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Conto - Para impedir os Corvos

por Jorge Soares, em 18.07.15

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No equipamento de som antigo, a valsa continua. Acompanha grotescamente o mergulho do corpo no ar. Os gritos histéricos das pessoas misturam-se à música que sai das caixas, criando um caos em tons agudos. A queda se acelera e, por um instante, ela sente medo. Mas volta depressa a confiar na rede que vai jogá-la para o alto e para o alto, até que não haja mais perigo. Para isso aquela rede velha e ressecada está lá, logo mais abaixo. Para impedir que ela desabe como uma boneca de pano. Em pouco tempo, vai sentir as cordas trançadas aparando as suas costas, empurrando-a para cima, salvando o seu corpo miúdo e treinado. E assim que passar o susto, aqueles gritos infernais se tornarão aplausos. Mas não. Há agora, também, choro e correria. Ela ouve. Mas só consegue enxergar uma névoa vermelha. 
 
Por que é que vocês não calam a boca? Eu estou bem. Não estou sentindo nada. Só não consigo me levantar. Por favor, por favor, sem gritos. A minha cabeça está doendo. Vai passar. Eu preciso me levantar para vocês verem como está tudo bem. Eu sei que consigo. Se não fosse esta dor insuportável nas costas, me tirando o ar, eu já estaria em pé. Já sei. Vou rolar o corpo na rede e... De quem é esse sangue? Eu não gosto de sangue! Eu quero sair daqui! Vamos, vamos! Só um esforço... Mas por que é que as minhas pernas estão assim, jogadas para o lado, tortas como as pernas de uma contorcionista? Eu tenho que fazer alguma coisa! Preciso me levantar desta rede cheia de... areia? Areia? Meu Deus, eu estou no chão!
 
O corpo dela desarticulado. A rede arrebentada como um ninho podre. Os olhos recusando a luz exagerada. E um sonho engraçado. Uma cama de areia escura, molhada, com cheiro adocicado. E ela sendo sugada por aquela gosma úmida. Ao redor do leito traiçoeiro, corvos de várias cores voando em todas as direções, excitados, gralhando fino. E, de repente, ela voando. Os corvos resgatando-a, com seus bicos fortes, da cama de areia molhada, puxando-a pelos braços, pelas pernas. E os sentidos se apagando em dor.
 
Um cavalo relincha irritado. É tudo o que ela precisa para voltar a estar no agora. Os olhos abertos no escuro do picadeiro vazio. Vazio como suas pernas. Ela desiste de lutar com os pensamentos. São os mesmos, há 20 anos. A cada vez que as lembranças se impõem, a cada vez que a febre, a ânsia e a dor no peito desafiam o esquecimento, ela revê o seu túmulo de areia. 
 
Foram os corvos que não a deixaram dormir naquela noite. E ela aceitou. E fingiu. E morreu sem se deitar. Mas não bastou. A pior morte quebra sem levar. Minando, humilhando o sentido do bom. E já é tão pouco o que há de bom. Apenas um bebê com as mãozinhas para o ar. Uma menina brincando de roda. Uma jovem recebendo o primeiro beijo. E ela acreditando que tem um pacto com a morte. Por 20 anos. Pagando cada tributo sem gemer, sem blasfemar. Uma troca justa. Ela, personagem do chão ensanguentado, da rede podre, deformada, inválida, tendo sido capaz de gerar descendência. Guardiã do bom. Mas o destino insiste em novamente aparecer. E as trilhas que deveriam se afastar retornam à arena. Carma obsceno.
 
Hoje, os corvos estão alertas. E os gritos histéricos querem voltar. Ensurdecedores. Há uma intenção de tudo outra vez. Por isso ela veio. Não que aguente olhar o picadeiro iluminado. Nem que consiga controlar a memória da dor. Ela veio se entender com a morte. Para livrar sua cria de uma sina imerecida. E quando o pé escorregar na barra, e quando a mão do parceiro falhar, e quando a malha colorida despencar em voo de serpentina, a rede firme se fará de útero. Haverá aplausos para a jovem trapezista. Flores entregues por um amante também jovem. E olhos de mãe. Guardiã.
 
Agora que o circo foi dormir, ela cumpre seu pacto. Entrega-se sem medo. Na cama de areia molhada, a morte se deita ao seu lado. E vigia. Para impedir os corvos. 
 
(este conto integra a antologia Respeitável Público — Histórias de circo e outras tragédias, Editora Penalux, 2015).

