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Conto, Desencontros

por Jorge Soares, em 30.04.11

 

 Desencontros

 

Fabrício sabia que Marta não o amava, já o sabia antes de casarem e por isso aceitava o seu mutismo aos serões. Para ele tê-la ali parecia ser o suficiente, mas o desgosto de não ser correspondido minava-lhe os pensamentos. A cada dia que passava mais a amava, começava a tornar-se uma doença esta adoração sem retorno.
Lembrava-se bem do dia em que começara a ter ciúmes, e desde esse momento que vivia num inferno do qual não sabia sair nem parecia querer.

 

Marta não se dava conta do inferno em que ele vivia, tinha-o avisado que não o amava, tinha usado de toda a sinceridade antes de casarem e ele sabia que só casavam porque precisava da estabilidade que lhe podia proporcionar, não encontrava portanto a razão ou qualquer motivo para ele ter mudado tanto. Começara por querer saber tudo o que ela fazia, com quem saía, onde ia, a que horas regressava, e mostrava uma grande impaciência sempre que ela lhe dava respostas evasivas, só por não lhe apetecer estar sempre a explicar tudo, ou por não poder dizer o que lhe ia na alma.

Hoje, olhava para ele sentado no sofá junto à lareira, tinha desistido de sair, antevendo o rol de perguntas a que seria submetida e decidira ficar sossegada em casa, mas agora olhava-o com o lume reflectido na cara, parecia-lhe outro homem, aquele casaco de lareira que lhe comprara, ficava-lhe muito bem, dava-lhe um ar aconchegante, másculo e ela não resistia a olhá-lo.
Estava naquilo, fazia talvez uns bons dez minutos quando ele reparou e a olhou, ela desviou os olhos para o lume e ele pensou no que ela estaria a pensar, talvez a engendrar alguma mentira para lhe dizer que precisava de sair naquela hora, ou então a pensar como o detestava e como estava presa ao seu dinheiro. Devia odiá-lo por ser tão dependente, mas ela tinha aceite as condições, sabia que ele a amava e que estava disposto a tudo para a ter junto a si, por isso, o mínimo que lhe pedia era que estivesse em casa quando ele estava, nada mais.

Marta, viu que ele tinha retomado a anterior posição e voltou a olhá-lo, pensou que se ele não fosse tão frio talvez ela até o pudesse amar, hoje era um desses dias, sentia-se bem a olhá-lo, senti-lo ali, calmo e sereno, era isso que com o passar dos dias a tinha atraído, a sua calma, o nunca elevar a voz, a inteligência, a educação, e o porte imponente do seu metro e oitenta, mas as coisas não tinham corrido nesse sentido e por isso muitas vezes saía para não ficar ali a desejá-lo, tinha alturas em que se sentia descontrolada, sabia que se ele a abraçasse ela se renderia aos seus braços, mas ele nunca o fizera.

Nisto ele fechou o livro que lia e perguntou-lhe: Vais sair? Ao que ela respondeu, com a voz mais natural e suave que conseguiu: Não, hoje apetece-me ficar em casa.
Bem, nesse caso vou deitar-me, este livro do Lobo Antunes está a dar-me sono, até amanhã. Até amanhã respondeu Marta, sabendo que só o veria na manhã seguinte, já que sempre tinham dormido em quartos separados.

Enquanto se dirigia para o quarto, pensava em como só lhe apetecia agarrá-la e obrigá-la a fazer amor ali junto à lareira, esse desejo tornara-se tão forte que decidira sair de ao pé dela, não fosse Marta perceber o desejo que o invadira.

Quando Fabrício entrou, já Marta sentada à mesa da cozinha terminava o pequeno-almoço. Fabrício viu-a e ficou contente ao pensar que teria a sua companhia.
Cumprimentou-a, fazendo um esforço para que não parecesse seco nem ansioso, a primeira preocupação foi tentar não demonstrar sentimentos que a levassem a sair dali.

Marta olhou-o, e pareceu-lhe que tinha dormido mal, estava com um ar cansado, lembrou-se que também ela deveria estar assim, ficara na sala depois de ele se recolher até altas horas, não tinha sono e apeteceu-lhe ouvir aquele CD que tinha comprado na semana anterior, numa das suas saídas sem destino e com o único propósito de não ficar em casa ao pé dele, era o último disco do seu cantor romântico preferido, o Dear Heather do Cohen, e aos primeiros acordes de Go no more, pensou, no quanto a sua vida se tinha transformado, o que antes lhe parecia uma vida normal e estável, estava agora a revelar-se exactamente o contrário, começava a acreditar que gostava dele, ainda que tudo fizesse para combater os sentimentos que teimavam em assaltá-la, a voz de Cohen enchia o espaço à sua volta e ao som de Because of finalmente as lágrimas soltaram-se.

