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Conto - No elevador

por Jorge Soares, em 31.08.13

No elevador

Imagem de aqui

 

Voltar para casa o deprimia. A expectativa de, após um dia de trabalho ouvindo os berros animalescos de seu Djalma tratando-o como um reles vassalo; abrir a porta de casa e topar com a megera, estendida no sofá, devorando bombons e metida em um enorme robe cor-de-rosa era um desajuste para qualquer mortal. Fosse só isto, ele até que poderia tolerar, mas as cobranças, humilhações e o desprezo iam minando, dia após dia, o que ele e a esposa ainda fingiam ser um casamento.

 

         — Bancário! – exclamava a esposa carregando no desprezo, boca marrom de chocolate – Não passas de um medíocre e vil bancário! E pensar que eu podia estar casada com o Deputado! Que triste sina a minha!

No decorrer dos anos, passou  a ter nojo de chocolate. Bastava o cheiro para nauseá-lo.  

 

Sua angústia diária tinha início dentro do elevador do prédio onde morava. Acompanhava o lento passar da cabine pelo andares até chegar àquele palco seu tormento. “Lar, doce lar”, resmungava  em tom irônico.

 

Naquele final de tarde tudo parecia caminhar para a mesma rotina de achincalhes promovidos pela megera. Apertou o botão de chamada do elevador e esperou que ele chegasse até o térreo. Quando fechou a porta ouviu uma súplica.

 

              —   Sobe?

 

Era uma voz adocicada, mansa, suave, em tudo contrastante com o tom estridente e marcial de sua esposa. Curioso e gentil, segurou a porta do elevador. Ela sorriu para ele em sinal de agradecimento. Tratava-se não de uma mulher exuberante, mas alguém que estava elegantemente vestida e denotava alguma sofisticação. Seus gestos eram refinados e um leve perfume agradável exalava de sua pele. Saltou no décimo andar, sacudindo a cabeça em sinal de boa noite.

 

Desde aquela data, a curta viagem de elevador tornou-se o melhor momento do seu dia. A presença daquela mulher e os quase monossilábicos cumprimentos pareciam amenizar todo o peso do cotidiano desprezível de sua existência. Ansiava por aqueles minutos, chegava a fazer uma horinha no hall social do prédio esperando que ela chegasse, forçando a coincidência do encontro. Entristecia-se caso ela não aparecesse e renovava a suas esperanças  para o dia seguinte.

 

Numa tarde, enquanto esperava o elevador já desapontado pela ausência da sua admirada, ela surgiu no hall social. Chorava. As lágrimas inundavam seu rosto, umedecendo os olhos redondos. Não havia ainda prestado atenção na beleza dos seus olhos castanhos. Na verdade, o tempo da viagem era demasiadamente curto para se prender a detalhes.

               —     Posso ajudá-la, moça?

 

Sacudiu negativamente a cabeça.

 

Ele ofereceu um lenço, prontamente aceito. O elevador chegou.

 

               —    Sou feia?

               —    Não.. imagina...

               —     Pareço uma pessoa  sem atrativos?  Me visto como uma freira?

               —     Claro que não!

             —     Ele acha que sim – disse soluçando – que fazer amor comigo é como beber água. Algo sem gosto, sem graça.

                —    Ele deve ter dito isto da boca pra fora – disse ele enquanto entravam no elevador.

 

Assim que a porta fechou, ela inesperadamente o agarrou, beijando-o com volúpia. Entre o correr dos andares, amaram-se de pé, vestidos. Parcos minutos de prazer até o elevador alcançar o décimo andar.

 

Os encontros passaram a ser diários. Quando havia uma ou mais pessoas esperando o elevador, eles aguardavam a oportunidade de subirem sozinhos. Caso um ou outro estivesse com o seu companheiro, fingiam indiferença e desconhecimento, um tanto desapontados pela oportunidade perdida. Amavam-se dentro da cabina, respiração ofegante, um misto de prazer e medo de que os respectivos cônjuges pudessem estar do outro lado da porta, no andar seguinte. Arrumavam-se rapidamente ante a aproximação do andar onde ela morava. Era automático, sem preliminares, sem nomes, curiosidades sobre a vida de cada um. Nada os atrapalhava naqueles breves momentos de paixão. Somente o ato de amor os consumia. 

