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Coisas das que nos devíamos envergonhar

por Jorge Soares, em 01.05.16

lisboa.jpg

 

Imagem do El País

 

Já tinha visto o vídeo no Facebook, hoje ao fim do dia no Jornal  online espanhol El país, encontrei uma  noticia com um titulo sugestivo e que nos devia fazer corar de vergonha, a mim fez: "Lisboa no es ciudad para discapacitados", Lisboa não é cidade para deficientes... é a mais pura verdade, a fotografia acima é por demais esclarecedora.

 

E não, não é só Lisboa, é o país inteiro, português que se preze senta-se ao volante e esquece que existe o resto do mundo, as ruas, as estradas, as auto-estradas, são dele e não há lei ou regra de trânsito que se aplique.

 

Na hora de estacionar o ideal mesmo era conseguir levar o carro até dentro do hall de entrada da casa ou do escritório, como normalmente isso não é possível, deixa-se o mais próximo possível, mesmo que isso implique estacionar em cima do passeio, nas passadeiras, em lugares reservados a deficientes, nas curvas, em qualquer lado.

 

Na maior parte das vezes basta andar mais umas dezenas de metros e há onde estacionar legalmente e sem implicar com o resto do mundo, mas dá muito trabalho, é uma canseira e a malta não está para isso.

 

Como muito bem diz Salvador Mendes no artigo, em Portugal temos as leis mais avançadas do mundo, desde 1998 há uma lei que obriga a que todos os espaços públicos e todas as novas obras tenham condições de acessibilidade, mas não há forma de a fazer cumprir.

 

Para quem tem que se deslocar numa cadeira de rodas, com um carrinho de bebé e até mesmo para o comum mortal que quer andar a pé, qualquer deslocação pelas  ruas das nossas cidade torna-se uma verdadeira gincana. Os passeios estão ocupados pelos carros e muitas vezes por mobiliário urbano mal desenhado e/ou mal colocado... ao peão resta-lhe andar pela rua e muitas vezes tourear os carros.

 

O vídeo criado para a Associação Salvador pretende chamar a atenção para este problema, vejam e reflictam, li algures que 60 % dos portugueses reconhece que costuma ter este tipo de comportamentos na hora de estacionar, devíamos ter vergonha.

 

Da próxima vez que for estacionar lembre-se do Salvador e de todas as pessoas como ele, não acrescente ainda mais dificuldades às que elas já tem.... de certeza que para si andar  mais uns metros e estacionar num lugar que não incomode a ninguém é um problema. E já agora, que tal andar de transportes públicos?

 

 

 "...6 em cada 10 condutores admite que estaciona indevidamente, dificultando a vida de quem tem dificuldade em deslocar-se, bem como estacionam indevidamente nos lugares de deficientes, sendo que na maioria da vezes referem que foi apenas "5 minutos". Fizemos este filme para tentar mudar as mentalidades, de quem acha que 5 minutos não afecta a vida de ninguém..."

Jorge Soares

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publicado às 22:01

Conto - O reverso da crisálida

por Jorge Soares, em 30.04.16

magritte-la-reproduction-interdite.jpg

 

E então um dia a Natureza condoeu-se daquela fraca borboleta.

 

De asas mutiladas por homens repletos de altruísmo, resolveu retornar ao purgatório casulo a fim de tornar-se magra, mas tolerável lagarta. Ainda hoje mastiga, autômata, seu insosso maço de folhas secas.

 

Odiava o modo como meu pai me olhava. Aquele pestanejar de pálpebras e o quase imperceptível balançar de cabeça ― que oscilava entre a compaixão e o desapontamento ― eram o meu regime. Ele me condenava por eu não ter herdado a macheza atávica que me havia sido destinada. Meus gestos tornavam os corredores de nossa casa escorregadios, pegajosos, imundos. Nada que eu fizesse para agradá-lo surtia efeito. Meus irmãos eram os varões. Eu a varíola.

 

Desdenhosos lacaios da aversão que papai me dirigia, os espelhos condenavam meus olhos, o som de minha voz e os pensamentos que eu havia alcunhado secretamente de sombrios. O eu refletido era de um sarcasmo aterrador, ria de mim com uma paixão violenta. Por ser meu oposto, era o desejado filho, aquele que não possuía pensamentos sombrios.