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

Conto - Avareza

por Jorge Soares, em 16.05.15

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Se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força, 
de mesma intensidade, mesma direção e de sentido contrário.
                                                                               (Isaac Newton)

 

Intensidade
 
Você quer cinco reais? Assim, de graça, menina? Não. Primeiro coça aqui as costas do papai. Mais um pouco... Isso... Muito bom. O dinheiro é para quê? ... Sorvete? Ah, não! Pensei que era pra coisa séria. Pra besteira não tem dinheiro, não! ... Mas o que é isso? Sem choro, menina. Para de chorar. Ah, não vai parar? Então, você agora me deve R$10,00. E se continuar chorando a dívida aumenta pra R$15,00. Pão-duro? Eu? Cala a boca, mulher! A menina precisa aprender que dinheiro não cai do céu! Cinco reais! Desse tamaninho e já pede logo cinco reais!! Sabe quanto tempo eu levo para ganhar esse dinheiro? Sabe o que eu preciso fazer para ganhar o que eu ganho? E o meu dinheiro não é capim, não! Não nasce em árvore! Quer saber? Você está de castigo, menina! Só sai do quarto quando entender o valor do dinheiro.
 
 
Direção 
 
Você cresce, cresce e não aprende, não é, menina? É isso mesmo! Coloquei corrente da geladeira, sim! Por acaso está na hora do almoço ou do jantar? Se quiser água, tem no filtro. Mas dentro da geladeira não tem nada que interesse a ninguém agora. Mas era só o que me faltava! Eu sei que a sua mãe fez gelatina escondido de mim. É isso, não é? Se eu tivesse visto, não tinha esse desperdício, não! Mas já que fez, é sobremesa. Só depois do jantar.
 
 
Sentido contrário 
 
O quê? O papai quer ir para um hospital particular? É isso mesmo que eu ouvi? Ele quer que eu pague para ele ficar sozinho num quarto? Que desperdício! O que é que ele está pensando? Que eu tenho dinheiro para jogar fora? Ele sabe o que eu preciso fazer pra ganhar o que eu ganho? Além do mais a doença dele é terminal, mamãe. Não importa em que hospital ele esteja, nós duas sabemos que ele vai morrer. E vai morrer logo. Então, para que esse luxo todo? ... Ah, mamãe, para de chorar! Se você continuar chorando eu vou desligar o telefone. 

 

 

Cinthia Kriemler

 

retirado de Samizdat

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publicado às 23:48

Conto - Depoimento de uma mulher que apanha

por Jorge Soares, em 09.05.15

MULHER MUDA SEM BOCA.png

 

De tudo o que nos incrimina, o que nos condena é a mudez.

(cinthia kriemler)

 

Eu fico olhando ele dormir toda noite. Ele não faz um ruído, sabia? É uma coisa assustadora. Não ronca, não respira alto. Parece alguém em coma; um semimorto. Como é possível? Isso não é justo. Não está certo ele dormir assim enquanto eu passo a noite cuidando do meu corpo cheio de dor. Cada tapa, cada soco, cada pontapé me deixa toda marcada, está vendo? A minha pele está toda roxa. Tem uns lugares em que os hematomas nem saem mais. Está vendo a minha coxa? É o lugar que ele mais chuta. Acho que é porque essa parte do corpo está sempre coberta e ninguém vê as marcas. Eu nunca mais vesti um short. Nunca mais fui à praia, acredita? Mas as coxas não me preocupam. Na hora em que ele começa a bater eu só me lembro de usar as mãos e os braços para proteger a cabeça. Faço uma espécie de redoma, de escudo. Assim, está vendo? Mas tem hora que ele me pega desprevenida. Eu morro de medo que ele machuque os meus olhos. Ou a minha cabeça. Fico imaginando como seria ficar em cima de uma cama. Dependendo dos outros; dependendo dele. Imagina o que mais ele faria comigo. 

Eu ainda choro. Por que será que eu ainda choro? Não é mais choro de revolta nem de medo, sabe? É uma coisa boa. Que me dá alívio. Andei pensando sobre isso. Eu acho que eu choro porque talvez seja a única coisa em mim que ele não pode tocar: as lágrimas. Ele não pode puxar, apertar, sacudir, espancar as minhas lágrimas. Como faz com o meu corpo. Também não pode manipular, nem controlar, nem abusar delas. Como faz com a minha cabeça. Com a minha vida.