 

Um dia, um blecaute tomou conta do Rio de Janeiro. A cidade foi invadida por um breu no começo da noite. Tudo parou, inclusive o elevador onde os amantes estavam. Os bombeiros, ao abrirem a cabina, parada entre dois andares, os encontraram risonhos, nus e gargalhantes, suas roupas espalhadas por todo o elevador. Ela agora sabia que ele se chamava Mauro. Ela, Andréa. Tiveram tempo.

 

Zulmar Lopes


Retirado de Revista Samizdat

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publicado às 21:07

Há quem queira legislar os piropos.. a sério?

por Jorge Soares, em 30.08.13

Piropo

Imagem de aqui

 

Foi noticia do Ionline, "Elsa Almeida e Adriana Lopera criticam banalização da ideia de que a mulher "está aí para ser tocada"" As duas são militantes do bloco de esquerda e vão levar o assunto a debate este fim de semana no Fórum Socialismo.


Vai haver quem me vá matar pelo que vou dizer, mas a sério que com a situação actual do país, com tantas coisas para se discutir e debater, há mesmo quem leve um assunto como este a debate?


Tentar proibir os piropos deve ser algo assim como tentar proibir as anedotas sobre alentejanos, ou os cartoons políticos... deve estar ao mesmo nivel daquela ideia de legislar a utilização do isqueiro.


De resto, como é que alguém consegue decidir onde acaba o elogio e começa o piropo insultuoso?, dizer a alguém, "estás muito bonita com essa roupa" será um elogio ou um piropo?, dizer a alguém "os teus olhos são muito bonitos" será simplesmente um elogio, uma forma de flirtear ou um piropo? Há coisas que ditas num determinado contexto podem ser um elogio e noutro uma provocação, como é que se mede tal coisa?


Lembro-me que há muito tempo atrás, nos primórdios da internet, numa mailing list em que participei, o piropo foi assunto de discussão, no fim todos estávamos de acordo que um bom piropo, dito na altura certa e com a graça certa, nunca estava de mais...e não havia mulher que não gostasse de os ouvir.

 

Também é verdade que que os participantes eram principalmente estudantes e profissionais venezuelanos espalhados pelo mundo, a maioria era de esquerda como estas militantes do Bloco... mas não há duvida que olhavam para o mundo de outra forma.

 

De resto, a Venezuela é um país onde para além de que pela juventude da sua população a beleza feminina se destaca, culturalmente cultiva-se um certo cavalheirismo que a verdade é que por cá já não se usa... e o piropo é uma espécie de arte, senão vejamos estes exemplos que encontrei na net:


Del cielo bajo un pintor para pintar tu figura pero no encontro color para tanta hermosura 

me gustaria que fueras la rosa que decora mi jardin

Eres la carne mechada que rellena la arepa de mi corazón.
Pareces un queso de dieta, estas ricota!
¡Tanta curva y yo sin frenos!
¿Tu mamá es pastelera? Porque hizo tremendo bombón.
¿Crees en el amor a primera vista o tengo que pasar otra vez?
Dios debe estar distraído porque los ángeles se están cayendo.
¿De qué juguetería te escapaste muñeca?
Si la belleza fuera castigo, tú tendrías cadena perpetua.
 Cómo me gustaría ser audífono para decirte cosas al oído.
Eres como el guayoyo: dulce y me aceleras!

NO eres la virgen maria pero estas llena de gracia -

*Si la belleza fuera pecado , tu no tendria perdon de Dios.

*Si tu cuerpo fuera carcel y tus brazos las cadenas Dime a quien tengo que matar pa tirarme esa condena 


Jorge Soares

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publicado às 21:53

I have a dream

 

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the colour of their skin, but by the content of their character.


Martin Luther King


Passaram 50 anos sobre o discurso em que foram proferidas estas e muitas outras palavras de esperança para um futuro muito diferente para melhor, um futuro de igualdade, sem discriminações, sem injustiças baseadas na cor da pele.


Hoje o mundo e os Estados Unidos são diferentes em muitas formas, e até há um homem negro sentado na cadeira do poder do páis mais poderoso do mundo, mas a verdade é que lá, como cá, como na maioria dos países, o sonho de Martin Luther King segue por cumprir.. e ainda há muitíssimas vezes em que os homens continuam a ser julgados pela cor da sua pele, ou pela sua ideologia, ou pelas suas escolhas sexuais, ou... em lugar de pelo seu carácter...


