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Salvo(s) pelo Jackson Martinez

por Jorge Soares, em 30.09.14

Julien Lopetegui

 

Imagem de A Bola

 

Não vi o jogo, fui ouvindo na rádio entre o ir e levar miúdos às actividades  e o jantar, ouvi o penalty do 2-1 quando estava a estacionar da última viagem, desliguei o carro com raiva e a rogar pragas ao jogo e a Lopetegui, quando me voltei a sentar ao computador acabava o Jackson de marcar o segundo, o que aplacou um bocado a minha raiva ao jogo, mas não retiro as pragas ao treinador.. o que teria acontecido se em lugar de inventar mais uma equipa diferente ele tivesse jogado com o Jackson desde o inicio?

 

Vinha no elevador e já vinha a pensar no titulo do post que seria: E hoje também foi culpa do árbitro?

 

Hoje li algures uma frase de Mourinho que diz muito sobre o meu clube, "O Porto sabe perder". li na frase do Special One um elogio à forma como o Porto sabe aprender com os erros, depois dos erros cometidos o ano passado  não só se contratou um treinador diferente como se lhe deram as condições que do meu ponto de vista nunca se tinham dado a qualquer outro treinador e muito menos aos dos últimos anos.

 

Lopetegui escolheu como e quem quis, vieram nada mais e nada menos que 15 jogadores escolhidos a dedo pelo treinador, se calhar o problema está mesmo aí, com mais que uma equipa nova há muitas expectativas para manter e depois de 6 jornadas do campeonato e de duas jornadas da champions, não se repetiu um onze uma única vez e dificilmente alguém pode dizer qual é a equipa tipo do Porto.

 

É verdade que o Porto ainda não perdeu e que em dois ou três jogos os árbitros inclinaram o campo para um dos lados, mas quando as equipas são melhores e o conseguem demostrar, não há árbitro que as consiga derrotar. O certo é que vamos em três empates nos últimos jogos do campeonato e o Benfica já está a 4 pontos de distância, o resto soa a desculpa de mau pagador.

 

Se há coisa que Lopetegui consegue fazer é surpreender, não há quem consiga adivinhar o onze, e eu não consigo perceber como é que sendo o Shaktar uma equipa maravilhosa como não se cansou de elogiar Lopetegui antes do jogo, Jackson ficou no banco... E vá lá que pelo menos hoje as substituições foram aos setenta minutos, porque a mim já me irritava ver como a empatar os jogos se metem avançados aos 89 minutos. 

 

Hoje houve estrelinha que também tem faltado algumas vezes, mas não deixa de ser o terceiro empate seguido, o Porto sem uma vitória em três jogos é algo que não se vê muitas vezes, a sorte protege os audazes, mas convém que não abusem, é que não me parece que este ano haja tanta paciência como no ano passado, eu pelo menos não tenho.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:16

Somos campeões da Europa

por Jorge Soares, em 28.09.14

Ténis de Mesa

 

Imagem do Público

 

Somos campeões da Europa, e ganhamos à Alemanha que era só a Hexa Campeã, não é um desporto de milhões nem será de certeza de grandes audiências, por isso não será de certeza noticia de abertura de telejornais nem tirará o futebol das capas do jornais desportivos, pena, porque mesmo com tostões em lugar dos milhões, não deixam de representar o país com a mesma honra e dignidade e com muito mais sucesso do que a maioria dos que ganham milhões.

 

Bem haja ao Marcos Freitas, a estrela maior, e a toda a selecção nacional de ténis de mesa, que se acaba de sagrar campeã da Europa.

 

Vídeo do momento em que termina o último jogo:

 

 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:48

Conto - A espera

por Jorge Soares, em 27.09.14
A Espera


Imagem de aqui


Já faz um punhado de dias que ele entrou no mar e não voltou mais. Faz esse mesmo punhado que eu me paro aqui na beira da água pra esperar que ele saia. Nem tinha amanhecido direito e o homem já tava na rua, as rede nas costa, o lampião e a marmita na mão, pronto pra subir no caíco. Naquela madrugada eu tinha sonhado coisa ruim, avisei pra ele não ir, mas o desinfeliz não me escutou e ainda saiu a passo, que tava atrasado, então eu não tava vendo os outros cinco lá na frente, já embarcado? É claro que eu tava vendo. E isso era o pior. Sonho ruim parece que fica acontecendo e acontecendo e acontecendo nas vista depois que a gente se acorda.


