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A bater o punho com o Miguel... será?

por Jorge Soares, em 31.08.11



Anda meio mundo embasbacado com este vídeo, o Miguel Gonçalves fala pelos cotovelos, parece que as pessoas gostam de quem fala pelos cotovelos... é por isso que o povo adora o paulinho das feiras, metade não percebe o que ele diz, mas não importa, ele fala bonito e diz o que a malta quer ouvir.



Eu vi e ouvi, duas vezes, meia hora da minha vida a tentar aprender alguma coisa, o que é meia hora na minha vida se no fim vou estar mais sábio, mais empreendedor, pronto a bater o punho? ... estarei?. 



O Miguel não tem papas na lingua, fala, muito e muito depressa, debita ideias ao metro... muitas coisas... que serão muito uteis.. mas .. para quem?  Não faço ideia qual o curso superior do Miguel, o que faz, onde ou para quem trabalha... mas a mim o discurso do Miguel diz-me pouco, como dirá pouco à maioria dos dos jovens licenciados portugueses.



O Miguel acha que as universidades não ensinam os jovens a vender o seu produto, concordo, mas será que tem que ensinar?, as universidades servem antes de mais para aprendermos a pensar, a pegar nos problemas do dia a dia e encontrar as melhores soluções, ninguém sai da universidade preparado para enfrentar o mundo... porque não é suposto sair.



Esta parte do discurso do Miguel faz-me lembrar a maioria dos técnicos de hardware que tenho conhecido, quase todos abandonaram engenharia informática no primeiro ou segundo ano, porque eles queriam era aprender a mexer nos computadores chave de parafusos em punho.. e o raio do curso só ensinava a programar e teorias parvas...



Conheço muitíssima gente que tirou cursos superiores e trabalha com sucesso em áreas completamente diferentes daquelas para as que se prepararam, de onde vem esse sucesso?, da sua capacidade de aprender, de se adaptar, porque foi isso que aprenderam na universidade.



O empreendorismo do Miguel é de louvar, fazem falta pessoas empreendedoras, pessoas capazes de pegar numa ideia e fazer dela um projecto e uma empresa... mas  o mundo não tem assim tantas oportunidades e tantas ideias brilhantes por explorar, e convenhamos, nem todos os jovens que se formam todos os anos podem terminar a desenvolver trabalhos brilhantes e inovadores.... porque para além da inovação e do desenvolvimento de ideias, fazem falta pessoas que consigam entrar para uma empresa e com o eu conhecimento e  a sua capacidade de aprender garantir que esta continue a funcionar, pessoas que sejam capazes de aprender a liderar outras pessoas, pessoas que num mundo em constante mudança, sejam capazes de garantir que o que damos por certo para a nossa vida, continue a existir.



Acredito que o discurso do Miguel se adeque perfeitamente a alguymas áreas de negócio, ao marketing, à publicidade, talvez às novas tecnologias.. mas dificilmente se aplica ao mundo industrial... ninguém chega à empresa em que eu trabalho e diz, eu tenho aqui um projecto de um novo medicamento que vai salvar o mundo, contratem-me!!!... isso não existe.



É claro que todos podemos ser empreendedores e todos deveríamos ter a garra do Miguel, infelizmente no mundo em que vivemos isso não é possível, porque somos todos diferentes e porque o mundo precisa de pessoas diferentes.



Jorge Soares
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publicado às 21:41

Apontamentos sobre a visita a Londres

por Jorge Soares, em 30.08.11

Londres

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

A maioria das pessoas ruma a Sul e ao calor no Verão, cá por casa o hábito é o contrário, verão é a Norte, este ano incluiu uns dias um pouco mais a Norte ainda, em Londres.  

 

Primeira constatação, a diária em Londres para dois adultos e 2 crianças num hotel de 4 estrelas (da cadeia Novotel) fica mais barato que alugar um bungalow nos parques de campismo da costa Alentejana e nem estou a comparar com o mês de Agosto. Pagamos mais na Pascoa ou em Junho num bungalow que o que pagamos pelo hotel em Londres... é claro que a isto há que juntar as viagens... que se marcadas com a devida antecedência também não ficam assim tão caras. É verdade que o hotel não era no centro, mas tinha metro quase à porta e em 10 minutos estávamos na Tower Bridge. Com isto não é de admirar que por cá os ingleses sejam cada vez menos.