 

Eu sofria. E minha dor era um minotauro que me perseguia por infinitos corredores de dúvida, culpa e negação. Sempre que eu cedia aos meus proibidos impulsos, mais próxima espreitava a fera mitológica. Seu espectro grotesco afugentava os corpos nus e de masculinidade hiperbólica que vagavam por meus deslizes. Na equivocada matemática de meu corpo, cabeça, tronco e membros resultaram em um somatório obtuso. A aritmética de minha identidade adicionou-me, subtraiu-me, multiplicou-me, dividiu-me, potencializou-me e extraiu minhas raízes. E, no final, resultei em um total estéril.

Descobri ainda em minha juventude que eu não era nada. Por isso meu pai quase não me via, e os espelhos tampouco me enxergavam sem desdém.

 

Leprosos, diabéticos, hemofílicos, todos os mazelados despertavam uma mórbida inveja em mim, o anseio de ser um deles. Eu amava os pontos cardeais esculpidos sobre a topografia da dor. A convalescença contínua permite que os doentes sejam tratados com misericórdia. Mas, ninguém cuidaria de mim. Pessoa alguma se apiedaria das pústulas assintomáticas de minha vergonhosa doença, meu desequilíbrio secreto, meu mal sombrio.

 

Quantas tentativas infelizes, tantas investidas em inúmeras religiões. E nenhuma foi capaz de adormecer minhas madrugadas em claro. Eu era a serpente, carregada de peçonha, que secretava muco diante da serena pureza de meus bons pregadores. As orações misturavam-se ao meu execrável orgasmo, e Deus não permitia que eu pensasse em amor.   

 

Prostrado diante da humilhante condição de ser quem ― contra o meu próprio arbítrio ― eu era, resolvi tornar-me outro. Um outro ao qual a óptica paterna pudesse encarar, sem constrangimentos. Um outro que mimetizasse aquele que vivia no interior do espelho.

 

Arquitetei uma nova identidade. Adquiri o método que, biologicamente, não me havia sido transmitido. Não sei bem se resultei em um ser humano feliz. Mas, ora! De que vale a felicidade quando ela chega dentro de uma garrafa, solta no remoinho? A felicidade é privilégio daqueles que não temem as moléstias da alma. Eu temo.

 

Ajoelhada ao meu lado, diante do altar, exibo a mulher que sitiará meus vícios e me parirá filhos saudáveis. Enquanto meu pai me observa com ares de absolvição, sou acometido por um irrefreável pensamento sombrio. Nego-me a abater-me diante dele. Mas, o que importa agora? O pensamento é uma mácula que os olhos não veem. Venci-me. Derrotei-me. Logo estarei casado.

 

Que moço simpático, que rapaz gostoso é esse padre!

 

Troquem-se as alianças. Amém.

 

Emerson Braga

 

retirado de Samizdat

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publicado às 22:20

O racismo não é uma opinião

por Jorge Soares, em 29.04.16

racismo.jpg

 

 

O racismo não é uma opinião

o machismo não é uma opinião

a homofobia não é uma opinião

a xenofobia não é uma opinião

São isso mesmo: racismo, machismo,homofobia,xenofobia.

Isto é para todas as pessoas querespondem nos debates sobre estes temas: "É a minha opinião"

Não, é o teu carácter

Lamentavelmente, é a tua educação e o teu carácter.

Deal with that.

 

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publicado às 21:56

Portugal, um país de parvos costumes!

por Jorge Soares, em 27.04.16

mustafa.png

 

Imagem do DN 

 

De manhã na revista de imprensa da Antena 1, a propósito da capa do Correio da manhã, falava-se de um "Arrastão no centro de Lisboa". Está visto que os jornalistas(??) deste Jornal(??) estão cada vez mais esclarecidos. O suposto arrastão afinal foi um infeliz episódio de violência em que alguém tentou defender o seu trabalho e a sua vida da violência gratuita de um bando de energúmenos.

 

Durante o dia  à medida que iam circulando os vídeos, a internet e as redes sociais por vezes são mesmo úteis, fomos percebendo melhor o que se passou, e segundo o DN o que se passou pode resumir-se assim:

 

"Peguei na faca de cortar kebab (espetada de carne) e tive de me defender. O que mais eu podia fazer? Um deles pegou na pistola ainda dentro do restaurante, outro tinha uma faca."

 

Já fomos um país de brandos costumes, agora somos um país cada vez mais igual a muitos outros, este tipo de coisas não deve acontecer, infelizmente acontece, segundo li alguns dos agressores foram identificados, espero sinceramente que se faça justiça,

 

Mas  há outras coisas que me chamaram a atenção na reportagem do DN, coisas como esta: 

 

"Podem escrever aí que eu desconto para Segurança Social, para tudo, e ainda não tive a autorização de residência do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)."

