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Transportes de mercadoria

Imagem do Público 

 

Para quem não sabe, a 1 de Julho entra em vigor uma portaria da Autoridade Tributária (AT) que diz que para se transportar o que quer que seja do ponto A para o ponto B dentro do país, antes do camião sair tem que se emitir uma guia de remessa que tem que ser enviada via internet para o portal das finanças, este recebe a guia emite um número que deve ser colocado e impresso no documento de transporte. Mais, diz que a hora certa de saída do camião deve estar no documento antes de este ser enviado para o portal das finanças.

 

Depois de enviado o documento para a AT, este não se pode alterar, pelo que qualquer atraso na saída do camião implica cancelar o documento e repetir todo o processo.

 

Felizmente na empresa em que eu trabalho a movimentação de mercadorias é relativamente pequena, mesmo assim, tudo isto implicou a completa alteração dos processos internos de emissão de documentos de transporte. Evidentemente o programa de emissão de facturas teve que ser alterado de cima abaixo, o que no fim vai custar uns milhares de Euros. 

 

Além disso a confusão sobre a forma como se interpretam as diversas normas da lei é completa, basicamente todo o mundo tem dúvidas e perguntas para as quais ninguém, nem nas empresas nem na AT, tem respostas.

 

Unido a tudo isto, o software de gestão que nós e uma grande parte das grandes empresas deste país utiliza, é alemão, as alterações foram disponibilizadas há oito dias, foram  feitas na Índia ou no Brasil e evidentemente tem mais buracos que um queijo Suíço, mal se começou a testar começaram a aparecer os problemas.

 

Hoje estive numa reunião em que o responsável da logística nos disse que os transportadores já avisaram que a partir de segunda feira não carregam nada que não tenha o famoso número da AT.. 

 

Ora, imaginem que na segunda feira por algum motivo, por excesso de utilização por exemplo, o portal das finanças, como tantas vezes acontece, está em baixo. Imaginem o que seria os camiões que abastecem os hipermercados não poderem circular porque os documentos não tem o bendito número? Quem diz os dos hipermercados diz os dos combustíveis... ou...

 

Isto tudo é porquê?, porque alguém se lembrou de criar uma série de regras que para além de não fazerem sentido, são quase impossíveis de implementar... imaginem só o que é conseguir planear os envios dos milhares de camiões que passam diariamente por uma plataforma logística e acertar com as horas de partida de todos os camiões? ou ter que voltar a emitir e reenviar para a AT todos os que por algum motivo se atrasem.

 

Depois há coisas engraçadas, segundo a AT, um dos objectivos da lei é simplificar e acabar com o papel, mas depois algures está escrito que duas cópias dos documentos em que tem que estar o número escrito, devem ir com a mercadoria.

 

Hoje parece que alguém na AT acordou para o problema, a lei entra mesmo em vigor no dia 1, mas as multas só começam a 15 de Outubro... como se mais tempo ajudasse a resolver uma coisa que não tem ponta por onde se lhe pegue.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:35

Conto - Por um instante

por Jorge Soares, em 29.06.13

Por um instante

Imagem de aqui


Marlene entrou pela porta dos fundos do apartamento carregada de sacolas de supermercado. Ligada no piloto automático, perguntou a Nilcimar, sem olhar para a empregada.


- Alguém ligou, Nil?

- Ligou, sim senhora. Adriane da Sex Shop.


Por um instante, Marlene não entendeu. Olhou fixo para Nilcimar.


- É isso mesmo, Dona Marlene. Adriane da Sex Shop ligou para o Dr. Ricardo.


Por um instante, Marlene desconversou.


- Me ajuda arrumar as compras, Nil. Estou muito cansada. Essa lombar está me matando.


Marlene entrou no quarto e se jogou na cama. Sandálias foram arremessadas à distância. Pernas sobre o travesseiro latejavam. Por um instante, quis matar Ricardo. Como pode?


Ele estaria aprontando com uma vendedora de Sex Shop. Patife. É por isso que não procurava mais a mulher. É por isso que andava caladão, pelos cantos. Casamento ramerrame, marido que vira irmão. Tudo muito companheiro, tudo muito previsível, tudo muito sem graça.