 

É claro que todos adoramos a cidade, evidentemente 5 dias não dá para ver tudo com a calma e o detalhe que gostaríamos, mas dá para ficarmos com uma ideia da grandiosidade da cidade e da enorme mescla de povos e culturas que vivem e convivem em (pelo menos) aparente calma e harmonia.

 

A maioria dos grandes museus são gratuitos, pelo que a nossa escolha de visitas recaiu principalmente sobre estes... e mesmo nos sítios em que não era gratuito existem os bilhetes familiares que tornam o acesso muito mais barato. A alimentação é mais cara que por cá, mas com algum cuidado consegue-se almoçar ou jantar a preços mais ou menos acessíveis... mesmo sentados e de faca e garfo conseguimos jantar por menos de 50 Euros, 4 pessoas.

 

Todos adorámos a cidade, a R. ficou um pouco triste porque não pode ir visitar o Museu da cera, mas 100 libras por um bilhete familiar era assim um pouco para o exagerado... fica para a próxima.

 

Aconselho vivamente o passeio de barco pelo rio, há uns barcos que vão do O2 até à zona do Big Ben, o bilhete familiar custou-nos 26 Libras, dá para o dia inteiro e podemos entrar e sair as vezes que quisermos, a perspectiva da cidade desde o Rio é fantástica e é uma  excelente forma de visitar uma grande parte da mesma sem termos que andar muito.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:35

Aprendemos a lição de Londres?

por Jorge Soares, em 29.08.11

Londres, aprendemos as lições dos motins?

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Este ano as minhas férias foram mais calmas e sem casos para o blog... mas foi por muito pouco. Estávamos em Londres quando tudo começou, por mero acaso o nosso hotel ficava nas Doclands, bem a Sul, longe dos bairros a norte da cidade onde tudo começou, não demos por nada... a  não ser que ao fim da tarde daquele dia havia bastantes carros da policia apressados e com as sirenes a tocar enquanto passeávamos pelas imediações de Trafalgar Square.

 

De resto, no centro da cidade era um dia normal, como o era o dia seguinte, o nosso último dia na Cidade e em que fomos ao museo de história natural.

 

Pilhagens e destruição não são novas para mim, eu estava em Caracas a 27 de Fevereiro de 1989 quando o fim dos subsídios aos transportes públicos ditou um aumento brutal dos preços e o inicio de uma revolta popular que em 3 ou 4 dias deixou centenas de mortos, uma cidade pilhada e num caos completo. A Venezuela era a democracia mais antiga da América Latina e os ecos daquele dia ainda se escutam hoje... sendo que Hugo Chavez será a mais forte das recordações.

 

O que aconteceu em Londres pode ser lido de muitas maneiras, há quem fale de desespero da população mais pobre que mal consegue sobreviver, há quem no extremo oposto fale da falta de educação e princípios cívicos, de uma sociedade sem valores... acredito que a verdade estará algures a meio.

 

É difícil acreditar que seja o desespero e a falta de bens básicos o que leva à pilhagem de lojas de electrónica e de moda, também é difícil acreditar na falta de educação quando entre quem foi detido temos estudantes das melhores universidades, filhos das melhores famílias, engenheiros, assistentes sociais, crianças de 11 anos....

 

Londres é uma cidade cheia de cultura e de culturas, pelas suas ruas passeiam-se em aparente harmonia todas a raças e credos que se possam imaginar... não sei até que ponto será fácil manter em equilíbrio uma tal babel de pessoas e culturas. O que vi da cidade não me dá evidentemente para ter a perspectiva do que há mais além, o que está por trás das fachadas e do turismo. Mas a minha experiência de vida diz-me que este tipo de coisas é sempre sinal de algo mais..... não sei se a nossa sociedade estará preparada para entender e aprender com tudo isto... sei sim que o resultado pode ser muito mau.

 

Será que para além de que policias desarmados não são uma boa solução para resolver casos destes, alguém terá tirado alguma lição do que se passou em Londres no inicio de Agosto? .... tenho sérias dúvidas. 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:43

Os blogs não são a casa da Joana, o plágio é crime

Imagem do Tudo sobre o mundo

“A fama dos grandes homens devia ser sempre julgada pelos meios que usaram para obtê-la.”

