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Conto - Os benefícios do futebol

por Jorge Soares, em 31.05.14

Futebol

O futebol tem-se revelado, para mim, muito importante, culturalmente, por mais estranho que pareça.
Há dias, à hora das notícias, liguei o televisor para a RTP-1, com a preocupação de saber que amplitude vão ter os novos cortes que o governo vai aplicar às pensões dos reformados. Em vão: estava a transmitir imagens de uma partida de futebol.
Tinha havido uma final importante, a da Taça de Portugal, de que eu vira a 2ª parte. Não ligo muito ao futebol, devido aos aspetos arruaceiros que ele transmite demasiadas vezes. Gosto de ver as partidas relevantes, desde que o desempenho seja leal, pujante e criativo, mas dispenso imagens requentadas…
Mudei para a SIC, com vontade de me esclarecer se eram credíveis as sondagens que davam vantagem, nas eleições de hoje, aos partidos responsáveis pelas governações que nos trouxeram ao pântano e pelas que nos afogaram nele. Em vão: estava a falar o treinador do Benfica, a equipa vitoriosa.
O futebol é um espetáculo visual, cujos bons lances são, para alguns, objetos estéticos. Para mim, é como o sexo: é para praticar ou ver, mas não para ouvir declarações dos intervenientes.
Mudei para a TVI, resignado a ouvir de algum governante mais despudorado que o país está prestes a atingir o alto objetivo para sair da crise que é poder pedir dinheiro emprestado aos “mercados”. Em vão: estava a transmitir a receção/homenagem que a câmara de Lisboa dispensava à equipa vencedora e seus dirigentes.
Espero que não estivesse lá nenhum daqueles intervenientes que às vezes se envolvem em pancadaria. O futebol é uma força relevante em que parte da sociedade se revê, cujos exemplos interioriza e copia e portanto modeladora de comportamentos e atitudes perante o “outro”. As agressões e os tumultos são altamente antipedagógicos e sendo desculpados e, neste caso, premiados, consolidam a mensagem de que é aceitável agredir para evitar um golo ou para reclamar de uma decisão do árbitro.
Mudei para a SIC-Notícias, disposto a espantar-me, como habitualmente, com a criatividade das manipulações, dos esquemas e das subversões que os intervenientes do sistema terão usado para desresponsabilizar, descriminalizar, libertar, e talvez indemnizar o corrupto do dia. Em vão: tratava dum assunto de que já não me lembro, mas logo de seguida passou para a divulgação da lista dos jogadores da equipa portuguesa ao mundial do Brasil. A coisa demorou uns três minutos, mas depois voltou ao Benfica.
Não sem que eu vislumbrasse, de memória, umas cotoveladas no rosto do adversário, um pé em riste à canela ou um bando vociferante à volta de um árbitro. Espero não vir a ficar envergonhado com tal representação.
Mudei para a RTP-Informação, apreensivo com a possibilidade de as potências em conflito já terem feito alastrar a guerra civil a toda a Ucrânia. Em vão: estava a transmitir a festa dos adeptos do Benfica no largo do município.
Acho divertido, mas dramático, que os desgraçados que ganham o salário mínimo ou menos vão a todo o lado vitoriar os seus milionários ídolos, mas pior, vão aos estádios pagar bilhetes de preço proibitivo, que alimentam uma engrenagem financeira que tem aspetos obscenos de desigualdade social.
Mudei para a TVI-24, tentando adivinhar quantos mortos provocara nesse dia a democracia implantada pelos americanos no Iraque. Em vão: estava a decorrer uma mesa-redonda em que um painel de comentadores perorava sobre as escolhas do selecionador nacional.
É inacreditável a quantidade de horas que variados painéis de comentadores conseguem estar a falar de futebol, às vezes de um jogo apenas. Com certeza que têm espetadores, mas tenho dificuldade em imaginar milhares de pessoas em suas casas a prestar atenção a uns tipos que apenas falam de um espetáculo  que é eminentemente visual.
Já sem grandes esperanças de escapar ao futebol, mudei para a RTP-2. Mas não: foi assim que tive oportunidade de assistir a um programa sobre endocrinologia e ambiente e os efeitos nefastos que um ambiente cada vez mais poluído tem tido para a saúde. Muito interessante e pedagógico. Se não fosse o futebol, tê-lo-ia perdido. Só lhe posso estar agradecido!