Cohen, já há muito se tinha calado quando ela percebeu o silêncio que reinava, tinha mergulhado em mil pensamentos e nem dera por isso, lembrava-se da curiosidade que sentiu em saber o que ele estaria a fazer sozinho no quarto, e como tentara espreitá-lo em vão, visto ele ter fechado a porta, ainda sentiu a tentação de bater, mas conteve-se.

Absorvida por estes pensamentos ouviu a sua voz: - Marta! Marta, que se passa? Estás bem? - Estou sim, respondeu. Desculpa, estava imersa em pensamentos parvos. - Alguma coisa em que possa ajudar, perguntou Fabrício. - Não meu querido, não podes. Deu-se conta nesse instante de como o havia tratado, mas agora nada havia a fazer, estava dito.
Fabrício tinha recebido aquele meu querido directo no coração, ela nunca tinha usado aquela palavra com ele, se bem que a usasse com alguns amigos mais chegados, mas com ele tinha imenso cuidado de não proferir qualquer tipo de intimidade ou carinho.
Atrapalhado, começou a tratar do café virando-lhe as costas, e os pensamentos da noite anterior começavam agora a martelar-lhe o cérebro. Recordava-se porque se tinha retirado mais cedo dando a desculpa, do Lobo Antunes lhe dar sono, uma mentira inocente que se ela o conhecesse teria logo detectado, ele adorava Lobo Antunes, jamais se imaginaria a adormecer lendo-o, e isso provava que ela nem sabia minimamente do que ele gostava. Quando chegou ao quarto não se conteve, chorou como uma criança infeliz, tal a desilusão que sentia com o rumo da sua vida, lembrava-se de lhe parecer ouvi-la junto à sua porta, mas imaginou-se a enlouquecer, o quarto dela ficava na ala oposta do seu, só poderia estar com alucinações.

O zumbido da chaleira da água para o café, trouxe-o de novo à realidade e com um olhar de soslaio verificou se ela ainda lá estava. Estava. Não se tinha mexido e sentiu-se contente por isso, talvez ela ficasse enquanto tomava o pequeno-almoço.
Enquanto se sentava, ela perguntou-lhe: - Desde quando é que o Lobo Antunes te dá sono? Ele não esperava aquela pergunta e nem tinha jeito para mentiras, decidiu no momento dizer a verdade: - Foi uma desculpa para me retirar, estava a custar-me estar ali contigo e não invadir o teu espaço, o Lobo Antunes é que pagou, mas não sabia que tinhas conhecimento do meu gosto por ele? - Mas tenho Fabrício, assim como de outros gostos teus, não devias ter-te retirado, ontem apetecia-me companhia.

Fabrício atónito, recebeu aquelas palavras como terra para um náufrago, sentiu uma leve esperança invadir-lhe o coração, mas logo recordou as palavras e ela não tinha dito que lhe apetecia a companhia dele, mas sim companhia, isso era plural, só lhe apetecia companhia e não devia estar com disposição de sair, ou então, nenhuma das amigas estava livre para a acompanhar.
- Fabrício! Ouviste o que eu disse? - Desculpa Marta, disseste que ontem te apetecia companhia, eu ouvi. - Mas era a tua, não era a de mais ninguém. - A minha? - Sim a tua, ontem apetecia-me a tua companhia.

Ela tinha sido clara, era à companhia dele que se referia, não de qualquer outra pessoa, agora o seu coração tinha disparado, e a custo disse: Ontem, quando estava no quarto ouvi música, estavas a ouvir o quê? - O novo CD do Cohen o Dear Heather que comprei a semana passada, respondeu. - Ah, esse romântico inveterado, não sabia que gostavas, é um disco que já saiu à algum tempo, talvez no início do ano, não é novo. - Sim, mas é o último e eu ainda não o tinha, como não me fizeste companhia, tive de recorrer a ele.