Não, isso não é vida. Eu sei. Eu já estive aqui antes. Já conversei com a psicóloga. Foi bom. Ela me fez pensar. E eu já tinha parado de pensar fazia um tempo. Mas pensar não adianta muito, sabe? A gente se sente pra baixo de novo. Pensando em tudo o que não consegue fazer. E sofre outra vez.

Eu nem sei por que é que eu apanho tanto. Só sei que a coisa vem, e quando vem nunca é pouca. Primeiro ele me olha. É um jeito de olhar que fala. Eu não sei explicar direito. Mas é como se ele estivesse sempre me culpando por alguma coisa que eu não fiz. Como se estivesse procurando uma desculpa para me arrebentar toda. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa mesmo. O cabelo solto, a saia curta, a calça comprida justa, o riso, a unha grande, o decote, o jeito de pendurar a roupa no varal, a máquina ligada muito cedo, a camisa passada do jeito errado, o banheiro ocupado. 

A psicóloga me disse que ele é um abusador. Que ele faz eu me sentir culpada de propósito. Porque é isso que um abusador faz. É verdade. Toda vez que ele me bate fica repetindo que a culpa é minha, que eu mereço apanhar. Não mereço, não. Já tem tempo que eu sei que não mereço castigo. 

Eu casei muito cedo. E ele não me deixou trabalhar nem estudar. Tinha ciúme até da minha mãe. No começo, eu achei graça. Não vou negar que eu gostei daquela vida de não trabalhar. Só depois de um tempo é que eu percebi que era tudo uma armadilha. Eu não tinha diploma, não tinha emprego, não tinha mais amigos e me afastei da minha família. Eles nunca entenderam o porquê. Nunca aceitaram eu ter parado de falar com eles: minha mãe, meu pai, meus irmãos. A minha irmã mais nova me disse que é benfeito tudo o que me acontece. Porque eu sou burra, covarde, fraca. Eu entendo. Entendo, sim.

Eu não tenho filhos. Não pude ter. Fiquei triste por muito tempo. Porque eu imaginava que se eu tivesse filhos ele não ia mais me bater. Mas depois eu andei lendo sobre uns casos parecidos com o meu e vi a sorte que eu dei. Eu e essas crianças que nunca nasceram. Só que, por causa disso, ele passou a me bater mais ainda. Batia e me xingava. Sua inútil! Sua vaca! Não presta nem pra me dar um filho! 

Foi nessa época que eu pensei em cair fora pela primeira vez. Sem filhos, ele não tinha como me ameaçar. Sem filhos, eu não me importava de não ter estudo nem emprego. E aí eu vim aqui e prestei queixa. Conversei com a psicóloga e ela me disse para eu parar de pensar no que tinha a perder, e começar a pensar em tudo o que eu tinha a ganhar. Foi uma conversa boa. Imaginei tanta coisa. Cheguei a procurar a minha mãe e perguntar se ela me aceitava de volta em casa. Imagina que ridículo! Mulher feita voltando para a casa da mamãe. Mas ela aceitou feliz. Os meus planos é que duraram pouco. Um dia depois ele foi trazido aqui, nesta delegacia, prestou depoimento e foi mandado de volta para casa. Em 2005, ainda não existia a Lei Maria da Penha. Foi aprovada só no ano seguinte. Tarde demais. Na noite em que ele foi liberado pela polícia, me fez uma ameaça. Que se eu viesse aqui de novo ele matava meus pais e meus irmãos. E logo em seguida me deu uma surra tão grande que me quebrou um dente. Esses nove anos foram um inferno.

Mas as coisas mudam. Por isso eu resolvi prestar queixa de novo. Dessa vez, sem volta. Meu pai morreu tem quatro anos. Mas ainda tinha a minha mãe para o desgraçado ameaçar. Agora, ela também morreu. Faz um mês e meio. Antes, eu dei um jeito de ir até o hospital e ficar um pouco com ela. Pedi perdão. Sabe o que ela me disse? Que eu precisava pedir perdão era a mim mesma. Aquilo doeu. E doeu mais ainda quando eu fiquei sabendo que ela deixou a casa para mim de herança. E que os meus irmãos abriram mão da parte deles por mim. Para que eu pudesse ter para onde ir se eu decidisse me separar. Aí eu pensei: é agora ou nunca; não tem mais pai nem mãe pra esse filho da puta ameaçar. Eu conversei com os meus irmãos. Contei tudo para eles. E eles me disseram para não me preocupar que eles se garantem. Acho que a única covarde sou eu mesma.

