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O coelho de pascoa e a explicação para os ovos coloridos

 

 

Quando eu era pequeno a páscoa tinha dois dias, Domingo e Segunda-feira, nos  tempos da outra senhora, trabalhava-se na sexta e era feriado na segunda, isto porque o padre visitava todas as casas da aldeia, no Domingo ia às que estão a norte do rio Caima e na segunda-feira às que estão a sul. A minha casa era a norte, a dos meus avós paternos era a sul, eu tinha páscoa no Domingo e na segunda.

 

Nesse tempo a páscoa era feita do almoço de Domingo, um dos poucos dias do ano em que se via carne de vaca na nossa mesa, de pão de ló e de amêndoas. As minhas preferidas eram as pequeninas que o meu avô me trazia, mais pequeninas e redondas que as outras, eu gostava porque eram as únicas que em lugar de uma amendoa amarga que eu detestava, tinham um amendoim no centro.. que eu adorava.

 

Com 10 anos o meu mundo mudou, a páscoa na Venezuela era bastante diferente, era feita de coelhinhos que por alguma estranha razão trazem ovos coloridos às crianças, não havia visitas de compasso pascoal nem padres a recolher envelopes com dinheiro, em contrapartida havia um passeio a pé pelo centro da cidade na tradicional e concorrida visita a sete igrejas.

 

Com 20 anos o meu mundo voltou a mudar, mas a pascoa na aldeia também tinha mudado, o feriado agora era à sexta, continuava a haver compasso pascoal, mas agora raramente víamos o padre, quem transportava a cruz era algum dos vizinhos.. é claro que o envelope com o dinheiro continuava a ser recolhido..  há coisas que não mudam. E claro, continua a haver amêndoas, muitas mais e de muitos mais tipos, não há muitos coelhos, mas em contrapartida há muitos e muito maiores, ovos de chocolate.

 

As origens da páscoa remontam à antiguidade, era a festa das flores e da fertilidade, com o cristianismo tornou-se a festa da morte e da ressurreição, agora é a festa do fim de semana prolongado e dos ovos de chocolate. Alguém me explica o que se passou entretanto? O que tem a ver coelhos com ovos de chocolate coloridos e o que tem tudo isto a ver com a pascoa?

 

De resto, vou de férias para o litoral alentejano, para longe de tudo isto....  boa páscoa a todos... divirtam-se

 

Jorge Soares

PS:Só encontrei a imagem no fim de ter escrito o post.... mas vai de aí... e explica-se alguma coisa

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publicado às 21:37

Se eu podia viver sem a Bimby?

por Jorge Soares, em 30.03.10

Se eu podia viver sem a Bimby?.....

 

 

Antes de mais, queria recordar que cá em casa quem cozinha sou eu, desde que nasceu a R. há uns 10 anos que é assim, de tal modo que quando eu por algum motivo não estou, os meus filhos tem saudades minhas e dos meus pratos. Mas eu sou um daqueles cozinheiros que é incapaz de fazer duas vezes o mesmo prato da mesma forma, eu cozinho com o que tenho à mão no momento, sem medidas certas, sem ingredientes certos e sem a menor ideia sobre os tempos, passo a vida a inventar e a verdade é que a maioria das vezes me saio razoavelmente... ou não estivessem as minhas receitas entre os posts mais visitados deste blog. Haverá muita gente enganada... mas ainda ninguém se queixou.

 

Durante muito tempo achei que a Bimby era sobretudo algo que para a maioria das pessoas seria muito caro, para mim era, dar 1000 Euros por uma panela convenhamos que está assim para o fora de mão, por muito que a panela faça bolinhos e tire cafés (não, não tira mesmo) ..... principalmente quando já temos as panelas todas que precisamos. É claro que na altura participei activamente em todas as conversas possíveis e imaginarias sobre o assunto, até no grupo de mail sobre adopção isto foi tema para muitos mails.  E confesso que tendo provado dois ou 3 pratos preparados pela coisa... não fiquei convencido, principalmente porque eu gosto de comida apurada... o meu frango guisado demora uma hora a ficar pronto... mas garanto que ninguém sai daqui a dizer que não estava delicioso... apurado. Ora, para mim a Bimby era uma panela de pressão um bocadinho mais evoluída...e eu não gosto nada de cozinhar à pressão.

 

Ante esta minha forma de pensar, demorou principalmente porque quem cozinha sou eu, mas era mais ou menos inevitável que ela cá chegasse... foi oferecida e também já não havia forma de rejeitar, e agradeço de coração o presente.

 

Primeira consequência da chegada do novo brinquedo..... passei a cozinhar menos vezes... eu sou mau a seguir receitas, lembram-se deste post? Estes dias a P. saiu-se com esta:

 

-Tenho que dizer à minha mãe que tenho que ter cuidado com os presentes dela.... este fez com que eu voltasse à cozinha.

 

Hummm, ponto a favor da Bimby.

 

Passados uns 15 dias a minha opinião não mudou muito, é verdade que é uma coisa versátil, para uma coisa tão pequenina consegue fazer muitas coisas, e a verdade é que os sumos, os batidos, os gelados, a maioria das sobremesas, são excelentes... mesmo. Por outro lado, uma panela em que conseguimos num dia fazer pão e piza para o jantar, no dia a seguir conseguimos fazer lombo de porco inteiro e no dia a seguir peixe ao sal... convenhamos que é uma panela especial... quanto a versatilidade e a utilidade.. estamos conversados.

