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Fernando Pessoa - O dia deu em Chuvoso

por Jorge Soares, em 30.11.10

O dia deu em Chuvoso, Fernando Pessoa, mata do Gerês

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

O Dia Deu em Chuvoso

 

O dia deu em chuvoso. 
A manhã, contudo, esteve bastante azul. 
O dia deu em chuvoso. 
Desde manhã eu estava um pouco triste. 

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? 
Não sei: já ao acordar estava triste. 
O dia deu em chuvoso. 

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. 
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. 
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. 
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? 
Dêem-me o céu azul e o sol visível. 
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. 

Hoje quero só sossego. 
Até amaria o lar, desde que o não tivesse. 
Chego a ter sono de vontade de ter sossego. 
Não exageremos! 
Tenho efetivamente sono, sem explicação. 
O dia deu em chuvoso. 

Carinhos? Afetos? São memórias... 
É preciso ser-se criança para os ter... 
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! 
O dia deu em chuvoso. 

Boca bonita da filha do caseiro, 
Polpa de fruta de um coração por comer... 
Quando foi isso? Não sei... 
No azul da manhã... 

O dia deu em chuvoso. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro de 1936, tal dia como hoje ..., alguém dizia que não só foi o melhor poeta Português, como foi os cinco melhores poetas portugueses de sempre...

 

Mata da Albergaria, Parque nacional do Gerês, Gerês

Novembro de 2010

 

Jorge Soares

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publicado às 21:53

A Reguada

por Jorge Soares, em 29.11.10

A reguada

 

Imagem do ionline

 

Era um dia de primavera, não sei porquê mas naquele dia o recreio da escola de Palmaz era do tamanho dos terrenos cultivados que havia à volta, não me lembro o que andámos a fazer, eu andava na primeira classe e  já passaram uns 35 anos, mas recordo-me perfeitamente que quando voltámos à sala há muito que as aulas tinham recomeçado, fomos recebidos por uma professora em fúria e recordo especialmente a bofetada que me deixou a chorar diante de toda a turma.

 

Passados dois ou três anos vimos a professora em Oliveira de Azeméis, a minha mãe queria que eu a fosse cumprimentar.. recusei-me terminantemente... tinha bem fresca na imagem aquela bofetada...

 

Sim, eu ainda sou do tempo em que os professores aplicavam castigos físicos quando estes eram necessários, que me lembre este foi o único que recebi... de certeza que me serviu de emenda.. apesar de eu nunca ter sido de pisar o risco. Vem isto a propósito de que  recentemente descobrimos que após aquele episódio com os livros dos colegas, o N. levou uma reguada da professora...

 

Antes que comecem a crucificar a senhora, deixem-me esclarecer que a régua era daquelas de plástico fininhas, nada que ver com as réguas pesadas de madeira que existiam nos meus tempos. Na sexta na apresentação do livro da Meninos do Mundo o assunto surgiu, percebi que a maioria das pessoas acha tal coisa um acto de crueldade e que a senhora merece no mínimo uma queixa ao ministério, como pai... eu não acho.

 

Entre os métodos draconianos e de terror da professora do ano passado, que se recusava a aceitar que ele tem um problema, uma doença, que insistia em colocar uma criança com défice de atenção ao lado da janela ou no fundo da sala ao lado da porta, que não dava reguadas mas que mantinha a turma em ordem com base no terror de tal forma que ela era a única que deixava a turma sozinha sem necessidade de auxiliares a vigiar... e naquela sala não se ouvia um pio.. e esta que dá reguadas... acreditem em mim, eu prefiro esta.

 

Conheço o meu filho, é do estilo de esticar a corda, o facto de ter uma professora que está alerta para as crianças com este tipo de problema foi uma enorme ajuda, a verdade é que com ela ele não põe o pé em ramo verde, pelo menos dentro da sala está controlado e nós sentimos uma enorme evolução... o ano passado ele vivia no terror das fúrias e queixas da professora, agora quer-me  parecer que efectivamente ele respeita  esta professora.

 

Se devemos incentivar os castigos físicos dentro da sala de aula?, não, claro que não.... mas há uma enorme diferença entre não incentivar e proibir,  como em tudo na vida deve existir o bom senso.