Por um instante, Marlene teve um raio de imaginação. Amanhã seria seu aniversário de casamento. Claro. Ricardo estaria inventando uma surpresa. Por um instante, Marlene se viu dentro de uma lingerie de enfermeira. Calcinha cavada, triângulo minimalista na frente, fio imperceptível atrás, seios exibidos por uma transparência branca, uma cinta liga sobre os joelhos com uma rosa vermelha costurada em cetim, um termômetro preso entre os dentes de uma boca semiaberta pelos lábios carnudos e carmins.


Por um instante, Marlene vislumbrou Ricardo vestido de bombeiro. Quase nu. Mangueira pulsante na mão, machadinha entre os dentes. Cueca viril, de volumoso conteúdo. Cáqui e vermelha. No ponto mais proeminente da sunga libidinosa, um brasão de tochas cruzadas alimentando uma chama única, ereta em direção aos céus.


Por um instante, Marlene sentiu a chama percorrendo as pernas desejosas até o encontro das coxas, a esta altura, já com a ponta da calcinha à mostra, saia levantada, pensamento às alturas.


Por um instante, lembrou das amigas dizendo maravilhas do admirável mundo das sex shops, com seus rabbits autossuficientes, brinquedinhos amorosos, chicotes, gargantilhas tacheadas e algemas de falsas peles de onça, morangos de mentirinha para serem chupados a dois, colares de pompoarismo, anéis para potências eternas, géis de menta, fluidos lubrificantes de hortelã.

 

Por um instante, amou Ricardo como há muito não amava. Sentiu um homem inteiro e amoroso, criativo e surpreendente, meigo e feroz. E ainda por cima, romântico como nunca foi, capaz de celebrar em grande estilo a esquecida data do aniversário de casamento.


Por um instante, Marlene quase chegou lá.


- Dona Marlene!


Interrompida pela falta de traquejo de Nil, deu um pulo da cama, recompôs-se de imediato e viu-se de pé, ofegante, com as mãos úmidas enfregando dedos viscosos na barra da saia, que indisfarçava a calcinha enrolada nas coxas bambas. Tudo ainda latejava gostoso no momento da aparição súbita e indiscreta da empregada na porta entreaberta.


- Dona Marlene, é a moça da Sex Shop no telefone. Dessa vez quer falar com a senhora.

 

Por um instante, Marlene pensou em não atender. Fosse o que fosse, não queria estragar a surpresa de Ricardo. Muito menos saber que não era nada do que imaginava e que ele estaria de fato comprando produtos bizarros para relacionamentos além lar.

 

Por um instante, Marlene tomou coragem. E atendeu ao telefone.

 

- Dona Marlene, aqui é da Flex Shop.

- Flex Shop?

- É sim. Flex Shop Eletrodomésticos. Seu marido, Dr. Ricardo, comprou uma máquina de lavar roupa e mandou perguntar à senhora a que horas nosso técnico pode fazer a instalação.

 

Por um instante, Marlene quis bater em Nil.

E no instante seguinte, Marlene voltou a ser Marlene.

 

José Guilherme Vereza

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:03

Manifestantes a caminho da Ponte 25 de Abril

 

Imagem do Público

 

A de hoje foi uma greve geral a meio gás que quase terminava em grande. Ao fim da tarde um grupo de manifestantes numa manobra bem pensada e melhor planeada, trocou a esplanada em frente da Assembleia da república pela avenida da ponte. Foi tal a surpresa que nem os repórteres televisivos conseguiram chegar a tempo de dar a noticia em directo, tal como uma boa parte da policia ficaram presos no caos do trânsito e quando lá chegaram já a coisa havia terminado.

 

Eu estava a ouvir as noticias pela rádio e dei por mim a torcer para que a iniciativa tivesse sucesso, lembrei-me de imediato das imagens de dezenas de camiões parados na entrada da praça das portagens, de uma fila a perder de vista de carros parados ao longo da autoestrada do sul e de filas de policias de choque preparados para levarem tudo à frente, sem grande sucesso diga-se de pasagem. Numa altura em que não havia Ponte Vasco da Gama nem Comboio na Ponte, o país esteve literalmente parado durante dois dias. Terá sido esse o momento de viragem e o fim do reinado de Cavaco Silva e do PSD por uns bons anos.