 

É uma máquina perfeita?... não, não é, nós somos latinos, gostamos da cozinha mediterrânica e de sentir os sabores; azeite, alho, coentros, salsa, chouriça, louro, alecrim, manjericão, ervas aromáticas... são tudo sabores que nos habituamos a sentir na nossa cozinha... e desculpem lá, mas nos cozinhados da Bimby.. é muito difícil sentir os sabores. O principio básico da maquina é a indução, as coisas aquecem e cozem rapidamente, ficam tenras e bonitas.... mas por mais que os ingredientes lá estejam todos, não há tempo para apurar os sabores....

 

No outro dia quando fiz o lombo de porco enganei-me na receita e coloquei todos os ingredientes no inicio, o lombo esteve 50 minutos a cozer ao vapor, ficou razoável, mas nem assim ficou apurado. Estava bom, mas não tinha nada a ver com o meu lombo de porco com laranja que fez a delicia de vários dos meus leitores....

 

Resumindo, se eu podia viver sem a Bimby.... não sei, era a mesma coisa?, não, não era... mas a comida era mais saborosa.....  havia menos doces, menos sumos e sobremesas... e quem sabe é agora que definitivamente, me converto à cozinha de bolos... isto se conseguir recuperar o meu lugar na cozinha.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:44

Sobre a adopção em Cabo Verde

por Jorge Soares, em 28.03.10

Crianças de cabo verde

 

Nós por cá tudo bem, a D. continua uma menina comilona e bem disposta mas esta semana entrou na fase das birras, não gosta de ser contrariada e quando o é, lá mostra o seu mau feitiozinho... há por aí quem diga que é do nome, que há por aí outras D. que também são assim... não, não são teimosas, são persistentes... pontos de vista.

 

Uma das coisas que mais me tem perguntado é se ela estava numa instituição... não, não estava, em Cabo Verde há muito poucas instituições, e que eu tenha conhecimento, nenhuma das crianças que foram adoptadas por portugueses veio de uma instituição. A D. estava com uma família amiga.... amiga da família dela que não tinha condições para a ter.

 

As adopções em Cabo Verde tem muito pouco a ver com o que estamos habituados por cá, cá por norma as crianças estão institucionalizadas e é decretado um projecto de vida que passa pela adopção. Em Cabo Verde são as famílias que ante a impossibilidade de criar os filhos com um mínimo de dignidade e condições, decidem entregar as crianças para adopção.

 

Para isto dirigem-se ao tribunal e dizem que as querem entregar. E as crianças continuam a viver com a família até que ocorre a audiência e o juiz decide entregar a confiança judicial aos candidatos a adoptar. E são os pais, ou em casos como o da D., as pessoas que tratam das crianças, quem as entrega a quem as vai adoptar.

 

No outro dia falava com uma amiga que adoptou uma criança cá, por sinal uma menina com a idade da D. e também mulata, e ela dizia-me que não seria capaz de passar por uma situação destas. Acredito que não. A nós a D. foi-nos entregue no escritório da advogada, mas muitas vezes a entrega é feita pelos pais e ocorre em casa das crianças, com os irmãos, os amigos, os vizinhos, a presenciarem.

 

Não é uma situação fácil e muito menos quando as crianças já tem 4 ou 5 anos e já sabem o que se está a passar. Imaginem o que é retirar uma criança do seu ambiente natural, da sua família.. é difícil de imaginar, e muito mais quando sabemos que as crianças não são vitimas de maus tratos, nem de abandono... No fundo, é um acto de amor, a maior parte destas crianças vem de famílias com 8, 9, 10... já soube de um caso de uma mãe que entregou o seu vigésimo filho... mas as pessoas tem dignidade...e amor pelos filhos, não tem é efectivamente condições para os criarem.. e decidem que elas estarão melhor com alguém que tenha condições a amor para lhes dar.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:30

A gorda indiana

por Jorge Soares, em 27.03.10

Mulher gorda

 

- “Quero ser como a flor que morre antes de velhecer”.