Fabrício pensava se as palavras que ouvia da boca da Marta seriam reais, não notava nenhum tom de brincadeira, seria esta uma estratégia para em seguida o meter no seu lugar? Não podia ser! Ela não o amava, isso era um facto, mas tinha sido sempre de uma educação extrema, estaria a falar verdade? Encheu o peito de ar e perguntou-lhe: Tens a certeza que era mesmo a minha companhia que ontem querias? - Era! - Desculpa a pergunta Marta, mas porquê? Ela ficou em silêncio enquanto o fitava nos olhos e ele ficou a olhar para ela à espera de uma resposta que não vinha, tinha uns olhos lindos, que muito raramente tinha oportunidade de ver tão perto e tão demoradamente, os seus olhares costumavam ser fugidios, mas agora, ela continuava a olhá-lo fixamente, sem demonstrar intenção de os desviar e ele pensou no quanto a amava, como lhe apetecia beijá-la. De repente, Marta mostrou intenção de se levantar, e ele pensou que devia ter desviado o olhar, ela devia ter pensado que ele a provocava e ia-se embora. Balbuciou uma desculpa, quando Marta se encaminhou na sua direcção que era a da porta da cozinha, ela, levou um dedo à boca em sinal de silêncio, chegada ao pé dele, parou, e perguntou-lhe olhos nos olhos e com a cara quase colada à sua: Ainda me amas Fabrício? Ele sentindo-se desfalecer murmurou: - Mais do que tudo na vida.
Marta, colocou as mão suavemente na sua cara, e ele sentiu o seu perfume inundá-lo quando ela o beijou.

 

Espreitador

 

Retirado de Rua dos contos

 

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publicado às 22:15

A melhor fotografia do casamento real

 

 

Vocês desculpem lá a minha ignorância, mas alguém me quer explicar qual a importância dos noivos e a sua influência no mundo para que este casamento tenha  tido a cobertura a nivel mundial que teve? Como é que nesta fase da vida ainda há tanta gente que acredita em histórias de principes e princesas? Com tantas coisas importantes e reais que há no mundo... poupem-me!

 

A imagem veio do Facebook... e é no minimo.. estranha

 

Jorge Soares

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publicado às 21:09

As tolerâncias de ponto e os danos ao estado.

por Jorge Soares, em 28.04.11

Tolerância de Ponto

 

Quando comecei a trabalhar há 15 anos era tradição que a empresa desse o dia 24 de Dezembro, véspera do natal, passados uns dois ou três anos foi criado um calendário de férias que por motivos de manutenção de equipamentos, incluía o período entre o natal e o ano novo e claro, o dia 24. Estamos a falar de uma empresa privada, é claro que houve quem nas conversas entre colegas mostrasse o seu desagrado.. mas a coisa não passou daí. Como tenho horário flexível,  há anos  que  trabalho até ao meio dia e compenso à posteriori e outros  que meto um dia de férias... tendo o cuidado de combinar com os meus colegas de modo a que exista sempre alguém que garanta os serviços.. que a informática, tal como a empresa, nunca pára.

 

Sou e sempre fui contra as tolerâncias de ponto: as da Páscoa,  do Carnaval, do Natal, as do Papa, as da Nato, todas, para mim tolerância de ponto é sinónimo de aberração. Qual pode ser a justificação para que num dos paises na Europa que mais feriados tem, num país em que o estado é dos mais deficitários da Europa e dos que tem das piores taxas de produtividade, os sucessivos governos decidam distribuir ainda mais feriados a seu bel prazer?

 

Como é que alguém consegue justificar que numa situação como a que estamos, em que vamos pelo mundo de mão estendida a pedir dinheiro e ajuda, se tenha decidido dar mais um feriado na quinta-feira passada? A propósito de quê? O calendário eleitoral do PS?

 

Quanto a mim isto é vergonhoso.. mesmo. É preciso ter em conta que cada um destes dias custa ao país a módica quantia de mais ou menos 40 Milhões de Euros.... foi essa quantia que o governo deitou fora com mais este presentinho aos funcionários públicos.

 

Hoje era notícia no Publico online o seguinte:

 

O advogado Alfredo Castanheira Neves apresentou na terça-feira ao Ministério Público (MP) uma denúncia visando o primeiro-ministro, por eventual administração danosa, resultante da tolerância de ponto concedida à função pública na tarde de quinta-feira santa.

 

Concordo completamente, isto é gestão danosa, e só é pena que alguém não tenha pensado nisto antes, já viram a quantidade de milhões que se tinham poupado por exemplo no ano passado?

 

Tal como acontece comigo no natal e nos restantes feriados, quem quer fazer pontes que meta um dia de férias, o país não está para brindes.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:12

adopção.jpg

 Imagem de aqui

 

Hoje lembrei-me da Dália!. A Dália foi minha colega no meu primeiro emprego em Portugal, era chefe de secção e responsável pelas caixas, era sempre a última a sair. A Dália casou-se e nada mudou, continuava a ser a última a sair, ficou grávida e ainda não sei como é que a criança não nasceu no supermercado, acho que ela só foi para o Hospital ter a filha depois das caixas fechadas e das contas feitas.