Hoje, quando eu estava saindo de casa, ele veio atrás de mim. Adivinhou o que eu ia fazer. E me ameaçou, revólver na mão. Eu continuei caminhando, sem me virar. Pensando que o tiro não podia me matar mais do que eu já estou morta. Mas não era para ser. Não, não era para eu terminar em silêncio. 

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Palavras Abraçadas

 

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publicado às 23:57

Conto - O menino

por Jorge Soares, em 18.04.15

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São os olhos dele que não me deixam dormir. Os olhos opacos, estáticos, engessados, pousados na ausência. Eles não pedem, esses olhos. Não se movem em buscas. Sabem que seja nos arredores, seja no imensurável do longe, o que há é o nada. Não, não é. Antes fosse o nada. Esse vazio que não acalenta, mas que também não dói. O que cerca esses olhos vazios é o tudo. O inalcançável e esfuziante colorido do tudo. Que não lhe pertence. 
 
Ele apenas desistiu. Sabe que os vidros das vitrines foram feitos para promover o apartheid do pão. Ele sabe — aprendeu nas aulas de cotidiano — que lugar de menino pobre e preto é no sinal dos cruzamentos, nos montes de lixo, nos becos do morro, no papelão das caixas desmembradas em camas, na porta dos cafés pedindo um trocado e ganhando deboche. E limpa com cuspe o sangue do dedo que machucou na véspera. E cheira um pouco de thinner pra matar a fome que nem é de véspera. E não volta para o barraco pobre onde vive com a mãe porque lá agora tem um homem que faz a sua mãe de pasto, e que faz os filhos da sua mãe de pasto. 
 
Ele não quer olhar mais nada. Não quer ver o que não pode ter. Nem quer ver o que incomoda. Como a piedade nos olhos da mulher que lhe trouxe comida. Foi ontem? Ou anteontem? Ela passou as mãos nos seus cabelos sujos e emaranhados e sorriu e perguntou o nome dele e sorriu de novo. Depois lhe deu a marmita embrulhada num saco de plástico branco. E ele não aguentou. Sentiu o corpo esquentando, tremendo, se preparando para um abraço que não existiria. Mas existiu. Existiu, sim. E aí ela foi embora. Tinha mesmo que ir. Todos vão. 
 
Por isso ele não quer mais ver. Não ia suportar outro sorriso. Não para depois ter que olhar novamente para a feiura das calçadas cheias de escarros. Ter que olhar para a lata de cola, para os pés descalços, para o dedo sujo de sangue que ele vai limpar mais uma vez com a saliva grossa. Ele não quer mais ver o sol que é amarelo como o dos desenhos dos meninos que ele viu no mural do pátio da escolinha. Viu pela grade. E achou bonito. E quis ter lápis de cor de ponta afiada para desenhar um sol para si mesmo. Para guardar no bolso do short surrado e iluminar o breu do medo.
 
Ele não quer mais ver o que é bonito. Nem o céu cheio de estrelas, nem as nuvens gordas e brancas, nem os desenhos dos meninos, nem o sorriso da moça que acarinha os seus cabelos. Ver é sofrimento. Desejo de mais. E ele não quer, não pode. 
 
São os olhos dele que me mordem os sentidos. Até ontem, opacos, apáticos, tão cheios de renúncia. Hoje, dois buracos fundos de onde escorre o sangue ainda vivo que ele limpa com saliva. Dizem que furou com um lápis de cor. Para desenhar um sol por dentro.
 
Ele agora quase sorri. Eu sigo adiante. Com os meus olhos culpados
 
Cinthia Kriemler
 
Retirado de Samizdat
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publicado às 21:44

Conto - Uma conta que não fecha

por Jorge Soares, em 21.03.15

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O sangue. Esse delator maldito que navega arrogante por veias e artérias. É o sangue que vai lhe contar o que ele não quer saber. Quem ele não é; quem ele nunca foi. Que não é o primogênito de seus pais. Nem o irmão de seus irmãos. As sobrancelhas grossas como as do pai, o nariz alongado da mãe, o sinal sobre o ombro esquerdo: coincidências fabricadas à força do afeto. E ele não será o filho de mais ninguém. Somente um nada sem raízes próprias. Um pastiche.

 

O sangue vai mostrar que ele não serve, que não é compatível. Que num minuto é o provável doador para o seu pai e, no outro, apenas um desconhecido, uma conta que não fecha. E ele, que nunca se afasta dos fatos, não saberá o que fazer com os fatos: se confrontará a mãe ainda ali, no hospital precário, roubando para si uma cena que não é sua; se exigirá com urgência os detalhes da sua história desviada; se apenas perguntará por quê. 