Assim dizia Modari, a gorda indiana. Não morreu, não envelheceu. Simplesmente, engordou ainda mais. Finda a adolescência, ela se tinha imensado, planetária. Atirada a um leito, tonelável, imobilizada, enchendo de mofo o fofo estofo. De tanto viver em sombra ela chegava de criar musgos nas entrecarnes. A vida dela se distraía. Lhe ligavam a televisão e faziam desnovelar novelas. Modari chorava, pasmava e ria com sua voz aguçada, de afinar passarinho. Nos botões do controlo remoto ela se apoderava do mundo, tudo tão fácil, bastava um toque para mudar de sonho. Rebobinar a vida, meter o tempo em pausa. Afinal, o destino está ao alcance de um dedo. Moda ri, de dia, nocturna. De noite, diurna. No ecrã luminoso a moça descascava o tempo. Tanta substância, porém, lhe desabonava a força. A gorda não se sustinha de tanto sustento. Não tinha levante nem assento. Desempregada estava sua carne, flácido o corpo em imitação de melancia recheada. Uma simples ideia lhe fazia descair a cabeça. Já a família sabia: se era ideia bondosa descaía para o lado esquerdo. Ideia má lhe pesava no ombro direito. 
Em abono da estória se diga: ela se sujava ali mesmo, em plenas carnes. À hora certa, um empregado lhe vinha lavar. Despia a moça e lhe pedia licenças para passar toalhas perfumadas pelas concavidades, folhos e pregas. Lhe pegava, virava e desfraldava com o esforço do pescador de baleia. Depois, lhe deixava assim, nua, como uma montanha capturando frescos. Por fim, lhe ajudava a vestir uma combinação leve, transparente. O empregado nem era delicado. Mas ela se amolecia com o roçar das mãos dele. E adormecia, controlo remoto na mão. Para não definhar, longe das vividas vistas, lhe abriram uma janela no quarto. Partiram a parede, levantaram tempestades de poeira. Impossível de ser deslocada, cobriram a gorda com um plástico. Modari espirrava em soprano, mais aflita com o aparelho televisivo que com seus pulmões. 
Certo um dia ali chegou um viajeiro. O migrante lhe trouxe panos, cores e perfumes da Índia. Era um homem sóbrio, sozinhoso. Ele a olhou e, de pronto, se apaixonou de tanto volume. - “Você tem tanta mulher dentro de si que eu, para ser polígamo, nem precisava de mais nenhuma outra”. 
O homem amava Modari mas tinha dificuldade em chegar a vias do facto. Com paixão ele suspirava: “se um dia eu conseguir praticar-me com você!...”. Mas ele devia atravessar mais carne que magaíça mineirando nas profundezas. 
- “De hoje em diante não quero nenhum empregado mexendo em você”. 
Ele mesmo passou a lavá-la. Modari se tornou muito lavadiça e o homem lhe enxugava, aplicava pós medicinais, esfregava com loções. Foi num desses lavamentos que o acto se consumou. O visitante lhe empurrou as pernas como se destroncasse imbondeiros. Fizeram amor, nem se sabe como ele conseguiu descer tão fundo nas grutas polposas dela. Modari, a seguir, se sentiu leve. Controlo remoto na mão, ela então tomou consciência que, em nenhum momento do namoro, havia largado a caixinha de comando da televisão. Assim como estava, besuntada de transpiros, fez graça: - “Meu amor, você prefere quê: entalado ou enlatado?” 
Ela se encontrava tão ligeira que experimentou levantar o braço. E conseguiu. Deliciada, ficou marionetando os dedos no alto. Na noite seguinte, voltaram a fazer amor. E nas restantes noites também. Então, Modari se deu conta que, de cada vez que amava, ela emagrecia aos molhos vistos. Passados dias, já Modari se levantava da cama e ensaiava uns passos na ampla sala. O amante, reiquintado, parecia mais insatisfeito que abelha. Amava que se desunhava. Seu coração sofria de acesso de excessos. 
Um mês depois, Modari até dançava. Esbelta, desenhada a osso e linha. Centenas de quilogramas se haviam evaporado, vertidos em calor e nada. Modari se ocupava em reduzir saris, apertar vestidos, acrescentar furos no cinto. A família, no início, se contentou. Mas, com o tempo, deixaram de celebrar aquela mudança. Modari se escaveirava, magricelenta. Das duas nenhuma: ou ela estava doente ou amava em demasia. 
- “Demasia?” 
Modari rejeitou conselho. Que o amor é como o mar: sendo infinito espera ainda em outra água se completar. Não abrando, gritou ela. E foi falar com seu homem que complacentou: amar-se-iam sempre, mas ela que deixasse na cabeceira o controlo remoto. Pelo menos durante o enquanto. Entre risos e lábios, se entrelaçaram. Pela primeira vez, nessa noite Modari sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. Lamina e veludo, qual dos dois no beijo a gente toca? Asfixiação boca a boca: isso é o beijo. No dia seguinte, Modari, minusculada, dispensava peso. Nunca se viu mulher em estado de tal penúria de carne. A ponto de o seu amante ter medo: 
- “Não, Moda ri, não lhe devo tocar, seu corpo já não dá acesso ao amor”. 
Modari sorriu: o seu amante receava que ela morresse? Lhe apeteceu responder que, por causa do amor, ela estava vivendo, ao mesmo tempo, infinitas vidas. Para morrer, agora, seriam precisas infinitas mortes. Em vez disso, perguntou: 
- “Não lembra que, antes, eu desejava ser flor? Pois, me responda: não lhe sou perfumosa?” 
Ele lhe pegou as mãos como que se colectasse coragem. E anunciou que, em sendo outro o sol, ele deveria seguir comprida viagem. 
- “Amanhã, meu namorzinho”. 
Modari se afastou, crepuscalada. Ficou assim, ocultada, despresente. O homem pensou que ela estivesse lagrimando. Súbito, porém, ela se voltou, operando risos. Agitando o controlo remoto na mão, desafiou:- “Venha apanhar este seu rival. Venha seu ciumento!” 
Ele a tomou nos braços e a acarinhou, cedido, sedento. Os que beijam são sempre príncipes. No beijo todas são belas e adormecidas. Como que dormida, a indiana se rendeu. No fim, o homem olhou surpreso os seus próprios braços. Não havia nada, ninguém. Modari se extinguira. Seu corpo saíra da vida dela, o tempo se exilara de sua existência. A indiana se antigamentara. O homem ainda escutou, algures na sala, tombar a caixinha do controlo remoto. 

