jornal A bola, um grupo de senhores discutia o que se passou ontem, primeiro em Guimarães e depois em Lisboa... por incrível que pareça havia alguém, não fixei os nomes, que estava com imenso cuidado no que dizia porque segundo ele, "é necessário ter cuidado, vivemos na era da imagem e assim como há muitas imagens, também há muitas formas de as manipular".

 

Sim, vivemos na era das imagens, agora cabe-nos a nós como sociedade aprender a tirar o melhor partido disso para fazer deste mundo um mundo melhor, mais justo e sobretudo, mais transparente.

 

O que se passou ontem em Guimarães não tem nome, felizmente há imagens, imagens que olhe-se por onde se olhe são tremendamente esclarecedoras. O polícia pode alegar o que quiser, pode defender-se com o que quiser, mas quanto a mim, não há absolutamente nada que justifique a reacção dele. 

 

Como é que hoje, após as imagens que todo o país viu até à exaustão, explicamos aos nossos  filhos que os polícias são os bons que existem para nos proteger dos maus, havia ali alguém bom que soubesse proteger?

 

É verdade que nas imagens, pelo menos nas que eu vi, é difícil discernir o que terá sido dito ali, pode até ser verdade que ele foi insultado e até cuspido, mas não há insulto ou cuspidela que justifique a sua reacção e muito menos quando pelo meio há crianças. Ele não estava sozinho, estava com um colega ao lado e vários nas proximidades, qual é a justificação para a forma como ele reage? Aquelas pessoas eram de alguma forma uma ameaça para a integridade dele? Tem que haver alguma diferença entre um agente de autoridade e um arruaceiro qualquer que reage com violência às palavras.

 

Depois há o que aconteceu em Lisboa, lembro-me de há uns tempos todas as manifestações terminarem em violência entre grupos de arruaceiros e policias, pelos vistos à falta de manifestações, festejos de títulos de futebol também são bons.

 

O que se viu ontem no Marquês do Pombal foi um bando de arruaceiros vestidos com os adereços do Benfica, que aproveitaram a presença da polícia para armar confusão e estragar a festa ao futebol, curiosamente e ao contrário do que aconteceu em Guimarães, eu acho que a policia teve uma actuação inteligente e ponderada, e dada a presença de tanta gente que só ali estava mesmo para festejar, se limitou a controlar. Não deve ter sido nada fácil estar ali minutos e minutos a ser bombardeados com garrafas e pedras da calçada sem carregar furiosamente sobre o bando de palhaços.

 

Para além do já relatado, há noticias de destrição e prejuízos de mais de cem mil euros no estádio Afonso Henriques, de confrontos entre adeptos benfiquistas e polícias no Alvalade XXI e de detidos um pouco por todo o país, pelos vistos há muita gente que ou não se sabe controlar ou não percebe que o futebol é para ser uma festa... há que saber perder... e sobretudo, saber ganhar.... mas é claro que a esta gente o que menos interessa é o futebol.

 

É este o país dos brandos costumes?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:35

Como é que se diz começar de novo em Vasco?

por Jorge Soares, em 17.05.15

lopetegui.jpg

 

Imagem do Público 

 

Em primeiro lugar parabéns ao Benfica, ninguém é bicampeão sem mérito, podia vir para aqui falar de colinhos e coisas dessas, mas a verdade é que o Porto não é campeão porque falhou em alguns momentos decisivos e o Benfica soube aproveitar muito bem.

 

O Porto falhou estrondosamente contra o Nacional quando já sabia que o Benfica tinha perdido e contra o Belenenses, quando o Benfica não estava a conseguir ganhar ... a verdade é que com duas vitórias nesses jogos, neste momento não havia festa no marquês e outro galo cantaria no lugar da águia.

 

O Porto apostou tudo nesta época, quanto a mim, apostou demais. Não é a primeira vez que Pinto da Costa escolhe um treinador sem experiência, mas apostar num treinador sem experiência ao nível dos seniores e que não conhece o campeonato nem o futebol português, terá sido levar a aposta longe demais.

 

Dizer que o Vasco é um mau treinador seria injusto. O Porto vai ficar em segundo lugar no campeonato, e chegou aos quartos de final da Champions, é verdade que com alguma sorte nos sorteios, mas  a sorte e o azar não explicam tudo.

 

Quanto a mim os principais problemas de Lopetegui foram a demora em descer do pedestal em que se achava, a dificuldade em perceber que o campeonato português não é o espanhol e que no Porto não há lugar a experimentos, no Porto joga-se para ganhar do primeiro ao último minuto de todos os jogos, os experimentos fazem-se nos treinos, nos jogos é mesmo para ganhar.

