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Conto - Saudade

por Jorge Soares, em 30.11.13

Saudade


Era triste aquela minha vizinha do 202. Tudo nela era triste. Seu andar, seus gestos, até suas roupas eram tristes. Só não lhe via os olhos, sempre baixos. De comum comigo, talvez a mesma idade e o fato de morar sozinha. Assim eu imaginava, porque não percebia movimento em seu apartamento. Eu vivia sozinha por opção. Escrevia o dia inteiro. Só parava para tomar banho ou comer alguma coisa, pouca, que não sou de comer muito. Minha vida, trágica, merecia um livro. Tão dedicada estava nesse projeto, que não tinha tempo sequer para me olhar no espelho. Fazia meses que não o usava. Mal saía às ruas. A não ser, bem cedinho, para comprar pão. Foi assim que conheci aquela mulher tão sombria.


Coincidentemente, saíamos à mesma hora. Como eu, ela parecia não gostar de elevador. Descíamos as escadas, caminhávamos até a padaria, voltávamos e subíamos as escadas, sempre juntas e mudas, apenas ligeiros acenos de cabeças. Nessas idas e vindas, bem queria puxar conversa, mas faltava-me coragem. Tanta melancolia me inibia. Aquela mulher não me saía da cabeça. Por que tão triste? O que teria acontecido em sua vida?... Matutava, curiosidade despertada.


Uma vez ousei, toquei sua campainha, com um pedaço de bolo que acabara de assar. Nem era de assar bolos, mas precisava de um pretexto para me aproximar. Abriu a porta, sorriu aquele sorriso triste, olhos baixos. Meio sem jeito, ofereci-lhe o prato e perguntei-lhe o nome.


“Saudade” – disse, num fio de voz.


Recusou gentilmente, não comia doces, agradeceu-me e fechou a porta. Voltei para o computador, pasma. Saudade?! Isso lá é nome?!...  Curiosidade aguçada. Não conhecia ninguém naquele prédio, antissocial que sou, reconheço. Meus vizinhos também não eram muito melhores. Nas raríssimas vezes em que cruzei com alguns deles, passavam cabisbaixos, me olhando de soslaio – e, para ser sincera, achava bom. Cada um na sua. Só que agora me deparava com um dilema. A quem perguntar sobre a vizinha? Saudade...


Bem, a solução poderia ser a reunião de condomínio que aconteceria dali a três dias. Nunca comparecera a nenhuma, verdadeiro pavor que tinha de reuniões, principalmente as de condomínio. Na próxima iria, decidi. Lá, daria um jeito de saber mais sobre Saudade. Chegado o dia, compareci, atrasada é fato, mas compareci. Vencendo o pânico, atravessei o saguão sob olhares curiosos, dando uma geral, mas Saudade não estava lá. Vai ver tínhamos mais este ponto em comum, não gostar de reuniões de condomínio. Não dei qualquer opinião que, aliás, ninguém me pediu, nem prestei atenção no que falavam. Só esperava uma brecha para perguntar se alguém conhecia a vizinha do 202, não diria o nome, claro, para respeitá-la. Diria que estava preocupada porque não a via fazia tempo, morava sozinha, coisas assim.


Na primeira oportunidade, perguntei, olhando para todos e para ninguém especificamente. “Mas aquele apartamento está vazio faz mais de ano!” – exclamaram. Pairou no ar um silêncio pesado. Olhavam-me assustados, e eu me senti desestruturar. Sai dali abruptamente e tão descontrolada que, pela primeira vez desde que morava lá, entrei naquele elevador, parado no térreo com a porta aberta. Foi então que me vi, refletida no revestimento de espelho. E era Saudade quem me devolvia o olhar desamparado, alucinado, insano...