Ele foi o último a embarcar. Tava com as bermuda marrom de pescar e a camisa branca que a minha sogra deu. Era pra ter levado o casaco, que de noite esfria, mas nem isso ele atinou. E eu voltei pra casa dar jeito na vida, plantar umas muda de tomate gaúcho e limpar as tainha pra janta. Gosto mais frita, mas ele queria ensopada, não custou fazer. E arroz. Passou e muito da hora de dormir, as panela esfriaram em cima do fogão de lenha, brasa apagada, a mesa posta – pras mosca – e ele nada de passar pela porta, assobiando daquele jeito embalado, raspando os calçado na grama pra tirar o barro. Não preguei o olho sentada na cadeira de pelego, uma agonia medonha.


Terminou a madrugada e do meu homem nem sinal. Aí foi a primeira vez que eu me fui pra beira da praia esperar. Com a camisola que a mãe me deu de casamento. Meus cabelo tavam solto e como tinha vento – aqui sempre tem – eles voavam na cara. De vez em quando eu amarrava os cabelo com cabelo mesmo e ficava reparando na bainha de croché na altura do meus joelho. Na minha cabeça eu achava que uma hora eu ia olhar pra frente de novo e ele ia tá ali, parado, de braço aberto, pedindo desculpa. Perdi as conta de quantas vez repeti essa esperança, molhando os pé na água e rezando, misericórdia, pra virgemaria me devolver o marido logo. O tempo foi muito, tanto que a minha barriga cresceu, nasceu a criança e ele inda não veio.


Ele não veio. Não veio. Não veio, não. Teve um dia que saiu um homem do mar, mas não era o meu. Molhado, esfarrapado, fedendo a podre, a camisa aberta na volta do bucho inchado, os olho arregalado tudo branco, as perna riscada de variz e ferida. A criatura veio na minha direção chamando o meu nome e chorando. O susto foi tamanho que gritei praquela assombração subir ou descer, me deixar em paz, e disparei até a vila. O nenê depois reboleava na minha barriga, eu tava quase ganhando. Fiquei duas noite de cama, adoecida pra parir, quase que morri tendo as dor, eu. Minha nossa. A mãe não saiu da cabeceira e a tia Eva me botava compressa na testa. A coisa foi assim até que o guri nasceu. E me tiraram. A mãe tremia que nem sei, mas não impediu. Levaram meu pequeno embora e eu berrava que era meu, era meu, e eles diziam que louca não tem condição de criar filho. Quando consegui me aprumar e andar sozinha, comecei tudo de novo. Que quando meu homem voltar do mar vai me encontrar esperando por ele, vai saber do que me fizeram, onde já se viu. E vai se arrepender de ter demorado.



Andreia Pires

Retirado de Samizdat
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publicado às 21:42

António José Seguro

Imagem do Sol

 

"Os trabalhadores que recebem o salário mínimo vão ser prejudicados, porque alguns deles têm diuturnidades e com o aumento e essas diuturnidades são empurrados para um escalão [de IRS] superior ... são prejudicados porque levam menos salário para casa"

 

Isto só pode ser ignorância ou demagogia, como é que alguém que pretende vir a ser primeiro ministro pode afirmar uma coisa destas? E sinceramente até me custa perceber onde é que ele quer chegar, depois de andarem há meses a reivindicar o aumento dos salários ele está contra?

 

Não é a primeira vez que ouço afirmações como estas, por norma quando a conversa é comigo dou-me ao trabalho de explicar: A formula de cálculo dos escalões do IRS está feita de forma a que isto não possa acontecer, não é possível que alguém seja aumentado, suba de escalão e fique por isso a receber menos ordenado liquido do que recebia antes, pode dar-se o caso que a diferença seja mínima, mas nunca se pode dar o caso de que se passe a receber menos.