 

Quando percebeu algumas destas coisas, ele e a equipa encarrilaram e até se viu bom futebol. Depois havia outro problema, a equipa mais jovem das últimas décadas, recheada de muitos e bons jogadores, mas sem a experiência e a matreirice que convertem bons  em grandes jogadores. 

 

Com tantos jogadores jovens muitas vezes faltava em campo voz de comando e a serenidade necessárias ao controlo do jogo.

 

Não sei se para o ano haverá Lopetegui e confesso que não consigo ter opinião sobre o assunto, não haverá de certeza o dinheiro que houve no verão passado.

 

Com as saídas certas de Danilo, Jackson Martinez, Adrian Lopez, Tello e Casimiro  e as prováveis de Alex Sandro e Brahimi, tudo terá que ser começado de novo, já seja com este Vasco ou com outro treinador qualquer... e dificilmente alguém voltará a ter um plantel como o de este ano..

 

Gostava de saber o que pensam Pinto da Costa  e os membros da SAD de tudo isto, este ano só houve uma voz no Porto, infelizmente essa voz falava sempre em Castelhano e muitas vezes, para além de que foi longe demais principalmente nas desculpas, sentia-se a solidão nas palavras,

 

Para o ano há mais.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:56

Conto - Avareza

por Jorge Soares, em 16.05.15

avareza.jpg

 

 
Se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força, 
de mesma intensidade, mesma direção e de sentido contrário.
                                                                               (Isaac Newton)

 

Intensidade
 
Você quer cinco reais? Assim, de graça, menina? Não. Primeiro coça aqui as costas do papai. Mais um pouco... Isso... Muito bom. O dinheiro é para quê? ... Sorvete? Ah, não! Pensei que era pra coisa séria. Pra besteira não tem dinheiro, não! ... Mas o que é isso? Sem choro, menina. Para de chorar. Ah, não vai parar? Então, você agora me deve R$10,00. E se continuar chorando a dívida aumenta pra R$15,00. Pão-duro? Eu? Cala a boca, mulher! A menina precisa aprender que dinheiro não cai do céu! Cinco reais! Desse tamaninho e já pede logo cinco reais!! Sabe quanto tempo eu levo para ganhar esse dinheiro? Sabe o que eu preciso fazer para ganhar o que eu ganho? E o meu dinheiro não é capim, não! Não nasce em árvore! Quer saber? Você está de castigo, menina! Só sai do quarto quando entender o valor do dinheiro.
 
 
Direção 
 
Você cresce, cresce e não aprende, não é, menina? É isso mesmo! Coloquei corrente da geladeira, sim! Por acaso está na hora do almoço ou do jantar? Se quiser água, tem no filtro. Mas dentro da geladeira não tem nada que interesse a ninguém agora. Mas era só o que me faltava! Eu sei que a sua mãe fez gelatina escondido de mim. É isso, não é? Se eu tivesse visto, não tinha esse desperdício, não! Mas já que fez, é sobremesa. Só depois do jantar.
 
 
Sentido contrário 
 
O quê? O papai quer ir para um hospital particular? É isso mesmo que eu ouvi? Ele quer que eu pague para ele ficar sozinho num quarto? Que desperdício! O que é que ele está pensando? Que eu tenho dinheiro para jogar fora? Ele sabe o que eu preciso fazer pra ganhar o que eu ganho? Além do mais a doença dele é terminal, mamãe. Não importa em que hospital ele esteja, nós duas sabemos que ele vai morrer. E vai morrer logo. Então, para que esse luxo todo? ... Ah, mamãe, para de chorar! Se você continuar chorando eu vou desligar o telefone. 

 

 

Cinthia Kriemler

 

retirado de Samizdat

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publicado às 23:48

 

 

Esta semana passaram a ser obrigatórias as regras do acordo ortográfico.
Ricardo Araújo Pereira explica os problemas do acordo, com o auxílio de Samantha Fox.

 

 

 

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publicado às 21:53

Espera-nos um futuro violento?

por Jorge Soares, em 13.05.15

video_agressoes.jpg

 

Imagem de aqui

É curioso, foi há dois dias que por aqui se discutiu se colocar umas orelhas enormes a um concursante dos ídolos era bullying ou não, bom, hoje ficamos todos a saber o que é realmente bullying.

 

O vídeo apareceu-me no Facebook ontem à noite, confesso que não consegui ver mais que dois ou três minutos, tal foi a impressão que me causou. Tudo me fez impressão, a forma como o miúdo era agredido, a forma como todo o bando de energúmenos se ria da situação e sobretudo a forma como ante todo aquele ataque, ele simplesmente estava ali, a ser sovado daquela forma sem uma resposta, um grito, uma reacção.