 

Tenho a certeza absoluta que aquela reguada lhe doeu mais na alma que na mão... e que foi importante para ele sentir que na sala de aula é a professora que manda... não se veio queixar, não armou drama nenhum por causa disso...e quanto a mim, foi um castigo merecido e bem aplicado.

 

Curiosamente, quando estava à procura de uma uma imagem para o post, encontrei esta noticia.. interessante

 

Jorge Soares

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publicado às 21:55

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem .....

por Jorge Soares, em 28.11.10

 

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

 

Se às vezes digo que as flores sorriem 
E se eu disser que os rios cantam, 
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores 
E cantos no correr dos rios... 
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos 
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. 
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes 
À sua estupidez de sentidos... 
Não concordo comigo mas absolvo-me, 
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, 
Porque há homens que não percebem a sua linguagem, 
Por ela não ser linguagem nenhuma. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Parque de Campismo de Montargil

Junho de 2010

Jorge Soares

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publicado às 23:46

Conto, MARCOLINA CORPO DE SEREIA

por Jorge Soares, em 27.11.10

MARCOLINA-CORPO-DE-SEREIA, de Nilza Amaral
Não serei diferente do que sou, tenho muito prazer
em minha condição. Sempre sou acariciada.
(Uma jovem feiticeira francesa de 1660)

 

Nascera linda. Crescera maravilhosa. Cuidava dos porcos e das galinhas. Chafurdava na lama, calçada com suas botas de borracha preta que resguardavam os membros em mutação, abrigava os cabelos de seda do sol inclemente sob um saco de estopa amarrado à bandeira de rebeldes.

Rebelde não era. Mas a ponta da luxúria já era incipiente. Insidiosa, começava a escalar a árvore do desejo pela raiz. Marcolina colecionava revistas que chegavam à venda na pequena vila de pescadores, um lapso do correio, pois revistas fashion look e vogues estrangeiras, outras do mundo inteiro, até uma nacional com apresentação de modelos com traseiros superdesenvolvidos, misturavam-se às batatas e à ração animal. "Leve, leve, para que me servem", dizia o vendeiro, "E para o que te servem, Marcolina? - Vai mostrar aos porcos, engordar suas vistas?” •

Marcolina-corpo-de-sereia morava junto ao mar, respirava o ar de sal e algas, ouvia cantos ao longe, ninfa ingênua que se transmutava sutilmente à medida que se banhava abaixo da cintura, nas ondas encrespadas do mar, no fundo de seu quintal.

Marcolina-corpo-de-sereia ainda não sabia para o que as tais revistas serviam e carregava todas, tinha a coleção debaixo de sua cama, o lugar ideal para o esconderijo, jamais vasculhado pelas vassouras que passavam ao largo.

Marcolina crescia. Os seios em botão afloravam pontudos na blusa, os pêlos dourados, penugem de seda, cobriam seu corpo alvo, até a cintura. Abaixo desta, a indagação. Marcolina virava sereia e ninguém percebia, nem os porcos satisfeitos com a lavagem diária não queriam saber sobre o sexo ou a imagem de quem os alimentava.

À noite Marcolina sonhava, folheando as revistas e descobrindo mulheres belas, despidas e ousadas, famosas mulheres da cidade. E desejava, ansiava, suspirava.

Um dia foi dar comida aos porcos, nua da cintura para cima. E o tio velho, os pais alienados, até os porcos pararam, o mundo cessou o seu giro, o sol brilhou mais intensamente para Marcolina desfilar. Seios empinados apontando para o céu, nua até onde o corpo de sereia permitia, Marcolina desfilou com o balde da comida dos porcos sobre os ombros ante os olhares tristes de todos: a princesinha transformara-se em rainha, e todos teriam que se conformar. Só não se conformaram os porcos com o atraso da alimentação.

Marcolina decidira. Queria desfilar sobre as calçadas cobertas de ouro, na passarela onde mulheres bonitas tornavam-se rainhas, mostravam o corpo, os seios, a bunda, suas carnes eram admiradas por todos e premiadas pela exposição.