 

Ele ainda não sabe que um estopim será aceso. No instante em que a mãe e os irmãos lhe pedirem que compreenda. Compreender é tudo o que ele não conseguirá. Ao contrário, será tomado por um deboche furioso. Uma vontade insana de chutar as portas frágeis da UTI onde o pai está deitado sem saber de nada. E de sacudir aquele homem que o enganou por tanto tempo. O pai paciente e amigo que o ensinou a assinar seu nome e sobrenome. E lhe mostrou as letras, os números, os mapas, os elementos, as constelações. O pai que lhe mostrou a vida por meio de uma prática respeitosa de atos sem voz. O pai que o levou para nadar, para andar a cavalo, para navegar no mar que ambos tanto amam. A quem entregou seus boletins escolares, suas dúvidas, suas discussões adolescentes, suas broncas com Deus, seus diplomas, suas paixões, seus argumentos. O homem que, ele ainda não sabe, será, brevemente, um estranho.

 

Ninguém devia saber assim, como ele saberá, que foi rejeitado. Por uma mulher quem nunca chamou de mãe. Que o jogou fora ou o entregou sob um pretexto qualquer; talvez, por dinheiro. Por um homem a quem nunca chamou de pai. Que sequer o conheceu ou que provavelmente nem tenha sabido que o fez existir. Ninguém devia se deparar com a própria história de repente. Não para descobrir que é uma história oca. Nem desse jeito, por acaso, por causa de um acidente de carro estúpido. O pai lançado de cabeça no asfalto; a falta de recursos da cidade pequena; a necessidade de uma transfusão; ele se oferecendo para doar, apesar da insistência estranha da mãe em lhe dizer que não precisa, que não precisa... Ele lendo na ficha do pai: sangue tipo A+. E se lembrando de que o sangue da mãe é O+, e de que o sangue dele é B-. Tudo isso antes que a voz apressada da enfermeira sentencie que o doador tem que ser da família ou alguém compatível. 

 

Um homem não devia ser lançado assim ao inferno. Cara ou coroa?, perguntam-lhe as atitudes. Desnorteio; e ele se reconduz, feto, ao útero de uma narrativa não escrita. Pertencimento; e ele volta, inteiro, à UTI onde há muito mais que sangue a ser doado. Porque sangue é uma conta que não fecha.

 

Cinthia Kriemler

Ilustração: O Nascimento do Mundo, Salvador Dalí

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

Conto - Um conto madrilenho

por Jorge Soares, em 24.01.15

 

Só alguém como ela, nascida em Las Barranquillas, sabia dar valor às acomodações que recebera na casa do Sr. Velásquez. Era grata pelo quarto, pelo emprego, pelo silêncio quase permanente do idoso, que preferia calar-se a ter que se dirigir a ela ou a qualquer outro com a voz arrastada pelo Parkinson.O quarto claro e o pequeno banheiro acoplado cheiravam a alfazema. Ali, Encarnación se lembrava com mais brandura da infância, das roubalheiras do pai, das rezas da mãe, de quem herdara a crença. Desde pequena, sentia-se atraída pelas imagens cuidadosamente limpas dos santos mantidos em um oratório de madeira carcomida. E enquanto os irmãos corriam atrás de uma bola velha, ela brincava com as figuras miúdas de gesso que lhe faziam companhia naquela vida dura.

 

Interrompendo as memórias, prestou atenção ao som irregular que saía da boca do Sr. Velásquez, um arquejar que ela nunca ouvira antes. Acostumada apenas aos tremores sem som que sacudiam o idoso, assustou-se com o ruído incomum. Aproximando-se dele, perguntou-lhe o que estava sentindo. Mas o homem apenas fechou os olhos, sem dizer nada. Pegando o aparelho de pressão ao lado da poltrona, colocou-o gentilmente no braço do idoso.
 
— 17 por 10... Muita alta. Vou ligar para o Dr. Ramirez — disse para si mesma.
Sentiu a mão do Sr. Velásquez agarrando seu braço, fazendo seu corpo tremer junto com o dele.
— Não!
— Como não? O Dr. Ramirez foi claro: se a pressão subir, eu tenho que ligar para ele.
 
Sem soltar-lhe o braço, o velho ergueu com dificuldade a outra mão e apontou para a televisão à sua frente. A reportagem estava no fim, mas Encarnación voltou-se a tempo de ver, na tela, a foto de um menino pequeno, com cerca de cinco anos. 
 
