Sab
19 Abr
2014

Eucaristia

 

Bárbara ama seu esposo. Mas deseja muito mais.

 

Nem ela sabe o que sente. Filhos e esposo não desconfiam da languidez dos pensamentos. O companheiro não usa como ela os porões da alma. Seu fascínio é arranhado pelas forças externas e por ela mesma, que não se desvenda.

 

Bárbara aclama São Jorge. Não há manifestação em que acredite mais, em que confie tanta profundeza e pele. As vizinhas foram se aproximando pelas respostas que nutriam alguma coisa, elas não sabiam o quê. Bárbara nunca soube de sua importância e assim foi melhor.

 

Acordou cedo, as pálpebras se abriram para o branco do teto, nem eram seis da manhã. Os ombros ajeitaram a cabeça dando a visão das samambaias que choravam do vaso ao chão. Levantou. Banhou o corpo com água quente. Passou um café forte acordando pelo cheiro a família. O chefe da casa saiu para o trabalho vestindo duas tonalidades de azul, cores que a empresa exigia de seus motoristas. Com cinco salários não era possível saciar os desejos de uma mulher e dois filhos. Por isso, Bárbara vende bijuteria e lingerie para as vaidades. Rendas beges, correntes e pingentes de bonequinhos representando a prole.

 

Sabia-se o sexo da ninhada pelo colar folheado a ouro. Bastava uma delas usar algo diferente para que desencadeasse uma uniformização no bairro. Unidas as mulheres. Quarentonas, dissolviam as tensões na calçada mesmo, debaixo do sol quente, conversando sobre violência, orixás e homens.

 

Desde a infância, Bárbara segue procissão pelo Santo Guerreiro. Caminha surda para os batimentos cardíacos do mundo. Caminha como sangue nas veias daquele que entrega a própria espada.

 

A chapa delgada e fria estanca a fome dos demônios.

 

O Guerreiro recebe glórias numa mesinha, baseada no corredor entre quarto e banheiro, é iluminada por grossas e brilhantes colunas de cera. Bárbara bate os joelhos em frente ao altar todos os dias, o cavaleiro de gesso repousa num tecido urdido por suas mãos.

 

A fé é seu pilar central.

 

Não teme a morte do corpo, mas as necessárias para se encaixar na órbita dos elétrons, no eterno.

 

O filho mais velho sugeriu ao pai que levasse a mãe ao médico, assustado que estava com o olhar longo e fixo que Bárbara dirigia durante horas para o altar.

Não havia nada de estranho na família, aliás, uma família exemplar com as conveniências sociais. Nenhuma doença que entregasse alguém para a morte, nenhum acidente, nenhuma ruptura. Nada que justificasse tal isolamento intenso e estranho.

 

Algo faz retorcer seu corpo nas oito horas em que dorme, assim igual só o parto. Quando não se lembra dos sonhos, amanhece preenchida de amor.

 

Quando se recorda, fica desperta, assombrada. Com medo do esposo, sente que o traiu deitada ao seu lado durante aquelas oito horas. Padece com a distância entre o sonho e o marido. Olha para o companheiro e vê em si a mãe virgem e idolatrada, a culpa seca seus fluidos corporais. Mas só quando olha para ele.

 

Por onde andará sua alma nas oito horas em que dorme o corpo?

 

Plena ou assombrada isola-se naquele corredor estreito para orar sem se importar com a passagem de quem quer que seja.

 

Na noite deste dia em que o filho se preocupava com a mãe, Bárbara sonhou mais uma vez, passou seu corpo de sonho por entre as grades do inconsciente. Lá, nas temidas delícias, Bárbara vestiu um longo azul. O cabelo era de negro mistério e macio de veludo toque. Sentou-se na perfeita arquitetura, no banco de uma capela.

 

Sua respiração se ordenou em palavras cantadas. Pontos cantados. Orava hipnótica melodia. As mãos espelhavam um lago, podia fertilizar com a pupila, irradiava. A capela a guardava da maldade não natural das coisas, daqueles que queriam entrar nem que fosse à machadada em seu paraíso.

 

Deslizando, saiu do templo para fazer as curvas do jardim. Mas um estrondo a interrompeu, na linha que destoa céu e terra, o dragão. A cauda réptil podia cortar até o nunca mais, sem chance de coagulação, de uma conciliação entre glóbulos brancos e vermelhos.