A mãe era ignorante; porém, a ignorância não elimina a inteligência e constatava a mudança no comportamento de Marcolina. Aconselhar a filha? E o que poderia dizer-lhe? Que a verdadeira essência da vida é a simplicidade e que ela deveria conformar-se cuidando da sua vida ali naquela terra junto ao mar, alimentando os porcos, o seu dote para o futuro? Estava preparada para o revoar de sua pombinha.

Num dia da faxina no quarto da filha pronta para o vôo, encontrou as revistas. E perdeu metade do dia maravilhada, até que as devolveu ao esconderijo, saindo do quarto como de um castelo encantado.

Marcolina-corpo-de-sereia não nadou. Viajou. Subiu a colina num trem de segunda categoria, mochila nas costas, longa saia esvoaçante, e desembarcou na cidade que oferecia ouro às mulheres formosas.

Mulher linda e exótica, mesmo com corpo de sereia, sempre acha algum malandro querendo ser encantado pelo seu encanto. Com Marcolina não foi diferente e, ao ouvir aquela voz maviosa perguntando onde estavam as ruas cobertas de ouro, não teve dúvida em afirmar que conhecia o endereço das minas. Marcolina estranhou o ambiente ao sair da estação ferroviária e mergulhar no enxame humano de seres de todos os tipos, de mulatos mequetrefes a banqueiros raquíticos, de garotos de motos com botas de vaqueiro a adolescentes que paravam defronte às vitrines das lojas para ajeitar a roupa barata, os corpetes justos e as calças iguais, fazendo de todas apenas uma. Marcolina-corpo-de-sereia queria saber das calçadas douradas, das mulheres glamourosas, dos homens que sussurravam; seu corpo de sereia doía, sua cabeça latejava, aquele cheiro azedo de gente junta lembrava-lhe os porcos comendo lavagem e começava a impregnar-se da nostalgia da brisa do mar, do cheiro do sal, da lama da pocilga dos porcos.

"Eu me chamo Cobra", falou ele, indicando-lhe a moto escrachada e dizendo "suba aí na garupa que eu vou levar você até as calçadas de ouro". E partiram para a Mansão das Damas, a pensão na casa antiga e velha, ladeada de floreiras com flores de plástico, "veja é aqui que você vai morar, minha rainha, e já vou arranjar ouro para você hoje mesmo. Tome um banho, vista este vestido, jogue fora essa sua saia de cigana", sussurrava ele em seus ouvidos, escorregando a mão pelo seu corpo, enquanto a empurrava para um quarto minúsculo sobre uma cama quebrada, dizendo "o banheiro é no fundo do corredor, eu já volto".

Marcolina afinal tivera os sussurros nos ouvidos. A barra dourada e desbotada de mulheres nuas da pintura barroca na parede do quarto, mais o cansaço da viagem e a excitação da cidade grande a deslumbraram. Deitou, dormiu e sonhou com os seus porcos. Mas antes vestiu a roupa de escamas verdes brilhantes que amoldou o seu corpo de sereia.

A noite chegou e com ela o Cobra mais um fulano de terno e gravata que, sem abrir a boca, mostrou-lhe uma pulseira dourada, dizendo, ofegante, "olha, eu lhe trouxe o ouro", e logo abraçou-a pela cintura, procurando as suas profundezas, fungando e grunhindo, mordendo seus peitos duros, retirando-lhe o ar, na busca pelo imã que atrai todos os homens, e se da cintura para baixo Marcolina era mutante, outros orifícios o satisfizeram. Foi a primeira noite da sereia em terra de bárbaros que em troca do ouro, tão falso quanto a pintura das paredes, lhe extraíram prazeres. Outras noites vieram, novas pulseiras douradas, outros fulanos de terno e gravata irromperam pelo quarto do Cobra. Vamos ficar ricos, menina. Ela não acreditava, pedia as calçadas de ouro, as passarelas brilhantes, os vestidos de rainha. Mas ia ficando no seu vestido de escamas brilhantes, porque percebia que da cintura para baixo já não era mais a mesma. Alguma coisa estranha estava acontecendo — e aconteceu de fato. Examinando-se ao espelho viu suas pernas unindo-se debaixo do vestido de escamas brilhantes e verdes, sua cintura colava-se ao tecido, e ali no espelho a metamorfose mostrava a mais linda sereia do mundo. Cobra não se assustou. Colocou-a de lado na garupa da moto, levou-a até o litoral e despejou-a no mar revolto, resmungando que com cafetão de segunda classe as minas se transformam até em peixes.