 

Quanto ao caso em questão:

 

- Em primeiro lugar quem recebe o salário mínimo não paga IRS, logo o aumento do salário só por si não faz ninguém mudar de escalão

 

- Em segundo lugar, se alguém além do salário mínimo recebe outros valores, se estes não aumentarem não tem porque subir de escalão, se estes valores aumentarem é possível que se possa subir de escalão, como é normal, mas isso nunca irá fazer com que se fique a receber menos do que antes.

 

À primeira vista o que parece é que Seguro está contra o aumento do salário mínimo, ou não sabe o que diz, ou está a ser demagógico, em qualquer dos casos está a fazer o ridículo.

 

São afirmações demagógicas como estas que fazem com que os portugueses não olhem para Seguro e para o PS como uma alternativa à maioria e depois na hora da verdade nem se dêem ao trabalho de ir votar. 

 

Jorge soares

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publicado às 21:09

Walter Benjamin

 

Luís Nunes, lisboeta de gema, mas com Londres no coração, assina como Walter Benjamin o seu trabalho a solo, que tem em "The Secret Life of Rosemary and Me" o seu mais recente exemplar. Uma obra que deve ser ouvida do início ao fim, cujas histórias deverão ser descobertas e decifradas pelo público. Porque a música - elucida - é exatamente isso: "sentir sem ver imagens, sentir sem haver contacto físico, e ter a perceção de algo que anda pelas ondas no ar, que é insensível, que não sabes bem o que é, pois não é real".

 

Fonte Palco Principal

 

Ouvi falar por primeira vez deste músico que adoptou o mesmo nome do filosofo alemão que morreu durante uma viagem a Portugal, no programa da Antena 1 David "Ferreira a Contar" do qual sou ouvinte fiel desde o primeiro dia. Tal como a David Ferreira também a mim me maravilhou a voz melodiosa deste alfacinha radicado em Londres que tem uma qualidade musical extraordinária e que é entre nós um quase completo desconhecido.

 

Entretanto fiquei a saber no programa de hoje que o Luís já voltou a Portugal e está algures no Alentejo a preparar o seu próximo disco que será em Português, espero que não tarde....

 

Letra

Letra

 

Mary 

This is our last shot 
before the glasses are filled with wine 
and your eyes are full of life. 
This is a big day, 
it was a big decision 
and a big mistake 
for me to come. 

Mary, 
won't you dance with me 
before you marry him? 
Mary, 
won't you dance with me? 

I never learned when to stop, 
and even at school 
I was too fast for you. 
Come on, 
I'm not advertising for a new mood 
- this is old stuff and you know it, 
someone's waiting on your couch. 

Mary, 
won't you dance with me 
before you marry him? 
Mary, 
won't you dance with me?

 

 

Há mais para ouvir aqui

Jorge Soares

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publicado às 22:08

Relvas e Passos Coelho

 

Imagem de aqui

 

Hoje ouvimos Passos Coelho dizer que vai pedir à procuradoria geral da República que investigue como foi a sua ligação à Tecnoforma, seria louvável não fosse o facto de a empresa ter desaparecido e até o contabilista já ter morrido.

 

Depois da trapalhada dos comunicados da assembleia da República em que ficamos a saber que o deputado Passos Coelho não tinha o regime de exclusividade mas afinal recebeu mais de 60 mil Euros por ter sido deputado em regime de exclusividade, não é de esperar muito mais desta investigação da PGR.

 

Com a empresa já falida, o desaparecimento de quem levava as suas contas, a falta de memória de Passos Coelho e a não obrigatoriedade de se guardarem os dados fiscais por mais de quatro anos, o que e onde irá a Procuradoria investigar?

 

Convenhamos que é difícil acreditar que Passos Coelho tenha trabalhado e dado a ganhar muito dinheiro a ganhar à empresa durante anos, à borla, (ver este link) , o primeiro ministro pode ser muito boa pessoa, mas há limites para  certas coisas que nos querem fazer crer.