Cecília


Retirado de Samizdat

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publicado às 17:59

Nuno Crato em versão quero, posso e mando!

por Jorge Soares, em 29.11.13

Crato, Indignação na educação

Retirado do Público

 

O ministro Nuno Crato decidiu que no próximo ano lectivo haverá um novo regime jurídico de formação para a docência, um novo regime que daqui até ao inicio do novo ano lectivo deverá alterar não só a forma de acesso aos cursos de educação, como também os currículos dos mesmos. “As instituições devem remeter à A3ES, até 60 dias úteis após a entrada em vigor do presente diploma, os pedidos de acreditação dos ciclos de estudos que pretendam colocar em funcionamento em 2014/2015”,

 

Ou seja, o ministro decidiu que todo o sistema de formação para a educação irá ser alterado de uma ponta à outra num prazo de seis meses e decidiu à melhor maneira do "quero posso e mando",  sem consultar nem a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, nem as universidades, nem os institutos politécnicos.


Serão afectados todos os estudantes actuais e futuros dos cursos de educação do país mas segundo a noticia do Público, o ministério já nem admite acreditar os cursos actuais para o próximo ano lectivo.

 

Todas as instituições deverão em menos de sete meses preparar e fazer aprovar os novos currículos dos cursos superiores, e ao mesmo tempo preparar e aprovar as regras de transição dos actuais para os novos currículos para os alunos que já se encontram na universidade.

 

Tudo isto terá sido decidido pelo ministério da Educação sem nenhum tipo de discussão ou consulta com as escolas do ensino superior... tudo muito democrático portanto.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 23:38

Barquinhos de papel num país sem remos

por Jorge Soares, em 28.11.13

Estaleiros

Imagem do Público 

 

Depois da festa que foi o anuncio de que alguém ia ficar com uns estaleiros que há muito estavam parados, agora Viana do castelo teve um presente de natal envenenado. Ao contrário do que se estava à espera, a Martifer não ficou com a empresa dos estaleiros, ficou sim com os terrenos onde estão os estaleiros e pretende ficar com o negocio que por lá se faz.

 

Tenho estado com alguma atenção às noticias e sinceramente custa-me entender como é que há tanta gente surpreendida com este desfecho, desde o inicio dos anos 90 que a construção naval se mudou de armas e bagagens para o oriente. A Coreia, Taiwan e a China controlam a tecnologia e os preços, são eles que constroem praticamente tudo o que se mexe em mar alto, dificilmente alguém consegue fazer mais rápido, mais barato e melhor que eles.

 

Desde há muito que o único cliente a sério dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo era o estado, ora estando o estado falido, sem rumo e sem remos, para que servem uns estaleiros com uma estrutura estatal que dificilmente conseguem ser competitivos frente à tecnologia e preços que chegam do Oriente e até dos países do Norte da Europa? 

 

Chavez era amigo do Sócrates e além disso já morreu, além de que não se esperam mais favores Bolivarianos, não sei se Nicolás Maduro terá vontade e/ou dinheiro para pagar uns asfalteiros que teimam em não sair do papel e que mesmo que se cheguem a construir, são sérios candidatos a juntar-se na doca de Lisboa ao Ferry que ia para os Açores e que espera por melhores ofertas.

 

Entendo o desespero dos trabalhadores e da restante população de Viana do Castelo, acho terrível que as coisas tenham terminado assim, mas num país sem dinheiro e sem rumo, a menos que se reconvertam para a construção de barquinhos de papel e botes a remo, não há forma de manter abertos os estaleiros.

 

E agora vou fazer futurologia,  ao contrário do que dizia à pouco Paulo Portas, não acredito que o projecto da Martifer saia alguma vez do papel, é que dizem as notícias que os supostos 400 postos de trabalho dependem das encomendas, quais encomendas? Vamos ver quanto demora até haver o primeiro projecto imobiliário naqueles terrenos.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:26

Nelson Arraiolos

 

Imagem do Público

 

Nelson Arraiolos está desempregado, já escreveu a Cavaco Silva a informar que não vai pagar mais impostos, já andou de autocarro sem pagar, com isso conseguiu ser noticia e de algum modo chamar a atenção para as suas dificuldades e para as dificuldades que passam todos os desempregados deste país.