Marcolina-corpo-de-sereia vagou pelas ondas, penetrou nas profundas do oceano, distraiu-se atrás dos peixes dourados até que, seguindo o som do canto embriagador, foi dar com os costados na praia de sua casa. Reconheceu o terreno pelo cheiro de lavagem dos porcos e pelo ressoar do cochilo de seu tio velho dormindo na areia.

Emergiu nua, largando as escamas brilhantes na água verde. Membros recompostos conduziram-na até sua casa, os porcos grunhiram satisfeitos, o amanhecer a encontrou folheando as revistas glamourosas, satisfeita de haver conhecido, se não as ruas cobertas de ouro, o outro lado da vida para além do mar. O tio alienado acordou com os grunhidos dos porcos, e Marcolina percebeu que já era hora de calçar as botas de borracha, próprias para chafurdar na lama. As pulseiras douradas brilhavam em seu pulso.

 

Nilza Amaral


 

Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:04

 

 

Amanhã, 26 de Novembro, pelas 19 horas, será feita a apresentação do livro Meninos do Mundo – Adopção Internacional. A sessão de lançamento terá lugar no Hotel Roma (Sala Roma), em Lisboa, e contará com a presença do Dr. Carlos Jesus, que irá fazer a apresentação da obra, e do Dr. Laborinho Lúcio, autor do prefácio. Estarão, igualmente, presentes a Dra. Fernanda Salvaterra, a Dra. Mariana Negrão, ambas psicólogas, e a Dra. Sandra Cunha, socióloga, que colaboraram na obra com textos em que reflectem a sua experiência na área da adopção. 

Espera-se, ainda, a presença de muitos dos que, com o seu testemunho, colaboraram com a Associação Meninos do Mundo para que o livro que agora se lança contemple as várias vertentes da realidade da adopção: adopção nacional e internacional, adopção por casal e adopção singular, a visão de quem foi adoptado, entre outras.

 

O livro é composto por um conjunto de textos escritos por pessoas que passaram pela adopção internacional com explicações de todos os processos vividos em países como Cabo Verde, Rússia, S.Tomé e Príncipe, Moçambique, Brasil, Índia, Bulgária, Lituânia, Tailândia e Macau e por depoimentos de crianças que dão assim a voz de quem um dia foi adotado.

 

A Associação Meninos do Mundo é uma organização não-governamental que tem como objetivos promover o conhecimento da adopção internacional em Portugal e no estrangeiro e desenvolver actividades de consciencialização da sociedade civil em relação à adoção internacional no país.

 

Quem estiver interessado pode encomendar o livro e assim contribuir para a associação e a causa da adopção internacional, basta enviar um email para: meninosdomundo@gmail.com

 

Porque uma criança é uma criança em qualquer parte do mundo!

 

Jorge Soares

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publicado às 21:39

Gritos mudos

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Hoje é o dia internacional para a erradicação da violência doméstica, hoje uma noticia "quatro em cada dez mulheres portuguesas com mais de 60 anos dizem ter sido vítimas de algum tipo de abuso nos últimos 12 meses por alguém que lhes é próximo", este ano e até agora, já morreram vitimas de violência de género 39 mulheres, mais de uma por semana,  de quantas ouvimos falar?, basta que alguém morra vitima de um assalto para  ouvirmos falar do assunto durante semanas, porque não ouvimos falar destas mulheres que morrem às mãos das pessoas com quem decidiram partilhar a sua vida? porque é que a nossa sociedade que discute atá à exaustão temas como o do casamento homossexual, simplesmente decide olhar para o lado nestes casos?

 

O Crime de violência doméstica é considerado um crime público, qualquer pessoa pode fazer a denuncia quando suspeita  da existência de violência familiar, não olhe para o lado, não espere que seja tarde, denuncie!!!!!!!

