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Conto: Onze homens cercam mulher na madrugada

por Jorge Soares, em 30.10.10

Rosa...

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Foram ao todo onze homens para uma única mulher, numa única madrugada. "Você pensa que essas coisas nunca vão acontecer com você", a frase típica da mentalidade estreita das classes favorecidas, incapazes de entender que a vida são os acidentes, os imprevistos do meio do caminho. Não é necessário muita filosofia. Uma simples frase de letra de música de John Lennon diz: “a vida é o que lhe acontece enquanto você está ocupado fazendo outras coisas”.

 

Foram onze homens ao todo numa única madrugada. O carro pifou de repente, às duas da manhã na rua deserta, do bairro de classe média. A mulher teve um arrepio de horror: é agora que vou ser estuprada. O carro não respondia, acusando o defeito insondável.

São Paulo, gigantesca, ganhava dimensões assustadoras no eco silencioso da madrugada. O carro, pedaços e partes de lata, ferro e fluidos incompreensíveis, não respondeu.

A mulher desceu, só. Nessas horas, dependendo da mulher que se é, não haverá um homem a seu lado. O dela estava longe, no estrangeiro. Isso dava a exata noção de sua pior solidão. Quando olhava ao redor procurando sinal de vida. sentiu um início de desespero.

 

O carro, mudo, tinha virado um poste de concreto, um pedaço de asfalto, matéria inanimada que antes, funcionando, não parecia — o carro antes parecida gente, um homem grande, que a trazia de volta para casa a salvo. Dele dependia sua segurança pessoal, sua integridade física, sua vida. 

Era um desses casos de defeituosa inserção da tecnologia no domínio global da vida: o crescimento das grandes cidades, a escravização do homem pela máquina, a desorganização social. Ela seria estuprada em plena rua na madrugada.

Mas logo reagiu. Afinal, sempre tinha sido assim. Diante dos supostos perigos noturnos ela tinha, desde menina, desenvolvido fortalezas internas. Sua vida real, na época, era tão ruim que ela não temia sombras ocultas no escuro. 

Sempre enfrentou com desassombro os fantasmas que povoavam a infância. Aprendeu cedo a achar aquilo tudo mentira, pura mentira. Aprendeu cedo a achar que nada podia ser pior do que a própria vida real e as próprias pessoas.

Os primeiros homens para quem acenou por ajuda vinham numa motocicleta. Ela não viu que havia um terceiro a segui-los de carro. Pararam, um deles meio bêbado. Tentaram o tranco, sem violência. Os três seguintes estavam juntos num carro de luxo, que ela avistou de longe. Pararam. Um deles até ofereceu o celular, se ela quisesse pedir ajuda.

Os outros três eram feirantes já montando barracas para a feira do dia. Um deles, negro, fingiu-se de aleijado, saltitando numa perna só, ao perceber que ela vinha pedir ajuda. Ela riu. Os três empurraram o carro ao longo do trecho final.

Os últimos foram o porteiro e o zelador, que terminaram de acomodar o carro na garagem. Sentindo-se uma rainha, ela reprimiu o desejo de beijar na boca todos aqueles homens, gentis servos da noite. Afinal, arre! Como dizia um poeta, ela estava farta de semideuses. Havia, enfim, gente nesse mundo até possível.

 

Marilene Felinto

 

Retirado de Releituras

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publicado às 21:04

Cancro da mama - Prevenir é preciso

por Jorge Soares, em 29.10.10

Cancro da mama

Imagem retirada de aqui:aqui

 

Ainda na sequência do Post de ontem, e porque há coisas que nunca está de mais repetir, vou hoje colocar um post que escrevi aqui no blog em Abril de 2008

 

Quando coloquei o post anterior senti que faltava algo, achei que não consegui passar a mensagem que pretendia, além de mais tive muito problemas em formatar o texto, e saiu mal.


O que faltava está nos comentários, desculpem amigas, eu vou copiar para aqui.