Joaquim Bispo

 

retirado de Samizdat

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publicado às 21:48

Um governo chumbado ... outra vez

por Jorge Soares, em 30.05.14

Tribunal constitucional

 

Imagem de Precários inflexíveis

 

E de novo a noticia nos foi servida à hora do Jantar, mas dados os antecedentes não era dificil de prever, uma vez mais este governo foi chumbado, o Tribunal constitucional chumbou os cortes salariais à função pública.

 

Já perdi a conta às medidas deste governo que foram chumbadas pelo Tribunal constitucional, e custa-me a entender que isto aconteça, das duas uma: ou não há no governo quem seja capaz de ler e interpretar correctamente a constituição, ou só tentam fazer passar leis que se sabe à partida são ilegais, para calar a Troika e os credores... não sei qual das duas opções será pior, mas nenhuma delas mostra competência e/ou seriedade.

 

Há que louvar o valor e a isenção de quem julga e faz cumprir a constituição, pena que o presidente da Repúblcia não cumpra o seu dever e os chumbos cheguem sempre meses depois do que devia ter sido. Estamos em Maio e metado do ano e portanto dos cortes, já saiu dos depauperados bolsos dos contribuintes.

 

Era bom que o governo em lugar de fazer pressão e deitar a culpa para os outros, se empenhasse em fazer o trabalho de casa convenientemente de modo a não ter que passar por estes vexames, a constituição existe para defesa de todos nós, não para ser utilizada quando dá jeito e ao sabor das conveniências de quem governa.

 

O governo pode ou não estar de acordo com as normas constitucionais, mas foi esta constituição que Passos Coelho e Paulo Portas juraram quando tomaram posse, foram estas leis que eles juraram cumprir e neste momento só tem duas opções, ou governam de acordo com o que lá está escrito ou metem o rabinho entre as pernas e demitem-se, não podem é estar o tempo todo a jogar ao gato e ao rato com as leis e a tentar influenciar com ameaças e cataclismos quem tem que julgar a validade das leis.

 

Podemos todos achar que esta constituição é melhor ou pior, os mecanismos para a sua mudança estão previstos na lei e são claras as regras necessárias para que isso aconteça, mas enquanto não  mudar, é por estas leis que todos nos temos que reger.

 

Agora vamos esperar pelo plano B, já todos ouvimos muitas vezes Passos Coelho e Paulo Portas jurarem a pés juntos que não haveria mais aumentos de impostos, sabemos portanto o que vale a palavra destes senhores....

 

Jorge Soares

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publicado às 23:26

É muito fácil educar os filhos dos outros

por Jorge Soares, em 29.05.14

Educar

 

Imagem gamada à Golimix.. que a tinha gamado algures na net

 

Anda a circular pelas redes sociais uma entrevista a Carlos González,  um pediatra espanhol, um senhor que até já escreveu uns livros, e que pretende desmistificar uma série de coisas e de formas de educar que são usadas pela maioria dos pais, para ele, de forma errada.

 

Parece que há muita gente que se esquece que a educação não é uma ciência exata, aliás, cada vez me convenço mais que criar e educar um filho tem muito pouco de ciência e teoria e muito de improviso, de ensaio e erro e até de sorte na distribuição dos genes.

 

Tenho dois filhos praticamente da mesma idade, cresceram juntos e sujeitos às mesmas normas e regras, infelizmente para mim (e para eles) o resultado não podia ter sido mais diferente, a forma de ser, de estar na vida e o comportamento dos dois, não podia ser mais diferente, algo assim como água e fogo.