 

É curioso, mas fez precisamente 20 anos na passada segunda feira sobre aqueles dias que de alguma forma mudaram o país, foi a 24 de Junho de 1994 que tudo começou.

 

A julgar pelas fotografias que pude ver por aí, a maioria dos manifestantes que hoje tentaram recriar esse momento, não terá idade para se recordar desses dias, ou para na altura ter tido a noção da importância do que ali se passou, mas é difícil não estabelecer um paralelismo entre o momento político de 1994 e o que vivemos hoje em dia.

 

Hoje, tal como acontecia em 1994, há muita gente que apesar da crise, dos impostos, da insistência por parte do governo da maioria em ir por um caminho que só leva a mais pobreza e desemprego, que continua a encolher os ombros e a olhar para o lado como se não fosse nada com eles, gente que quase de certeza apesar de tudo vai voltar a votar nos mesmos de sempre e contribuir para manter tudo como está..

 

Na altura aqueles acontecimentos serviram para que muita gente percebesse que era necessário mudar de rumo, se calhar é de algo assim que estamos a precisar, de algo que realmente faça as pessoas acordarem... não faço ideia de quem terá estado por trás da tentativa falhada de hoje, mas fiquei realmente com pena que tenha falhado... talvez para a próxima.

 

Já agora, foi sem dúvida nenhuma uma acção muito mais útil e inteligente que o apedrejamento da polícia em que terminou a greve geral de 14 de Novembro.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:24

Parque de campismo da Quarteira

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Devo ser das poucas pessoas neste país que nunca tinha estado na Quarteira e fiquei agradavelmente surpreendido, é agradável chegar ao Algarve e  para variar encontrar um lugar arrumado, com construção organizada, com uma avenida de praia convertida em calçadão e que pelo menos nesta altura não está invadida por esplanadas e vendedores. 

 

Gostei, da cidade, dos jardins junto à praia, da praia, dos apoios de praia, até do mercado do peixe.., os preços não eram lá muito convidativos, mas o peixe tinha um aspecto fresco que até apetecia comprar.

 

O parque de campismo é gerido pela Orbitur, o que à partida garante que os preços não são lá muito acessíveis, mas também garante limpeza, organização e pouca confusão.

 

Já o ano passado me tinha acontecido encontrar em pleno Verão Algarvio um parque de campismo, o de Sagres de que falei aqui, praticamente vazio. O da Quarteira não estava vazio, mas estava muito longe de estar cheio. Não sei como será lá mais para o meio do verão, mas nesta altura parece ser frequentado principalmente por campistas estrangeiros e principalmente com autocaravanas. Conta também com mais de 100 bungalows, ainda que de novo os preços não sejam lá muito convidativos.

 

O parque que é enorme, tem excelentes condições e fica  a uns 10 minutos a pé da praia, mas a sua principal atracão é sem dúvida a piscina que podemos ver ali na fotografia, enorme, rodeada de um excelente relvado e diz quem lá entrou que a água está a uma excelente temperatura... eu confesso que aproveitei mais o  relvado que tem a toda a volta, para colocar a leitura em dia.

 

Para além da piscina o parque conta com um restaurante razoável, bar, supermercado, parque infantil e até uma discoteca ao ar livre.

 

Em resumo, gostei muito da cidade, a maior parte do resto das cidades algarvias deveria pôr os olhos na Quarteira para perceber como deveria ser todo o Algarve. E gostei do parque de campismo, é de certeza uma excelente opção para quem gosta de acampar e do Algarve, eu vou de certeza voltar, na Primavera ou no Outono.

 

Já agora, se alguém da Orbitur por aqui passar, que tal darem uma volta ao vosso Site? Eu sei que que o vosso negócio não é a informática ou a internet, mas tal como nós cá em casa, já há muita gente a planear as suas férias pela internet e  um site apelativo, fácil de entender e utilizar ajuda muito a conquistar clientes... o vosso é de fugir.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:41

adopção

Imagem da internet


Recebi da Mara o seguinte:


Olá a todos,

 

Lembram-se ainda dos motivos que nos faziam lutar pelos direitos das crianças? Pelo direito a uma família? Pela equidade dos distritos? Por uma serie de outros motivos também...