Agora Nelson anunciou que vai dar um novo passo:


“Ao meio-dia, nesta quarta feira, 4 de Dezembro, Nelson Arraiolos irá deslocar-se ao Pingo Doce do Rossio, Rua 1.º Dezembro, 67-83, 1200-358 Lisboa, entrará no supermercado, pegará num quilo de arroz e sairá sem pagar.”


Anunciado assim com a morada completa, o dia e a hora certa, tem algumas coisas garantidas, a presença de muita gente que o irá aplaudir, da comunicação social que irá narrar tudo como se de um derby de futebol se tratasse e de certeza absoluta a presença da polícia, que evidentemente evitará a subtracção do arroz, levantará o correspondente auto e espera-se, deixará o Nelson ir à sua vida, com mais uns problemas para resolver.

 

Basta ler as noticias online para se perceber que há muita gente a aplaudir a atitude do Nelson, lamento, mas eu não vou por aí, percebo que o Nelson não consiga pagar os impostos e portanto deicida adiar esses pagamentos, entendo que decida não comprar o passe, mas já não entendo esta ideia de ir buscar comida ao supermercado sem pagar, isso chama-se roubar.

 

O desemprego em Portugal anda perto dos 20%, imaginemos que de repente todos os desempregados passavam a ir aos supermercados, enchiam os carrinhos e saiam sem pagar? O que acontecia à economia se de repente 20 das população deixasse de pagar o que compra? Quantos supermercados teriam que encerrar as suas portas e em quanto contribuiria isso para o desemprego?

 

É suposto isto ser um acto simbólico? Concordo, mas convém que o Nélson explique isso bem, pedir a desobediência pode ser um pau de dois bicos, pode  ser que haja quem se ache no direito de fazer o mesmo e  a coisa corra mal...

 

Há duas ou três semanas na Venezuela, Nicolás Maduro o presidente da República,  decidiu vender mais baratos os electrodomésticos de uma loja.. nos dois dias seguintes a maioria das lojas de electrodomésticos do país  foram saqueadas, muita gente encheu as casas de televisões, ipads, computadores  e torradeiras e agora vai demorar muito até que alguém volte a abrir uma loja em Caracas, entretanto milhares de pessoas ficaram desempregadas e o país ficou mais pobre... tudo em nome do populismo bolivariano e presidencial.

 

Já agora uma questão, acabo de ler que o Nelson vive no Bombarral, porque vir fazer isto a Lisboa? sempre poupava o dinheiro da viagem... não?

 

E será que o Pingo Doce não patrocina uns kilos de arroz ao Nelson, é que olhe-se por onde se olhe, não tem por onde ficar bem na fotografia, deixar o Nelson sair sem pagar o arroz é incitar a que outros façam o mesmo, obrigar a que ele pague, vai gerar o ódio de muita gente.... a esta altura deve haver alguns gerentes com os cabelos em pé... será que a loja vai estar aberta?

 

Jorge Soares

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publicado às 21:32

Quanto ganha um eurodeputado?

por Jorge Soares, em 26.11.13


As legendas estão em Espanhol, mas acho que não é dificil entender o sentido da coisa... o mais complicado mesmo é conseguir fazer as contas e tentar perceber quanto é o salário total dos senhores e senhoras que nos representam na Europa.


Falta um ano para as eleições europeias, será que ainda  vou a tempo de me candidatar?


Antes de fazer o post decidi investigar um pouco não fosse isto ser falso.. e eis que me encontrei a mim próprio que já tinha falado aqui do assunto e encontrei o saudoso Miguel Portas que em 2010 dizia o seguinte:







Pena que as palavras do Miguel, um dos últimos políticos a sério deste país, tenham caído em saco roto, o vídeo do Miguel é de 2010, o de cima é de Agosto de 2013


Jorge Soares
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publicado às 22:40

Vitimas

 

Bom dia eu sou vitima de violência domestica e eu acho que a luta deveria ser contra o sistema judicial pois já que se trata de um crime publico a justiça e lenta na minha situação apresentei a primeira queixa em Julho já depois disso já me tentaram matar 2 vezes ele esta com uma medida de coação hilariante e esta a violar as medidas de coação já participei rodas estas situações e a justiça ainda não fez nada que me proteja e uma vergonha tenho vergonha de ser portuguesa tenho 4 filhos menores e só quando me matarem e que se vão ou não lembrar de fazer alguma coisa obrigada por me deixarem dar este grito de revolta não só por mim mas também por centenas de mulheres que não se sentem protegidas pela justiça e acabam mortas forca mulheres eu estou com vocês não desistam da vossa dignidade.