 

 

Gritos mudos

 

 

Neons vazios num excesso de consumo

Derramam cores pelas pedras do passeio

A cidade passa por nós adormecida

Esgotam-se as drogas p'ra sarar a grande ferida

 

Gritos mudos chamando a atenção

P'ra vida que se joga sem nenhuma razão

 

E o coração aperta-se e o estômago sobe à boca

Aquecem-nos os ouvidos com uma canção rouca

E o perigo é grande e a tensão enorme

Afinam-se os nervos até que tudo acorde

 

Gritos mudos chamando a atenção

P'ra vida que se joga sem nenhuma razão

 

E a noite avança, e esgotam-se as forças

Secam como o vinho que enchia as taças

E pára-se o carro num baldio qualquer

E juntam-se as bocas até morrer

 

Gritos mudos chamando a atenção

P'ra vida que se joga com toda a razão

 

Xutos e pontapés

 

Jorge Soares

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publicado às 21:15

No fim, a greve serviu para quê?

por Jorge Soares, em 24.11.10

 

Greve?.. para quê?

 

Imagem do Público

 

Não fosse porque estive mais ou menos todo o dia ligado às noticias e não daria porque hoje houve uma greve geral em Portugal, por onde passei era um dia normal, desde a Bomba de gasolina em Setúbal até ao café em Loures, passando pelo transito de um dia normal e pelas portagens da Brisa e da Lusoponte, tudo em funcionamento normal. Na empresa onde trabalho a aderência à greve foi de 0%.

 

Há muito que as greves, as gerais ou as outras, são coisas de funcionário público, assim como o são as tolerâncias de ponto e algumas outras coisas. Alguém que como eu trabalha no sector privado pensa duas vezes antes de aderir a uma greve. No meu caso, aderir a uma greve significa logo à entrada ter um dia de absentismo, na empresa onde trabalho um dia de absentismo significa que no ano a seguir, em lugar dos 25 dias de férias passamos a ter 22, para além disso, leva 50% do valor do prémio anual de produtividade, sendo que o resto fica ao critério do chefe... e está-se mesmo a ver que a maioria dos chefes gosta mesmo de quem faz greve não é?.

 

É claro que no meu caso eu dava de barato os 3 dias de férias, o dinheiro do prémio ia custar um pouco mais, que qualquer coisa que venha a mais e ajude a amortizar dividas sabe sempre bem... mas para isso tinha que acreditar que esta greve fazia algum sentido ou teria algum efeito. Eu teria aderido com todo o gosto, se ela tivesse acontecido há uns dois meses atrás, quando o governo se preparava para cortar a direito e o PSD para fazer de conta que era contra, agora, depois do orçamento aprovado e das medidas decididas, esta greve serve para quê?

 

Dizem os sindicatos que foram 3 milhões, diz o governo que não foram não senhor, e no fim eu fico com a sensação que tudo se resume a uma guerra de números, retirando todo o sumo dos números, não resta mais nada..,. porque o número de milhões que o país perdeu com tudo isto, ninguém conta, Euros, milhões de Euros.. não deve interessar para nada.

 

Esta greve faria sentido se daqui a uns meses quando forem as eleições, toda esta gente que fez hoje greve chegasse lá e mostrasse o seu descontentamento não votando nos culpados, PS e PSD, isso é que era uma greve de jeito...

 

Jorge Soares

 

PS: Na Autoeuropa a adesão foi de 98%... pelos vistos 4% de aumento é pouco.. depois estranhem que as empresas se querem mudar para outros paises

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publicado às 21:49

Francisco Guerra

 

Imagem do JN

 

Há dias em que faltam as palavras, estive a ouvir com atenção a entrevista de Judite de Sousa a Francisco Guerra, depois de todo o circo montado após a leitura das sentenças do caso Casa Pia, depois de todo o barulho feito principalmente por Carlos Cruz com a cumplicidade de todos os canais de televisão, faltava-nos a todos uma parte, faltava ouvir as vitimas, sentir que são humanos como nós.. e esta foi uma entrevista brutal.