Comentário 1

Bem, como mulher, posso dizer que sei o que é encontrar um nódulo no local onde antes não estava nada... Sei que o são os exames à mama, a espera pelos resultados. Sei o que é ter na família alguém que não foi bem a tempo e ficou sem uma mama, o temor que de tudo se desmorone. Sei o que são as estatíticas, em relação ao meio envolvente e onde se vive, tendo em conta a incidência de casos nas pessoas que vivem na vizinhança, e por aqui tem sido muitos casos, alguns com desfecho triste. Felizmente, o meu está quietinho desde que aqui nasceu, mas a vigilância é regular. Só desejo muita força a quem passa por isso, que é preciso não desanimar, sei que é difícil, mas há que continuar, enfrentar a vida.
Há dias em que quando estou em baixo, tenho medo que possa vir a sofrer mesmo por causa do nódulo que tenho, mas depois sei que estou vigiada e vou pedir ao médico para me mandar para a cirurgia removê-lo, se não estiver cá, não me assusta.

Comentário 2

O cancro bate a qualqer porta, sem aviso, entra sem pedir licença. Custa a ir embora, e nem sempre o faz.
Acompanhei de perto 2 casos, embora não de cancro de mama, e vejo o sofrimento. A dor de quem passa por ele, a luta diária, a dor da familia que não pode fazer mais que dar o seu apoio.
Uma faleceu há 2 anos. A outra, menina com agora 7 anos, luta ainda contra uma leucemia que teima em toldar a sua inocência. No entanto, a felicidade nos seus dias bons, anima quem a vê e quem partilha das suas brincadeiras.
O cancro da maam, como mulher e como mãe, aflige-me. É preciso divulgar sim. É preciso saber que podemos estar atentas, que temos de ver em nós os sinais silenciosos que podem surgir devagarinho.
Obrigada Jorge, por este alerta!

Comentário 3

Já passei duas vezes pelo susto do nódulo da mama. Os nervos de fazer os exames com receio dos resultados. Mas temos que seguir em frente e esperar pelo melhor.
Graças a deus não tenho ninguém com qualquer tipo de cancro na familia da minha mãe ou do meu pai mas nunca estamos a salvo.
Há pouco tempo relatei no meu blog exactamente o que estava a contecer à minha prima que lhe apareceu um nódulo na mama. com a agravante do pai dela ter morrido de cancro e na familia do pai terem morrido vários de cancro e duas mulheres de cancro da mama.
Há que estar alerta para que se estas coisas nos baterem à porta, agirmos de imediato. É horrivel passar-se pelo processo com resultado negativo e nem consigo imaginar como será quando acontece o contrário. Para todas as que estiverem a passar por este processo, muita força e coragem!


A verdadeira mensagem que eu queria passar está aqui, nos comentários. Portanto, toda a atenção é pouca e Prevenir - é preciso,  e:

Para todas as que estiverem a passar por este processo, muita força e coragem!

Jorge


PS:De novo desculpem amigas.... mas a vossa mensagem é muito importante... muito mais importante que qualquer coisa que eu possa dizer.

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publicado às 21:04

Cancro de mama

 

Anualmente, morrem em Portugal 1500 mulheres vítimas de Cancro da Mama. Avós, mães, irmãs, mulheres…

 

O Cancro da Mama também o afecta a si

 

 

Como sabe, Outubro é o Mês de Prevenção do Cancro da Mama. Nesse sentido, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, ao abrigo do protocolo “Tempo de Viver” levou a cabo uma parceria com a Roche Farmacêutica no sentido de sensibilizar a população portuguesa para a necessidade de prevenir o cancro da Mama, estabelecendo assim a Campanha “Amar a Vida”.

 

Numa primeira fase, a Liga Portuguesa Contra o Cancro conseguiu, no espaço de apenas uma semana, angariar 80 mil fãs na sua página oficial do Facebook, o que representou uma doação preciosa de 80.000€ por parte da Roche Farmacêutica.Próximo Desafio? Tornar a página da Liga Portuguesa Contra o Cancro a página com maior número de fãs em Portugal pois consideramos, e acreditamos que partilha da mesma opinião, que a informação é uma poderosa arma contra o cancro.