Marques Marlene

25-11-2013



comigo acontece o mesmo . em Fevereiro não morri ás mãos do meu marido graças a rápida intervenção da GNR, foi afastado de casa pelo tribunal, proibido de se aproximar de mim, de frequentar locais onde eu estiver pondo fim a 30 anos de violência. Mas aí a violência continua em forma de medo,de insegurança, é viver com medo de tudo o que mexe, medo da própria sombra. ele não cumpre as medidas que lhe foram impostas pelo tribunal e ninguém faz nada. o tribunal diz que as medidas são suficientes ( SE CUMPRIDAS ) mas ele não cumpre, antes pelo contrário, mesmo estando já divorciados, vivendo numa pequena vila, ele segue todos os meus passos ,e eu nada posso fazer . Na teoria é tudo bonito, pedem para denunciar, dizem para não ter medo, prometem ajuda, mas; na pratica; deixam-nos a mercê da sorte, do medo, da angustia,de andar na rua sempre a olhar para todo o lado. É terrível a sensação de insegurança em que vivo, eu e quem passa pelo mesmo, porque quem exerce violência não conhece nem respeita regras, venham de onde vier. É triste mas é realidade, temos que primeiro morrer, para depois alguém tomar medidas sérias.


Fé Carvalho.

25-11-2013


Escolhi estes dois textos, podia ter escolhido outros, de onde vieram estes há mais, aqui, historias em primeira pessoa do que é o dia a dia de muita gente, são testemunhos do dia a dia de mulheres portuguesas que são vitimas de quem as deveria proteger, vitimas em primeiro lugar de quem lhes é próximo e muitas vezes vitimas da indiferença de quem está à sua volta, da família, dos vizinhos, da comunidade, das forças policiais, da justiça.


Segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas, da União de Mulheres Alternativa e Resposta, no que vai de ano registaram-se  33 homicídios consumados e 32 tentados. Mais de três mulheres assassinadas por mês, e isto é de certeza só a ponta do iceberg, muitas situações de violência doméstica não são nunca denunciadas.

 

Hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as MulheresJá disse aqui várias vezes que sou contra os dias, não faz sentido nenhum escolhermos um dia para nos lembrarmos de algo que depois esquecemos o resto do ano, se isso faz sentido para o resto dos dias, faz muito mais sentido para um dia como este.., porque as mulheres, todas as vitimas de violência, sofrem os abusos todos os dias e devem ser lembradas e protegidas todos os dias... 

 

Desde 25 de Novembro do ano passado, quando também aqui falei do assunto, morreu quase uma mulher por semana e muitas outras dezenas foram humilhadas, violentadas, maltratadas, vitimas da violência e muitas vezes da indiferença de todos nós... a eliminação da violência, de todos os tipos de violência, deve ser um objectivo de cada um de nós para todos os dias, até que não haja no mundo mais nenhuma Marlene e mais nenhuma Fé a ter que lutar pela sua vida ante a indiferença de quem a devia proteger.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:12

Volta Vitor Pereira .....

por Jorge Soares, em 24.11.13

Paulo Fonseca

Imagem do HenriCartoon

 

Eu juro que não queria ter que dizer isto, lá muito no fundo eu até tinha medo de chegar a este momento, mas infelizmente isto está mesmo a acontecer.

 

Não, não falta ali o estás perdoado, porque simplesmente não há nada a perdoar a Vítor Pereira, tenho o maior respeito por Pinto Da Costa, mas quanto a mim ele cometeu uma enorme injustiça com um treinador que não só foi bicampeão como conseguiu por a equipa a ganhar e a jogar bom futebol.