DUQUE DE LA ROUCHEFOUCAUL

 

Já lá vão uns tempos desde que a Cigana levantou a tenda e fechou o blog, andasse ela por cá e de certeza que hoje eu ouviria um sonoro.. "Eu bem te disse". .... bom amiga, hoje dou por completo o braço a torcer.

 

Durante muito tempo eu achava que aquilo que eu escrevia nos blogs, mesmo as minhas fotografias, não era o suficientemente importante como para que alguém se interessasse e me quisesse plagiar, cheguei mesmo a achar um exagero aquele post da Cigana em que ela batia forte e feio em quem abusava do copy past... hoje penetencio-me.

 

Aquilo que sinto neste momento é que há muita gente por aí que acha que os blogs são a casa da Joana, que podem simplesmente chegar e levar o que lhes apetecer, sem bater à porta, sem pedir autorização, sem perguntar, nada, é chegar, fazer Copy, depois colar noutro blog ou num site qualquer, assinar por baixo e já está. Devem achar que bloguer é sinónimo de zé ninguém, que o que estes fazem, independentemente da qualidade do trabalho, não está sujeito às mesmas regras que qualquer outra obra, que não merece respeito... 

 

Há muito que me habituei a encontrar por meia internet a frase do cabeçalho do meu Momentos e Olhares, de há uns tempos para cá descobri que as minhas fotografias da Praia do Carvalhal fazem imenso sucesso, primeiro foi um site de partilha de fotografias, depois foi um portal do Alentejo, a semana passada foi um site de um turismo de habitação algures perto de Grândola, que incluía duas fotografias e que para cúmulo, no pé de página dizia que as imagens estavam sujeitas a direitos... deles.. é preciso ter lata.

 

Há uns dias chamou-me a atenção um artigo sobre adopção num suposto "portal" de psicologia porque estava ilustrado com uma fotografia minha, quando fui ler  verifiquei que para além desta, a maior parte do texto tinha sido copiado quase integralmente de um dos meus posts aqui no jantar, é claro que nem assinatura, nem referência à origem ou ao autor, zero. Sempre me disseram que eu tinha jeito para ouvir as pessoas e que de certeza daria um bom psicólogo.. mas daí a que o que eu escrevo sirva para colocar num "portal" de psicologia vai alguma distância.... fala bem sobre a forma como se documentam os pseudo portais especializados que pululam na internet e que não servem mais que para caçar cliks para a publicidade.

 

Meus senhores, os blogs não são a casa da Joana, o trabalho dos bloguers merece tanto respeito como o de qualquer outra pessoa, o facto de algo estar publicado na internet não o torna automaticamente público e gratuito, pedir autorização, referir as fontes, os autores, é em primeiro lugar uma regra de educação e em segundo lugar uma mostra de respeito por quem cria... além disso, o plágio é um crime punido por lei.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:43

Conto: O chão, o colchão e a colchoa

por Jorge Soares, em 27.08.11

 

O chão, o colchão e a colchoa

 

 

- “Eu não sou um qualquer, tradicional. Mesmo já vou dormir em colchão”.


E explicou: ainda ele se esteirava na húmida humildade do chão. Mas era por um enquanto. Pois o seu colchão estava no caminho de vir, quase chegando.


- “Contra factos só há argumentos”.


E, de facto. Aconteceu nessa semana quando o comboio transfumou-se na estação, despulmonado. Saíram os magaíças, saiu a mercadoria. E entre as descarregações desceu o mencionado colchão. O povo estava ali para testemunhar. Xavier, inchado, dava ordens de cuidados. Que atentassem também no armário.


- “Me tratem bem esse arrumário”.


Ele não punha mão no carrego. Suores manuais não eram da sua estatura. Acontece que entre a multidão figurava Maria Amendoinha que logo, em imediato coração, desembarcou nos olhos do Xavier. A moça escutava, embevencida, o ex-mineiro a papagaiar pela estação dos caminhos-de-ferro. Que eu e eu, que isto multiplicado por aquilo, noves fora eu.


A mercadoria subiu num tchova e o povo seguiu o carrego em procissão. Maria Amendoinha seguia na cauda, absorta, coração em pensamento. O cortejo chegou a casa de Zandamela, a carga foi nivelada no rés-da-terra e transpostada para os interiores. Do lado de lá, os curiosos se fatigaram e dispersaram. Ficou apenas a jovem, sonhatriz, em suspiros mais leves que osso de morcego.