 

Haverá quem questione a veracidade de tudo o que ele disse, sempre houve, mesmo após os réus terem sido declarados culpados e condenados, muita gente recusou acreditar.. principalmente porque o senhor televisão está no imaginário de toda uma geração... bom, hoje deu para perceber que o mesmo senhor está no imaginário de algumas pessoas de uma forma muito diferente.

 

A entrevista de hoje mostrou que as vitimas são seres humanos, pessoas de carne e osso como todos nós, foram crianças com vidas complicadas, muitas delas sem famílias, sem uma vida fora da Casa Pia.. crianças que foram entregues a uma instituição que era suposto dar-lhes apoio e protecção. Esta instituição falhou completamente, não só não soube proteger as crianças, não soube ser o lar, a família que elas necessitavam, como de certa forma contribuiu para que fossem abusadas e violentadas como seres humanos da pior forma possível.

 

Hoje ouvimos Francisco Guerra dizer que teme pelas crianças que continuam entregues à Casa Pia, porque mal assente a poeira tudo irá recomeçar e haverá mais vitimas.. porque por lá pouco ou nada mudou. Eu continuo à espera que  os responsáveis da Casa Pia assumam as suas responsabilidades, eu não acredito que estas coisas tenham acontecido durante anos, que crianças fossem levadas para Elvas, que estivessem fora da instituição horas, até dias, sem que ninguém se questionasse sobre o que se estava a passar. Não acredito que estas coisas tenham acontecido a dezenas de jovens da instituição sem que ninguém tenha suspeitado... e muitas dessas pessoas continuam lá, até quando?

 

Podem ver a entrevista no site da RTP aqui

 

Jorge Soares

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publicado às 23:14

O papa e a utilização dos preservativos.

por Jorge Soares, em 21.11.10


Preservativos em certos casos

 

Imagem do HenriCartoon

 

A noticia é de sexta feira, mas por cá a Cimeira da Nato engoliu tudo o resto e só hoje dei por ela. Parece que numa entrevista a um jornalista Alemão que deu origem a um livro que sai esta semana, o papa  "admitiu a utilização do preservativo “para reduzir “em certos casos” os riscos de contaminação” do vírus da sida"

 

Mais vale tarde que nunca, haverá que ler o livro e ver o enquadramento da frase.. assim como esperar pela reacção das correntes mais radicais da igreja. Não devemos esquecer que foi este mesmo papa que na viagem para Angola e referindo-se à luta quase inglória contra a Sida que se trava  em África, disse que a distribuição de preservativos não melhora a situação só a piora.

 

Tenho estado a ler os comentários e a julgar pela forma quase festiva com que a afirmação do papa foi recebida, parece que afinal há muita gente na igreja que é contra a forma como a instituição olha para este assunto, parece que estava tudo à espera de um comentário como este para sair do armário.. em Portugal, no Vaticano e até na ONU.

 

Em África a Sida é uma espécie de peste negra que alastra quase sem controlo.. esperemos que estas declarações sejam mesmo para levar a sério e que sejam o inicio de um virar de página numa instituição que há muito vive arredada da realidade do mundo.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:37

Conto, Mana Celulina, a esferográvida

por Jorge Soares, em 20.11.10

Grávida, esferográvida

Imagem da internet

 

