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Conto, vento em Outono

por Jorge Soares, em 28.04.12

Vento em Outono

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Pertenço-me, finalmente. Está em minhas mãos passar pelos dias e noites sem tormentos ou permissões. Não há mais ondas de viver insensatas impingindo-me vontades, comichões. Nem criaturas atormentando meu desejo, obrigando meus sonhos. Tudo está sob controle. Meu controle. Sinto falta, é bem verdade, de algum ontem. Talvez das pernas que se entrelaçavam às minhas, ou das mãos que esculpiam arrepios em minha pele branca. Não sei... Mas o desconforto é breve. 


Fartei-me de gente. Gente que encontrei em muitas camas onde amassei lençóis e cometi pecados por ardor, por vício. Entreguei meu corpo à pilhagem. Rapinei também. Deitei fora, sem remorso, as almas que teimaram em germinar dentro de mim. Sem nenhuma culpa. Devorei o que me serviram. Dispensei os ossos e as cruzes. Apenas isso. 


De início, houve um tanto de dor, quando me desnudei das pessoas. Dor gotejada. Mas nenhum medo, nenhum choro, nenhum grito. Eram somente pessoas que partiam de mim. Depois que não restou nenhuma dor é que aprendi a sentir solidão. No espaço vazio do meu peito, lutamos por mim. Eu a deixei vencer. Ela, em troca, me tomou por companhia.


Moramos as duas nesta casa quase sem móveis. Prefiro um lar assim, desprovido. E gosto das paredes brancas, sem adornos, que impedem o dia de entrar. Por mim, não haveria janelas. Nem portas. Nada que eu queira está lá fora. 


Aqui, o silêncio me escuta e digo em voz alta as palavras que guardei para quem nunca as quis. Ora converso com as plantas que mantenho viçosas, ora com os dois cães que me lambem os pés enquanto lido na cozinha. Guardo, ainda, alguns segredos, como as conversas com o espelho, ou com o céu. Mas, sobre isso, prefiro não falar, porque tenho vergonha.

 


Vez ou outra, sinto saudade das pessoas. Não daquelas das quais me fartei, mas de outras, anônimas, que não deixam marcas. Quando tal acontece, me presenteio com uma ida ou duas à mercearia, ao açougue, à padaria. E, se a carência persiste, percorro algumas lojas para conversar com vendedores. Com isso, acabo por entulhar os armários com coisas de que não preciso. Mas volto a andar e a comprar e a entulhar os armários quando o peito aperta. 


No entanto, quase sempre distraio a vontade de outro jeito. Um filme, um livro, as contas do mês. Às vezes, sento-me ao piano e alimento a solidão com a música que brota das teclas. E tudo se aquieta.


Menos hoje. 


Faz pouco que um vento doce de outono engravidou minhas cortinas, deixando à mostra, pelos vidros meio sujos, um tapete de folhas arrancadas que convida os pés a um passeio. 


Mas são os pés da memória que me carregam para bem longe de casa, para um outro outono...

De férias, num balneário de águas, eu ocupava o meu tempo dormindo ou fazendo caminhadas em volta de um pequeno lago que havia no parque da cidade. Foi numa daquelas manhãs que ouvi a voz rouca e forte de Antônio esbravejando sobre alguma coisa. Olhando na direção dos resmungos, me deparei com um homem de meia-idade, agachado no meio da trilha, atrás de mim, retirando raivosamente do tênis pedaços de folhas e gravetos úmidos que haviam se grudado na lateral do calçado. A trilha de outono, molhada pelo sereno, formava uma superfície viscosa e escorregadia, onde não raro os pés afundavam no amontoado de folhas, ou alguém tomava um tombo. Rotina. Recomecei a andar, pensando que só um homem mal-humorado reagiria assim ao curso da natureza.


— Porcaria de folhas! — escutei-o, então, gritar.


Alguma coisa em sua voz me fez novamente virar, a tempo de vê-lo caído no chão, grudado em folhas. Sem conter o riso, aproximei-me e lhe ofereci a mão:


— Qual é a graça? — perguntou-me, sério, levantando-se sem a minha ajuda.
— Desculpe! — respondi, sem graça, retomando de imediato a caminhada.