 

Aproximou-se de Bárbara.

 

E então, homem e cavalo cruzaram o caminho do irascível.

 

Vestindo metal, São Jorge dava a sua misericórdia. A lança afiada perfurou as asas do dragão, sem o domínio dos ares, o diabo desistiu de beber no cálice de Bárbara.

 

São Jorge seguia a brisa vinda dos cabelos dela, perfume. Estava embriagado pelo fermento das uvas de Salomão.

 

Abraçada pela emanação, ela sabia que era seguida. Não fazia ideia de que aquele homem romperia o resto dos seus himens, membranas que a botavam em cápsula. O leste soprou as mechas negras da devota, São Jorge contemplava vestido e cabelos ondulando como o mar.

 

Entraram e fecharam as portas da capela.

 

Abrigaram-se no santo ninho e materializaram a completa união. Quando se tocaram os corpos, nada foi capaz de estagnar as forças. Acenderam a fornalha para a mistura das divinas substâncias.

Andréa del Fuego

(Minto enquanto posso)

 

(Ilustração: Anthony Christian - Lucinda)

 

Retirado de Trapiche dos outros


publicado por Jorge Soares às 21:04
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Qui
17 Abr
2014

Gabriel Garcia Marquez

 

 

Tudo começou com "O rastro do teu sangue na neve", um conto que encontrei nas páginas centrais do Diário de Caracas, eu teria 13 ou 14 anos e aquelas duas ou três páginas magistralmente escritas deixaram-me para além de uma enorme angustia pelo desenrolar da história, uma curiosidade ainda maior sobre o autor.

 

Seguiu-se La Hojarasca (a revoada) e a seguir Cem anos de solidão e depois muitos outros, não tenho a certeza mas acho que li todos os livros publicados por ele, incluindo alguns de contos de que não tinha ouvido falar e que encontrei nas prateleiras da biblioteca da Universidade central da Venezuela.

 

Morreu um enorme escritor, o expoente máximo do Realismo Mágico, um género literário que caracterizou a literatura da América latina do último quarto do século XX e que levou ao mundo uma visão muito própria do povo e da cultura dos países da América central e do Sul.

 

Garcia Marquez era um escritor extremamente descritivo que nos conseguia levar até dentro dos seus livros de uma forma em que quase conseguíamos sentir os cheiros e as cores. 

 

Vencedor do prémio Nobel em 1982, morreu hoje na cidade do México aos 87 anos, o mundo em geral e a literatura em particular ficaram hoje muito mais pobres.

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:13
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Sab
12 Abr
2014

 

 

Eu tenho essa dor funda e molhada, espalhada, ardida, gelada. Que a gente quando fica muito tempo no mar se destempera. Encaranga, mesmo. E eu não sei viver noutro lugar nem doutro jeito. Até sou homem de chão, de areia batida, mas bem antes de raiar sol já arremanguei as calça e empurrei o caíco pra dentro da lagoa atrás de camarão. Todos dia é assim. Tenho uns companheiro de arrasto, é verdade, mas é solito que gosto de ir. Pro mar. Fico sozinho, organizando as ideia, até sentir falta da mulher, da comida da mulher, da cama com a mulher. É bom. É difícil, mas é bom. A gente vai levando a vida. Ou ia.

 

Faz um tempo, que eu nem sei dizer quanto, que eu ando na volta. Repito tudo, tudinho mesmo, e me acho aqui, parado, descendo do trapiche, tentando chegar em casa, uma saudade medonha. Não sei que acontece, quando a mulher me vê grita que nem condenada, parece que viu assombração. Diz que é impossível, impossível, que não aguenta o meu fedor, que a virgemaria me leve pro céu, que eu descanse em paz. Não minto, esse berreiro me dá uma gastura. Eu consigo chegar bem pertinho da patroa, quase toco os ombro dela, e então ela se sacode de chorar me mandando embora em nome de Deus. Aí, eu sinto uma tontura e quando me dou conta tô de novo deitado de bruço, emborcado no meio do junco, o vento fazendo bater água na minhas costa.