 

Não tenho nada contra Paulo Fonseca, fez um trabalho fantástico no Paços de Ferreira , mas no Porto chegar a um terço do campeonato sem uma ideia definitiva do que quer da equipa, sem um esquema táctico definido, sem uma ideia do que quer para o futebol, é mau... muito mau mesmo.

 

Terei sido dos poucos que defendeu Vitor Pereira, disse e volto a repetir:

 

Haverá muita gente a dizer que o Porto foi campeão apesar do seu treinador, para mim fomos campeões graças ao treinador, sou um admirador dos jogadores e dos treinadores portugueses e é claro que a minha opinião vale o que vale, mas quantos treinadores seriam campeões depois de em dois anos seguidos terem de reconstruir a equipa depois da saída dos seus melhores e mais influentes jogadores?


É evidente que Paulo Fonseca também teve que reconstruir o meio campo, João Moutinho é para mim um dos melhores jogadores portugueses de futebol e não é fácil de substituir, mas este treinador tem muito mais soluções e alternativas das que tiveram  a maioria dos anteriores.

 

Sempre olharam para Vítor Pereira de lado porque era o adjunto, há muita gente a dar o beneficio da dúvida a Paulo Fonseca, porque é o treinador escolhido por Pinto da Costa, além disso, o Porto é um clube diferente, não se despedem treinadores por dá cá aquela palha, mas ninguém é infalível, até Pinto da Costa se engana, foi ele que contratou Co-Adrianse, Luigi Delneri ou Vitor Fernandez.... Paulo Fonseca pode vir a ser um grande treinador no futuro, mas neste momento falta ali qualquer coisa......

 

Sei que é impossível, mas por mim Vítor Pereira voltava já... quanto a Paulo Fonseca, espero estar enganado, e não terei problema nenhum em escrever um post a admitir isso mesmo se com ele no banco o Porto vier a ganhar este ano o campeonato.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:09

Conto - Tinha uma pedra

por Jorge Soares, em 23.11.13

A Pedra

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Foi nos instantes imediatamente antes e durante de Feliciana se sentar na pedra.

 

Era um calhau igual a tantos que havia pela praia, não fosse destoar das restantes por ser tão lisa. E seria de ser batida pela água e pelo sol, sovada pelas ventanias que levantavam areias. Fosse de que fosse, era um pedregulho liso o que a acolheu como se de um verdadeiro assento se tratasse.

 

Uma poltrona rija e desconfortável, mas uma poltrona.

 

Estava o Outono quase a despontar e nem vivalma  pelo areal. Feliciana tinha por costume vir, assim, ao clarear do dia. Vinha em passeio, respirar o ar salgado, caminhar um pouco, tomar um banho se desse. Ficar tão só magicando a enterrar na areia morna os pés descalços.

 

Feliciana respirou fundo a sentir o perfume intenso do iodo. E, como tinha por costume, entreteve-se a apanhar cascas de búzios, conchas, pequeninos calhaus, pedrinhas soltas.

 

Enchia com essa tranquitana as algibeiras do vestido que trouxesse ou levava-as embrulhadas no regaço.

 

Feliciana que sempre achara curioso que tanto nesta vida fossem pedrinhas, umas mais soltas do que outras.

 

Pensara isso num dia em que descobriu, na estante, meio esquecida entre pastas e livros, a lousa preta onde aprendera a desenhar as primeiras letras, a mesma onde jogou  tanto ao jogo da forca.

 

Ontem a neta pedira-lhe: avó empresta-me a tua pedra, que era como Feliciana chamava à lousa, aquele rectângulo de xisto negro debruado a madeira.

 

E terá sido disso que naquela manhã Feliciana vinha cismando a andar na areia.

 

Cismava em como tanto de cada um de nós se produz em torno de pedras: ou que seja o material de que é feito o balcão onde fazemos as refeições, ou o tanque onde esfregamos a roupa – já não se usa, mas era dantes e ainda é assim em muito recanto do planeta e haja água e que nunca a energia se esgote ou teremos que tornar aos métodos das  nossas avós.

