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Conto:Tentação

por Jorge Soares, em 24.04.10

Teantação

Imagem de Momentos e Olhares

 

Continuação do conto Tentação, pode ler a primeira parte aqui

 

«Perdoe-me, Irmã – murmurei com fingida humildade. – Perdoe-me, mas, quando soube que ia isolar-se do Mundo, eu próprio me senti abandonado... «É que eu, Irmã, conheço como ninguém o abandono e as misérias dos homens. Sou órfão. Nunca conheci pai nem mãe, ou antes, eles nunca me quiseram conhecer, porque me abandonaram... Sou filho do Pecado inconfessável, aquele que só a bondade dos seres votados a Deus pode redimir...»
«Era uma ignominiosa mentira, mas estava disposto a tudo para a enternecer. Na alma das mulheres, mesma a alma das mais puras e indiferentes, há sempre uma porta capaz de se abrir. Pode ser a da Vaidade, a da Ambição, a do Desejo, mas pode ser também a da Bondade. A questão está em descobri-la e saber bater a ela...
«Toda a minha existência – prossegui com voz afectadamente comovida – tem sido uma luta contra esta vergonha oculta e contra o desprezo e a indiferença dos outros. E no fundo, Irmã, apesar da minha aparente vitória sobre a vida – eu que nunca consegui amar, nem ser amado – continuo o mesmo homem perdido…»
«À maneira que ia falando ia espreitando nos seus olhos uma sombra de comoção, o momento crucial que me permitisse avançar mais um passo no caminho tenebroso que estava a trilhar, mas os seus olhos continuavam fixos e imóveis como os duma estátua... «Quando há pouco a vi entrar, Irmã, senti-me salvo... Não sei dizer porquê, mas senti que só a Irmã poderia impedir que eu me precipitasse no abismo que se abre aos meus pés... E agora, que sei o que vai fazer, sinto-me outra vez abandonado e perdido...»
«A minha voz assumira uma inflexão dolorosa e apaixonada e, pela primeira vez, a senti estremecer. A minha eloquência era vil e descabida, mas as palavras, o mais das vezes, não valem pelo que significam mas pelo momento e pela forma como são ditas... Intimamente rejubilei. Ofegante o comboio continuava infatigável o seu caminho através do planalto, e eu senti que era chegado o momento.
«Num gesto enérgico tomei-lhe as mãos, que se abandonaram inertes nas minhas.
«Olhe, Irmã – continuei num tom imperativo e doce – a doutrina de Sto. Agostinho já foi abandonada há muito pela Igreja e só os herejes, como Lutero e Calvino, a perfilharam. Não há predestinação para a santidade, e quem quiser atingi-la tem que a merecer. Para isso, porém, é preciso lutar e sofrer. Mais: é preciso pecar e sofrer o castigo do pecado. Repare bem, Irmã: S. Pedro negou o nome de Cristo três vezes antes de o galo cantar; S. Paulo só o reconheceu na estrada de Damasco; e Santa Maria Egipcíaca pagou com o corpo a passagem para a Terra Santa. Todos eles pecaram e amaram e todos eles alcançaram o Céu.
Acredite, Irmã, Cristo continua crucificado no sofrimento dos homens. E quem quiser sarar as suas chagas tem que se aproximar deles; tem que consolá-los e amá-los... O amor humano é o único caminho para chegar a Deus. Sim, o amor humano...»
«Aproximei a minha cara da sua e num gesto brusco passei-lhe o braço pela cintura. Ela não se defendeu, mas não posso descrever-lhe o pavor que se reflectiu nos olhos... Só sei que esse medo sideral, em vez de me comover, me encheu de um júbilo satânico... «Se és tão poderoso - pensei, num desafio sacrílego – porque não paralisas os meus braços, porque não fazes descarrilar o comboio?...»