 

Para isso gostaríamos de contar com o seu apoio na divulgação desta campanha junto dos seus seguidores!

 

O seu pequeno gesto fará uma grande diferença!Agradecemos a sua atenção,

Liga Portuguesa Contra o Cancro

 

http://www.ligacontracancro.pt

 

Página do Facebook da Liga Portuguesa contra o cancro

 

O Post de hoje é para responder a um apelo que me chegou por mail, faço-o com todo o gosto, porque há coisas que nunca são de mais.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:15

Assim se esvazia uma greve geral

 

O secretário-geral da UGT, João Proença, defendeu hoje a aprovação do Orçamento do Estado (OE) para 2011 na Assembleia da República porque, apesar de ser mau "é um mal menor".

 

Pára tudo... mas esta greve geral não era contra as medidas do orçamento?.. e o João Proença não é líder do sindicato que a convocou?

 

Depois disto, alguém ainda acha que a greve serve para algo mais que para pioriar a situação do país?

 

Jorge Soares

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publicado às 14:51

Barriga de aluguer

 

Imagem do DN

 

O assunto apareceu já a madrugada ia alta, tudo a propósito do filho do Cristiano Ronaldo, por aqueles dias falava-se de uma barriga de aluguer, coisa em que eu não acreditava.. também não interessa nada, porque rapidamente deixamos a pobre (rica) criancinha para trás e passamos a discutir o conceito.

 

Dizia a Manu que é contra e que não consegue entender como é que alguém possa fazer algo assim... que ninguém que não seja estéril o deveria fazer, que não é a forma normal de ter um filho, e muito menos se for um pai sozinho a encomendar o filho, dizia ela que um homem não deve ter um filho sozinho... tudo argumentos que para a maioria serão válidos.

 

O nome em Portugal é "maternidade de substituição". Curiosamente, por estes dias no Dias do avesso da antena 1, a Isabel Stilwell e o Eduardo Sá, discutiam o assunto desde outro ponto de vista, principalmente o Eduardo Sá que se colocava no papel da mãe que do seu ponto de vista, vende uma criança.

 

Há muitas formas de olhar para um assunto destes, basta ver um filme ou uma série americana para vermos como este é um conceito comum nos Estados Unidos, tão comum que por vezes é e presta-se a ser, um negócio. Por vezes fico com a ideia de que existem mulheres que fazem disto quase um modo de vida, dar vida a um ser para que uns pais possam de alguma forma ter um filho. Podemos olhar e ver um acto de altruismo, dar felicidade a quem muitas vezes desesperadamente quer o filho que a natureza lhe nega, ou como um acto de egoísmo, gerar dentro de si um ser vivo a troco de dinheiro, muitas vezes muito dinheiro, sem o menor sentimento maternal por esse ser.

 

Não tenho uma opinião formada, qual a diferença entre uma destas mães que aluga o seu útero e outra que simplesmente ficou grávida porque não se preocupou mais que com viver o momento, decidiu ter o filho e depois entrega o mesmo para adopção?... haverá diferença?

 

Qual a diferença entre pegar em dinheiro, muito dinheiro, e ir por exemplo adoptar à Rússia, pagando a mediadores e centros de acolhimento, ou pagar a alguém para que mais fácil e rapidamente se  tenha esse filho?. Afinal, para quem vai criar essa criança não há diferença nenhuma, se a criança vem de um centro de acolhimento onde foi abandonada ou de alguém a quem se pagou.. é um filho, ponto final.

 

Em Cabo Verde em conversa com um dos taxistas, este contava-me o caso de uma mãe que ia a tribunal entregar mais um dos seus filhos para adopção, era  o terceiro processo e a quem a juiza perguntou directamente se ela era barriga de aluguer. Certamente não era, era só mais uma das muitos milhares de mães com uma dezena ou mais de filhos que não conseguem criar.. e que sabe que na adopção garante pelo menos a vida da criança.

 

Sou homem, nunca conseguirei sentir o que é levar um filho dentro de mim, não consigo conceber que se possa sentir tal coisa e não sentir algo por esse ser.. no entanto, já conheci mais que uma mulher que depois dos filhos nascerem, tiveram muitas dificuldades em sentir carinho por eles.. acontece.