Passaram 50 anos e ainda falta tanto para que se cumpra o sonho


Jorge Soares

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publicado às 22:37

Agora foi o azeite, um país contrafeito!

por Jorge Soares, em 27.08.13

Azeite contrafeito

 

Imagem do Público 

 

Começou pela carne de cavalo, depois foi o bacalhau, agora foi o azeite, quando serão as  análises à água, ao leite, ... o que se seguirá? A imagem com que ficamos disto tudo é que somos um país contrafeito... longe vai o tempo em que se ia à Feira do relógio ou de Carcavelos para comprar roupa ou malas com os símbolos das marcas... agora parece que basta ir ao hipermercado da esquina para sermos enganados.

 

Assim de repente parece que viramos um país contrafeito, até agora havia a desculpa que a carne de cavalo era importada da Roménia, o peixe caracol vestido de bacalhau vinha algures do pacífico, mas não há produto mais nacional que o azeite....

 

Há pouco num dos telejornais o responsável de uma das marcas apanhadas pela Deco a vender óleo por azeite mostrava a sua indignação... curiosamente até agora foi único que vi indignado, o resto do mundo parece que se limita a encolher os ombros.. o facto de uma das marcas mais caras do mercado aparentemente nos estar a impingir óleo vegetal  a preço de azeite de primeira qualidade não parece ser um grande problema, aliás, como não pareceu grande problema que vendessem carne de cavalo em lugar de vaca.. ou peixe caracol em lugar de fiel amigo... 

 

Alguém ouviu falar das sanções que resultaram destas fraudes?, alguém sabe se foi encontrado algum responsável pelas fraudes? Não, claro que não, limitamo-nos a ouvir dizer que nada disto constituía um perigo para a saúde... depois basta deixar passar o tempo, o povo tem memória curta e não vai deixar de comprar nos supermercados onde até estava a ser enganado.

 

Já alguém reparou que em todos os casos publicitados havia marcas dos diferentes hipermercados envolvidas nas fraudes?  Que há alguns que foram apanhados em mais que uma fraude? mas isso importa a alguém?

 

Há muita gente que ainda se queixa da existência da ASAE.. depois disto tudo eu acho que eles pecam sim, mas é por defeito, pelos vistos para não sermos enganados todos os dias, para não virarmos definitivamente um país contrafeito, faz falta muito mais ASAE.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 20:48

O que tem de especial as armas químicas?

por Jorge Soares, em 26.08.13

Armas químicas na Síria

Imagem do Público

 

A guerra civil na Síria começou à quanto tempo? Dois anos? Mais? É uma guerra estranha que parece que não ata nem desata, vamos sabendo dela ao sabor das vitimas, de resto não é fácil ter uma imagem do que por lá se passa, sabemos que há o exército do governo que controla a capital e algumas cidades e há os rebeldes que controlam outras cidades, pelo meio há avanços e recuos e mortos, muitos mortos.

 

Por vezes passam-se semanas ou meses em que parece que não se passa nada, deixa de ser noticia, depois volta, com mais mortos. Esta semana voltou, com imagens chocantes de muitos mortos, adultos e crianças, supostamente vitimados por armas químicas.

 

Por algum motivo que me escapa, os mortos das armas químicas chocam o mundo muito mais que todos os outros, quantos mortos terá havido na Síria desde o inicio da guerra? Quantas crianças terão sido mortas nos bombardeamentos da aviação governamental? Quantas terão morrido nos ataques e contra ataques dos rebeldes? Quantas terão morrido nos ataques suicidas com bombas dos rebeldes?

 

É claro que saber da morte de algumas dezenas de pessoas vitimas de armas químicas me choca, mas não me choca mais que saber que há anos que morrem pessoas diariamente, muitas pessoas, naquela guerra!

 

O mundo mostra-se chocado porque morreram pessoas vitimas de armas químicas, os Estados Unidos e a Europa querem uma investigação e ameaçam com intervir no caso de se comprovar que elas foram utilizadas... mas não teria sido muito mais inteligente ter intervido antes e evitado que se chegasse a este ponto?