Aconteceu no curral de nossa casa, num meio-dia de Verão. Respirava-se um ambiente de cortar à faca. Dado o lugar, se podia antes dizer: de cortar à vaca. De tal modo escorria o rosto de Ervaristo Quase que eu temia que ele perdesse formato, de tanto pingado no chão. O pobre homem, nosso vizinho congénito, cheirava mais que o próprio curral. Como avisava meu pai: ao final, nem todo o bicho é um animal.
Estávamos no estreito recinto há mais de uma hora, eu, meu pai e o vizinho Ervaristo Quase. Mais que todos estava este último, acusado de ter abusado de minha irmã Celulina. Meu velho, Salomão Pronto, convocara o encontro com broncas e circunstâncias. As vizinhanças conheciam a nossa família como exemplo de honra e respeito. Houvesse assunto e logo era chamado o velho Salomão. Até o governador o convocava em caso de sérias gravidares. Como sucedeu a semana antepassada na maka de um general da cidade que veio esgatanhar as terras dos camponeses. Foi o velho Salomão quem pronunciou sentença. E não podia ser de outro modo: não era ele um dos antigos donos da terra?
Sabendo de quanto gozava dos gerais respeitos, dava pena vê-lo, agora, sentado em curvatura derrotada. No seu corpo, não havia pele para o florir de tanto nervo. Para realce do seu estado de zanga meu pai soltava profundos suspiros:
- Só o porco é que é traído pelo farelo.
Eu, calado, não entendi. O vizinho acanhado ainda me sussurrou:
- Sou farelo, agora?
Falou baixinho. Mas o meu pai escutou e, logo, ripostou:
- Não é farelo, mas vai ser, não demora nada.
Enquanto proclamava ameaças, meu velho não tirava os olhos dos próprios pés. Já eu conhecia seus modos: em fúria, não ousava olhar para o mundo. Contemplava-se nas pernas, rectificava as unhas nos pés.
Descarregava-se assim, ele dizia. É como faísca que sai da terra e cai no chão.
- Sou eu o meu apara-raios- explicava.
Minha irmã Celulina, por fim, entrou. Sua silhueta no vão da porta atrapalhou a luz. Já se notava o arrendodado da sombra. A barriga dela era, afinal o assunto da briga. Salomão Pronto apontou a filha e perguntou:
- Estão ver?
Fez uma pausa e engoliu uma porção de ar antes de falar uma outra vez:
- Completamente gravida! Completamente.
Coração não tem gramática. Também eu, no momento, não tinha palavra. Menos ainda o desgraçadito do Ervaristo. Ficámos todos em silêncio, transidos, à espera que trovejasse a voz do dono terra.
- Tudo se resolve com as falas, tudo. Mas isto?
Salomão apontava a barriga da filha, o dedo murcho, a voz derrotada, enquanto repetia:
- Completamente, completamente gravida.
Foi então que disse: a menina até parecia uma esferográvida. Acenámos em concordância. Ervaristo ainda tentou, a medo
- Eu juro, vizinho Salomão Pronto, eu juro que não fui...
- Fale tudo menos isso. Qualquer uma coisa, menos isso.
Celulina só chorava. Ervaristo mexeu nos bolsos, certamente por instinto. Ou como sugestão que o diferendo se poderia resolver por via do dinheiro.
- Posso dizer uma pequena coisa, com o devido respeito?
- Humn-hum - meu pai grunhiu.
- Não é falar, vizinho. É só lembrar o ditado. Posso lembrar?
- Hum-hum.
- Lembra o que diziam os antigos? Diziam as sim: só podes ter a certeza que o rato entrou quando lhe vires a cauda.
- O rato entrou, Ervaristo. É você mesmo.
- O vizinho já me chamou de farelo. Agora sou rato?
- Você nem rato não é. Você é só a cauda do rato.
Estava dito. Faltava a sentença. Pelo olhar do velho Salomão desfilava o leque das possíveis e não imaginadas punições. Demorou o silêncio enquanto escorria o tempo como óleo espesso. O céu já escurecia quando Salomão levantou os olhos até então os nas suas magras pernas:
- Você vai ser castigado, Ervaristo. Ainda sei como, mas o sonho me vai visitar e vai revelai uma decisão.
- Esta certo, vizinho.
Dava-se por finda a sessão. Demos passagem ao velho Salomão Pronto. Hesitámos quem seria o seguinte a estreitar-se pela porta do curral. Minha irmã passou a mão pela redondura, acariciando o invisível ser que ali se enrolava. Ninguém notou o piscai de olhos que ela me dirigiu, em cúmplice ternura Desviei os olhos, o pulsar atrapalhando a pulsação. Ajudei o vizinho a escapar do escuro, meu braço apoiando o ombro dele, fosse para descarga de meu remorso.
E é assim, meus amigos. Escrevo o episódio, tiro a mão da consciência. Nem a culpa, agora, me pesa. É que a vida tem seus secretos correios: os olhos de minha amada, minha doce Celulina.

 

Mia Couto, In O Fio das Missangas

 

Via Contos de Aula

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