 

E por isto: Aos 12 anos ainda se é uma criança, e ainda se espera por uma família.

 

Que posso eu dizer sobre ela?


É uma menina, tem doze anos.


Nasceu na Guiné, veio para Portugal com 7 anos por motivos de saúde que estão agora controlados e vive há 4 anos numa instituição. Há 2 anos que tem como projecto de vida a adopção.


A segurança social não encontra candidatos para esta criança.


É uma menina que passou agora para o 5º ano de escolaridade, que investe na escola. É alta para a idade, mas é uma criança. Tem apenas 12 anos, brinca, vê desenhos animados, e precisa de uma família.

 

Se conhecerem algum candidato a adopção, alguém que queira conhecer o abraço desta menina, o afecto que ela tem para dar...

 

Partilhem, dêem o meu contacto, o vosso... se preferirem, ajudem-me a mim, e à instituição onde ela vive, a achar uma família para esta criança.

 

Mara

Contacto: maraliza5@hotmail.com


muita gente à espera, muita gente que desespera durante anos por partilhar o sue amor com uma criança, esta criança espera por alguém que esteja desejosa de a amar... por favor divulguem, ajudem esta criança a encontrar quem esteja disposto a amar.


Jorge Soares

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publicado às 22:15

Brasil, um país com dores de crescimento

por Jorge Soares, em 25.06.13

Brasil

 

Imagem do Pontos de vista

 

Até à semana passada o Brasil era o exemplo acabado de uma economia em crescimento acelerado, um exemplo de crescimento sustentado cheio de projectos e desejoso de mostrar ao mundo como é capaz de organizar tudo e mais alguma coisa. 

 

Bastou um aumento de poucos cêntimos nos transportes públicos para que emergisse uma realidade bem diferente, há uma enorme franja da população a quem todo este crescimento e prosperidade tarda a chegar. É verdade que a economia cresce a olhos vistos, mas também é verdade que este crescimento tarda em chegar aos mais pobres, aos trabalhadores, às favelas.

 

O país tem-se esforçado em mostrar ao mundo que consegue ser organizado, esforça-se por dar nas vistas, organiza cimeiras do meio ambiente, este ano é a Copa Federação, em 2014 será o mundial de futebol, em 2016 serão os jogos Olímpicos. No fim tudo isto se traduz em muitos milhares de milhões em investimento e terá de certeza um enorme retorno para a economia do país, mas para os mais pobres é dinheiro que se gasta e que a eles não lhes traz benefícios imediatos.

 

Os enormes e modernos estádios de futebol são construídos com vista previligiada para as enormes favelas onde milhões de pessoas tentam sobreviver no meio de uma enorme violência e insegurança, sem escolas suficientes, sem cuidados básicos de saúde, sem serviços básicos, sem transportes públicos, sem nada.

 

O Brasil é um país em crescimento acelerado, tão acelerado que no fim se traduz numa enorme desigualdade social, em quanto a classe média melhora o seu nível de vida  a olhos vistos, os mais pobres continuam pobres e sem sentir em nada as melhorias que os governantes não se cansam de vender ao mundo.

 

O Brasil é um país com enormes dores de crescimento, após dias e dias de manifestações com transmissão directa para todo o mundo por parte das centenas de jornalistas que estavam no país para cobrir a taça das federações em futebol, o governo tentou salvar a face voltando atrás com os aumentos dos transportes... mas era tarde, porque na realidade não é disso que se trata, trata-se sobretudo de uma luta contra a desigualdade, uma luta por uma distribuição equitativa dos benefícios, por uma utilização mais justa dos recursos, uma luta dos mais pobres para que alguém perceba que eles existem

 