Nem ela notou a chegada da noite. Xavier saía e entrava a sacudir o cachimbo no pátio. Numa dessas saídas deu pela presença dela. Primeiro não decifrou sombras, desfolhou cautelas. Depois, ele aproximou intimidade, abelhoso. Duas cadeiras se arrastaram para assentar o tempo. O mineiro alargou as falas, endomingando conversa.


- “Você nem sabe imaginar as terras onde trabalhei! Lá não há pobre diabo. Sim, lá até o diabo é rico!”


Conversa puxa silêncio e a menina se fantasiava, natalícia. Nunca ninguém lhe lustrara tantos tentos e atentos. Amendoinha, despossuída, parecia a Eva sem maçã.


Xavier adiantou convicto convite: ela que entrasse a experimentar o colchão. Passos ébrios, ela foi entrando. E sucedeu-se: o colchão cumpriu seu destino. Estreou-se o objecto e a menina. Ficou um sanguezinho, vermelho minúsculo a manchar a esponja do colchão.


No dia seguinte, começou vozearia na aldeia: a nuvem é maior que o sol? A Xavier Zandamela lhe pesava o céu de tanto ser mencionado. Eram as falas:


- “O sapo incha por não dividir. Agora ele quer dormir sozinho em tanto colchão?
- “Esse é que o calcanhar: o gajo não deitou sozinho!
- “Acolchoou-se com alguém?”


Era urgente fechar o pio, para abrir o corrupio: Xavier tratou-se de casar com Amendoinha. E os dois conjugaram-se, em dia-a-noite. Porém, aquela felicidade se contou pelos dias. O mineiro revelou seus fundos violentos. Volta e volta ele batia na recente esposa. Xavier quis lavar a boca e sujou o sabão. Porque aconteceu então o imediato seguinte: altas horas a mulher acordava, escutando barulhos vivos dentro do colchão. Depois já não eram apenas sons, mas coisa apalpável. Amendoinha começou a colocar hipótese de maldição.


- “Marido: há bicho andante aqui dentro!
- “Isso nem se menciona”, advertia Xavier. “Somos alguns irracionáveis, igual a essa povaria do subúrbio?”


Amendoinha não se resignava. Se não era igual ao povo seria idêntica a quem? O marido aumentava-se, mas aquilo era corpo de imbondeiro. Ela já vira o engano: molhado, o leopardo não é mais que um gato-bravo. Bem diz o provérbio: a lua morre e é grande enquanto as estrelas, ainda que pequenitas, ficam a brilhar.


- “Pois, a partir de agora, você troca colchão por esteira.
- “Mas esses barulhos, Xavier...
- “Mas quais barulhos, santo e deus! Se eu não escuto nada./?
- “Se não vêm do colchão é porque, pior, estão a vir da minha cabeça”.


Isso, sim. Xavier admitia, rindo. Mas aquelas gargalhadas eram alegria sem carne: se via através delas o nervo do medo. Os barulhos prosseguiam, quotinocturnos. Mesmo deitada na esteira, Amendoinha passava noites em claridade.


Ao longo de tanta insónia, ficou zonza-sonsa, coxeando da razão. E já não prestava respeitos ao seu legítimo. Xavier, despeitado, lhe incrementou nos arraiais. Batia com mais e mais violência. “Nem é por maldade: arreio-lhe para ela ficar cansadinha e dormir melhor”, dizia o mineiro. Fechava o punho e, enquanto amassava o corpo da mulher, comentava:


- “Amendoinha, é você; eu sou o pilão”.


A família de Maria Amendoinha veio-lhe buscar-lhe ela já não acertava o pé no passo. O pai de Amendoinha passou o olhar fatalício pelo quarto dos separados de fresco, ditando:


- “Aqui cheira a coisa parindo”.


E tinha razão. Pois, no ventre do colchão, daquela manchazita de sangue, estava nascendo aparente criatura, o desabrochar de maldição.
Xavier Zandamela quando se deita, sozinho e triste como gato que perdeu a rua, nem nota o adventício ser. Apenas sente que as formas do colchão se lhe amoldam: há duas concavidades, uma ao lado da outra. Seria que o colchão sentiria saudade da ausente esposa?


Até que uma noite, sonhava ele através de amores muito sexuais, quando na carícia do lençol reconhece o volume de seios, polpudas proeminências debaixo do seu corpo. Quem estava ali, afinal? Nem ousou acender as luzes, fosse a aparecência se extinguir. Aceitava aquela conversão de bom agrado.