 

Somos um país estranho, Mustafa trabalha, tem um negócio próprio, paga impostos, paga a segurança social, cumpre com os seus deveres de cidadão como qualquer outro cidadão, como qualquer outra pessoa tem deveres e pelos vistos cumpre-os, mas isso não lhe dá direitos.

 

Portugal vende vistos sem fazer muitas perguntas a quem tem dinheiro e quer arranjar uma porta de entrada para a Europa e para o ocidente, mas  é incapaz de reconhecer os direitos a quem para cá vem com vontade de trabalhar e de construir coisas.

 

Mustafa é Curdo, tem um restaurante em Lisboa, tem direito a ser agredido por energúmenos, mas não tem direito a um visto de residência para poder trazer a sua família para junto de si,  para o  país que escolheu para poder ter uma vida.

 

Já fomos um país de brandos costumes, agora somos um país de parvos costumes.

 

Jorge Soares

 

 

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publicado às 22:05

A indisciplina na SIC

por Jorge Soares, em 27.04.16

baixa.jpg

 

 

Imagem do Facebook

 

Suicidou-se e está com baixa médica, será que a segurança social envia o cheque com o pagamento da baixa para a nova morada no cemitério?

 

A reportagem era sobre indisciplina na escola, aposto que quem escreveu isto era dos que passava muito tempo na rua em vez de estar nas aulas.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:57

Como era Portugal antes do 25 de Abril?

por Jorge Soares, em 25.04.16

 

 

Como era Portugal antes do 25 de Abril?

 

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publicado às 10:43

Conto - O Primeiro Passo

por Jorge Soares, em 23.04.16

kouros_kroisos.jpg

 

— Não vês que estás a ir por maus caminhos, meu filho? — O anjo adotava uma postura paternal, a face preocupada, o gesto complacente.
— Eu nem sei se quero ir por bons caminhos! — retorqui, desafiador.
 
Quando ele se materializara no meu quarto de solteiro, com ares de arcanjo Gabriel, passava das três da manhã. Estranhei, mais do que me assustei. Tinha estado na comissão de autogestão da fábrica a tratar de problemas deixados pelo patrão fugido e, proposta puxa discussão, tinha bebido umas três ou quatro cervejas. O verão de 75 ia quente em todos os sentidos, a Revolução avançava com autogestões nas fábricas e nos campos e auto-organização das populações em todos os domínios. Havia um sentimento no ar de que, finalmente, tudo era possível. E tanto que havia para fazer! O mais difícil era a mudança das mentalidades. Todos tínhamos sido condicionados para ser engrenagens de uma sociedade de obedientes, castos e tementes. De repente, tinham-se rompido as comportas que mantiveram a multidão calada e quieta, e esta inalava, impertinente, os primeiros aromas da liberdade.
 
Agora, até de replicar a um anjo eu me sentia capaz:
— E, além do mais, o que é que tens com isso?
— Não penses que podes viver como queres: lascivo, descrente e subversivo. Tudo está determinado e o teu lugar está muito bem definido.
 
— Eu posso fazer o que quiser! Desde que não restrinja a liberdade de ninguém.
— E não achas que roubar a fábrica de alguém é atentar contra a sua liberdade?
— Não é roubar, é pôr ao serviço da comunidade — a começar pelos que lá gastaram o seu esforço, o seu tempo, as suas vidas —, o que alguém explorou e abandonou. Não é a sua fábrica, era a sua máquina privada de sacar mais-valias.
 
— Não vês que tudo isto é apenas um remoinho passageiro!? Não vês qual é a ordem natural das coisas? Quando a poeira assentar, volta tudo ao que era. E então, tu estarás perdido.
— Não me vão prender por tentar ajudar a pôr a fábrica a funcionar outra vez, está descansado!
— Não é dessa perdição que eu estou a falar. — E continuou a pôr água na fervura revolucionária: — Quem me mandou não gosta de rebeldes. Gosta que a hierarquia esteja muito bem definida e que o de baixo não desobedeça ao de cima. Gosta que a moral e a religião sejam o guia das nações e que os seus dirigentes sejam austeros, mas bondosos, como os pais são para os filhos. Agora, tu és um filho pródigo que não respeita o seu pai.
 
 
 
Joaquim Bispo
 
Imagem: “Kouros” de Kroisos, Anavyssos, c. 530 a.C., Museu arqueológico de Atenas.
 