 

Acredito que passados estes anos algumas coisas sejam difíceis de recordar, mas é difícil entender que, e dado que não restam dúvidas de que ele colaborou com a empresa, não se recorde se e quanto lhe pagavam, mais ainda quando em toda a vida se trabalhou para duas ou três empresas, como é o caso dele.

 

Entendo o suposto zelo de Passos Coelho e acho muito bem que estas coisas sejam investigadas por quem de direito, mas não percebo porque é que o primeiro Ministro não diz ao país preto no branco se foi ou não remunerado pelo seu trabalho para esta empresa e no caso de ter sido, porque recebeu os 60 mil Euros do parlamento.

 

No fim de tudo isto a imagem que passa para o país é que Passos Coelho chutou a bola para a frente e uma vez mais temos gato escondido com o rabo de fora ...  de novo se aplica a velha máxima da sabedoria popular, à mulher de César não lhe basta ser séria...

 

Jorge Soares

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publicado às 22:41

É o Outono estúpidos!

por Jorge Soares, em 22.09.14

Chuva em Lisboa

 

Imagem do Expresso

 

 

Vinha a caminho de casa e na Antena 1 alguém se queixava de que os senhores do IPMA (instituto Português do mar e da atmosfera) não tinham colocado Lisboa em aviso Laranja só em amarelo e portanto quem devia tomar atenção a estas coisas tinha sido apanhado desprevenido e o resultado foi o caos.

 

Como não ouvi a noticia toda não sei quem era o senhor que estava a falar, imagino que fosse alguém da protecção civil. Fiquei na duvida, se estivesse o aviso laranja o que teriam eles feito diferente para evitar que a conjugação de muita  chuva com a Praia mar resultasse em inundações ? Ou que o excesso de chuva tivesse convertido a praça de Espanha num lago? Tinham ido limpar as sarjetas hoje de manhã? Não deviam ter tratado disso há umas semanas atrás?

 

Entretanto quando cheguei a caso deparei-me com uma noticia que diz: "PSD quer saber de quem é a culpa das inundações em Lisboa". Assim de repente isto já faz mais sentido, ou não fosse o presidente da câmara candidato a candidato a primeiro ministro pelo partido da oposição.

 

Como não podia deixar de ser, entramos no jogo do empurra, os senhores da câmara culpam os meteorologistas pelas inundações, o governo culpa a câmara, só não percebo duas coisas:

 

1- Porque é que ninguém culpa o São Pedro?

 

2- Porque é que ainda ninguém veio pedir desculpa pela chuva a mais e/ou pelas inundações?

 

Tudo isto é muito engraçado e serve para desviar a atenção do que realmente interessa, pena é que o pedido de desculpas do ministro da educação ainda não tenha servido para que a minha filha, quase 15 dias depois do começo das aulas, tenha professor de matemática... e ela tem sorte, só lhe falta um professor, segundo a RTP, faltam colocar 5 mil professores e não é de certeza por falta de candidatos, segundo a mesma notícia da televisão pública há uns 40 000 (???!!!!) candidatos aos lugares... como é que é possível que ainda haja pelo país fora dezenas de turmas sem nenhum professor?

 

Quanto á chuva, já ouviram falar do Outono, isso mesmo, é o Outono estúpidos, qualquer criancinha lhes pode explicar, o Outono é a estação das chuvas.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:55

O ébola visto desde a Europa

por Jorge Soares, em 21.09.14

Ébola na Europa

 

Imagem de aqui

 

Por acaso estava na Espanha quando a força aérea Espanhola transportou dois cidadão espanhóis suspeitos de estarem infectados com ébola, infelizmente um dos casos confirmou-se e apesar da utilização do soro experimental, o senhor viria a morrer passados poucos dias.

 

As imagens da chegada dos doentes a Espanha foram impressionantes pelo aparato, a começar pela forma como os doentes eram transportados, metidos dentro de uma bolha plástica, quem o transportava utilizava fatos completos e máscaras, as ruas por onde ia passar a ambulância foram encerradas ao transito e no hospital para onde foram transportados, um andar inteiro foi reservado só para estes dois doentes.