 

Uma coisa posso dizer, sou pai adoptivo, e acredito que para mim não faria a menor diferença se os meus filhos tivessem sido abandonados algures ou nascido porque alguém decidiu ser barriga de aluguer..  e imagino que isto será verdade para a maioria das pessoas que adoptam.  A adopção por desejo de ajudar as criancinhas não existe.

 

Barriga de aluguer, será  um acto de altruísmo por quem não consegue cumprir os seus sonhos?, Será um negócio em que alguém se aproveita da ansiedade e do desejo das pessoas que querem ser pais e não conseguem?

 

Jorge Soares

 

PS:Andava à procura de uma imagem para o post..e encontrei este artigo do DN sobre o que se passa em Portugal.. a ler

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publicado às 22:28

A gripe A foi um fiasco.. felizmente

 

Hoje foi dia de apanhar a vacina da gripe, como todos os anos esta é oferecida a todos os empregados que a queiram tomar e como todos os anos, acho que fui o único do departamento que lá fui. À saída do almoço encontrei a médica e a enfermeira que se dirigiam ao posto médico, aproveitei a boleia e fui tratar do assunto. Como sempre que lá vou, a conversa estendeu-se por mais de uma hora, contabilizando o meu tempo e o dela, o raio da coisa saiu muito cara à empresa... mas lá fiquei a saber as últimas da vida escolar dos filhos dela e ela ficou a saber as últimas sobre adopção internacional e sobre a vida das crianças em Cabo Verde...

 

Mas não era disso que queria falar, há coisa de um ano atrás, a gripe A e o tomar ou não a vacina foram tema de conversa por aqui.. numa pesquisa rápida, contei 5 posts sobre o assunto, cada um com a sua dose de polémica. Sendo que no fim, mais de um achou que eu tenho sempre que ter a última palavra e que raramente reconheço que posso estar errado.... continuo a achar que isso não é verdade, o que acontece é que ninguém me mostra argumentos mais fortes que os meus .

 

Bom, hoje vou dar a mão à palmatória, a gripe A foi um fiasco.... felizmente para o mundo a pandemia não passou de mais uma gripe passageira e os cenários mais pessimistas não passaram disso, de cenários pessimistas que serviram para que empresas farmacêuticas ganhassem mais uns.. muitos ... milhões.

 

Quem aqui defendia que não era assim tão importante tomar a vacina tinha razão.. ainda que eu continue a achar que as vacinas são muito importantes para a saúde pública, vacina da gripe incluída, por isso é que a tomo todos os anos.

 

Não, eu não tenho sempre razão, neste caso fico feliz por não a ter tido ... e sei dar a mão à palmatória.. mesmo que seja um ano depois... agora podem todos aproveitar para me deitar à cara que tudo aquilo que não deitaram naquela altura..

 

Jorge Soares

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publicado às 23:00

Crianças hiperactivas.. há vida para além da doença

 

"...Quando vejo um hiperactivo que muito sofreu na sua infância, tal o meu G., com imensas dificuldades de aprendizagem, escrever assim, já adulto, não consigo conter a minha alegria. Só me pode trazer esperança de um dia ver também o meu G. realizado e feliz.

Há 30 anos, a hiperactividade não era diagnosticada. Há 30 anos, um hiperactivo era tido como mal-educado, irrequieto e até mesmo "burro".


Há 30 anos, ser hiperactivo era uma sentença difícil e conduzia muitas vezes ao abandono escolar.

Hoje, este hiperactivo é capaz de escrever de forma agradável, com metáforas e imagens alusivas ao que pretende descrever, de forma harmoniosa.


Ao ler este texto, e, apesar da imagem que nos assola a mente, senti uma luz lá bem ao fundo, uma certeza que, seja qual for o rumo que o G. tomar, poderá ser tão realizado e feliz como qualquer outra criança."