 

Felizmente existem as redes sociais e em poucas horas não só todos tomamos consciência de que estas coisas podem acontecer, como graças à divulgação e à enorme proporção que o caso tomou, não só já foi apresentada queixa, como já foram identificados todos os agressores e (esperamos nós) será feita justiça, casos como estes não podem de forma alguma ficar impunes.

 

Como não podia deixar de ser, há quem ache que se está a violar os direitos dos agressores (alguns são menores de idade) ao divulgar o vídeo e as suas imagens, se calhar é verdade, mas também é verdade que foi graças a essa divulgação que em muito pouco tempo se conseguiu alertar as autoridades e identificar agredido e agressores.

 

Entretanto o que parece que tem impressionado mais as pessoas é olhar para o aspecto tão "normal" das agressoras, parece que as pessoas associam este tipo de violência a bairros e zonas degradadas, nada mais errado, estas coisas acontecem em todos os estratos sociais, a falta de educação, de civismo e de princípios não tem nada a ver com estratos sociais, este tipo de coisas tanto pode acontecer num qualquer subúrbio de uma grande cidade como nas escolas de classe média ou até nos colégios mais caros... temos é que estar atentos e actuar ao primeiro sinal.

 

A questão que se coloca, é: atendendo à juventude que estamos a criar, que futuro nos espera?

 

Jorge Soares

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publicado às 21:36

 

«Que escrever quando os olhos ainda se enublam de lágrimas de emoção, e o peito ainda palpita com a vibração da anciedade enorme que o agitou durante estes dias de gloria e de tragedia? Quem viveu esses dias inolvidaveis, unicos da vida, não julga possivel traduzil-os ainda na expressão mais bella e mais sentida da palavra humana.».

 

O texto acima foi tirado do jornal que está na imagem e que data de 5 de outubro de 1910, à luz do que todos aprendemos na escola há uma série de erros, a mim na Escola primária Soares Bastos ensinaram-me que ansiedade é com s e que em português não há palavras com dois ll como bella, glória é com acento e tragédia também... mas aposto que se for falar com a avó da minha meia laranja ela me vai dizer que não, que a ela na escola lhe ensinaram que era assim que se escreviam essas palavras....

 

Se não me engano depois do dia em que aquele texto foi escrito já se fizeram pelo menos 3 acordos ortográficos, e com eles muitas coisas mudaram. A julgar pelo que fui lendo hoje nos blogs e no Facebook, parece que todas as pessoas que eu conheço vão continuar a escrever como lhes ensinaram na escola... porque assim é que está bem e não andamos atrás dos brasileiros.... Tenho mesmo que ir falar com a Dona Alice a Bragança, será que quando se fizeram os acordos anteriores as pessoas também juraram que iam continuar a escrever enublam, anciedade, gloria, traduzil-os, bella?

 

Talvez porque durante uma boa parte da minha vida a minha língua foi outra, eu não sou capaz de olhar para este acordo como algo errado, basta olhar para o texto acima para percebermos que as línguas são algo vivo que vai evoluindo com o mundo, com o tempo ganham-se palavras, perdem-se outras, mudam-se formas, mudam-se letras, adoptam-se termos.... faz parte da evolução, faz parte da sobrevivência não só da língua e até do povo em que ela se sustenta.

 

Curiosamente as línguas que não mudam com o tempo chamam-se línguas mortas... por algo será.

 

A partir de amanhã é obrigatório passar a utilizar o novo acordo, parece que há por aí muito resistente e vai haver muita gente a escrever com erros... será que se tivessem nascido antes de 1920 continuariam a escrever Pharmacia?

 

Jorge Soares

 

PS:Pessoal dos blogs do SAPO, percebo que sejam contra, mas de certeza que há quem queira passar a utilizar o acordo, não acham que pelo menos deveriam dar-nos a hipótese de escolher o novo dicionário? Obrigado!

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publicado às 21:34

Devemos ter pena do rapaz das orelhas?

por Jorge Soares, em 10.05.15

idolos.jpg

Imagem de aqui

 

Ès livre de fazer as tuas escolhas, mas ficas prisioneiro das consequências

Pablo Neruda

 

Estou a escrever isto ao enquanto o resto da família que ainda está acordada está a ver os ídolos, o televisor está à minha frente do outro lado da sala e não há como deixar de ouvir o que por lá se vai passando... neste momento alguém que claramente não tem jeito para a coisa está a cantar(?) uma música em que a letra fala de "sei que sou um cão muito mau"??????