 

Uma arma química é uma arma, mata como mata qualquer outra arma, os países ocidentais fabricam e vendem todos os tipos de armas que vendem ao governo e aos rebeldes e que alimentam aquela guerra, mas pelos vistos só os mortos das armas químicas interessam. Para os Estados Unidos, para a França, para a Alemanha, para a União Europeia os sírios podem passar o resto da vida aos tiros e bombardeamentos, podem matar-se até ao último habitante do país .... ninguém quer saber... desde que não utilizem armas químicas é claro... quanta hipocrisia.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:08

Andreia Pires

Imagem minha do Momentos e Olhares


Dizem que quando a gente morre passa um filme. Mentira. Pelo menos comigo não foi assim. Tive para mim duas sequências que se alternaram durante longo tempo, uma à noite, outra de dia. Não sei precisar o quanto nem quantas vezes cada uma repetiu. Dentro disso eu perdi a noção de quase tudo, desaprendi as horas, a fome, a resistência, o meu nome, boa parte das sensações. Ainda me sabia mulher e dona daquele sobrado por onde vaguei até cansar do cansaço. Cada recomeço de cena me trouxe um detalhe novo e eu fui ficando, aconchegada, nesse movimento de carrossel.

Fazia uma noite quente, com vento que mal, mal sacodia a cortina da janela aberta. Eu mesma bordei as barras do tecido branco, escolhi o varão que o suspendeu e os arremates dourados. Estou no quarto onde vivi com meu marido madrugadas de sono pesado, roncos e algum amor. Minha cama cuidadosamente estendida, os lençóis bem passados e os travesseiros arrumados do jeito que eu gosto. Tenho a impressão de que faz muito tempo que não se dorme aqui. Vejo-me sentada sobre o baú de madeira que pintei de branco. Herança da família. Pensei que trocando a cor daria à peça a chance de pertencer ao quarto do casal, combinando com o resto da mobília. Ajoelho-me em frente ao baú e tento abri-lo, mas não tenho a chave do cadeado que o encerra. Quero ter meus livros nas mãos, rever meus recortes, botar meu perfume preferido, olhar as fotos do meu filho. Em vão. Chego a chorar e bater com os punhos sobre a tampa, peço ajuda, socorro, e ninguém vem. Sou apenas eu diante do baú no meio da noite.

Então muda e faz um entardecer alaranjado. Caminho devagar nos corredores do andar térreo. Na sala, o piano de cauda está no lugar onde deixei. Aproximo-me e toco as teclas, ensaio uma sonata, mas não produzo nenhum som. Não desisto. Circulo entre as poltronas e avisto nas paredes alguns retratos. Somos nós em quatro quadros: o clã ao redor do macho provedor, meu filho em seu terceiro aniversário, meu filho no colo dos avós, e eu, rosto e ombros. Gosto do meu penteado assim, em coque no alto da cabeça e a risca dividindo a cabeleira ao meio. Os brincos de ouro são meus preferidos. De repente passa rente às minhas pernas uma menina de uns dois anos, como se me atravessasse. Atrás dela uma jovem que não conheço solicitando disciplina e calma à criança. O que fazem essas pessoas na minha casa, me pergunto. Não demora, entra pela porta telada da cozinha um rapaz de calça caqui e camisa azul, carregando uma pasta marrom. Reconheço os cabelos lisos e castanhos muito escuros como os meus. Meu filho cresceu. Sinto um misto de orgulho e tristeza, quero me fazer presente e não consigo. Posso, no máximo, deslizar entre eles, observá-los de perto, esperar.

Um dia, a mulher ruiva interrompeu a sequência. Apareceu pela primeira vez de visita, com uma conversa mole sobre vida e satisfação pessoal, cigarro entre os dedos, meu filho atento, a jovem também, sentados ao redor da mesa da cozinha. Ela me percebeu. Me viu e passou a falar coisas olhando bem na minha direção. Fiquei irritada, mandei sair da minha casa. Somente ela ouviu. E ignorou. Voltou outras vezes até que conversamos diretamente. Perguntou se eu já tinha visto o jardim naquele dia. Que dia? - perguntei. Agora, já. Aproximou-se tanto que foi como se ocupássemos o mesmo lugar na cozinha. Ela e eu caminhamos, misturadas, até a porta telada. Ela disse que eu merecia cruzar a linha, vencer o limite. Abriu a porta, disse vai, e eu corri feito criança até a grama. Senti o capim sob os pés e o sol. O sol. Parece terrível assim, a repetição da repetição sem fim. E é. Mas o depois foi pior. Quando cessaram as sequências me ficou o nada. Eu fadada a ser ninguém na claridade. 


Andréia Pires

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:30

A palidez do dia é levemente dourada.

por Jorge Soares, em 23.08.13

palidêz

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

A palidez do dia é levemente dourada.

O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas

                Dos troncos de ramos secos.

                O frio leve treme.

 

Desterrado da pátria antiquíssima da minha

Crença, consolado só por pensar nos deuses,

                Aqueço-me trémulo

                A outro sol do que este.