 

Feliciana cismando em torno das pedras da vida da gente que poderá ser a, assim designada, pedra nos rins ou na vesícula. Ou a alguém, por sina ou destino, cai-lhe uma pedra em cima. Ou subimos àquela pedra mais alta a escalar um monte. Ou fitamos o fim do horizonte numa falésia a pique sobre o mar.

 

E é também uma pedra a enfeitar o anel do bispo e o anel de fim de curso ou o anel de noivado.

Pedras no nosso caminho a cada instante, é uma realidade.

 

E Feliciana sorriu-se do que ia magicando, e lembrou-se do pedacinho de xisto torneado em redondo que em dias muito idos lhe servia de lápis: ela muito menina e agora o neto a imitá-la.

 

E, nessa sucessão de pensamento, Feliciana evocou as pedrinhas que compõem os mistérios de um terço.

 

Tantas pedras na vida da gente! balbuciou Feliciana e sorriu um sorriso triste, que ela já pensava em outras pedras que são metáforas que fazemos. Verdadeiros pedregulhos, essas.

 

E  indo nisso, caiu-lhe para o ombro a alça do vestido.  Aquele vermelho já coçado do uso. Feliciana gostava dele: a saia a roçar o tornozelo e as alças finas a segurarem um decote que quase lhe descobria os seios.

 

Ajeitou o pedaço de tecido e foi disso que a mão sentiu o montinho sob a pele. Foi no mesmo instante em que Feliciana descobriu a pedra lisa, quase cor de rosa, ou seria branca, ou seria de um tom claro de castanho. Uma pedra enorme que era quase um cadeirão a convidar que ela se sentasse.

 

E Feliciana sentou-se.

E a sentar-se, ela vinha já debruçada sobre o próprio corpo, quase a fazer uma argola na tentativa de ver o que seria aquele sentir estranho por debaixo dos dedos.

 

Apalpou e era como se fosse uma pedrinha mais saliente no meio das pedrinhas que lhe rolavam debaixo dos pés.

 

E levantou-se. E andou os passos, poucos, que a separavam da água deslizada sobre outras, muitas pedras. Pedras revestidas do verde e negro dos limos. Pedras a fazerem covinhas, a aninharem água transparente e a refractarem, enormes, delicados bichos multicores. E Feliciana foi saltitando os pés descalços sobre as rochas naquela maré vaza muito escoada e, nem que não quisesse, as lágrimas rolaram-lhe pelo rosto.

Ou nem terá sido mais do que a maresia a depositar-se na perle dela, igualmente pedrinhas infinitamente pequenas de sal dissolvido em água.

Feliciana acabada de perceber aquele duro no seu corpo, lembrou-se do poema.

 

Letra a letra, foi balbuciando cada verso.

 

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

 

Depois, caiu-lhe um a um o cabelo, que nem ela o cortou, antes, e teria evitado que tivesse ficado aquele desastre. À pedrada, como a mãe dizia dos cabelos mal cortados. Se bem que nunca tenha percebido, porque chamavam assim ao cabelo muito curto, desarrumado na franja e no pescoço. Mas Feliciana percebeu que o dela foi ficando assim, tal e qual.

 

E colocou boinas ou um lenço. Ou nada, simplesmente.

 

E não fosse o sorriso dele a sorrir-lhe. Não fosse a voz com que lhe dizia, sucessivo, generoso: obrigada! pelo que quer que fosse ou sem ser por nada. Não fosse o rolar das pedrinhas do terço entre os seus dedos: uma conta e depois a outra, mesmo quando Feliciana balbuciava apenas palavras inventadas em vez das orações.

 

Não fossem as pedrinhas que trazia da praia embrulhadas na roda do vestido ou a encher algibeiras.

 

Não fossem os desenhos: isto é um cão, isto é uma flor, dizia ela ao neto.

 

Não fossem as pedrinhas, que era o que semelhavam ser os olhos dele. Os olhos dele tal e qual os olhos do neto que lhe pedia: avó desenha outro.

 

Não fossem os versos do poeta a lembrar-lhe: no meio do caminho tinha uma pedra, e a repetirem em outro verso, trocando apenas o local onde estava escrito o predicado.