 

Na semana passada eu estava mesmo a ver com a minha filha R. e ambos estivemos de acordo em que os senhores da SIC estavam a ser mauzinhos, não só com este mas também com outros concorrentes (????) do concurso. 

 

Toda a polémica e o burburinho que tivemos esta semana sobre este assunto deixou-me a pensar. Grande parte do sucesso deste concurso de caça ao talento, já seja em Portugal ou no resto dos países por onde ele passou, tem a ver com isto, com os cromos que lá passam. 

 

Mais que o tamanho das orelhas o que saltou à vista mal ele começou a cantar  foi que o miúdo não tem o menor jeito para cantorias, muito menos para ser um ídolo musical e não é preciso ser jurado do programa ou sequer perceber de música para e chegar a essa conclusão, basta não ser surdo.

 

Como acredito que nem o jovem nem as pessoas que o rodeiam sejam surdos, a questão que se coloca é: O que estava ele a fazer no casting?

 

Concordo que na SIC exageraram com o efeito das orelhas, mas a questão dos cromos e de se gozar com quem passa pelos castings sem ter o menor jeito para cantar não é nova, não acredito que ele realmente ache que sabe cantar, nem  acredito que alguém o tenha incentivado a participar... a menos que o objectivo fosse mesmo esse, ter uns segundos de fama e aparecer na televisão... mesmo que não fosse pelos seus dotes vocais ou pelos melhores motivos.

 

Repito que acho que a SIC exagerou ao gozar com os efeitos das orelhas, mas de aí até achar que se trate de bullying, vamos lá guardar as devidas distâncias... Percebo que o jovem tenha vergonha do resultado da sua brincadeira, mas a verdade é que ele foi lá porque quis, mesmo sabendo que não tinha o menor jeito para a música e que o mais provável era terminar na parte dos cromos... a brincadeira terminou mal.... mas isso é culpa de quem?

 

O tema do Bullying, já cá foi tratado várias vezes, mas para ser sincero, não tenho pena nenhuma deste jovem, nem dos vários que já vi hoje que sabem perfeitamente que não tem o menor jeito para cantar e que só lá foram pelos poucos segundos a aparecer na televisão.... como cromos dos ídolos

 

Jorge Soares

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publicado às 22:38

Conto - Depoimento de uma mulher que apanha

por Jorge Soares, em 09.05.15

MULHER MUDA SEM BOCA.png

 

De tudo o que nos incrimina, o que nos condena é a mudez.

(cinthia kriemler)

 

Eu fico olhando ele dormir toda noite. Ele não faz um ruído, sabia? É uma coisa assustadora. Não ronca, não respira alto. Parece alguém em coma; um semimorto. Como é possível? Isso não é justo. Não está certo ele dormir assim enquanto eu passo a noite cuidando do meu corpo cheio de dor. Cada tapa, cada soco, cada pontapé me deixa toda marcada, está vendo? A minha pele está toda roxa. Tem uns lugares em que os hematomas nem saem mais. Está vendo a minha coxa? É o lugar que ele mais chuta. Acho que é porque essa parte do corpo está sempre coberta e ninguém vê as marcas. Eu nunca mais vesti um short. Nunca mais fui à praia, acredita? Mas as coxas não me preocupam. Na hora em que ele começa a bater eu só me lembro de usar as mãos e os braços para proteger a cabeça. Faço uma espécie de redoma, de escudo. Assim, está vendo? Mas tem hora que ele me pega desprevenida. Eu morro de medo que ele machuque os meus olhos. Ou a minha cabeça. Fico imaginando como seria ficar em cima de uma cama. Dependendo dos outros; dependendo dele. Imagina o que mais ele faria comigo. 

Eu ainda choro. Por que será que eu ainda choro? Não é mais choro de revolta nem de medo, sabe? É uma coisa boa. Que me dá alívio. Andei pensando sobre isso. Eu acho que eu choro porque talvez seja a única coisa em mim que ele não pode tocar: as lágrimas. Ele não pode puxar, apertar, sacudir, espancar as minhas lágrimas. Como faz com o meu corpo. Também não pode manipular, nem controlar, nem abusar delas. Como faz com a minha cabeça. Com a minha vida.

Não, isso não é vida. Eu sei. Eu já estive aqui antes. Já conversei com a psicóloga. Foi bom. Ela me fez pensar. E eu já tinha parado de pensar fazia um tempo. Mas pensar não adianta muito, sabe? A gente se sente pra baixo de novo. Pensando em tudo o que não consegue fazer. E sofre outra vez.