Um dia tão lindo não seria estragado pelo mau humor do grosseirão! Benfeito! — pensei, acelerando o passo. Mas, no mesmo instante, meu pé esquerdo falseou e foi a minha vez de desabar sobre a pista. Enquanto tentava retirar da palma da mão o graveto que se espetara ali, senti duas mãos fortes me suspendendo sem esforço. Um par de olhos azuis zombeteiros me fitava. E a sensação de perigo me serviu de alerta, mas não me afastou do abismo.


Da trilha de folhas ao leito do hotel passaram-se três dias. Quando retornamos à capital, onde ambos morávamos, eu já sabia que Antônio era casado. Mas nos tornamos amantes assim mesmo.


Eu não era mais nenhuma menina. Aos 40 anos, minha história de amores proibidos passava por algumas alianças. Nada com grandes consequências. Duas regras, porém, eram obrigatórias: nunca me apaixonar; nunca exigir do outro nada além da cama. Mas, com Antônio, me esqueci de ser prudente. Quando fez um ano que estávamos juntos, eu o amava. E, pior que isso, eu o queria para mim.


Demorou um pouco para que eu percebesse que ele estava me evitando. A princípio, pensei que o excesso de trabalho o estivesse retendo até mais tarde na empresa. E comecei a fabricar desculpas para as suas ausências, para os telefonemas não retornados, para a falta do seu corpo em minha carne. À medida que os dias passavam, eu me convencia de que alguma coisa impedia Antônio de me ver. A mulher; talvez os filhos... Mulheres que amam errado aprendem a enganar a si mesmas.


Foi num restaurante que nos encontramos, depois de duas semanas. Arrastada por uma amiga, eu tinha me deixado levar para um jantar aborrecido, com gente que nem conhecia direito. Antônio, ao lado da mulher e dos filhos, comemorava alguma coisa que eu não sabia o que era. Nossos olhares se encontraram brevemente, uma única vez, e não se acharam mais. 


O telefone não tocou. Nem aquela noite, nem pela manhã. Nos dias que vieram, as garrafas não cumpriram o prometido de me fazer esquecer o vazio. E o vazio precisava ir embora. Então, numa hora comum, de um dia comum, perfumei o meu corpo e o embrulhei no lençol branco dos mortos. Deitei-me sobre os ladrilhos igualmente brancos e frios do banheiro, cortei os pulsos e chorei por mim.

Sacudindo os pensamentos de ontem, abro a porta de casa e passeio descalça sobre a trilha de folhas verdes umedecidas pelo outono. Não há mais ninguém ali, além de mim. Nem quedas, nem amores proibidos, nem mesmo amor nenhum. Não há enganos. É um novo outono. E uma velha solidão. Mas há algo, ainda, por fazer.


Dispo-me das roupas e as deixo para trás, pelo caminho. Volto à casa, mas não fecho portas ou janelas, porque elas não deveriam estar ali. Embrulho-me, sem pressa, no velho lençol frio e branco. E me sento no chão de ladrilhos do banheiro. Na lâmina, vejo um rosto distorcido. Sou eu, talvez, esse arremedo. Ou talvez sejam meus olhos que desaprenderam a me ver. Empunho com firmeza o braço e o desço num primeiro golpe. E depois em outro, e outro, e outro, até lacerar o lençol frio e branco dos mortos. Em meu corpo libertado, nenhum corte. 


Deito-me, então, naqueles ladrilhos frios e deixo que a umidade do outono me penetre até o gozo. 


Eu não quero morrer. Eu já morri. E não gostei.

 

 

Cinthia Kriemler

Retirado de Concursos literários

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publicado às 21:21

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2 comentários

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De Peper a 29.04.2012 às 16:47

Triste, desalentada, decadente, mas muito bem escrito...
"Está tudo tratado e nada resolvido..."
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De Jorge Soares a 29.04.2012 às 23:36

Acho que esta senhora vai passar por cá aos sábados mais vezes.

Jorge

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