 

Então, vem alguém de caíco e me desvira no remo, assobia – um curto e dois comprido - para avisar que me achou. O céu por cima é cinza, fumaça, cor da minha alma inchada de tanto molho. Levam o meu corpo para velar, para enterrar, para terminar comigo. Bem rápido para a patroa não me ver assim. Mas eu não sigo. Nem esqueço. Tem muita vida pra viver, peixe pra pescar, a cara do meu filho pra ver, a mulher tá barriguda quase parindo. Preciso ficar. Tento vê ela mais um pouco. Ela me corre. Fico sentado no trapiche de madrugada pensando que acertaram direitinho no nome desse porto: Solidão. Já sei o que isso é. Se não pisasse tanto o peito até que era bonito, as estrela, o vento no nariz, os lampião aceso, ficar sozinho vendo a vida passar sem fazer barulho.

 

E quieto eu me recordo, uma lembrança dentro da outra, que naquela manhã cedinho a mulher me puxava da camisa aberta e pedia chorosa pra eu ficar, que ela tinha sonhado coisa ruim. Na minha frente já iam os outros cinco, pegando as rede, não quero me atrasar. Beijo ela e peço que me espere com tainha ensopada, não vou me demorar. Só que me enganei. Feio. Umas parte do que teve mesqueci, ficou perdida da memória, acho. Teve uma briga, uns vagabundo querendo se criar, meio que lebrinava, era difícil de ver. Me derrubaram com um soco no cucuruto. Não deu pé. Afundei. Sumi. E pronto. Agora fico fazendo esforço de voltar pra minhas coisa, contar do que foi, sarar dessa ferida descascada, mesquentar. Quase dá. Quase. Daí a mulher foge, agoniada, que não pode com o barrigão e os olho branco que fiquei, que assim não me quer mais. E eu volto de onde parei: descendo do trapiche... 

 

Andreia Pires

 

Retirado de Samizdat


publicado por Jorge Soares às 20:59
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Qui
10 Abr
2014

25 de Abril

 

Imagem de aqui

 

 

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República,

aqui representado hoje,

que este país não é seu,

nem do governo do seu partido"

 

Alexandra Lucas Coelho

 

 

Foi ontem que partilhei as palavras da Alexandra Lucas Coelho, num brilhante discurso em que a escritora colocou por palavras dela o que nos vai na alma a tantos e tantos portugueses.

 

Hoje foi noticia o diferendo entre os membros da associação 25 de Abril, a que pertencem os militares que fizeram  a revolução,  e a presidente da assembleia da república Assunção Esteves, a propósito da presença ou não desta associação nas comemorações do 25 de Abril. Quando se festejam os 40 anos da revolução, os militares sentem-se com direito a falar e pelos vistos quem agora mais goza dos privilégios que se conquistaram naquele dia, não acha que isso possa ser possível.

 

De que será que têm medo os deputados e os partidos? De uma nova revolução não será de certeza, é fácil perceber, a senhora presidente da assembleia da República e os deputados tem medo das palavras, não é difícil perceber por onde iria o discurso de quem fez a revolução e dia a dia vai vendo como cada vez estamos mais longe dos ideais de Abril.

 

Ante a perspectiva de um novo discurso como o da Alexandra Lucas Coelho é mais fácil cortar o mal pela raiz e manter tudo controlado com os mesmos discursos de sempre e as mesmas conversas da treta.

 

É fácil mandar a polícia evacuar as galerias cada vez que o povo protesta por mais uma decisão ou uma lei que o irá prejudicar, mas de certeza que não seria fácil mandar calar um capitão de Abril a meio de um discurso, os deputados terão pensado que para grandes males grandes remédios.

 

Senhores políticos o 25 de Abril não é vosso, o 25 de Abril é de quem o fez e é sobretudo do povo... 

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:12
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Qua
9 Abr
2014

Alexandra Lucas Coelho

 Imagem do Público

 

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.

 

Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.

 

Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

 

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

 

Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República.

 

E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

 

Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.

 

Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

 

Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes."

 

Alexandra Lucas Coelho

 

Discurso proferido na entrega do prémio APE pelo romance E a Noite Roda


publicado por Jorge Soares às 21:15
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Seg
7 Abr
2014

Adopção

 

Cada certo tempo recebo um destes mails, normalmente de alguém de um dos programas da manhã ou da tarde, de inicio ainda respondia, pedia desculpa mas não tenho feitio para algumas coisas, ultimamente  na maior parte das vezes já nem respondo, cansa ver os temas sempre apresentados e tratados da mesma forma e quase sempre da forma errada.