 

Uma das coisas que o senhor diz é que os castigos não servem para nada... à primeira vista tendo a concordar, cá em casa os castigos são o pão nosso de cada dia, os mais variados e das mais variadas formas, funcionam uns mais que outros... é verdade que eu dou por mim muitas vezes em desespero e a perguntar-me para que servem tantos castigos se voltamos (quase) sempre ao mesmo? ... mas será que a questão a fazer é: Para que servem os castigos?", ou, "Como seria a nossa vida se fraquejássemos e não impuséssemos castigos e disciplina?"

 

Educar deve sempre pelo amor e pelo exemplo, mas cá em casa exemplo só há um e o amor é distribuído de forma equitativa ... então porque é que eu tenho duas criaturas tão diferentes?

 

Depois há aquela parte da comida, segundo ele, não devemos obrigar as crianças a comer, isso é fácil de dizer quando temos filhos que não gostam de uma ou outra coisa, mas o que fazemos quando temos uma criança que simplesmente não come nada do que lhe aparece à frente? 

 

Uma criança que não come é das coisas mais complicadas que existe, cá em casa também passamos por isso, vão ler este post, não obrigar e/ou só apresentar à criança o que ela gosta é sempre uma opção, mas o que se faz quando ela não gosta mesmo de nada? (sim há casos desses). E como se evita que a criança cresça só a comer bifes e batatas fritas? Ele diz que quando crescemos passamos a gostar de tudo, está visto que ele não conhece o meu irmão e muitos dos meus colegas...

 

Educar crianças "normais" é muito fácil,  a maior parte do que ele e muitos outros autores de livros dizem aplica-se a essas crianças, se calhar para elas nem seria necessário livro nenhum, acredito que amor sensibilidade e bom senso são mais que suficientes.

 

O problema é que para além dessas crianças há todas as outras e para essas não se escrevem livros. A quem não lhe aconteceu ver uma birra na rua e pensar: "se fosses meu filho não fazias isso" Educar os filhos dos outros é fácil, todos nós nos achamos os melhores pais do mundo, eu também achava e pensava que havia coisas que nunca me iriam acontecer.. até que elas  acontecem e não há como fugir à realidade da vida. E acreditem, às vezes é muito difícil mesmo, sobretudo porque tenho a certeza que não é por falta de amor, de atenção, de insistência e de muita preocupação.

 

Cada criança é uma criança e cada caso é um caso, e ao contrário do que parece resultar das palavras do senhor na entrevista, não há receitas nem fórmulas mágicas, nem mágicas nem de nenhum tipo, há ensaio e erro, doses enormes de paciência e muita muita insistência... e algum cuidado para não enlouquecer de vez.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:52

 

 

Letra

 

 

A rua é de quem?
Eu vou te contar
É de quem tem sede,
tem vontade de lutar.

Não se iluda, a Copa não é nossa!
Periferia não tem vez
E a minha gente chora.

A mídia, o Estado, repressão policial
Pra servir classe burguesa 
Quem manda é o capital.

Shiu, cuidado! Fale com cautela
Eles falam que é do povo
Mas nunca viu a favela

[refrão]:

"Será mesmo um absurdo
A gente se rebelar
Contra essa tal Copa do Mundo?
E a alegria florescer
E todo mundo ter uma chance de uma vida boa ter?"

Em busca de um padrão
Tudo é sacrificado
E quem mais sofre é o preto pobre 
Que é marginalizado.

"Tem que acabar com essa história do negro ser inferior" 

Padrão Fifa? Pra quem?
Pra gente que é pobre,
Não sobra um vintém.
Quem vai sofrer com tanto gasto
É o povo mais tarde
Impostos, comida e aumento da passagem.

Higienização social, morador removido
E você se pergunta: o que tenho haver com isso?

O circo tá armado
Que comece o show!
Enquanto vão te explorando,
Você vai gritando GOL!

Pra quê hospital?
Já disse o Ronaldo
Pra fazer Copa do Mundo
Só precisa de estádio.

Meu filho tá morrendo
Na porta do hospital
E tudo culpa de uma ação policial.

[refrão]:

"Será mesmo um absurdo
A gente se rebelar
Contra essa tal Copa do Mundo?
E a alegria florescer
E todo mundo ter uma chance de uma vida boa ter?"