Mia Couto, Contos do nascer da Terra

 

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:00

Filhos são cadilhos.... falemos de sexo!

por Jorge Soares, em 25.03.10

 

 

Falar de sexo com os filhos

 

Imagem da Internet

 

 

O post de ontem da Cigana, para além de me levar há uns 30 anos atrás a uma aula de electricidade no 7º ano, deixou-me a pensar, afinal, eu tenho dois filhos quase adolescentes e mais cedo que tarde, vou dar por mim a ter que enfrentar a situação. E lembrei-me da aula do 7º ano, porque tínhamos um professor com ideias de esquerda e nada conservador, que numa das aulas em lugar de falar de corrente eléctrica e resistências, decidiu falar-nos da vida e recordo perfeitamente a forma como ele descreveu como tinha tido uma conversa sobre sexo e contraceptivos com a filha de 14 ou 15 anos...demais está dizer que todos prestamos absoluta atenção.

 

Dos meus tempos de adolescente não me lembro de alguma vez alguém ter falado comigo do assunto, felizmente no 9 ano havia uma disciplina que se chamava Puericultura  onde aprendi tudo o que havia a saber sobre contraceptivos, algo sobre sexualidade e relações entre as pessoas, já fossem hetero ou homossexuais, que a professora era toda prá-frentex e para ela não havia questões tabus, respondia a todas as perguntas e sem muitos rodeios, e como éramos curiosos.  E até ser adulto, tudo o resto que aprendi sobre sexo foi por mim, já fosse a espreitar uma que outra revista que alguém conseguia comprar, ou na conversa com colegas e amigos.

 

Muita agua passou por debaixo das pontes desde então, mas não me parece que as coisas tenham mudado assim tanto,  vivemos numa sociedade e uma cultura em que o sexo é um tema que não é para falar abertamente, na maioria das escolas não há educação sexual e em casa não se fala do assunto, pelo menos não tão abertamente como se deveria falar.

 

A Cigana tem dois filhos e a situação de que ela fala no post foi tratada desde um ponto de vista claramente masculino, mas será que se em lugar de um filho ela tivesse uma filha a abordagem seria a mesma? e seria da mesma forma? E será que as mães das colegas do filho dela falaram assim com as meninas? e ficam tão descansadas como ela?

 

Eu tenho uma filha e um filho que tem 6 meses diferença de idade entre si, eu diria que falar com os dois ao mesmo tempo está fora  de questão, existe uma enorme diferença no desenvolvimento e de amadurecimento, mas não fosse isso, acho que sim, que a conversa deveria ser a 3 e que os conselhos para um deveriam servir da mesma forma para o outro.

 

E vocês o que acham?, a conversa que a Cigana teve com o filho seria igual se fosse uma filha? e quem já passou por isso, como tratou o assunto?, como se fala com uma filha sobre sexo? e com um filho?... vá, não se acanhem, contem-me tudo!

 

Jorge Soares

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publicado às 22:01

 

Ontem ligaram para a Mãe da escola do menino a perguntar se o Bruno tinha ido para a escola com os dentes todos!!!! É só impressão minha ou parece que ainda estão a gozar??? Ontem uma menina deu-lhe um "estalo" que arrancou um dente ao Bruno. Eu chamo a isto um murro. O Tesourinho estáva todo cheio de sangue e por isso tiveram que chamar a Mãe.

 

Depois de se averiguar quem foi, a Mãe falou com a responsável da escola e iriam tomar as medidas necessárias. ...

 

...Hoje quando a Mãe o foi levar á escola, pediu para falar com a professora do menino para lhe explicar o que tinha sucedido ontem, pois já tiha sido quase ao fim do dia, e qual não foi o espanto que ela pura e simplesmente recusa-se a falar com os pais a não ser um assunto muito grave, ao qual a Mãe lhe disse que o Bruno estar a levar todos os dias dos meninos mais velhos não era grave o suficiente... Pelos vistos não... Não aceitou falar com a Mãe. Mas o pior ainda está para vir. Quando ela vinha embora, vai despedir-se do menino e a conversa entre eles foi assim:


-"A Mãmã vai embora Tesourinho. Porta bem."

-"Embora não Mãmã.... meninos batem."

-"Isso foi ontem filho. Hoje já não te vão bater."

-"Sim Mãmã. Murro."

 

E uma menina que lá estáva e viu tudo disse á Mãe que um outro menino do 3º ano passou e deu um murro no Bruno.

 

Pedi autorização para copiar e utilizar o post que podem ler no O Tesourinho, tive que ler e reler mais que uma vez, porque me custava a acreditar que algo assim fosse possível. Na reposta ao meu comentário, a mãe do Bruno diz que os outros miúdos não batem no Bruno por ele ter Trissomia 21, ou por ser de outra etnia..  se calhar é verdade, e também não devem bater por ele ser adoptado, mas é difícil esquecer que tudo isto é verdade.

 

No outro dia eu dizia num post em que falava do suicidio de um professor, que não são só as crianças que são vitimas de bullying, este também afecta funcionários e professores, mas se isto é verdade, o contrário também se aplica, se o bullying existe a responsabilidade também não é só das crianças que o praticam, também é da responsabilidade de funcionários e professores que não se podem simplesmente demitir das suas funções de educadores e fingir que não se passa nada.