Eu nem sei por que é que eu apanho tanto. Só sei que a coisa vem, e quando vem nunca é pouca. Primeiro ele me olha. É um jeito de olhar que fala. Eu não sei explicar direito. Mas é como se ele estivesse sempre me culpando por alguma coisa que eu não fiz. Como se estivesse procurando uma desculpa para me arrebentar toda. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa mesmo. O cabelo solto, a saia curta, a calça comprida justa, o riso, a unha grande, o decote, o jeito de pendurar a roupa no varal, a máquina ligada muito cedo, a camisa passada do jeito errado, o banheiro ocupado. 

A psicóloga me disse que ele é um abusador. Que ele faz eu me sentir culpada de propósito. Porque é isso que um abusador faz. É verdade. Toda vez que ele me bate fica repetindo que a culpa é minha, que eu mereço apanhar. Não mereço, não. Já tem tempo que eu sei que não mereço castigo. 

Eu casei muito cedo. E ele não me deixou trabalhar nem estudar. Tinha ciúme até da minha mãe. No começo, eu achei graça. Não vou negar que eu gostei daquela vida de não trabalhar. Só depois de um tempo é que eu percebi que era tudo uma armadilha. Eu não tinha diploma, não tinha emprego, não tinha mais amigos e me afastei da minha família. Eles nunca entenderam o porquê. Nunca aceitaram eu ter parado de falar com eles: minha mãe, meu pai, meus irmãos. A minha irmã mais nova me disse que é benfeito tudo o que me acontece. Porque eu sou burra, covarde, fraca. Eu entendo. Entendo, sim.

Eu não tenho filhos. Não pude ter. Fiquei triste por muito tempo. Porque eu imaginava que se eu tivesse filhos ele não ia mais me bater. Mas depois eu andei lendo sobre uns casos parecidos com o meu e vi a sorte que eu dei. Eu e essas crianças que nunca nasceram. Só que, por causa disso, ele passou a me bater mais ainda. Batia e me xingava. Sua inútil! Sua vaca! Não presta nem pra me dar um filho! 

Foi nessa época que eu pensei em cair fora pela primeira vez. Sem filhos, ele não tinha como me ameaçar. Sem filhos, eu não me importava de não ter estudo nem emprego. E aí eu vim aqui e prestei queixa. Conversei com a psicóloga e ela me disse para eu parar de pensar no que tinha a perder, e começar a pensar em tudo o que eu tinha a ganhar. Foi uma conversa boa. Imaginei tanta coisa. Cheguei a procurar a minha mãe e perguntar se ela me aceitava de volta em casa. Imagina que ridículo! Mulher feita voltando para a casa da mamãe. Mas ela aceitou feliz. Os meus planos é que duraram pouco. Um dia depois ele foi trazido aqui, nesta delegacia, prestou depoimento e foi mandado de volta para casa. Em 2005, ainda não existia a Lei Maria da Penha. Foi aprovada só no ano seguinte. Tarde demais. Na noite em que ele foi liberado pela polícia, me fez uma ameaça. Que se eu viesse aqui de novo ele matava meus pais e meus irmãos. E logo em seguida me deu uma surra tão grande que me quebrou um dente. Esses nove anos foram um inferno.

Mas as coisas mudam. Por isso eu resolvi prestar queixa de novo. Dessa vez, sem volta. Meu pai morreu tem quatro anos. Mas ainda tinha a minha mãe para o desgraçado ameaçar. Agora, ela também morreu. Faz um mês e meio. Antes, eu dei um jeito de ir até o hospital e ficar um pouco com ela. Pedi perdão. Sabe o que ela me disse? Que eu precisava pedir perdão era a mim mesma. Aquilo doeu. E doeu mais ainda quando eu fiquei sabendo que ela deixou a casa para mim de herança. E que os meus irmãos abriram mão da parte deles por mim. Para que eu pudesse ter para onde ir se eu decidisse me separar. Aí eu pensei: é agora ou nunca; não tem mais pai nem mãe pra esse filho da puta ameaçar. Eu conversei com os meus irmãos. Contei tudo para eles. E eles me disseram para não me preocupar que eles se garantem. Acho que a única covarde sou eu mesma.

Hoje, quando eu estava saindo de casa, ele veio atrás de mim. Adivinhou o que eu ia fazer. E me ameaçou, revólver na mão. Eu continuei caminhando, sem me virar. Pensando que o tiro não podia me matar mais do que eu já estou morta. Mas não era para ser. Não, não era para eu terminar em silêncio. 

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Palavras Abraçadas

 

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publicado às 23:57

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