A polícia é bandida
Quer punir, quer matar
O lance agora é desmilitarizar
Quero ver se ela aguenta a revolta popular.

Então:
Deixa passar, deixa passar, deixa passar a revolta popular.

PM truculenta e despreparada
Tem resposta pra tudo
Mete bala de borracha
Mas não se preocupe esse ano tem mais
Eu me protejo com vinagre
PM pode mandar gás.

E o que é então que mais medo te dá?
Os jovens mascarados?
Ou a polícia militar?

Então me diz
O que te dá mais aflição:
A galera do rolezinho?
Ou a política de remoção?

Sem contar no aumento
Que vai ser anormal
Da exploração sexual.

Essa é a realidade
Pátria Amanda Brasil
A que ponto nós chegamos
Nessa pátria que pariu.

Abre esse teu olho
Não se iluda, vem pra Luta.
Não se deixe enganar
Por essa burguesia imunda.

A juventude vai à rua
E no mundo faz mudança
Com a arte que liberta
Ela atua, canta e dança.
Faz rap, grafite, mobiliza geral
Se envolve na política
E não desiste nem a pau.

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publicado às 21:33

Dono de casa

 

Imagem da Internet

 

 

Conversa entre duas das minhas colegas um destes dias algures num dos escritórios lá da empresa.

 

-....

- As mulheres deviam ter direito a reformar-se antes dos homens

- Como assim?

- Devíamos poder reformar-nos prái aos 50 anos!

 

Eu estava mesmo ao lado a ver um problema com um dos meus colegas, não havia forma de não ouvir.... nem de deixar passar.

 

- Espera aí, explica lá isso mais devagar!

- Então, devíamos poder reformar-nos muito antes dos homens!

- A sério? Então e porquê? Que eu saiba todos trabalhamos igual, ganhamos igual e descontamos o mesmo!

- Pois, mas eu saio daqui e ainda vou tratar dos filhos, do jantar, limpar, arrumar....

- Olha lá, e tu achas que eu faço o quê quando saio daqui?

- Não me digas que fazes essas coisas todas?

- Claro, lá em casa por exemplo sou sempre eu que cozinho.

- E pões a louça na máquina, estendes a roupa a secar?

- Se for preciso.. e varro e limpo a cozinha.. e vou buscar as crianças.. e dou banho à mais pequena..

- Mas o meu marido não faz nada dessas coisas.

- Então e o resto do mundo tem culpa que tu o tenhas educado mal?

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- Tu não sabes que generalizar é mau?

 

Evidentemente a todas estas já o resto do pessoal ria às gargalhadas... por vezes pergunto-me como é que em pleno século XXI ainda há pessoas, relativamente novas,  que ainda vivem algures nos tempos da outra senhora.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:46




40% da violência doméstica é sobre os homens
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publicado às 23:04

A vitória do vazio de ideias

por Jorge Soares, em 27.05.14

Martin Sonnenborn

 

Imagem do Público 

 

O senhor ali da fotografia chama-se Martin Sonnenborn e foi 96º e último deputado ao parlamento europeu eleito pela Alemanha, é líder de um partido chamado "O partido" e cuja principal ideia política é não ter ideias nem conteúdos, a sua campanha eleitoral é feita de ataques a tudo o que mexe, seja de direita ou de esquerda e esta vez incluiu slogans como “Merkel é parva”.

 

Certo é que mesmo com este vazio de ideias e propostas, o senhor conseguiu ser eleito e nos próximos 5 anos estará em Bruxelas, presume-se que a esgotar a paciência ao resto dos eurodeputados.

 

Em Portugal não temos (ainda) "O partido", mas não deixamos de ter o vazio de ideias e propostas e em quase todas as eleições aparecem vários Sonnenborn's.

 

Hoje à hora do almoço discutíamos o fenómeno Marinho Pinto, a dada altura perguntei se algum dos presentes fazia ideia das propostas políticas ou sequer sobre qual o posicionamento político do senhor, se é de direita ou esquerda... éramos sete à volta da mesa, tudo pessoas minimamente cultas e informadas, nenhum fazia a menor ideia... 