 

Por fim, após a morte de um dos doentes, no outro caso não se confirmou a doença, o corpo foi imediatamente cremado sem direito a autópsia ou qualquer tipo de cerimónia fúnebre.

 

No outro dia à hora do almoço alguém dizia que o facto de ainda não haver tratamento só tinha a ver com esta ser uma doença africana, feliz ou infelizmente, as epidemias anteriores ficaram confinadas a algumas aldeias africanas, é verdade que morreram umas centenas de pessoas mas pelos vistos nunca foram as suficientes como para chamar a atenção do mundo para a gravidade de uma doença cuja mortalidade dos infectados anda entre os 40 e os 80 % e para a que não há cura conhecida.

 

Esta vez já morreram mais de duas mil pessoas e foram infectados cidadãos europeus e americanos, apesar de de vez em quando alguém vir dizer que está controlado, a verdade é que o que parece é que está completamente fora de controlo e no mundo globalizado em que vivemos, com um período de incubação que pode ir até aos 20 dias, quer-me parecer que não tardará muito a expandir-se por todo o continente africano e a chegar à Europa.

 

É verdade que as condições dos sistemas de saúde europeus são muito mais evoluídas que as dos países africanos, isto em principio deverá fazer com que a doença seja mais fácil de controlar após o diagnóstico, mas com um período de incubação tão longo como se controlará todas as pessoas com quem o doente teve contacto?

 

Ainda estava em Espanha quando foi noticia a chegada a um dos hospitais de Madrid de uma pessoa com febre alta, como o senhor tinha estado num dos países africanos onde a doença está activa, ele e toda a sua família foram de imediato colocados de quarentena, felizmente o senhor só tinha mesmo gripe e passados dois ou três dias pode seguir a sua vida. 

 

Fiquei a pensar, o que teria acontecido se se confirmasse a doença? Ele veio de avião, teriam ido pelo mundo inteiro à procura de todas as pessoas que viajaram com ele para as colocarem de quarentena?... e todas as que tinham viajado no mesmo avião nos dias a seguir?

 

Tudo isto é no mínimo assustador e só me faz lembrar  que há umas poucas centenas de anos, outra doença que veio de longe dizimou qualquer coisa como um terço da população europeia.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:30

Conto - Penitência

por Jorge Soares, em 20.09.14

Penit~encia

 

Quando os meus olhos se perderem em voos sem pouso, será hora de não ficar. Mas, antes, o deteriorar-se lento.

 

Primeiro, os fracassos, se instalando gradualmente. As mãos se tornando inúteis, sem saber para que sirvam. A boca esquecendo o mastigar. O corpo se repuxando em reflexos descoordenados. As fraldas colhendo um descontrole indigno. Os cabelos ralos enfeando o rosto inexpressivo. As pernas paralisadas. O banho dado por mãos alheias. Os nomes dos filhos e dos amigos embaralhando-se em idas e vindas cada vez mais idas. As histórias inventadas, as assombrações à luz do dia, os afetos irreconhecíveis. Longas horas de sono ruim. Outras tantas de olhos no teto. As mesmas frases, repetindo-se várias vezes. Um feto encolhendo-se em involução. 

 

Assim será. Quando tudo em mim for cansaço e desespero, e eu me desintegrar como um corpo estraçalhado por feras. A cada pedaço arrancado, existirei menos pessoa, desfigurada, agonizante. A cada nesga mirrada de lucidez, invocarei um choro. Por mim. Por vocês. Para os deuses. Mas eles não ouvirão. 

 

Antes, as tentativas. Comprimidos, lâminas, janelas abertas. Opções à inexistência vegetativa. Impedidas por vocês. Como se fosse melhor gastar o dinheiro que não têm, o tempo que não têm, o amor que não têm numa agonia que transforma em raiva e frustração as sobras de sentimento. 

 

Depois, o afastamento. No quarto, nenhum de vocês culpando-se ou desculpando-se. Apenas uma mulher estranha, sentada a um canto, cuidando de mim. Fim dos hiatos cruéis. Da realidade escassa que aparecia para brincar de adeus. Nevoeiro. Eu já não estarei morando em mim.