 

Hoje chegou mais um desses mails, chamou-me a atenção o seguinte:

 

"Naturalmente, e sabendo um pouco as dificuldades que existem em todo o processo de adopção, gostaria de saber se conhece alguém que esteja, neste momento, à espera de adoptar e que o processo parece não avançar. 

 

A nossa intenção é demonstrar a dificuldade e as burocracias por que passam as famílias que gostariam de adoptar e a força que têm para lutar por algo que, em última instância, estará a ser benéfico para uma criança que vive institucionalizada . Naturalmente, e dada a natureza do referido tema, seria pertinente termos testemunhos de "pais" que estejam, de facto, à espera há muito tempo (mais de um/dois anos)." 

 

Notem o detalhe do "pais" entre aspas. Não resisti e respondi o seguinte:

 

Já passei por dois processos de adopção e a verdade é que há muito pouca burocracia num processo de adopção, um questionário, duas entrevistas e uma visita domiciliária não são muita burocracia. Estamos a falar  da vida de crianças e isso não pode ser visto de animo leve, as avaliações devem ser o mais exaustivas e rigorosas possíveis, aliás, a julgar por alguns casos que vamos conhecendo de vez em quando, se calhar não são o suficientemente rigorosas e exaustivas.

O que faz com que os processos sejam demorados não é a burocracia ou o mau desempenho da segurança social, o problema é que em Portugal há muitos mais candidatos a adoptar, quase 4 mil, do que crianças cujo projecto de vida seja a adopção. A verdade é que em Portugal, feliz ou infelizmente, não há crianças para adoptar.

Há sim em Portugal  muitas crianças institucionalizadas, mais de oito mil, o problema é que 95% destas crianças estão entregues à guarda do estado mas não estão nem nunca estarão para adopção. Aquela ideia de que há muitas crianças à espera de uma família é um mito, uma mentira que é muitas vezes alimentada de forma errada pelas pessoas e pela comunicação social.

Destas crianças todas há algumas, perto de 500 que estão à espera sim, mas são aquelas que não são desejadas por ninguém, aquelas que não estão nos ideais nem nos sonhos dos mais 4000 candidatos de que falei acima. Crianças com mais de 10 anos, crianças com doenças crónicas, crianças deficientes, fratrias de irmãos, crianças de cor, crianças ciganas, etc. Crianças como a do caso de que falei aqui, que apesar de eu ter publicado a carta duas vezes e de esta ter chegado a dezenas de blogs e milhares de pessoas, por aquilo que sei, continua à espera de alguém disposto a amar.

Querem fazer um programa interessante? e desde já disponibilizo-me para participar, façam um em que se dê a voz a estas crianças, um programa em que se confrontem os candidatos que dizem que o processo é moroso e burocrático, com estas crianças e com a sua espera, afinal qualquer uma delas pode fazer com que o processo em lugar de durar anos ou meses, dure dias.

Desculpem o desabafo

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:16
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Dom
6 Abr
2014

Vila Real

 

Imagem do Público

 

É em Vila Real, mas podia ser em muitas outras cidades, no distrito de Aveiro por exemplo há freguesias inteiras em que não há saneamento e água é só a dos poços e furos.

 

No centro da cidade, a cem metros da câmara municipal  e para maior ironia, mesmo por cima dos tubos que levam o saneamento da cidade para a Etar, que fica mesmo ali ao lado, chama-se Rua do Jazigo e em muita coisas continua a viver como vivia em meados do século XX, quando uma boa parte do país não conhecia o que era a iluminação pública ou o saneamento... já não é a época do "água vai", mas se fosse tenho muitas dúvidas que os responsáveis olhassem para eles de outra forma.

 

Quando vejo noticias destas fico sempre a pensar em como em muitíssimos casos não soubemos aproveitar a época das vacas gordas em que parecia que o dinheiro dava para tudo.

 

Nas traseiras da casa dos meus pais em Oliveira de Azeméis está previsto passar a continuação da A32, a famosa e vazia terceira auto-estrada para Lisboa, as outras duas passam uns dez kms para Oeste. Cada Km desta auto-estrada faraónica completamente inútil e desnecessária, custou muitos Milhões de Euros.

 

Curiosamente a aldeia não tem nem água canalizada nem saneamento básico, sendo que a maioria das casas tem fossas rotas mesmo ao lado dos poços e furos de que se abastecem. Há pessoas que continuam a abastecer-se nas fontes, era interessante que alguém analisasse a água que delas brota... ou a dos furos e poços que abastece todas as casas.