 

Não passou muito tempo, estava de volta e a ser a última a sair.. começámos a achar aquilo estranho, até que um dia alguém esclareceu: A Dália não gosta da filha, felizmente a criança tem um pai babado que é quem no dia a dia trata dela com uma dose de amor que vale pelos dois.

 

A maioria achará estranho, mas não é, acontece muitas vezes, apesar de uma mãe trazer nove meses uma criança dentro de si, não é garantido que seja um amor imediato, há mães que tem que ser conquistadas pelos filhos, que precisam de tempo para gostarem daquele ser pequenino que se fez dentro de si.

 

Eu lembrei-me da Dália quando li o seguinte comentário que alguém deixou no Nos adoptamos:

 

"Lamento vos dizer mas estão errados.
E falo com toda a experiência. Também já tive do vosso lado, tb critiquei essas 80 devoluções, e dp, mto tristemente, aconteceu comigo.
Estive 7 anos à espera de uma criança, tive de convencer o meu marido para a ideia da adopção (e como foi dificil!), e depois fui eu que não consegui sentir a 'tal' ligação. 
E foram as proprias assistentes sociais que me aconselharam a desistir, pois se esse 'clic' não acontece logo, nunca acontecerá, disseram. .......

 

Clic?, um clic? o que é um clic? é triste que as pessoas passem anos à espera para adoptar sem no fundo perceberem do que se trata, e é muito triste que as assistentes sociais apoiem este tipo de conversa. Há uma diferença enorme entre adoptar e ter um filho biológico, na adopção não há clics... na vida não há clics. Um filho biológico demora 9 meses a aparecer, são 9 meses em que preparamos o mundo e a nós próprios para a sua chegada.

 

Adoptar uma criança é construir pontes. De repente um dia entra-nos um estranho pela casa dentro e descobrimos que veio para ficar. Há casos em que se forma uma ligação imediata, cá em casa aconteceu entre o N e a minha meia laranja, há outros casos em que é preciso dar tempo ao tempo para que as ligações se formem e para que se construam as pontes.. foi o que aconteceu entre mim e o N.

 

Lamento, mas quem está errada é a senhora, adoptar é aprender a conhecer, aceitar, estender a mão e esperar que do outro lado alguém a agarre, muitas vezes demora tempo até que a criança, que sabe deus o que já terá passado na vida, ganhe confiança, se adapte e nos adopte.

 

Adoptar é ser perseverante e é sobretudo ser-se  suficientemente humilde e paciente para dar tempo ao tempo.. não há clics, há amor e paciência. Se não consegue entender isso, se está à espera de um clic, desista, não está preparada e não faz a menor ideia no que se está a querer meter.

 

Voltando à Dália, ela também não ouviu nenhum clic, mas é evidente que ninguém devolve filhos biológicos, ao contrário das assistentes sociais que ficam por ali a ver no que dá, a cegonha deixa a criança e vai logo embora, não aceita devoluções... com o tempo todas as Dálias deste mundo que não ouviram o clic no momento do nascimento, aprendem a gostar e a amar os seus filhos, porque o tempo e o sorriso de uma criança fazem todos os milagres do mundo.... basta acreditar e dar tempo ao tempo.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:06

A educação pode fazer toda a diferença

por Jorge Soares, em 25.04.11

 

 

O 25 de Abril significou muitas coisas para Portugal e para os portugueses, uma das principais conquistas foi a educação para todos, em 1970 a taxa de analfabetismo era de 33%, um terço dos portugueses não sabia sequer ler e escrever, sendo que a grande maioria dos que tinham instrução ficavam-se pelos 4 anos da educação primária.

 

Felizmente Portugal mudou muito, neste momento a taxa de alfabetismo é de 95%, sendo que a taxa de inscrição no ensino obrigatório ronda os 100% para as crianças em idade escolar.

 

Esta é a realidade actual portuguesa, mas há ainda muitos lugares no mundo em que a realidade é diferente, actualmente, 72 milhões de crianças em todo o mundo não têm a hipótese de ir à escola. Estas crianças poderiam vir a tornar-se os líderes, desportistas, médicos e professores da próxima geração. Mas enfrentam uma vida de luta contra a pobreza.