 

A verdade é que para além das tiradas mais ou menos populistas, ninguém faz a menor ideia sobre quais são as ideias do senhor, onde se vai posicionar, quem vai apoiar, não é o vazio de ideias de Sonnenborn, mas na realidade não anda muito longe. 

 

Eu percebo que as pessoas estejam fartas dos partidos que nos tem governado e das suas falsas promessas, mas será que a solução é mesmo entregar um cheque em Branco a pessoas como o Marinho Pinto?

 

De resto, hoje saiu à luz nas redes sociais o seguinte:

 

O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, defendeu ontem no Parlamento que a violência doméstica não deveria ser crime público. Este modelo inviabiliza a desistência do processo ainda que a vítima assim o pretenda, argumentou o bastonário, pedindo que se deixe às vítimas o poder de acusar ou não.

 

São também conhecidas as ideias do senhor sobre a adopção, a co-adopção e os casamentos entre casais do mesmo sexo... e mesmo assim há quem vote nele... 

 

Por certo, em Novembro o senhor criticou os partidos políticos porque estes recebem três Euros por cada voto recebido, fico à espera do momento em que ele ou alguém do Movimento Partido da Terra, venha a público dizer que  não vão querer receber essas verbas correspondentes a estas eleições.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:05

Abstenção

 

 

Quem ganhou estas eleições europeias? Não há como fugir à matemática, quem tem mais votos ganha, e esta vez quem teve mais votos foi o PS, ainda que esta vitória seja relativa.

 

O PS estava à espera de uma enorme derrota do governo para já esta semana lançar uma moção de censura e tentar que o presidente da República convocasse legislativas antecipadas, uma diferença de 4% não é uma vitória por aí além, e não me parece que convença alguém de que há legitimidade para fazer cair o governo de Passos Coelho e Paulo Portas.

 

A CDU, tal como em quase todas as eleições, declara-se como um dos vencedores, terá tido perto de 12% dos votos, também não me parece que seja motivo para grandes euforias, afinal supostamente o país está descontente com as políticas do governo e dos partidos do arco do poder, parece-me sim que terá sido este partido quem mais beneficiou da enorme abstenção, os seus votantes são fieis e não faltam nunca.

 

O Bloco de esquerda é sem dúvida nenhuma o maior derrotado destas eleições, para um partido que já esteve acima dos 10% em outras eleições, 4% são a prova de que há algo de muito errado com as linhas políticas escolhidas pelos seus actuais dirigentes, a perda do eleitorado tem sido uma constante ao que se tem juntado o abandono do partido por algumas das figuras mais carismáticas também elas descontentes com o rumo das ideias.

 

Por fim, do meu ponto de vista o maior vencedor destas eleições será Marinho Pinto, que levou o Movimento partido da Terra acima dos  7%, eu não gosto de populistas, não gosto de Marinho Pinto nem comungo com as suas ideias. Mas não deixo de reconhecer que numa campanha vazia de ideias ele terá sido quem melhor conseguiu chegar aos eleitores, mas isso não é só mérito dele, é sobretudo demérito dos partidos políticos, de todos os partidos políticos.

 

Há outras ideias que podemos retirar destes resultados:

 

Em primeiro lugar os partidos do arco do poder, os que nos levaram à situação onde estamos,  tiveram 60% dos votos, e isso só pode significar que afinal, não há assim tanta gente descontente com a austeridade e os cortes como por vezes parece, só isso explica que se continue a votar nos mesmos.

 

Se fosse verdade que quase metade da população está mais pobre e uma boa parte na miséria, de certeza que os resultados seriam outros.

 

Por fim, há muita gente que acha que quem ganhou as eleições foi a abstenção, isso não é verdade, a abstenção só serve para as estatísticas, não elege nem castiga ninguém. O facto de que dois terços do país não tenha ido votar só mostra que as pessoas não se importam com o seu futuro ou que estão contentes com quem governa, de resto, as eleições valem o mesmo quer votem 100% ou um por cento.