A partir de então, o colchão se convertia em mulher, na mulher em que sonhava. Cada noite Xavier procedia a mais avanços, com tacto e beijo. A mulher - será que lhe poderia chamar assim? - , a mulher vinha da sobrenatureza e lhe dava um pedacito mais de acesso. Mas sem chegar a vias do facto. Ao despertar, Xavier se satisfazia. E sorriam recíprocos, ele e a manhã. Afinal, por que real motivo se necessita mulher no lado de cá da verdade?


Até que uma noite ele se preparou, perfumes e pijama lavado. Aquela noite, sim. Aquela noite, ele visitaria o íntimo daquela promessa. E assim aconteceu. Beijo e escuro, suspiro e silêncio. No êxtase, Xavier se viu dizendo inesperadas palavras:


- “Amendoinha!”
De repente, o colchão se revolteou, envolvendo o mineiro. Carnes e esponjas, braços e panos se entrerodilharam. O corpo do homem foi perdendo formato, em dissolvição. Quando dele não restavam senão avulsos botões de pijama se escutaram passos entrando pelo quarto. E Xavier Zandamela ainda sentiu apressadas mãos enrolando o colchão e o carregando pela noite afora.

Mia Couto,
Contos do nascer da Terra

 

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:20

Os ricos não pagam a crise

Imagem do 5 dias

 

Antes de mais um esclarecimento, eu sou dos que acha que o pagamento de impostos é uma obrigação e um dever de todos, um dos principais motivos que nos levaram ao estado em que estamos é que existe uma enorme percentagem de gente que utiliza todos as formas possíveis e imaginadas para não pagar... sou portanto a favor da criação deste imposto aos mais ricos e de que se criem todos os mecanismos possíveis para que ninguém possa fugir aos seus deveres e obrigações com o estado.

 

Entretanto tenho seguido com alguma atenção toda esta história e confesso, de tanto ler e ouvir estou baralhado  e neste momento quando alguém fala em imposto aos mais ricos, não sei o que isso possa significar.

 

Se não vejamos: No ionline alguém diz que "Imposto sobre os 100 mais ricos de Portugal salvava subsídio de Natal", tentei perceber como chegam ao valor de 570 milhões de Euros, em vão... mas tenho sérias dúvidas sobre a realidade de tais números.

 

Em França, que é de onde se está a tentar seguir o exemplo, foi criado um imposto que pode ir até 3% do valor anual declarado de quem ganha mais de 500 mil Euros, no nosso país esta taxa iria afectar umas poucas dezenas de contribuintes e teria um beneficio para o estado de umas poucas dezenas de milhões de Euros, muito longe portanto das 5 centenas de milhões de que se fala acima.

 

Visto deste este ponto de vista, e tal como se diz nesta outra noticia do ionline, esta medida seria principalmente simbólica, o seu efeito real nas contas seria isso, simbólico, ainda que não deixe de ser da mais elementar justiça que quem pode pague mais que quem não pode, seja o detentor de fortuna trabalhador ou não.

 

Certo é que quanto mais leio e ouço, menos percebo o porquê de tanto alarido à volta de tudo isto, assim como não percebo porque continuam sem se taxar as mais valias financeiras e os lucros de capital.. isso sim medidas que fariam toda a diferença.... mas isto sou eu e a minha ignorância, se alguém souber do que realmente estamos a falar, faz favor de me explicar.

 

Jorge Soares

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publicado às 13:57

O mau perder de Mourinho

por Jorge Soares, em 24.08.11

O mau perder de Mourinho

Imagem do El Pais

 

Passei as passadas duas semanas no Norte de Espanha, lá onde o verão é suave, a paisagem é sempre verde, as praias são óptimas e desafogadas e a água do mar ronda os 23 graus, é um ritual ao que me habituei nos ultimos 15 anos e que será sem dúvida para repetir.

 

Não é segredo nenhum que sou um admirador confesso de José Mourinho, da sua capacidade de trabalho, da sua forma de estar e de enfrentar a vida, e do seu exemplo de sucesso para todos nós.

 

Tenho por hábito ler alguns dos jornais online espanhóis, não é para mim novidade a forma como Mourinho tem sido ao longo do ultimo ano uma autêntica pedrada no já de por si revolto mar do futebol Espanhol, mesmo assim, foi para mim uma surpresa o que senti e ouvi nas duas últimas semanas... e depois do comportamento do treinador Português na passada quarta feira, fico na dúvida se desta vez ele não terá perdido mesmo o controlo da situação.... se não estará na altura de rever a sua forma de estar.