 

Quanto a mim, a atitude desta professora é inqualificável, se uma agressão a uma criança que a deixa a sangrar e com medo de ficar na escola não é algo grave, então o que será? É verdade que cada dia é mais complicado ser professor, é verdade que as crianças são cada vez mais difíceis e que cada vez mais os pais se demitem do seu papel de educadores, mas também é verdade que atitudes como as desta professora que se nega a receber uma mãe cujo filho foi enviado para casa a sangrar, não contribuem em nada para melhorar a situação.

 

A responsabilidade por fazer com que as coisas não continuem assim tem de ser de todos nós, e não é olhando para o lado como quis fazer esta senhora, que as coisas vão melhorar, então e se um destes dias uma daquelas criança em lugar de agredir o Bruno, a agredir a ela?, Também vai achar que não é suficiente grave e vai ignorar o assunto? E se for ela a que termine a sangrar?

 

Este tipo de coisas não pode passar em branco, não pode mesmo.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:27

Falemos de beleza...e de mulheres!

por Jorge Soares, em 23.03.10

 

 

Italianas



Tudo começou num post do A Vida de Saltos altos em que se falava do Vaticano e de padres... na verdade o post falava de homens, dos homens italianos e do seu suposto charme e arte na sedução, depois foi a Manu que desde o seu Cantinho para além de confirmar, reforçava esta ideia e enaltecia o ar "saudável" e de novo o charme dos italianos.... que ela se atreveu a comparar com o dos portugueses utilizando um péssimo exemplo... diz lá à tua amiga que tem que saber escolher, né?

 

Não é nada nova esta ideia de que  na Itália abundam os adónis de boas falas e que se não todas, a maioria das mulheres são copias da Sofia Loren em ponto melhor.

 

Eu estive na Itália há uns anos, é verdade que não fui a Roma, logo não vi os padres de que por aqui se fala e não pude comprovar se as freiras também teriam direito a calendário ou não, mas andei por uma boa parte do Norte, incluindo Veneza e sabem que mais, a Sofia Loren se não foi exemplar único, não anda lá muito longe.... e não me lembro de ver por lá mais motivos para olhar duas vezes que  os que se conseguem ver em qualquer cidade portuguesa.. ou seja, as nossas morenas são tão ou mais bonitas que as italianas.... e para quem tanto tinha ouvido falar de italianas glamorosas..a Italia é uma decepção, monumentos.... só mesmo os de pedra antiga..

 

Antes de mais, convém aqui recordar, que eu passei a adolescência em Caracas, que é a Capital do país que de muito longe tem a maior quantidade de rainhas de beleza. Caracas, para além de ser La Capital del Cielo, é uma cidade onde vale a pena passear...

 

De resto, e já que de mulheres falamos, não é verdade que as nórdicas sejam todas loiras, Helsinkia fica bem a norte, mas pelo aspecto fisico, nada distingue as Finlandesas das Portuguesas, nada altas e na sua grande maioria morenas. Mas já que estamos numa de má lingua, sabem aquelas americanas bonitas e de corpo perfeito que vemos nos filmes e nas series?... pois, desenganem-se, só existem mesmo aquelas, o resto..... bom, imaginem o que acontece às pessoas quando só se alimentam a hamburguers, paninis e Coca Cola... pois, isso mesmo.

 

As Chinesas são pequeninas e magrinhas, pelo menos as de Macau e Hong Kong  e acham que bronzeado é sinal de classe social baixa, logo, são bonitinhas... mas pálidas... há umas excepções é claro, principalmente no andar inferior do Hotel Lisboa, onde percebemos que também há chinesas altas... e roupas curtas.

 

É claro que há excepções, e não é preciso ir à América do Sul, bem no centro da Europa há uma cidade em que tudo é monumental, a arquitectura, as praças....e as mulheres... altas, lindas e bem vestidas....

 

Tudo isto para dizer que não, que de italianas nada, e que bonitas bonitas, são as portuguesas... e as mais bonitas do mundo, são as três que vivem cá em casa.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:36

.. Não fales palavras vãs ...

por Jorge Soares, em 22.03.10

 

Não digas ....

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

Não fales palavras vãs.

As palavras do mundo.

Não digas onde começa a Terra,

Onde termina o céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaz-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

Cecilia Meireles in Cânticos

 

Pôr do sol em Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares

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publicado às 22:06

Conto:As velhas são o diabo

por Jorge Soares, em 20.03.10

Ninguém case com mulher velha. As velhas, ainda que pareçam santas, são o demónio. Que o diga o Frederico. Tinha feito casa e perdeu-a por via da mulher, mais velha do que ele trinta anos.