 

O texto acima é da Anabela, retirei-o deste post do seu blog, Abigai... todos os pais sonhamos com o melhor para os nossos filhos, no possível e cada um à sua maneira,  queremos que eles sejam educados, comportados e bons alunos, que tenham sonhos e que sejam bem sucedidos na sua realização. Isto é o normal, o que ambiciona quem tem filhos "normais"... quando temos um filho hiperactivo as coisas mudam um pouco de figura, quando lemos o Energia a mais, percebemos que a Teresa não tem muito tempo para sonhar ou para pensar no futuro, a sua luta diária é tal que para ela ter um dia mais calmo já é uma enorme vitória.

 

Nunca falei com a Anabela, mas pelo que leio dos seus posts e a julgar pelo texto acima, partilhamos uma luta e uma preocupação, as dificuldades de aprendizagem dos nossos filhos. Vivemos numa época em que o sucesso na vida está ligado aos êxitos escolares, sabemos que não é verdade, mas na nossa sociedade ser alguém na vida é ter um curso superior.. mesmo que no fim se termine numa caixa de supermercado ou num call center... o importante é estudar.. E não é fácil pensar que com o que vemos no dia a dia dos nossos filhos, eles terão muita dificuldade para lá  chegar.

 

Uma criança hiperactiva não é menos inteligente que qualquer criança dita normal, pelo contrário, muitas vezes a inteligência está acima da média, simplesmente as dificuldades de concentração e os restantes problemas associados à doença, fazem com que a atenção se canalize para tudo menos para o que é essencial.. o que torna as coisas muito complicadas na escola. Se a isto juntarmos o desinteresse e o preconceito contra quem não está formatado pelos cânones ditos normais da nossa sociedade... temos garantida uma enorme luta.

 

Por vezes dou por mim a  pensar o que será do futuro do N., nem sempre da melhor maneira ou com muitas esperanças, por isso textos como o da Anabela, ou mesmo esta noticia do Ionline fazem-me olhar em frente e acreditar que a nossa luta diária não é em vão, que lutar contra um mundo que por vezes só aceita quem é formatado vale a pena..e que de forma alguma podemos desistir.. porque os nossos filhos contam connosco e pouco mais.

 

Como eu te entendo Anabela.

 

O texto a que a Anabela se refere chama-se  o Suicídio e está neste outro post dela

 

Jorge Soares

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publicado às 21:42

O Nudista Militante

por Jorge Soares, em 23.10.10

Durante vários anos, na década de sessenta, um de meus trabalhos principais foi traduzir e ler Les Actualités Françaises, noticiário cinematográfico que a França distribuía semanalmente para a América Latina. A tradução me tomava apenas alguns minutos, mas me detinha toda tarde de quarta-feira nos estúdios de Génnévilliers, nos arredores de Paris. Havia herdado este trabalho de um locutor uruguaio a quem ocorreu a pior tragédia para um homem de sua profissão: tornar-se afônico. O fazia com gosto, pois era bem pago, e me distraía essa saída semanal da cidade, na qual com freqüência, na ida ou na volta, costumava fazer uma parada no cemitério de cães de Asniéres, lugar onde está enterrado o célebre Rintintin e que realmente é muito bonito.

A gravação consistia em fugazes entradas na cabine de locução, separadas por compridos intervalos que eu matava lendo, espiando a dublagem de outras películas ou, mais amiúde, conversando com meu amigo projecionista, Monsieur Louis. Dizer conversando é um exagero e uma mentira, pois conversar sugere intercâmbio e reciprocidade, e o nosso consistia exclusivamente em eu escutar o que ele dizia e em, de tempos em tempos, me limitar a intercalar em seu monólogo alguma observação banal, para manter a aparência, e dar a ele e a mim mesmo a impressão de que, de fato, conversávamos. Monsieur Louis era um desses homens que não admitem interlocutores: somente ouvintes.