 

Mas até que a impotência aconteça, há coisas bobas a cometer. Como a vida.

 

Escrever no vidro embaçado das janelas de chuva. Mudar a cor do cabelo. Tomar sorvete de pistache com castanhas. Tropeçar os olhos na lua, contar os paralelepípedos, tomar banho gelado no verão, balançar na rede.

 

Como mais tarde não haverá lembranças, quero sentir agora tudo o que ainda está em mim. Os abraços que me devo, as madrugadas de conversas estúpidas, as viagens desastradas com amigos imperfeitos. A melancolia dos natais e das páscoas e dos aniversários barulhentos. As bochechas dos bebês, o rabo dos cachorros. As comidas calóricas, a água com bolhas de gás. O chope com dois dedos de colarinho. O uísque com quatro pedras de gelo. Quero falar sobre sexo às gargalhadas. Fazer sexo às gargalhadas. Rezar. Pedir mais tempo para pecar desejos inconfessáveis.

Só então a penitência. Que será longa e minha. Incerta como os olhos perdidos em voos sem pouso. 

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:01

Professores em protesto

 

Imagem de aqui

 

Um destes dias li o seguinte no Facebook:

 

Pega nesse copo.
-Peguei.
-Agora deixa-o cair ao chão. O que aconteceu?
-partiu
-Agora pede desculpa e vê lá se ele volta a ficar inteiro.

 

Achei que tinha que falar disto aos meus filhos, eles acham que pedir desculpa resolve imediatamente qualquer asneira ou problema em que se tenham metido e que a vida segue simplesmente como se nada tivesse acontecido.

 

Hoje quando pelo segundo dia consecutivo ouvi um ministro a pedir desculpa por uma asneira do seu ministério e a seguir em frente como se nada se tivesse passado, lembrei-me disto.

 

Ontem tinha sido a ministra da justiça a pedir desculpa pelas falha Citius, o já famoso do sistema informático da justiça que de um dia para o outro fez desaparecer os bites e os bytes que guardavam milhares e milhares de processos, hoje ficamos a saber aqui que há muito se sabia que o colapso do sistema era iminente, pelos vistos a única que não sabia era a ministra, a mesma que insistiu nos encerramentos de tribunais e reformas apesar de tudo e de todos.

 

Ela pediu desculpa, pena que não haja forma de colar os cacos e o sistema de justiça tenha voltado uns anos para trás ao tempo em que só havia papel.... e será que todos os processos tinham mesmo suporte em papel?

 

Hoje calhou ao ministro da educação pedir desculpa, pelos vistos aquilo que os professores apregoavam desde que saíram as listas era mesmo verdade e alguém fez asneira da grossa. Essa asneira fez com que neste momento existam muitos professores no desemprego que na realidade  deveriam estar a dar aulas, nos seus lugares já há outros professores contratados e colocados. Demoraram quase uma semana a verificar o que os professores descobriram em minutos, o ministro pediu desculpa e já há quem se tenha demitido, é claro que não foi o ministro.

 

É com agrado que vejo alguém reconhecer um erro, tal como gosto que os meus filhos o façam quando erram ou a asneira é grande, mas também aqui não vejo como poderão ser colados os cacos, como irá o ministério da educação resolver o problema? Vai despedir quem foi contratado por engano para contratar quem ficou de fora? E nos entretantos os alunos vão voltar a ficar sem professor?

 

É uma verdadeira novidade ver ministros pedir desculpa, mas era muito mais interessante ver que assumem a responsabilidade do erro, tal como digo algumas vezes aos meus filhos, as desculpas não se pedem, evitam-se.

 

Tanto a ministra da justiça como o ministro da educação podiam ter evitado o erro, bastava dar ouvidos a quem os avisou que as coisas não iam correr bem, ambos decidiram seguir em frente com o erro apesar dos avisos, agora não deviam pedir desculpas, deviam assumir a culpa e demitirem-se.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:24

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