 

Após o primeiro jogo era unânime a ideia de que o Real Madrid foi muito superior, jogou melhor e tudo fez para ganhar, o jogo da equipa e o trabalho do treinador nesse jogo, foram elogiados por todo o mundo...  O que aconteceu no segundo jogo, para além do génio de um pequeno (enorme) jogador Argentino, foi para mim o bater no fundo de Mourinho.

 

O que eu vi e senti durante estas semanas, é que para além de estar a colocar contra si todo um país, basta ver como numas Astúrias cheias de madrilenos em férias eram festejados os golos do Barcelona e os do Madrid, Mourinho não sabe perder, não consegue aceitar que o futebol é um jogo e que faz parte das regras desse jogo o ganhar e o perder.

 

Isto para já não falar que é muito diferente treinar um grupo de jogadores que joga por gosto pelo futebol e pelo desporto a treinar um grupo de estrelas mimadas e que se preocupam muito mais por passear o penteado e as beldades que pelo jogo e pela equipa. Alguém sabe o nome de uma única namorada do Messi ou se ele mora numa mansão ou num apartamento das Ramblas?

 

Sempre nos habituamos a ver a famosa arrogância de Mourinho como uma arma do seu arsenal, uma forma de centralizar em si a atenção e de tirar pressão dos jogadores.... o que constatei na última Quarta Feira é que Mourinho tem muita falta de humildade e senso comum e um enorme mau perder, dia a dia cria mais anticorpos em toda a sociedade espanhola, do simples adepto a jornalistas e comentadores, não há quem simpatize com ele e com o seu feitio... e  isto inclui os adeptos do Real Madrid e até alguns dos seus principais jogadores. 

 

Não gosto de ver o insucesso de ninguém e muito menos o dele, que como disse acima sempre vi como um exemplo, mas convém que ele perceba que nem sempre o clima de guerra é bom no futebol, há alturas em que se perde o controlo das batalhas e estas terminam por engolir o projecto. Ou as coisas mudam muito,... ou quer-me parecer que Mourinho vai passar o Natal em Setúbal e longe do Futebol.  

 

Jorge Soares

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publicado às 23:03

Há pessoas que não deviam morrer nunca

por Jorge Soares, em 23.08.11

Imagem do Existe Um olhar 

 

 

Acho que há muito não me custava tanto iniciar um post.... faltam-me as palavras, há coisas que são muito difíceis de colocar por palavras... porque há coisas que simplesmente não deveriam acontecer, posts que não devíamos ter que escrever.

 

Estava em Londres quando me fizeram chegar a noticia, o SMS apanhou-me a meio do dia.. liguei o telemóvel por acaso... e fiquei parvo a olhar para as palavras... O Rolando morreu no Brasil....  fiquei sem reacção.. não pode ser.... porra, e agora como vamos beber aquela garrafa de tinto alentejano?, como te vou explicar que naquele texto que me escreveste e que me deixou de lágrimas no olhos havia mais verdades que aquelas que podias saber ou adivinhar? 

 

A blogosfera tem-me deixado uma mão cheia de amigos, pessoas que dia a dia se vão tornando mais próximas, o Rolando era para além de um excelente escritor, uma excelente pessoa e um daqueles amigos que se instalam e são para sempre.... Morreu, teve o valor para enfrentar a vida e construir a sua felicidade, infelizmente esta não lhe deu a oportunidade de a gozar como merecia... o mundo, todos nós ficamos mais pobres ... perdemos um amigo, o mundo perdeu um excelente escritor... eu perdi a oportunidade de pagar uma promessa...... não é justo... 

 

O Rolando morreu, mas as suas palavras são eternas nos seus blogs e  nos nossos corações.

 

No SAPO: Entremares  no Blogspot : Entremares

 

A cor do coração

 

 - Mãe...

- Tu gostas muito de mim, não gostas?

- Se gosto? Mas isso nem se pergunta, meu amor... eu adoro-te.

- E a Joana?

- Também a adoro... muito, muito, muito...

- Mas eu cheguei primeiro... devias gostar mais de mim...