Jorge Soares

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publicado às 00:15

Conto - Fundo de quintal

por Jorge Soares, em 22.06.13

Ana refez as contas no caderno à sua frente. Definitivamente, devia um dinheiro que não tinha, como todo mês. Não, como todo mês, não. Desta vez, devia uma soma maior ainda e, para piorar, já tinha pedido todos os empréstimos que podia a bancos e financeiras. Jogou o corpo sobre a única poltrona confortável que ainda restava na sala. Ali, ficaria por horas encarando o asfalto iluminado apenas pelo poste de luz enevoada. De vez em quando, um farol mostraria seus olhos marejados, mas logo a escuridão voltaria a engolir aquele rosto em desespero. Com os pensamentos consumidos pelo medo, ela pensava dia e noite no que seria dos dois filhos pequenos. Já no último mês, tinha cortado da lista os remédios que usava. Passara a ir ao posto de saúde para receber uma tira contada de comprimidos que lhe permitiam passar o mês. O remédio do posto não adiantava muito, mas era o único jeito de controlar o diabetes sem onerar o orçamento.

 

Ela sentia fome. Havia tanto tempo que não consumia leite e carne que nem se lembrava a última vez. Quando fazia um bife para os meninos, aproveitava a frigideira suja com o gosto da carne de segunda e esquentava naquela gosma cheirosa um pouco de arroz. Comia o prato acanhado junto com um ovo frito ou uma banana prata. Ah, as bananas! Baratas e matam a fome.

 

Durante a semana, levava os dois filhos para uma escola pública do bairro de manhã bem cedo e seguia a pé para o trabalho. Morava razoavelmente perto, mas chegava cansada. No escritório, entre uma atividade e outra, tomava um grande número de cafés cheios de açúcar que a mantinham desperta e com menos fome até o final da tarde.

 

No trabalho, tinha um truque.

— Aceita um biscoitinho de polvilho, Ana? — oferecia uma colega.

— Obrigada! Você sabe que eu não resisto a esse seu biscoito! — respondia, esforçando-se para não pegar o saco todo.

— Eu trouxe um bolo de laranja que está uma delícia! Come um pedacinho... — oferecia outra.

— Meu Deus, eu preciso fazer uma dieta! Mas, antes, vou provar esse seu bolo que está cheirando tanto. — disfarçava.

 

E assim seguia enganando o estômago até a hora do encontro marcado com o arroz, a banana e o ovo.

 

Naquela noite, sentada na sala, olhando o asfalto negro rajado pela luz do poste, ela se lembrava da mãe e dos tempos em que se permitia comer bem, viajar, comprar coisas.

 

— A pior pobreza é a pobreza envergonhada — disse-lhe a mãe, uma vez.

— Como é isso?

— Tem gente que perde tudo, menos a dignidade. Preferem morrer a pedir um centavo, um pedaço de pão.

— Isso é orgulho — ela replicara.

— Não, não é. Aprenderam que quem pede é miserável, e não é fácil para ninguém se admitir miserável.

— Orgulho. E do pior tipo. — insistira.

 

— Ana, para quem já nasce pobre talvez seja mais fácil pedir ou aceitar. Mas você consegue imaginar o que significa para uma pessoa que já teve de tudo ter que pedir um pouco a cada um?

 

Nunca havia imaginado. Até agora. Ninguém sabia da sua situação. O marido tinha morrido três anos atrás, deixando para ela os filhos, a vida complicada e uma casa velha. Quando quis vender a casa, esbarrou na realidade: não valia nada. Ia tirar o teto dos filhos a troco de uns três ou quatro meses de aparente tranquilidade. Foi quando tomou o primeiro empréstimo. Lembrou dos cartões sem crédito, jogados no fundo de uma gaveta da cozinha. Lembrou também que, na véspera, havia usado a última folha do talão de cheques. O banco lhe negara outro talão.