 

Não, não estamos a falar de uma aldeia do interior nem de um concelho rural, estamos a falar do distrito de Aveiro e de um concelho industrial. Da varanda da casa dos meus pais vê-se o mar. E não, o problema não é só nesta aldeia, há muitas outras na mesma situação no distrito e pelo país fora.

 

Voltando a Vila Real é interessante ler coisas como esta:

 

“O presidente disse-nos na cara que não fazia nada porque somos poucos e que ao fazê-lo iria dar azo a outras pessoas virem para cá viver.”

 

ou isto sobre os estados dos muros nas traseiras das casas:

 

“Já veio cá o engenheiro da EMAR (Água e Resíduos de Vila Real), o engenheiro da Protecção Civil, já vieram cá todos. Iam lá ver e diziam que eram muitos encargos”

 

Se calhar estão á espera que o muro caia mesmo, mate todas as pessoas que lá vivem e assim resolva o problema.

 

O maior problema deste país é mesmo a mentalidade dos políticos e responsáveis, que em muitos casos parece que saíram mesmo de outros tempos, quando o que interessava era o poder, não as pessoas....

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 21:24
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Sab
5 Abr
2014

 



Era uma vez um rapaz que vivia sozinho no campo e raras vezes ia à cidade. Falava apenas com as cabras, os pássaros e as árvores, a não ser na festa dos rebanhos. Chegado à idade de casar, não conhecia ninguém que quisesse viver com ele, e pensava que todas as raparigas preferiam ficar na cidade, em vez de ir viver para o campo, onde, às vezes, faz muito calor e muito frio, e não há luz à noite. Então o João – assim se chamava o rapaz – foi falar com o rei, dizendo:

 

– Meu rei, já tenho vinte anos e ainda sou solteiro. Não sei de ninguém que queira casar comigo. Peço-te que me arranjes uma noiva para viver, dia e noite, lá no campo onde moro.

 

O rei ficou muito admirado por alguém do seu reino não ter com quem casar e disse:

 

– Daqui a três dias, volta aqui, mas traze a coisa mais bonita que o campo tem, como prenda para a tua noiva.

 

João assim fez. Daí a três dias, voltou ao palácio com um braçado de malmequeres. Ao lado do rei estavam três pretendentes, que ele tinha arranjado, entre as solteiras da cidade. Uma disse:

 

– Não gosto de malmequeres, que me fazem espirrar!

A segunda disse:

– Tenho muitos, lá em casa, mais bonitos que esses!

A terceira disse:

– Os malmequeres são as minhas flores preferidas. Caso contigo.

 

No dia seguinte, fez-se uma grande festa e casaram-se os noivos que, por fim, partiram para o campo. Durante uma semana, viveram os dois muito alegres. Corriam, rebolavam nos prados, jogavam às escondidas e riam-se a valer. Depois, o casal começou a ficar triste, porque esperava que o casamento fosse diferente. A rapariga dizia que o João não gostava dela, o que era um pouco verdade. Achava-a muito delicada, muito “menina da cidade”. Começou a desejar que a sua noiva fosse mais robusta e gostasse de jogar à bilharda, à pedrada, e a outros jogos de rapazes do campo. Resolveram pedir ao rei que os descasasse e lhes arranjasse outros noivos. Assim fizeram.

 

Contaram ao rei o que tinha acontecido e ele ficou muito pensativo. Disse ao João:

 

 – Volta daqui a três dias, mas traze a coisa mais saborosa que o campo tem, como presente para a tua noiva.

João assim fez. Daí a três dias voltou com uma saca de peras, muito cheirosas e suculentas. Ao pé do rei, estavam três pretendentes. A primeira disse:

– As frutas doces fazem-me engordar.

A segunda disse:

– Para comer peras, fico em minha casa!

A terceira disse:

– As peras são a minha fruta preferida. Caso contigo.

 

Assim se fez e, depois da festa, os noivos partiram para o campo. Durante uma semana correram, saltaram, riram e brincaram muito. Depois começaram a ficar tristes. A rapariga dizia que o João já não gostava dela, e era verdade. Achava-a demasiado suave e frágil. Parecia-lhe que havia de preferir uma que fosse mais vigorosa e gostasse de jogar às quedas e ao jogo do pau.