 

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole

0 que alumiava os passos lentos e graves

                De Aristóteles falando.

                Mas Epicuro melhor

 

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre

Tendo para os deuses uma atitude também de deus,

                Sereno e vendo a vida

                À distância a que está.

 

Ricardo Reis

 

Gerês

Novembro de 2010

Jorge Soares

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publicado às 23:18

Porque tem que morrer bombeiros?

por Jorge Soares, em 22.08.13

Bombeiros em acção

Imagem do Público

 

E mais um ano, e mais um verão, e há coisas que não mudam, só pioram. Não faço ideia se a área ardida aumentou ou não, mas não restam duvidas que ao nível humano este estará a ser um dos piores anos, se não me engano, é o terceiro bombeiro que morre este ano no combate a incêndios... e o verão e o calor ainda não terminaram.

 

Há pouco ouvia o ministro da administração interna a dizer que todos os meios estão no terreno, que há dezenas de aviões e helicópteros a combater os incêndios... e acredito que seja verdade. Na realidade não passam de palavras que já ouvimos repetir muitas vezes, por ministros deste governo, do anterior e do anterior. São palavras que ouvimos todos os anos quando acordamos um dia e damos com o país uma vez mais a arder.

 

Palavras, só palavras, que servem para mostrar serviço no momento, a realidade é que mal caem as primeiras chuvas do Outono, todos esquecemos essas palavras .. até ao ano a seguir, quando tudo se repete e voltam as palavras.

 

De que vão servir estas palavras à família da bombeira que morreu hoje a lutar contra o fogo?, e aos seus colegas que ficaram feridos, e a todos os restantes que ano trás ano morrem ou ficam com marcas do fogo para sempre?

 

Quando será que haverá um ministro que chegue ao mês de Janeiro e em lugar de assinar contratos de aluguer de helicópteros e aviões, assine decretos que obriguem à prevenção?

 

Quando será que haverá um governo que faça cumprir as leis e obrigar os proprietários a limpar as matas antes do verão?

 

Quando será que haverá um presidente de uma Câmara municipal que em lugar de vir nestas alturas para os meios de comunicação culpar a coordenação e a falta de meios dos bombeiros, virá assumir as suas responsabilidades pela falta de limpeza das matas e dos caminhos do seu concelho?

 

Todo o mundo sabe que o problema dos incêndios em Portugal não está na falta de bombeiros ou de meios, o problema está na falta de prevenção, na falta de limpeza das matas, na falta de acessos às matas, na falta de consciência sobre a importância da sua manutenção. 

 

Todos os anos ouvimos dizer que é impossível combater os fogos porque para além da falta de acessos, a quantidade de combustível acumulada é tal que não há como os apagar, mas a realidade é que a única vez que a grande maioria das matas é limpa é quando há um incêndio.. e ninguém faz nada para mudar esta situação.

 

Quantos bombeiros tem que morrer para que as coisas mudem?

 

Jorge Soares

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publicado às 21:56

ausência

por Jorge Soares, em 22.08.13

ausência

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Ausência

 

Um deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda que a tua

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 
Num fim de tarde no Jardim do Bonfim
Setúbal
Outubro de 2012
Jorge Soares
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publicado às 17:17

Nuvens

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Nuvens

 

No dia triste o meu coração mais triste que o dia... 
Obrigações morais e civis? 
Complexidade de deveres, de consequências? 
Não, nada... 
O dia triste, a pouca vontade para tudo... 
Nada... 

Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol 
(Também estive ao sol, ou supus que estive), 
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica, 
Vaidade, alegria e sociabilidade, 
E emigram para voltar, ou para não voltar, 
Em navios que os transportam simplesmente. 
Não sentem o que há de morte em toda a partida, 
De mistério em toda a chegada, 
De horrível em todo o novo... 

Não sentem: por isso são deputados e financeiros, 
Dançam e são empregados no comércio, 
Vão a todos os teatros e conhecem gente... 
Não sentem: para que haveriam de sentir? 
Gado vestido dos currais dos Deuses, 
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício 
Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se... 
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda 
Para o mesmo destino! 
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho, 
Vou com ele sem desconhecer... 

No dia triste o meu coração mais triste que o dia... 
No dia triste todos os dias... 
No dia tão triste...

 

Álvaro de Campos

 

Novembro de 2012

Jorge Soares

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publicado às 17:15

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