 

Sem sono, saiu para o terreno atrás da casa, onde brinquedos sujos de terra faziam companhia a uma pequena horta. Pelo menos ali havia terra para plantar um ou outro vegetal que servia de alimento para os filhos. Junto a um muro alto, bem no fundo do terreno, um quartinho fechado, onde ela guardava coisas antigas em um guarda-roupa pequeno. Sobre uma cama de solteiro, ainda em bom estado, quadros antigos, duas malas escuras — onde eram guardadas as lembranças do marido e dos pais —, e algumas poucas caixas cheias de papéis de carta estampados, que ela havia colecionado enquanto havia sido possível. Sempre achou lindas as texturas, as cores e os desenhos de flores, pássaros, crianças e balões colocados nos cabeçalhos ou nos rodapés das folhas, como se fossem guardiães das histórias que alguém viria a escrever.
Preciso limpar isto aqui. Se eu conseguir jogar fora as coisas sem utilidade, acho que consigo alugar este quarto para alguém, pensou, olhando ao redor. Animada pela ideia de fazer algum dinheiro, passou a noite pensando nos detalhes. Pela manhã, antes de ir para o trabalho, desinteirou sem titubear o dinheiro da luz e pagou um classificado barato, espremido:    

 

Alugo quartinho dos fundos com cama de solteiro/guarda-roupa. Banheiro compartilhado com a casa. APENAS MOÇAS OU SENHORAS. 

 

          De madrugada, pela primeira vez, em meses, ocupou-se de outra coisa que não o asfalto. Com as mãos rápidas, esvaziou o quartinho, limpou paredes, chão e teto. No dia seguinte, na volta do trabalho, conseguiu fiado um galão de tinta branca, verniz, um rolo de cabo, um alicate e pincéis de vários tamanhos. Dedicou-se à pintura e à arrumação até que amanheceu o sábado, dia em que esperava candidatas. Na cama de solteiro, colocou um jogo de lençóis que estava guardando para os filhos usarem no Natal, rezando para que ninguém prestasse a atenção ao desenho de renas. Antes de sair, jogou no chão, ao lado da cama, o tapetinho persa falso que havia tirado do seu quarto e o travesseiro macio que também lhe pertencera até a véspera. A título de requinte, pendurou a chave do quartinho num chaveiro bonito que a empresa dera de presente aos funcionários no início do ano. Queria impressionar as moças e senhoras.

 

Às quatro e vinte da tarde, nenhuma candidata havia aparecido. Os meninos brincavam na vizinha, como todos os sábados, e de lá só voltariam depois de compartilhar um lanche farto com a filha do casal. Com a desculpa de que a garotinha precisava companhia, os dois compreendiam a miséria de Ana e ajudavam sem fazer alarde. O que será que eu fiz de errado? — pensou, retorcendo as mãos e pensando nas moças e senhoras que não tinham aparecido. Desesperada pelo dinheiro investido, sentou-se na cama de lençóis de rena com o jornal do dia entre as mãos e chorou sem freios toda a sua desgraça. Quando terminou, soluços suspirados e uma dor de cabeça terrível lhe faziam companhia. Mecanicamente, pousou os olhos sobre o jornal molhado de lágrimas e avaliou o seu anúncio. Nenhum defeito. Preço justo. Bairro tranquilo. Não sabia mesmo o que tinha dado errado. Foi quando seus olhos desviaram-se para a direita, um pouco mais para o alto da página. Leu, curiosa, o anúncio que se destacava dentro de um retângulo grande, em negrito. Naquela noite, e na noite seguinte, ao invés da poltrona da sala, do mesmo asfalto negro, do mesmo poste e dos faróis ocasionais, Ana ocupou-se mais uma vez em fazer mudanças no quartinho dos fundos.

 

Segunda-feira, na hora do almoço, levou a um ourives no centro da cidade a correntinha de ouro com a medalha da Virgem que nunca saía do seu pescoço, as pulseirinhas de ouro das crianças, de quando eram pequenas, e quatro alianças grossas de casamento, também de ouro: a dela, a do marido e as de seus pais. Saiu apressada da loja para o banco, onde pagou as três contas vencidas do telefone que, por sorte, não eram assim tão altas. Depois, com o pouco que restou do já tão desfalcado dinheiro da luz, voltou ao jornal e colocou outro classificado.

 

Na sexta-feira à noite, após mentir à vizinha que precisava fazer hora extra e pedir-lhe que deixasse as crianças dormir em sua casa, sentou-se na cama do quartinho dos fundos, cheirando a sabonete e bala de hortelã. Ao seu lado, o rolo de pintar de cabo, os pincéis, o alicate e um martelo que usara para consertar e acrescentar algumas coisas ao aposento. Tudo brilhava imponente, com um novo polimento.