 

Contaram tudo ao rei, que os descasou e que, depois de pensar um bocado, disse ao João:

– Volta cá daqui a três dias, mas traze a coisa mais divertida que há no campo, como lembrança para a tua noiva.

João voltou no dia combinado, com um par de cajados. A primeira das novas pretendentes disse:

– Que jogo tão rústico! Eu só gosto de jogos de tabuleiro.

A segunda disse:

– Que bruto; ainda alguém se magoa!

A terceira disse:

– O jogo do pau é o meu favorito. Caso contigo.

O rei, então, disse:

– Ide para o campo e voltai só daqui a um mês. Se então me disserdes que continuais a querer casar-vos, assim farei, mas só se gostardes de viver um com o outro.

 

Os noivos assim fizeram. Durante a primeira semana, não fizeram outra coisa senão jogar ao jogo do pau. Depois jogaram à pedrada, ao braço-de-ferro e ao salto a pés juntos, zonzos de alegria. João estava feliz. Finalmente encontrara alguém com os mesmos gostos. E também gostava do seu corpo, que era musculado e rijo, à maneira do campo. Passaram a dar muitos beijinhos e decidiram dizer ao rei que, agora sim, estavam bem um para o outro e queriam casar.

 

Mas, antes, a noiva confessou:

– João, eu, na verdade, não sou uma rapariga; sou o filho do rei. O meu pai, avisado por um mágico, fez que eu sempre me tenha vestido de princesa e ninguém no reino sabe que eu sou, na verdade, um príncipe. Quando te vi, gostei do teu ar campestre, e quando soube das tuas dificuldades com as outras raparigas, percebi que talvez fosse eu a pessoa que te pudesse contentar. E realizar-me contigo. Eu próprio, também me queria casar. Então, pedi ao meu pai para me deixar vir para o campo contigo.

 

João, apesar de surpreendido, aceitou e beijou apaixonadamente o amor da sua vida. Estavam ambos felizes e isso era o que na verdade interessava.

 

Quando se completou um mês, voltaram ao palácio e contaram ao rei que estavam decididos a casar. Houve uma grande festa e o rei, em pessoa, casou a princesa com o João, perante todo o povo. Todos se divertiram e um dos mais animados era o rei, que, finalmente, via o seu filho feliz.

 

 

 

–––––––   –––––––   –––––––

 

A perceção tradicional sobre a homossexualidade considerava que esta orientação se devia a erros de educação e outras influências do meio e que, portanto, evitando esses erros e essas influências se obtinham indivíduos heterossexuais, ou que, reeducando os já afetados, seria possível a “cura”. A reflexão sobre esta problemática, no entanto, tem vindo, aos poucos, a considerar que a tendência para se ter atração sexual por pessoas do mesmo sexo tem origem genética, sobretudo. Estudos neste sentido vão sendo divulgados e o crescimento desta conceção na mentalidade geral da sociedade vai fazendo compreender o sofrimento de quem nasce homossexual e se vê discriminado em muitos dos direitos de cidadão comum. Algumas sociedades levam a tentativa de melhorar este estado de coisas às leis.

 

Há quatro anos, o parlamento português instituiu o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. A lei foi aprovada na especialidade no dia 11 de fevereiro de 2010 e entrou em vigor a 5 de Junho. Deste modo, Portugal passou a ser o oitavo país do mundo a realizar, em todo o território nacional, casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo, juntando-se aos Países Baixos (2001), Bélgica (2003), Espanha (2005), Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega (2009) e Suécia (2009). Posteriormente também Islândia (2010), Argentina (2010), Uruguai (2013), França (2013), Nova Zelândia (2013) e Brasil (2013) optaram por semelhante consagração legislativa.

Joaquim Bispo

Retirado de Samizdat


publicado por Jorge Soares às 21:54
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Sex
4 Abr
2014

Coisas, pequenas coisas

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Gosto da Primavera... gosto de pequenas coisas, gosto das cores suaves das pequenas margaridas que nascem nos muros dos campos da minha infância, gosto

 

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:25
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Qui
3 Abr
2014

Removed, uma história de adopção

 

 

Sobram as palavras, para ver e reflectir:

 

 

We made ReMoved with the desire that it would be used to serve in bringing awareness, encourage, and be useful in foster parent training, and raising up foster parents. .
If you would like to use the film for any of these reasons, the answer is yes.


publicado por Jorge Soares às 13:37
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