Devia estar beirando os sessenta e era baixo, magro, com uns cabelos brancos que rareavam, uma tez rosada e uns olhinhos azuis muito tranqüilos. Tinha uma voz que nunca se elevava nem endurecia, suave, monótona, persistente, ininterrupta. Vestia sempre um avental branco, imaculado como toda a sua pessoa, e seu rosto ostentava em qualquer ocasião um assomo de sorriso que nunca chegava a materializar-se. Poderia-se tomá-lo por um enfermeiro ou um laboratorista pois seu traje, seu semblante e suas maneiras de algum modo faziam pensar em hospitais, doentes e provetas cheias de química. Mas era projecionista e estava ligado ao cinema desde muito jovem. Alguma vez ouvi que, nos anos trinta, trabalhara como cameraman na filmagem clandestina de curtas pornográficos cujos galãs eram, de preferência, cavalheiros tuberculosos, já que estes, dizia ele, tinham ereções prolongadíssimas que, dada a lentidão da rodagem, facilitavam muito as coisas. Mas Monsieur Louis havia deixado esse trabalho por temor à polícia. Na realidade não gostava de falar sobre isso nem de nada que não fosse o tema de sua vida: o nudismo.

Porque Monsieur Louis era nudista. Passava integralmente seu mês de férias na Île du Levant, uma pequena ilha mediterrânea onde funcionava a única colônia de nudistas autorizada na França nesse tempo. Passava os onze meses restantes economizando, trabalhando e contando as horas que faltavam para, com o sol de agosto, voltar a viver por trinta dias ao ar livre, fotografando mariposas e casulos, acendendo fogueiras, queimando-se sobre as rochas ou molhando-se no mar, nu como uma foca. Andar nu, rodeado de pessoas nuas, lhe produzia uma ilimitada felicidade e, aparentemente, lhe resolvia todos os problemas. O nudismo era para ele uma dedicação permanente. Dez minutos após conhecê-lo, descobria-se que não só era seu único tema de conversação como também de reflexão e de ação. Porque assim como outros dedicam seus dias e suas noites a catequizar os demais e ganhá-los para a verdadeira religião ou para a verdadeira revolução, Monsieur Louis havia consagrado os seus a esse inconcebível apostolado: ganhar adeptos para o nudismo.

Nossa boa relação provinha de que ele me considerava um catecúmeno. E eu encorajava essa crença, escutando com verdadeiro interesse, entre as gravações de Les Actualités Françaises, os discursos com que ia-me iluminando sobre os fundamentos, segredos, lições e virtudes da filosofia nudista. Explicou-me tudo cem vezes, com argumentos e exemplos que se repetiam, obsessivos, em sua vozinha pausada, confiada, e incansável na propagação da fé. Falou-me da Grécia e da beleza dos corpos que se movem e despregam em liberdade, sem coberturas escravizantes; da comunhão do homem com a natureza, a única que pode devolver-nos a saúde física e a paz espiritual que perdemos por renegar covardemente a nossa primeira nudez; da necessidade de vencer os preconceitos, a hipocrisia, a mentira (em outras palavras: o vestuário) e de restabelecer a sinceridade e a frescura que existem nas relações entre, por exemplo, as aves e os pequenos cervos e que no paraíso terreno existiram também entre os humanos (e a que se devia isso?). Incontáveis vezes assegurou-me que, na Île du Levant, ao despojar-se das roupas, os homens e as mulheres tiravam também os maus pensamentos, os complexos de inferioridade, os vícios. Ouvindo-o, chegava-se quase a convencer-se de que o nudismo era aquela panacéia universal, cura de todos os males, que os alquimistas medievais buscaram com tanto desespero.

As lições não eram somente orais. Monsieur Louis me levava folhetos proselitistas e fotografias coloridas da ilha da liberdade. Aí estavam os nudistas, de corpo inteiro, a aí estava ele, rosáceo, helênico, bebendo o néctar das flores ou picando alegremente uns tomates, enquanto uma jovenzinha de lindos seios e púbis encaracolado refrescava umas alfaces. Durante um bom tempo chegaram em minha casa formulários, boletins de subscrição, convites de clubes nudistas, que nunca preenchi nem respondi.