Este disparate de idades pareceu acertado ao Frederico no dia em que se casou. Ele era um rapaz doente e pobre. Tinha-se estreado como cavador, mas não provara bem na enxada. Derreou-o a primeira cava para toda a vida. Era um pelém. Desistiu da vinha e fez-se comerciante. Melhor dizendo, fez-se feirão, porque a palavra, comerciante é fina de mais para se aplicar ao modo de vida do Frederico. Feirão, sim, porque o negócio do Frederico era vender na feira porcos de criação. Achou que fez bem, casando com uma velha, porque essa velha tinha alguma coisa de seu. Podia aumentar-lhe o negócio com o dote e dar-lhe respeito à casa com os cabelos brancos. Embora doente, o Frederico era activo e até ambicioso. Madrugava como um pássaro e só adormecia pela noite dentro, depois de ter feito de cabeça as contas do negócio.
Esta labuta, em vez de o enfraquecer, fazia-o homem. O ar livre, respirado de costas direitas e independente, por feiras e caminhos, abria-lhe o apetite. Não tinha cor, mas, de ano para ano,. ia-se tornando menos seco e mais robusto. Quando casou, já não era o rapazinho débil que a primeira cava derreara. As moças, quando o viram na igreja receber-se com uma velha, exclamaram: mal empregado!
Não há dúvida que o casório do Frederico foi interesseiro. A velha tinha de seu uma casa ampla, situada fora do povo, mas o quintal... era o melhor pedaço de chão da freguesia. De todas as vezes que o Frederico por ali passava a caminho das feiras, namorava a casa e namorava a cerca. Parecia-lhe que as lojas subjacentes ao prédio e aquele gordo torrão ali ao pé seriam boa cama e refeitório farto para o seu gado. Antes de casar com a proprietária, enamorou-se da propriedade.
Que, valha a verdade, a dona de tão bela regalia – casa e quintal – tinha também seu préstimo. Vivia sozinha e sozinha se desembaraçava de toda a sua lida, que não era pequena. Cavava a horta por suas mãos, fazia de comer, lavava os manachos, ia à lenha, ponteava as meias, remendava as saias e cuidava do vivo como ninguém.
O vivo é o porco ou porcos que habitam uma corte. É a biologia sagrada de uma vivenda. O vivo! Significa o ser vivo por excelência. Ora, em sete freguesias pegadas, ninguém cuidava melhor dos entes que grunhem e não vêem o céu do que aquela mulher. O Fredericomercava-lhe as criações a olhos fechados.
Da admiração da obra à admiração da autora mediou um passo. Mulher que tão asseados bichos criava em sua loja merecia que um homem olhasse para ela. Viva! A senhora Aninhas – chamava-se Aninhas – era mulher perfeita.
Destes cumprimentos, destas exclamações sinceras, até ao casamento foi outro passo. A casa, o quintal e a corte passaram por encanto à categoria de empório comercial do Frederico. A loja, povoada de buliçosos bácoros muito limpos, sempre a coinchar com saudades da mama ou fome de lavagem, parecia uma creche de criancinhas ruças. No meio deles, com uma vide na mão, a senhora Aninhas figurava como ama sem touca, mas, com uma habilidade, um dedo para aquilo, que espantava o negociante. Com dois ou três monossílabos e umas cócegas feitas com a vide no serro dos inocentes – assim os comandava.
Era manifesta a prosperidade do Frederico em bens comprados ao redor da casa – hoje uma leira, amanhã uma vinha, depois uma mata. Davam-lhe os vizinhos, em suas avaliações mentais um pouco invejosas, para cima de cem contos. Como o vissem assim, tão aumentado de teres, começaram a chamar-lhe Tio Frederico e até senhor Frederico. Tanto tens tanto vales.
É raro que o homem sofra mais do que uma paixão. A paixão do Frederico era o negócio. Amava a mulher como auxiliar da sua prosperidade. Punha-a, no que é consideração, acima do cavalo que o levava à feira. Extasiar-se, só se extasiava diante dos bácoros, que representavam dinheiro. Chamava-os – bicá, bicá – com ternura utilitária.
A mulher não era assim. Vivia para o marido. Solteira até aos cinquenta anos, delirou quando se viu casada... e casada com um rapaz novo! Cheia de lágrimas de júbilo na face arregoada pelos anos, arrumava a casa e fazia o jantar do marido. Por amor dele, tornou-se avarenta – sem deixar de ser limpa. Queria-lhe como filho e como esposo. Sabendo-o de compleição delicada, alimentava-o a preceito com ovinhos crus furados com uma navalhinha. Obrigava-o a bebê-los assim, que era, na opinião dela, como faziam melhor. À noite, como o sentisse exausto das jornadas, não se punha a maçá-lo com candonguices. Deixava-o adormecer a contemplá-lo como as mães contemplam os filhos adormecidos no colo.
O Frederico nunca se comovia com a ternura da esposa. Estimava-a como consorte, mas não lhe retribuía o dízimo do carinho. O fito da sua vida era o negócio. A esposa, a casa, o quintal, a corte, os bácoros, eram instrumentos do seu ganha-pão. Estava satisfeito, não arrependido de se ter casado. A senhora Aninhas, ainda que velha, era o seu braço direito na luta que travara contra a doença e contra a pobreza. Era sua sócia. Prezava-a como tal.
No dia em que a senhora Aninhas percebeu que não passava de sócia do marido, quis morrer. Lembrou-se do pai e da mãe – teve saudades da vida de solteira. Ter-se-ia arrependido de casar se a não cegasse o orgulho de ter casado com um rapaz novo. Toda desvanecida, evocava a cena do casamento, o nó dado na igreja.
Entretido com o negócio, o Frederico não pensava na mulher. Quando ia pelos caminhos fora, no passo travado do cavalicoque, à cata de porcos finos para criação, pensava em porcos. Nem nas feiras, no auge do barulho, a imagem da mulher lhe acudia. Era um feirão. Movia-o a ânsia de feirar.
Hoje uma vinha, amanhã um campo, depois uma tojeira ou ummatareco, a pouco e pouco o Frederico ia juntando as peças de um casal formoso. Parecia-lhe, de cada vez que comprava uma propriedade, que aumentava a força física. O desaire sofrido na primeira cava ia vingando. Toda a energia do Frederico se aguçava no faro do dinheiro. Sabendo-o casado com uma velha, algumas raparigas novas, vestidas de seda vegetal, diziam-lhe de soslaio a sua graça quando o viam nas feiras. Sem lhes dizer vade-retro, sorriam-lhe de vontade, mas o sorriso dele era indulgente, não conivente com o intuito das moças.