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publicado às 22:33

O artista que se chamava Prince

por Jorge Soares, em 21.04.16

prince-purple-rain-ws-710.jpg

 

Imagem de aqui

 

O artista que se chamava Prince...

 

 

 

As pessoas morrem, a sua arte perdura enquanto houver quem continua a desfrutar dela

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:53

brasil.jpg

 

Imagem de aqui 

"impeachment"

Acto ou processo legal que pretende a destituição de alguém de um cargo governativo. = IMPEDIMENTO

In Priberam



 
O Brasil estará a passar por um dos piores momentos da sua história política, o que o mundo pode ontem presenciar em vivo e em directo pela televisão, é algo que todos julgaríamos impensável num país ocidental e democrático.
 
Independentemente de acreditarmos ou não que Dilma Roussef seja mais ou menos culpada, e eu acredito que ela tenha culpas no cartório e para mostra basta relembrar o caso recente do telefonema para Lula da Silva sobre a sua nomeação como ministro (auto link), aquilo a que o mundo assistiu ontem é inenarrável e inacreditável.
 
Durante mais de duas horas assistimos a um desfile de políticos (???) em que cada um utilizava os argumentos mais inacreditáveis para votar com Sim ou Não o seu apoio ou rechaço ao processo que visa a destituição de Dilma Roussef do cargo de presidente do Brasil.
 
Durante a votação foi possível ouvir as maiores barbaridades, sendo que em muitos casos foi  possível ouvir de dois deputados que falaram um a seguir ao outro, exactamente os mesmos argumentos um para votar Sim e o outro para votar Não.
 
Muitas vezes falamos sobre o nível, ou a falta dele, dos deputados e políticos portugueses, bom, está visto que o nosso nível de exigência é mesmo muito alto.
 
Li algures que o Brasil é um país laico, bom a julgar pelo número de deputados que  usaram o nome de deus e as mais variadas igrejas para justificar o seu voto, ninguém diria. De resto, deus, uma qualquer seita ou religião, a família, os filhos, os netos, as mulheres, houve um senhor que falou em nome das tias, tudo serviu como pretexto para justificar o sentido de voto. No momento mais baixo e inacreditável da votação, o deputado Bolsonaro  dedicou o seu voto ao fascista que durante a ditadura torturou Dilma e lhe enfiou ratos na vagina.... e acreditem ou não, a turba (sim, porque mais que um congresso de deputados aquilo parecia uma turba enraivecida) aplaudiu e vitoriou.
 
Curiosamente não ouvi ninguém fundamentar o seu voto, já fosse a favor ou contra, com os factos de que Dilma estará a ser acusada...  sinceramente fiquei com sérias dúvidas  se muitos dos que iam dando a sua opinião saberiam do que se tratava, para além de tirar Dilma e o seu partido  do Governo e colocar lá alguém de quem gostem mais.
 
Hoje a meio da tarde alguém me fez chegar um artigo escrito por Arnaldo Neto para a revista Online Pazes, que tem por título :Envergonhado dos nossos Deputados? Nele, com um "exercício de realismo político" é nos explicada a forma como no Brasil são eleitos políticos e deputados... 
 
Aconselho vivamente a sua leitura, é extremamente esclarecedor sobre a forma como a maioria daqueles senhores, que com muita incredulidade vimos e ouvimos ontem, chegaram e se mantém no poder.
 
A verdade é que todos eles foram eleitos democraticamente e estavam ali a representar os seus eleitores, eu não sou brasileiro, mas confesso que se fosse teria vergonha de votar na maioria daquela gente.... cada um tem os políticos que elege, mas convenhamos que ninguém merece tal coisa. Pobre Brasil.
 
Jorge Soares
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publicado às 21:49

Conto - “A infinita fiandeira”

por Jorge Soares, em 16.04.16

fiandeira.jpg

 

A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.


E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem nem finalidade. Todo bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatias funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.

Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.

– Não faço teias por instinto.
– Então, faz porquê?
– Faço por arte.

Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:

– Minha filha, quando é que acentas as patas na parede?
E o pai:
– Já eu me vejo em palpos de mim…
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
– Estamos recebendo queixas do aranhal.
– O que é que dizem, mãe?
– Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.

 

Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.

– Vai ver que custa menos que engolir mosca – disse a mãe.

E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?

A aranhiça levou o namorado a visitar sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.

A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Qaundo ela, já transfigurada., se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?

– Faço arte.
– Arte?

E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados de obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

 

Mia Couto

No livro “O Fio das Missangas”

Retirado de Revista Pazes

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publicado às 21:13

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