Porque, apesar de seus esforços, Monsieur Louis não me ganhou para o nudismo. Mas, em compensação, me ajudou a identificar uma variedade humana que, sob diferentes roupas e afazeres, encontra-se pavorosamente estendida pelo mundo. O que recordo dele, sobretudo, é seu olhar: tranqüilo, fixo, irredutível, cego para tudo o que não fosse ele mesmo. É um olhar que, em parte graças a ele, reconheço com facilidade e que vi reaparecer, multiplicada, uma e outra vez em religiosos e revolucionários, em intelectuais e em moralistas, sobretudo em ideólogos de toda espécie. É o olhar do que pensa ser dono da verdade, do que não se distrai, do que nunca duvida, do humano mais prejudicial: o fanático.

 

Mário Vargas Llosa

 

Retirado de Tiro de Letra

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publicado às 21:04

De niña a mujer

por Jorge Soares, em 22.10.10

De niña a mujer

 

VERBO SER

Que vai ser quando crescer? 
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser.  
Que vou ser quando crescer? 
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo. 
Sem ser Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Não damos pelo tempo, ainda ontem dormias encima do meu peito a ouvir bater o meu coração.. e de repente, sem que apenas demos por nada.... já és alguém, com ideias, desejos, reivindicações, sonhos...  daqui a nada estás a fazer pela vida.. e não demos por nada... porque cá por dentro, continuas a ser aquela bebé doce e risonha que um dia como hoje apareceu nas nossas vidas e fez mudar o nosso mundo para sempre.

 

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares

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publicado às 21:15

O estranho caso do procurador poeta

 

 

São sete e pouco da manhã

Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, falo-ei amanhã
Só sou aquilo que valho
Os comboios já vão cheios
Muitos se levantam cedo
Nas mulheres aprecio os seios 
Mas têm outro enredo

 

Acreditem ou não, os versos acima foram declamados num tribunal, e não, não era o mau poeta quem estava a ser julgado.. aliás, de quem estava a ser julgado, não reza a história, a não ser pelo facto de ter estado presente numa das audiências mais bizarras da justiça Portuguesa.

 

Segundo a noticia do Público, a audiência começou atrasada 20 minutos, foi esse o atraso do Procurador, nada de muito anormal no nosso país onde tudo começa mais ou menos uma hora depois do previsto. Cada vez mais somos um país de atrasados e tornamos tudo um atraso de vida.. mas isto já sou eu a divagar.

 

O senhor chegou atrasado e como bom Português tratou de se desculpar, a culpa nunca é nossa, é sempre de algo ou alguém, neste caso seria ...um “lapso evidente e único com o seu despertador”, começou. Costuma sempre pô-lo a despertar “às 07h00 horas da manhã ou até antes”. Mas, naquele dia, “na maior das certezas e excepcionalmente, sem que alguma vez lhe ocorra ter acontecido, o relógio não despertou”.

 

A coisa podia ter ficado por aqui, mas não, explicação continuou com a descrição do resto da manhã, até que chegou à parte em que ele diz que tinha aproveitado a viagem do metro para escrever uma quadras..e decide declamar as mesmas em pleno tribunal.

 

Viajam brancos e pretos
Nacionais e estrangeiros 
Alguns vivem em “guetos”
Outros em lugares foleiros

 

(...)

Entram uns, saem outros
É o frenesim da manhã
Levam-se alguns encontrões
Levo eu, e mulher minha.

 

 

No fim de tão insólita explicação, a juíza mandou extrair certidão para efeitos disciplinares.. isto depois de ter abandonado a sala duas vezes enquanto o senhor se explicava, por se sentir indisposta. Está visto que ou a senhora não tem sentido de humor, ou leva o papel de critica poética muito a sério

 

Do resto da audiência não reza a história.... mas resta dizer que o senhor tem 59 anos... e não estivéssemos nós a meio de Outubro, eu diria que isto é uma daquelas noticias do 1º de Abril.... mesmo assim... amanhã vou ver o Público de fio a pavio, porque de certeza que algures num recanto do jornal vai aparecer um pedido de desculpa e uma explicação qualquer para o facto de uma noticia de 1º de Abril ter aparecido em Outubro... Só pode.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:40

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