A senhora Aninhas não acreditava na inocência do Frederico. Não compreendia que rapaz tão novo jejuasse tanto. Ela não acreditava. Sentia-se preterida por outra ou outras mais novas do que ela. Chamava nomes feios a estas rivais imaginárias.
Cheirava a roupa do homem, virava-lhe os bolsos do avesso e inspeccionava-os com minúcia para surpreender qualquer pequena prova de culpa marital. Um dia encontrou um pêlo preto aderente ao colete de pelúcio do marido. Pegou no pêlo, aproximou-o dos olhos do marido e exclamou:
– Está aqui, ladrão! Hei-de pô-lo num relicário até a dona aparecer. Quem ma dera pilhar! Este cabelo é de cigana. Gostas de ciganas,ham?
– Ó mulher, isso não é um cabelo. É uma clina do nosso Mulato, explicou, com vontade de rir, o Frederico.
«Olha, mulher, continuou. O Mulato está na manjadoira. Chega-te a ele e verás que lhe adita a clina.»
A senhora Aninhas, meio sorridente, meio confusa, chegou-se a uma janela e soprou o pêlo. Assim ela varresse para sempre os zelos. Que não varria. Debalde defumava a casa. Debalde mandava às bruxas a camisa do homem para análise. As bruxas davam amiga e que eram precisas rezas e esconjuros: terra de cemitério, sal derramado, sapo cozido, etc. Pobre Aninhas! Cumpria à risca a receita das bruxas.
Debalde! Debalde! O seu coração não se aquietava.
Moeu dinheiro a senhora Aninhas para conseguir o apego carnal do Frederico.
Embora... Foi contraproducente esse dispêndio. Ele, que a princípio lhe tolerava os ciúmes, a pouco e pouco os aborreceu. Tanto os aborreceu, que os repeliu certa noite com meia dúzia de socos vibrados no rosto velho da senhora Aninhas. Daí por diante, deixou de dormir com ela. Passou a dormir numa tarimba, na loja do Mulato, por cima da manjadoira.
A casa do Frederico ressentia-se desta desavença. Casa que fora limpa antes de a senhora Aninhas se casar e durante anos depois do casamento, deixou de ser casa para ser montureira. Na corte, os bácoros, deitados em más camas, emagreciam antes de ser vendidos, à míngua de refeições pontuais. Cortava o coração ouvi-los grunhir de fome.
O Frederico, homem que fora casto e trabalhador, amoleceu no negócio e deixou-se seduzir pelas moças que rondavam as feiras com o corpo metido em seda vegetal. Emagreceu como os bácoros. Perdeu o apetite.
A senhora Aninhas chorava do coração a magreza do marido. De noite, não dormia. Espreitava-o da janela do quarto para ver se ele saía da cavalariça ou se metia dentro alguma marafona. Os desvarios do Frederico eram perpetrados em Lamego, na Régua e em Vila Real, durante as feiras. Não tinha pacto com vizinha.
Em vão a senhora Aninhas espreitava o Frederico. Nunca o apanhou com a boca na botija, como ela dizia. Uma manhã porém, da janela do quarto, viu-o cavalgar e partir para uma feira. Responsou-o a Santo António como de costume.
Alongou os olhos no rasto do marido. Pôs-se a chorar. Depois olhou indiferente para umas mulheres que passavam debaixo da janela. Provavelmente, iam também à feira. Deixá-las ir... Lá marchava, a rabo delas, sozinho como sempre, o sapateiro da terra. Amigo de passear, ia à vila por cinco réis de nada. Às vezes ia comprar um novelo de fio. Outras vezes, ia comprar meio quilo de sola. Não tinha quem lho comprasse? Farto fosse ele de passear neste mundo e no outro. Atrás do sapateiro, caminhava uma mulher de idade, com operico do cabelo erecto debaixo de uma mantilha rota. Era a Bártolaalcoviteira. Ao lado da Bártola, a olhar para o chão, ia muito melada aCandidinha beata, rapariga linda e bem feita, mas triste como a noite. Que ia ela fazer ao lado de semelhante coira? Não a enojava a sombra de uma coruja? Qual enojava? Olhou a furto para a cavalariça do Mulato, coseu-se com a companheira e lá seguiram ambas por ali abaixo. Ter com quem? No peito da senhora Aninhas, deu-lhe salto o coração. Tate! A sonsa da Candidinha falava com o seu homem.
Ficou a cismar, sem comer nem beber, presa à janela todo o santo dia. Ali ficou até o escurecer. Viu chegar o marido, passar diante da porta do sapateiro, com um rolo de sola debaixo do braço, e, na cauda do cortejo que regressava à aldeia, a sonsa da Candidinha, pisando a sombra da desavergonhada Bártola. Como de manhã, aCandidinha relanceou os olhos à loja do Mulato.
Presa à janela sem comer nem beber, com o peito arfante contra os vidros, a Senhora Aninhas, ali especada, assim passou a noite.
Rompia a manhã quando saiu da janela. Tocou o sino às avé-marias, rezou pelas bentas almas. Deitou água num alguidar e lavou a cara. Depois saiu do quarto, entrou a uma pequena sala e abriu uma gaveta. Fechou-a outra vez e fugiu para a rua pelas traseiras da casa.Fez isto tão subtil, que nem o marido nem os porcos deram fé.
Caminhou para a aldeia. Entrou numa rua estreita, deu meia dúzia de passos e logo se esbarrou com a Candidinha, que ia para a missa. Nem bons dias, nem boas tardes. Levantou a mão direita, que levava escondida debaixo do avental.
À luz matutina, com um brilho azul, cintilou uma navalha na mão da senhora Aninhas. Foi um relâmpago. A Candidinha caiu redonda, dizendo Jesus e deitando um rio de sangue pelo lado esquerdo do peito. Sangrada, ficou branca como uma açucena.
Quando prenderam a senhora Aninhas, quando a levaram à presença do administrador, quando o carcereiro rodou sobre ela a chave daenxovia, ninguém lhe ouviu um lamento, ninguém lhe viu uma lágrima. Encarava as pessoas com expressão alegre. Voava-lhe ao vento a cabeleira branca como um pendão de vitória.
A senhora Aninhas foi condenada a pena maior. Ao ouvir ler a sentença, deu uma grande risada. Recolheu à cadeia, entre duas praças da Guarda, com a cabeleira branca esvoaçante como um pendão de vitória.
Com a justiça, o homem arruinou a casa, já desfalcada antes do crime por amor dos zelos da senhora Aninhas. No dia seguinte ao julgamento, o Frederico foi à cadeia visitara mulher. Mal que o viu, a velha atraiu-o às grades com palavras meigas. Ele aproximou-se confiado e comovido, mas a senhora Aninhas, em vez de lhe fazer festas, escarrou-lhe na cara e ainda por cima lhe chamou porco.
Chamou-lhe porco e riu-se como uma doida.
Quando o Frederico, de volta ao lar deserto, a pé, que vendera o cavalo, se queixou aos amigos de tanta desgraça junta, consolaram-no os amigos, dizendo:
– Olha, Frederico. As velhas são o Diabo!