 
“... e se alguém tiver alguma pista do paradeiro do menino Juanito, entre em contato com uma delegacia de polícia ou com a nossa emissora.“
 
 
 
 
 
Cinthia Kriemler

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 20:44

Conto - Empatia

por Jorge Soares, em 22.11.14

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Jesuína não para de me olhar. Ela vigia os meus passos, marca território. O quintal é dela. Cada palmo de terra aplainada, cada minhoca que ela enxerga e come; é tudo dela. É um olhar ruim, sempre ruim. Não demora ela arrepia as penas e bate as asas vigorosamente, tentando me enxotar daqui. Uma criatura irritadiça e antipática. Dessas que são assim e pronto, não mudam.
 
Agora, ela está de perfil. Para quem não a conhece, parece apenas um desprezo ensaiado, uma sondagem de esguelha. Não é. O que ela está fazendo é se exibir, me mostrando o bico adunco. Para que eu saiba quanta dor ela é capaz de me causar. Para me dizer que não prossiga.
 
Preciso vencer o medo e cruzar o quintal até o galinheiro. Ignorar o movimento agressivo. A bípede levanta cada perna no ar com lentidão e depois a mantém suspensa no ar por alguns segundos, antes de tocar o solo. Como um soldado marchando num desfile. É o que ela é: um soldado do mal. Desses que cometem atrocidades por prazer, e não por obediência ou disciplina. 
 
E Jesuína tem adeptos. Se eu não me apressar, ela logo convocará Geralda, Cícera, Teresa, e outras tantas recrutadas no caminho. Prontas a segui-la e a brigar por ela com a estupidez das turbas que se enfurecem por qualquer motivo que lhes determine o líder. Atrás delas, excitado pelas bundas de plumas empinadas, Julião, o galo velho que já faz tempo não acorda o dia. Bobo como qualquer macho na presença de um traseiro.
 
Faltam alguns passos. Poucos. E a porta do galinheiro me protegerá da tropa bicuda, das garras cheias de micróbios. Não tenho coragem de enxotá-las. Tenho dó. Um dó que se mistura ao medo, é verdade, mas que não deixa de ser dó. Viver ao ar livre, sob sol e chuva, ou empoleirada num pau; comer milho cru e minhocas; ter asas que não voam para longe. Pior que isso: ser morte certa em panelas fumegantes. 
 
Quem não seria como Jesuína? Mas ter motivo não é ter 
 
razão. E não vai ser em mim que ela e suas seguidoras vão descontar a raiva e a frustração e a impotência de serem galinhas. 
 
Eu tenho que me controlar. Até por quê, o meu pavor tem nome. Remorso. Porque eu sei o que vou fazer no galinheiro. Elas sabem o que eu vou fazer no galinheiro. Não é mesmo possível nenhuma simpatia entre nós. A cesta no meu braço condena as minhas intenções. Elas sabem que vou sequestrar seus filhos, que vou encher a cesta com muitos ovos. Sabem que foram expulsas do galinheiro para que eu possa ladroar à vontade. E que voltarão para um ninho vazio. 
 
Eu sou o inimigo. Contra mim, toda a artilharia. A fúria com que bicam meus pés e minhas pernas até me causar dor intensa. Dor que, em seguida, sou eu quem lhes causa mais intensamente.
 
Não é uma troca justa. Nenhuma troca é. Mas, apesar da raiva, e da razão que eu sempre penso ter, acabo deixando que machuquem as minhas carnes. Eu também preciso sofrer. Sentir remorso. Essa coisa que aceita castigo, mas não recua da intenção. Jesuína é meu castigo. Ela me sangra além da pele.

 

Cinthia Kriemler

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:14

Conto - Território

por Jorge Soares, em 18.10.14

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Lá, branco e preto namoram. Homem e mulher. Homem e homem. Mulher e mulher. O suor do trabalho vai para a cama sem banho. O suor da trepada escorrega os corpos na cama sem-vergonha. O gozo grita fode, grita mete, grita o dia de merda igual a todos os outros. A merda que invade as narinas a céu aberto. Merda de gente, de bicho, de viciado, de vadia. Ninguém mais sente. Nariz é pra cheirar o pó. O pó que menino vende.
 