- Oh, Luisinha... como seria possível? Eu adoro as duas, vocês as duas são as coisas mais especiais da minha vida...

- Então... gostas o mesmo... de nós as duas?

- Gosto... gosto muito... e gosto o mesmo das duas...

 

( Silêncio )

 

- Sabes, mãe... lá na escola às vezes perguntam-me coisas... que não consigo responder...

- Sim, Luisinha? E que coisas?

- Tantas coisas... mas há sempre uma coisa que perguntam mais do que todas as outras...

- Sim, meu amor? E o que é?

- Querem sempre saber... porque é que eu sou de uma cor e a mana é de outra cor... não deveríamos ser ambas da mesma cor?

 

( Silêncio )

 

- Luisinha... chega aqui...

- Sim, mãe?

- Queria só mostrar-te uma coisa... estás a ver isto?

- Estou ... são aquelas duas blusas novas que tu compraste ontem... a branca e a preta...

- Sim... essas mesmas... fecha os olhos, quero que descubras uma coisa...

 

(...)

 

- Estás a sentir? Consegues senti-lo?

- Claro que sim, mãe... é o teu coração a bater... já me tinhas mostrado antes...

- Sim... mas agora é outra coisa que te quero mostrar... não abras os olhos, deixa-me só trocar...

 

(...)

 

- E agora? Continuas a senti-lo?

- Sim... está igual. É outra vez o teu coração.

- E não notaste nenhuma diferença, nem um pedacinho?

- Não... porquê? Já posso abrir os olhos?

- Já, querida, já podes...

 

(...)

 

- Mãe... trocaste de camisa? Para quê?

- Nada de especial, meu amor... foi só para ter a certeza que reconhecias o bater do meu coração...

- Mas o teu coração... é sempre o mesmo, mãe...

- Pois é... A cor da blusa é como a cor da pele, não é? Como é que eu não hei-de gostar de vocês as duas por igual? O coração é o mesmo...

 

( Silêncio )

 

- Mãe...

- Sim, meu amor?

- Estavas a falar da Joana, é isso? Da cor da pele dela, é isso?

A mãe sorriu.

 

- Não meu amor...da cor da pele, não... da cor do coração.

 

 

Rolando Palma 

 

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publicado às 22:30

Sobre a importância das coisas

por Jorge Soares, em 23.08.11

Sobre a importância das coisas

 

Estava no Há vida em Marta e eu não resisti, diz muito sobre a real importância que a nossa sociedade dá às coisas... uma imagem vale por mil palavras e o meu cérebro ainda pensa que está de férias.. infelizmente não é verdade.... 

 

As Férias foram boas, repartidas por países, lugares, ... mas disso irei falando, assim como irei começar a retomar as visitas e os comentários em todos os blogs.

 

Jorge Soares

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publicado às 08:47

Dois horizontes

por Jorge Soares, em 21.08.11

Pôr do Sol em Cabo verde

 

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

Dois Horizontes

 

Um horizonte, — a saudade 
Do que não há de voltar; 
Outro horizonte, — a esperança 
Dos tempos que hão de chegar; 
No presente, — sempre escuro,— 
Vive a alma ambiciosa 
Na ilusão voluptuosa 
Do passado e do futuro. 

Os doces brincos da infância 
Sob as asas maternais, 
O vôo das andorinhas, 
A onda viva e os rosais; 
O gozo do amor, sonhado 
Num olhar profundo e ardente, 
Tal é na hora presente 
O horizonte do passado. 

Ou ambição de grandeza 
Que no espírito calou, 
Desejo de amor sincero 
Que o coração não gozou; 
Ou um viver calmo e puro 
À alma convalescente, 
Tal é na hora presente 
O horizonte do futuro. 

No breve correr dos dias 
Sob o azul do céu, — tais são 
Limites no mar da vida: 
Saudade ou aspiração; 
Ao nosso espírito ardente, 
Na avidez do bem sonhado, 
Nunca o presente é passado, 
Nunca o futuro é presente. 

Que cismas, homem? – Perdido 
No mar das recordações, 
Escuto um eco sentido 
Das passadas ilusões. 
Que buscas, homem? – Procuro, 
Através da imensidade, 
Ler a doce realidade 
Das ilusões do futuro. 

Dois horizontes fecham nossa vida.

 

(Machado de Assis, in "Crisálidas")

 

Pôr do sol em Cabo verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares

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publicado às 21:25

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