 

A educação pode representar para muitas destas crianças a diferença entre a vida ou a morte, entre o viver ou o sobreviver. A 1GOAL é uma campanha que aproveita o poder do futebol para assegurar que a educação para todos é o duradouro legado do Mundial de Futebol da FIFA 2010. Ao levantar as nossas vozes por todo o mundo acreditamos que, juntos, podemos fazer da educação uma realidade para milhares de meninos e meninas que continuam fora da escola.

 

Visite o Site da 1 Goal

 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:01

25 de Abril mais que nunca

por Jorge Soares, em 24.04.11

 

Cravos de Abril, 25 de Abril sempre

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

 

Letra

 

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

 

Zeca Afonso

 

25 de Abril mais que nunca

Jorge Soares

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publicado às 21:39

Conto, O Maneirinho

por Jorge Soares, em 23.04.11
O Maneirinho

 

Dircelina, lembrava-se bem daquele dia, tinha chegado com a maleta de mão, e por companhia trazia a sua cor negra, a pouca escolaridade e o estigma de um país em guerra. Vinha para trabalhar, neste, que era visto por lá, como a árvore das patacas, e por via disso, a esperança tinha-lhe feito companhia durante toda a viagem, e já antes, nos preparativos que antecederam a partida a aconchegara, lhe soprara quente no peito e lhe dissera em surdina: vais conseguir.


Para trás ficava a família; mãe, duas filhas pequenas e quatro irmãos, um deles estropiado e que era tudo o que a guerra não tinha levado, mas nisso não quis pensar, aquela, era a altura das grandes tarefas o momento que ambicionou e não tinha receio de confrontar, para isso, contava com outra grande amiga: a vontade inabalável de vencer.

 

Aquele emprego, que um antigo amigo do seu pai lhe arranjara, não era o que pensava, esteve para o recusar, não o fez por causa da fome miserável que já há dez dias e dez noites a acompanhava, mas hoje, dez anos passados, sabia que tinha ganho a grande prova. A tristeza do primeiro dia em que se deitou com um cliente e depois todos os outros que seguiram, eram passado, assim como as lágrimas que abriram sulcos nas suas faces de ébano. O desejo dos homens, pelo seu corpo esguio e musculado do trabalho na sanzala, tinha-lhe garantido uma posição privilegiada entre as escravas do Maneirinho, e desde muito cedo traçara o seu plano.

 

A vinda da família, acontecera já depois de ter conseguido casar-se com o Maneirinho, a seguir, foi um passo, até o convencer a investir o dinheiro ganho com a escravatura e outros expedientes, num restaurante que ela e a mãe passaram a gerir, por fim, ele começou a gostar daquele chá que com receita da sua avó a mãe lhe ensinou a fazer, e que provocava no Maneirinho o estado esfusiante de alucinada embriaguez, e foi nesse estado que o convenceu ser ele capaz com a força do querer, parar o rápido Lisboa-Sintra.


Ainda lhe notou a incerteza no olhar, quando no meio da linha viu o comboio aproximar-se, mas ela, postada no apeadeiro, deu-lhe a força que faltava, gritando-lhe, és capaz meu querido, tu és capaz de tudo.

 

Espreitador

Retirado de Rua dos contos
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publicado às 21:05

25 de Abril sempre

por Jorge Soares, em 23.04.11

A formiga no carreiro

 

 

A formiga no carreiro
Vinha em sentido cantrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário
Larpou trepou às tábuas
Que flutuavam nas àguas
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente
Buliu buliu abriu as gâmbias
Para trepar às varandas
E de cima duma delas

Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
Andava a roda da vida
Caiu em cima
Duma espinhela caída
Furou furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
Zeca Afonso
Setúbal, Abril de 2010
25 de Abril sempre
Jorge Soares
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publicado às 17:19

Sim, talvez tenham razão.

por Jorge Soares, em 22.04.11

A pequena papoila

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.

 

Alberto Caeiro

 

Pequena papoila que cresceu entre as pedras da calçada portuguesa

Setúbal Abril de 2010

Jorge Soares

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publicado às 21:16

O florir do encontro casual

por Jorge Soares, em 21.04.11


Borboleta na folha de palma

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

O Florir

 

O florir do encontro casual

Dos que hão sempre de ficar estranhos...

 

O único olhar sem interesse recebido no acaso

Da estrangeira rápida ...

 

O olhar de interesse da criança trazida pela mão

Da mãe distraída...

 

As palavras de episódio trocadas

Com o viajante episódico Na episódica viagem ...

 

Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...

Caminho sem fim...

 

 

Álvaro de Campos

 

Borboleta numa folha de palma

Setúbal, Abril de 2010

Jorge Soares

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publicado às 21:11

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