 

João de Araújo Correia

 

Retirado de:Contos de aula

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publicado às 21:42

Dar sangue é segurar vidas, desde que não sejas gay

 

Depois de dez anos como dador, André viu-lhe ser rejeitada "definitivamente" a sua dádiva. Motivo? Informou que tinha tido uma relação homossexual. (Noticia do Público)

 

O André é uma pessoa consciente e honesta, durante 10 anos ele deu sangue, este sangue foi analisado, aceite e utilizado, quem sabe se até salvou alguma vida.  De um dia para o outro o sangue do André deixou de servir para salvar mais vidas, porquê?  Porque o André foi honesto e informou a médica que há 15 meses teve uma relação homossexual. Reparem, se ele não tivesse dito nada, o sangue teria sido recolhido, analisado e utilizado e quem sabe poderia ter salvo alguma vida.

 

Agora imaginemos o seguinte cenário; o XXXX é heterossexual, nada de confusões, como todo macho latino que se preza, para além da fiel esposa, que pode não ser tão fiel assim, mas ele acha que sim, tem um arranjinho lá no emprego. Uma miuda gira que para além de com ele anda com mais meia empresa, mas ele não sabe, é claro.

 

Pelo menos uma vez por semana deixa a mulher a tratar dos filhos em casa e vai para os copos com os amigos, e como bom engatatão, trata de mijar fora do penico com qualquer pau de vassoura com saias que lhe mostre os dentes... sem preservativo,  é claro.

 

Como é um bom português, vai dar sangue, como é heterossexual e os comportamentos de risco  (os dele, que os da mulher e da amiguinha  ele nem sonha) não se contam a pessoas desconhecidas, é claro que o sangue dele é aceite.

 

Agora vejamos, qual sangue é mais perigoso, o do consciente e homossexual André ou o do macho latino heterossexual?

 

Isto é discriminação pura por parte do instituto português do sangue, porque nunca ninguém explicou em que se baseia esta regra, mas não é nada de novo,  o mesmo se aplica a quem quer adoptar, não há nada que impeça um homossexual de adoptar, mas basta o candidato dizer que o é, para que lhe seja vedado este direito, em nome de quê?

 

Nós gostamos de ser o país do faz de conta, retiramos os direitos às pessoas em nome de moralismos e hipocrisias, obrigamos as pessoas a mentir e a esconder factos para poderem viver e serem felizes, e depois passamos a vida a olhar para o lado, a quebrar as leis e as regras porque achamos que os limites não são para cumprir, os impostos não são para pagar, etc, etc, etc .... gostamos da mentira e do engano.., raio de cultura esta.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 21:48

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