Menino mata gente grande. Lá, mata. Mata velho dedo-duro, mata mulher que trai, puta que não rende, comerciante que não paga. Mata menino também. E morre menino no descarte do dia ou da semana. De crack, de bala achada, de desafeto, de porrada, de polícia, de saco cheio. Só não morre de rir. Nem de medo. Soldado não pode ter medo. Não pode nada. Soldado não é autoridade. Nem no tráfego, nem no quartel. Mas pensa que é. Até quando chupa o dedo pra dormir. Quando mija na cama, quando chora no sono, quando abraça a HK33, quando chama pela mãe sem abrir os olhos. 
 
Mãe é o caralho. Lá, quase sempre é. A bêbada que queima o braço do menino com brasa do cigarro. Menino de quatro anos. Porque ele pede doce, pede colo, pede rua. A noiada que vende bebês para os turistas de língua enrolada. Em troca de dinheiro pra comprar bagulho fino e enfiar no rabo dela e no dos homens dela. Os homens que arrebentam o menino de porrada e deixam ele nu do lado de fora de casa. Nos dias piores. Nos melhores, não. Nos dias bons o menino dorme na cama quente. Estuprado a noite inteira. Inteira, não meia. E a vagabunda não acredita no menino. Nunca. Mesmo acreditando. E repete que ele é ruim que nem cobra. Que ele quer que o homem dela vá embora. E arrebenta o menino de porrada e deixa ele nu do lado de fora de casa, soluçando entrecortado.
 
Lá, pastor anda limpinho. Roupa passada, camisa dentro da calça, o pinto dentro da calça. Difícil é o pastor fazer um fiel. Quem faz fiel é o tráfico. Os do pastor ostentam na igreja as bíblias gastas. Os outros ostentam no baile funk. Junto com os meninos que não são de lá. Mas que brincam de ser. Direitinho. Iguais, os que ficam por lá no fim do baile. Diferentes, os que descem para o asfalto quando o baile acaba. Dirigindo carro do ano. E vão para casa. Para amansar a larica com comida boa e um pouco mais de pó. Ou de pedra. Na beira da piscina com vista para o mar. Tomando scotch  cowboy servido no Baccarat da mamãe. Mamãe de menino rico não queima braço com cigarro, não dá porrada, não deixa nu do lado de fora. Põe dinheiro na conta.
 
Os fiéis do pastor dormem cedo. Nos braços de Deus e de Morfeu. Os do tráfico vão atrás das coxas. De homem, mulher, menina, menino. Branco e preto fodendo pelo resto da noite. Fazendo mais meninos pra descarte. Uns, no lixo, arrancados às pressas antes da vida. Outros, mais tarde um pouco. Só um pouco. Só o tempo de primeiro virar soldado, de virar noiado, de trepar com homem, mulher, preto, branco. E de voltar mais uma vez pra casa da mãe. Esperando um carinho na cabeça, um riso da boca de dentes tortos, podres. Boca de mãe devia rir sempre. E falar vem cá meu filho pra eu te dar um beijo, Deus te abençoe, como foi o seu dia, vai sair com quem, põe um casaco, já fez os deveres, come direito. 
 
A HK33 empinada dispara rajadas de fogos de artifício. Cachorro marcando território. 

 

Cinthia Kriemler

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:28

Conto - Penitência

por Jorge Soares, em 20.09.14

Penit~encia

 

Quando os meus olhos se perderem em voos sem pouso, será hora de não ficar. Mas, antes, o deteriorar-se lento.

 

Primeiro, os fracassos, se instalando gradualmente. As mãos se tornando inúteis, sem saber para que sirvam. A boca esquecendo o mastigar. O corpo se repuxando em reflexos descoordenados. As fraldas colhendo um descontrole indigno. Os cabelos ralos enfeando o rosto inexpressivo. As pernas paralisadas. O banho dado por mãos alheias. Os nomes dos filhos e dos amigos embaralhando-se em idas e vindas cada vez mais idas. As histórias inventadas, as assombrações à luz do dia, os afetos irreconhecíveis. Longas horas de sono ruim. Outras tantas de olhos no teto. As mesmas frases, repetindo-se várias vezes. Um feto encolhendo-se em involução. 

 

Assim será. Quando tudo em mim for cansaço e desespero, e eu me desintegrar como um corpo estraçalhado por feras. A cada pedaço arrancado, existirei menos pessoa, desfigurada, agonizante. A cada nesga mirrada de lucidez, invocarei um choro. Por mim. Por vocês. Para os deuses. Mas eles não ouvirão. 

 

Antes, as tentativas. Comprimidos, lâminas, janelas abertas. Opções à inexistência vegetativa. Impedidas por vocês. Como se fosse melhor gastar o dinheiro que não têm, o tempo que não têm, o amor que não têm numa agonia que transforma em raiva e frustração as sobras de sentimento. 