 

Por fim, e olhando para o panorama Europeu, começa a ser assustador o avanço da extrema direita na Europa, que em França ganhe Le Pen mesmo depois daquelas declarações sobre o ébola, é mesmo muito assustador.. eu sei que a história não se repete... mas ainda não passou assim tanto tempo desde a segunda guerra mundial como para isto já estar a acontecer outra vez.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:11

Votar

 

A campanha eleitoral foi pobre, mesmo muito pobre, discutiu-se tudo menos os programas dos partidos para estas eleições, mas não é de certeza com abstenção que vamos fazer isso mudar, é com votos. Todos estamos mais ou menos fartos de políticos e de partidos, os últimos anos não tem sido fáceis e não me parece que as coisas vão melhorar muito nos próximos tempos, mas a verdade é que se as coisas estão como estão a culpa não é só dos políticos, é também nossa, porque somos nós quem elege quem nos governa... e quem não vai votar está sempre de acordo com quem ganha.

 

Tal como diz o cartoon, e ao contrário do que parece pensar muita gente, a abstenção não resolve nada, quem cala consente, basta um voto para que as eleições sejam válidas e serão válidas com 100% ou com 5% de participação, na realidade a abstenção favorece sempre os partidos com mais votos, porque muitas vezes quem se abstém é quem está descontento e quem não vai lá não vota nos outros partidos.

 

Portanto, pense bem, não deixe a decisão do seu futuro aos outros, vá e vote em consciência, seja em quem for, mas vote

 

Jorge Soares

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publicado às 00:19

Conto - Intimidade, de Edla van Steen

por Jorge Soares, em 24.05.14

Intimidade

 

Para mim esta é a melhor hora do dia — Ema disse, voltando do quarto dos meninos. — Com as crianças na cama, a casa fica tão sossegada.

 

— Só que já é noite — a amiga corrigiu, sem tirar os olhos da revista.

 

Ema agachou-se para recolher o quebra-cabeça esparramado pelo chão.

 

— É força de expressão, sua boba. O dia acaba quando eu vou dormir, isto é, o dia tem vinte e quatro horas e a semana tem sete dias, não está certo? — descobriu um sapato sob a poltrona. Pegou-o e, quase deitada no tapete, procurou o par embaixo dos outros móveis. — Não sei por que a empregada não reúne essas coisas antes de ir se deitar — empilhou os objetos no degrau da escada. — Afinal, é paga para isso, não acha?

 

— Às vezes é útil a gente fechar os olhos e fingir que não está notando os defeitos. Ela é boa babá, o que é mais importante.

 

Ema concordou. Era bom ter uma amiga tão experiente. Nem precisa ser da mesma idade — deixou-se cair no sofá — Bárbara, muito mais sábia. Examinou-a a ler: uma linha de luz dourada valorizava o perfil privilegiado. As duas eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. Até ter filhos juntas conseguiram, acreditasse quem quisesse. Tão gostoso, ambas no hospital. A semelhança física teria contribuído para o perfeito entendimento? "Imaginava que fossem irmãs", muitos diziam, o que sempre causava satisfação.

 

— O que está se passando nessa cabecinha? — Bárbara estranhou a amiga, só doente pararia quieta. Admirou-a: os cabelos soltos, caídos no rosto, escondiam os olhos cinza, azuis ou verdes, conforme o reflexo da roupa. De que cor estariam hoje? — inclinou-se — estão cinza.

 

Ema aprumou o corpo.

 

— Pensava que se nós morássemos numa casa grande, vocês e nós... Bárbara sorriu. Também ela uma vez tivera a idéia — pegou o isqueiro e acendeu dois cigarros, dando um a Ema, que agradeceu com o gesto habitual: aproximou o dedo indicador dos lábios e soltou um beijo no ar.

 

— As crianças brigariam o tempo todo.

 

Novamente a amiga tinha razão. Os filhos não se suportavam, discutiam por qualquer motivo, ciúme doentio de tudo. O que sombreava o relacionamento dos casais.

 

— Pelo menos podíamos morar mais perto, então.