«Tinha-a nas minhas mãos, mas tinha-a como uma ave presa nas garras de um gavião: trémula e apavorada. E não era isso que eu queria. O que queria era fazê-la trair o seu sonho, fazê-la pecar também, se não em actos, pelo menos em pensamento. Doutra forma – sentia-o confusamente – o meu acto não passaria de um acto inútil e torpe, e a minha vitória não seria completa. Não; nem sequer seria uma vitória. Aproximei mais a minha cara da sua, e vi-a retrair-se como se o meu hálito a queimasse. Depois, deliberadamente, apertei-a contra o meu peito e poisei os meus lábios sobre os seus. Primeiro com doçura, e depois com violência e apaixonado frensim. Sob o escapulário, sentia-lhe os seios duros e virgens e o coração bater descompassado, e as minhas mãos iam percorrendo sabiamente o seu corpo, procurando acordar, sob aquela camada etérea e divina de pureza, o seu instinto adormecido. Não sei que tempo durou essa abominação; sei apenas que só parei com esse criminoso manejo quando os seus lábios se entreabriram num suspiro e me pareceu – e digo pareceu-me porque penso hoje para minha tranquilidade que me iludi – que ela correspondia aos meus beijos. Continuei ainda com as minhas mãos apertadas nas suas, mas o que havia então em mim, mais do que alegria, era um cansaço terrível, como se viesse a caminhar, desde o fundo do tempo, através dos séculos infindáveis, para regressar a mim mesmo.
«Ela cerrara os olhos, e eu, sem saber como, adormeci. Quando acordei, em Irun, na fronteira, despertado pelo revisor, estava sozinho na carruagem.
«Desci à gare e procurei-a por toda a parte inutilmente. Mas não havia em mim ainda nem angústia nem remorso. Verdade seja que não me recordava dos actos abomináveis que praticara, mas apenas que prometera à Madre, em Burgos, encaminhar-lhe os passos. Foi só em Hendaia, já depois de ter ido à Polícia e à Alfândega, que voltei a vê-la. Estava de pé, encostada a um pilar da estação, com a saquinha aos pés, e um ar absorto. Chamei então por ela: «Irmã Maria Filipe.» Ela encarou comigo sem me reconhecer. Repeti o chamamento: «Irmã Maria Filipe.» Foi como se acordasse de súbito. Olhou-me fixamente, e nas suas feições pintou-se um tal pavor e uma tão desvairada repugnância que retomei imediatamente a consciência do que tinha feito... «Irmã... – murmurei com um desespero sem limites. – Irmã, perdoe-me...» Mas ela não me ouvia: continuava com os olhos fixos em mim e com as feições descompostas. Não sei o tempo que isso durou, só sei que, de repente, ela soltou um gemido e persignou-se. Depois, voltou-se e sempre com a saquinha apertada entre as mãos desatou a fugir pela plataforma como se fosse perseguida pelo Demónio. Ainda quis correr atrás dela mas fiquei paralisado e limitei-me a segui-la com os olhos até a ver perder-se entre a multidão...»
O homem calou-se bruscamente e eu vi o crucifixo tremer entre as suas mãos.
A cabeça descaíra-lhe sobre o peito e ele parecia-me agora um boneco de trapos ou um saco vazio. Eu pela minha parte – tal era o acento de verdade da sua narrativa – sentia-me, ao mesmo tempo, indignado e comovido. Aquele homem causava-me, contraditoriamente, horror e pena. Senti que devia respeitar o seu silêncio mas não me contive:
– E depois?
– Depois... – respondeu com dolorosa humildade – nunca mais a vi, e por mais que o tentasse, directa e indirectamente, nunca mais soube dela. Não sei se é viva se é morta. Mas é como se soubesse. Estou a vê-la, dia por dia, hora por hora, segundo por segundo... Estou a vê-la, senhor, ajoelhada aos pés do confessor, a confessar o meu pecado como se fosse o seu... Estou a vê-la, a sofrer as insónias e os remorsos do meu crime, e a penitenciar-se por ele. Sinto a sua carne rasgada pelos cilícios e a sua alma lacerada pela angústia, e – ai de mim! – não posso fazer mais nada senão arrepender-me. A única ideia que me consola é que eu, com o meu monstruoso crime, talvez tenha concorrido para ela alcançar o céu, e que, no fundo, não sou responsável por ele. Não acha, senhor?

Domingos Monteiro, Histórias Castelhanas

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:21

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