 

Não fossem, esses e outros a taparem aquela pedra do seu caminho como se fossem flores, e Feliciana não teria ido.

 

Não fosse o veio branco sobre o negro do xisto, e o sem cor teria invadido a sua vida.

 

Não fosse, e ela não teria ficado manhãs inteiras longe da chuva que caía, ou do sol radioso, o líquido a escorrer lento, demasiado lento tantas vezes.

 

Feliciana, horas, dias, meses, a encarar o pedregulho.

Feliciana a balbuciar baixinho:

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 20:46

Manifestação de polícias na assembleia da República

Imagem do Público

 

Há coisas que simplesmente me transcendem, há pouco ouvia no telejornal o Primeiro ministro a dizer "O que se passou ontem não é um bom indicador da própria autoridade das forças de segurança" aparentemente o primeiro ministro e o governo preferiam que tudo tivesse terminado numa batalha campal.

 

Não demorou muito a que rolaram cabeças, hoje de manhã Paulo Valente Gomes, até agora director da PSP, apresentou (?) a sua demissão que evidentemente foi aceite pelo ministro da tutela. 

 

Independentemente de tudo aquilo ter sido concertado ou não, e eu não acho que tenha sido, não podemos esquecer que ontem havia polícias dos dois lados da barricada, e quem estava de serviço não podia deixar de pensar que os problemas pelos que se estava a gritar do outro lado afectam todos os policias e se calhar, se não estivessem ali, eles estariam lá a gritar as mesmas consignas e a empurrar as vedações... como se pode a exigir a alguém que está nesta posição que reprima os seus próprios colegas que até defendem os seus direitos?

 

Sou dos que criticam a forma como terminam a maioria das manifestações em frente ao parlamento, nunca percebi porque é que há gente que após o fim das manifestações  insiste em insultar os polícias, atirar pedras, forçar o confronto... Ontem não ouvimos esses insultos, ninguém atirou pedras e apesar da emoção que os jornalistas tentavam dar ao directo, ninguém viu confrontos, bem pelo contrário, vimos uma das mais pacificas manifestações dos últimos tempos, era mesmo necessário forçar a violência?

 

O que todos pudemos ver em directo é que a violência não interessava nem aos manifestantes nem a quem dirigia os polícias de serviço,  a quem interessava? Ao governo? À Troika? a alguém deveria interessar, caso contrário hoje não teríamos todo este circo montado.

 

Jorge Soares

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publicado às 20:49

"Polícias unidos jamais serão vencidos"

por Jorge Soares, em 21.11.13

Polícias à porta do parlamento

 

Imagem do Facebook 

 

A frase foi repetida muitas vezes durante toda a manifestação que hoje juntou perto de 10000 elementos das forças de segurança em frente ao parlamento.

 

Os últimos orçamentos de estado tem reduzido em muito os orçamentos de todas as forças de segurança, hoje a meio da tarde na Antena 1 alguém dizia que o orçamento para combustíveis na Polícia judiciária será reduzido em 70% com o novo orçamento de estado, e já há quem calcule que a partir de Abril os carros fiquem parados.


Todos estes cortes tem significado uma enorme deterioração das condições de trabalho das polícias e começam a pôr em causa a segurança e o bem estar de polícias e restante população do país.

 

Os polícias também são cidadãos, também tem famílias, para alimentar e como a grande maioria do resto da população, também tem salários baixos e sobretudo, péssimas condições de trabalho... e tem é claro, tanto direito à indignação como qualquer outra pessoa. A manifestação de hoje foi um aviso ao governo, um enorme cartão amarelo, era bom que a mensagem passasse

 

A manifestação terminou de uma forma completamente inédita, pela primeira vez o corpo de intervenção foi ultrapassado e os polícias manifestantes terminaram a gritar consignas no cimo da escadaria... se calhar muita gente esperava mais, mas até aí foi dada uma lição, cumprido o objectivo, a manifestação terminou, sem excessos, sem violência, sem bastonadas, sem arremesso de pedras.... era bom que fosse sempre assim.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:45

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