 

Ema terminava o cigarro, que preguiça. Se o marido estivesse em casa seria obrigada a assistir à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho — levantou-se, repelindo a lembrança. Preparou uma jarra de limonada. Por que todo aquele interesse de Bárbara na revista? Reformulou a pergunta em voz alta.

 

— Nada em especial. Uma pesquisa sobre o comportamento das crianças na escola, de como se modificam as personalidades longe dos pais.

 

No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.

 

— Porcaria, meu sutiã arrebentou.

 

— A alça?

 

— Deve ter sido o fecho — ergueu a blusa — veja.

 

Bárbara fez várias tentativas para fechá-lo.

 

— Não dá, quebrou pra valer.

 

Ema serviu a limonada. Depois, passou a mão pelo busto.

 

— Você acha que eu tenho seio demais?

 

— Claro que não. Os meus são maiores...

 

— Está brincando — Ema sorriu e bebeu o suco em goles curtos, ininterruptos.

 

— Duvida? Pode medir...

 

— De sutiã não vale — argumentou. — Vamos lá em cima. A gente se despe e compara — aproveitou a subida para recolher a desordem empilhada. Fazia questão de manter a casa impecável. Bárbara pensou que a amiga talvez tivesse um pouco de neurose com arrumação.

 

Ema acendeu a luz do quarto.

 

— Comprou lençóis novos?

 

— Mamãe mandou de presente. Chegaram ontem. Esqueci de contar. Não são lindos?

 

— São.

 

— A velha tem gosto — Ema disse, enquanto se despia em frente ao espelho. Bárbara imitou-a.

 

É muito bonita — Ema reconheceu. Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso infantil. Porém, ela não perdia em atributos, igualmente favorecida pela sorte. Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que entendessem, em se tratando de usar o corpo — não é, Bárbara?

 

— Decididamente perdi o campeonato. Em matéria de tamanho os seus seios são maiores do que os meus — a outra admitiu, confrontando.

 

Carinhosa, Ema acariciou as costas da amiga, que sentiu um arrepio.

 

— O que não significa nada, de acordo? — deu-lhe um beijo.

 

— Credo, Ema, suas mãos estão geladas e com este calor...

 

— É má circulação.

 

— Coitadinha — Bárbara esfregou-as vigorosamente. — Você precisa fazer massagens e exercícios, assim — abria e fechava os dedos, esticando e contraindo na palma. — Experimente.

 

Eram tão raros os instantes de intimidade e tão bons. Conversaram sobre as crianças, os maridos, os filmes da semana. Davam-se maravilhosamente — Bárbara suspirou e se dirigiu à janela: viu telhados escuros e misteriosos. Ela adoraria ser invisível para entrar em todas as casas e devassar aquelas vidas estranhas. Costumava diminuir a marcha do carro nos pontos de ônibus e tentar adivinhar segredos nos rostos vagos das filas. Isso acontecia nos seus dias de tristeza. Alguma coisa em algum lugar, que ela nem suspeitava o que fosse, provocava nela uma sensação de tristeza inexplicável. Igual à que sente agora. Uma tristeza delicada, de quem está de luto. Por quê?

 

— Que horas são? — Ema escovava o cabelo.

 

— Imagine, onze horas. Tenho que sair correndo.

 

— Que pena. Não sei por que fui pensar em hora. Fique mais um pouco.

 

— É tarde, Ema. Tchau. Não precisa descer.

 

— Ora, Bárbara... deixa disso — levou a amiga até o portão.

 

— Boa noite, querida. Durma bem.

 

— Até amanhã.

 

Ema examinou atentamente a sala, a conferir, pela última vez, a arrumação geral. Reparou na bandeja esquecida sobre a mesa, mas não se incomodou. Queria um minutinho de... ela apreciava tanto a casa prestes a adormecer — apagou as luzes. A noite estava clara, cor de madrugada pensou, sentando no sofá. Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio. Um sentimento místico, meio alvoroçado, de alguém que, de repente, descobrisse que sabe voar. Por quê?

 

Edla van Steen

 

(O Prazer é Todo Meu — Contos Eróticos Femininos)

 

Retirado de Trapiche dos Outros

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publicado às 21:07

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