 

Por volta das 22 horas, o telefone sem fio, recém-adquirido, tocou pela primeira vez, produzindo um som engraçado, abafado pelas paredes agora revestidas com placas grossas de cortiça:

 

— É a Viuvinha? — perguntou uma voz ansiosa.

Enquanto respondia, sorriu e alisou sobre a cama os objetos reluzentes. Em seguida, voltou os olhos para as letras em negrito no jornal do dia:

 

Viuvinha fogosa!
Venha me conhecer!
 
Prazer com muita dor!
 
Recebo em casa, depois das 22h, em ambiente de total discrição. Apenas rapazes e senhores. Fone: 3232-3232

 

Cinthia Kriemler

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:53

No tempo do Salazar também não havia greves

por Jorge Soares, em 20.06.13

No tempo do Salazar também não havia greves

Imagem do Pontos de Vista

 

Jardim propõe proibir greves na saúde, justiça, forças armadas e transportes

 

Para o presidente do Governo Regional da Madeira “é insustentável o direito à greve”. ... Já agora se calhar também dava jeito ter uns senhores com um lápis azul de modo a impedir que os jornalistas divulgassem as noticias sobre o buraco que não para de aumentar nas contas da madeira, ou sobre as visitas da policia judiciaria à sede do governo regional..... não?


Depois do que tenho lido e ouvido sobre a greve dos professores aos exames, sobre os sindicatos e sindicalistas, já nada me estranha. Se calhar convinha que João Jardim e muita gente neste país se detivesse a olhar com alguma atenção ao que se passa na Turquia e no Brasil, é que a alternativa à greve é um bocadinho pior... digo eu.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:46

Manifestações no Brasil

Imagem de aqui 

 

As autoridades de São Paulo e do Rio de Janeiro voltaram atrás nos aumentos dos preços de transportes, motivo que esteve na origem na onda de protestos que tem varrido o Brasil nos últimos dias


A próxima vez que alguém te disser que as manifestações não servem para nada, que as decisões já estão tomadas e não há nada a fazer, que é comer e calar, diz-lhe que felizmente os brasileiros não pensaram dessa forma, foram À luta e venceram... pelo menos uma parte da batalha.

 

Jorge Soares

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publicado às 23:16

Sindicato

Imagem de aqui

 

... a questão é quanto nos custaria a todos os trabalhadores se eles não existissem.

 

Oito deputados da JSD apresentaram uma moção para saber quanto custaram ao estado os sindicatos em 2013 e quanto custarão em 1014. Não é difícil perceber qual o objectivo da pergunta, os senhores deputados querem fazer passar a ideia de que os sindicatos custam muito dinheiro ao país.

 

Um Sindicato é uma associação de classe, constituída por assalariados da mesma profissão, da mesma indústria, que executam trabalhos similares ou correlacionados. O seu objectivo é tornar-se uma força que consiga criar para os seus associados condições capazes de resistir às ambições patronais no plano individual e profissional.

 

A grande maioria dos direitos adquiridos por todos os trabalhadores portugueses deve-se à existência dos sindicatos, foram sendo conquistados ao longo de décadas já seja com greves e paralisações, já seja nas negociações anuais dos acordos sociais. Acho que com excepção dos membros da JSD, não restam dúvidas a ninguém da importância da da existência das associações de trabalhadores.

 

Podemos imaginar como seria uma sociedade em que os trabalhadores não tenham quem os defenda e represente, imagino que seria algo parecido com o Bangladesch de hoje em dia ou com a Coreia do Norte, pelos vistos é isto que pretendem os senhores deputados da JSD, mas é compreensível, na sua condição de políticos eles tem tachos assegurados de por vida, nunca vão precisar de quem os represente ou defenda os seus direitos.

 

Não faço ideia de quanto custam os sindicatos, mas aposto que é bastante menos do que custam os políticos, os partidos e as juventudes partidárias, e desses custos só ouvimos falar quando os deputados votam por unanimidade o seu aumento.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:47

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