 

Depois, o afastamento. No quarto, nenhum de vocês culpando-se ou desculpando-se. Apenas uma mulher estranha, sentada a um canto, cuidando de mim. Fim dos hiatos cruéis. Da realidade escassa que aparecia para brincar de adeus. Nevoeiro. Eu já não estarei morando em mim.

 

Mas até que a impotência aconteça, há coisas bobas a cometer. Como a vida.

 

Escrever no vidro embaçado das janelas de chuva. Mudar a cor do cabelo. Tomar sorvete de pistache com castanhas. Tropeçar os olhos na lua, contar os paralelepípedos, tomar banho gelado no verão, balançar na rede.

 

Como mais tarde não haverá lembranças, quero sentir agora tudo o que ainda está em mim. Os abraços que me devo, as madrugadas de conversas estúpidas, as viagens desastradas com amigos imperfeitos. A melancolia dos natais e das páscoas e dos aniversários barulhentos. As bochechas dos bebês, o rabo dos cachorros. As comidas calóricas, a água com bolhas de gás. O chope com dois dedos de colarinho. O uísque com quatro pedras de gelo. Quero falar sobre sexo às gargalhadas. Fazer sexo às gargalhadas. Rezar. Pedir mais tempo para pecar desejos inconfessáveis.

Só então a penitência. Que será longa e minha. Incerta como os olhos perdidos em voos sem pouso. 

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:01

Conto - A minha avó lia Nietzsche

por Jorge Soares, em 19.07.14
cartas

 

Toco a campainha. Gesto ridículo. Costume. Entrar na casa da avó sempre foi um ritual. Tocar, esperar que seus passos lentos  equilibrassem o corpo magro e velho em direção à porta, escutar os quatro ou cinco cliques das chaves e cadeados feitos para impedir algum bandido de forçar a entrada para roubar móveis antigos e bibelôs saudosistas. Bolo de cenoura ou de milho, café passado na hora, manteiga de verdade, pães fresquinhos.
Coloco no chão as caixas de papelão que trouxe desmontadas e começo a testar as chaves nas trancas, bem devagar. Tão devagar que desperto os olhares do homem no fim do corredor de portas iguais. Ele entra indeciso no elevador, imaginando se sou a nova inquilina ou uma ladra bem vestida.
Estou dentro. O corpo retesado procurando fantasmas. Das minhas narinas sai um vento quente e rápido que conheço de sobra. Desde o meu divórcio tumultuado que é assim. Passei meses hiperventilando por qualquer besteira que me causasse ansiedade. E tudo me causava ansiedade. Até que a avó me viu em plena crise. Abriu a gaveta do móvel da cozinha e tirou de lá um saquinho marrom de papel, desses de padaria. Põe na boca, depois inspira e solta o ar dentro do saco, ela me disse. Recusei a oferta. Anda, ela insistiu, faz o que eu estou dizendo. Fiz. Parei de ficar tonta. E melhorei ainda mais um ano depois, após começar a terapia. Mas o artifício dos saquinhos carreguei comigo. Dentro da bolsa. Até hoje, em qualquer lugar, quando sinto que a respiração começa a descompassar, é só me afastar para um canto e soprar.
Os pelos do gato ainda estão nas almofadas. Talvez eu deva levar todas elas para casa, agora que Oscar Wilde está morando comigo. Ele vai gostar. Gato estranho. Desde que saiu daqui, parou de miar. O veterinário me diz para esperar, porque os gatos são avessos às perdas. Como as pessoas. Mas eu acho que ele não mia de pirraça. Não gostou de se mudar.
Quantos livros. Vou encaixotar e mandar tudo para uma biblioteca. Nada disso me interessa. Coleções encadernadas de receitas, atlas, dicionários. Romances antigos de M. Delly que pertencem à minha mãe, constato pela assinatura nas folhas de rosto. Biblioteca das Moças é o nome da coleção. Um mundo condicionante de felicidade para jovens bem comportadas. 
Interessante. Nas prateleiras mais altas, Byron, Lorca, Flaubert, Balzac. Bela safra. Edições originais misturadas a livros traduzidos. São da avó, com certeza. Meu avô só lia jornais e novelas policiais. É uma estante ambígua. Definitivamente, ambígua. 
Vou montar mais uma caixa. Ainda faltam os livros da última prateleira. Deve ter uns vinte lá em cima. O que não tem é escada. Levei para casa junto com o gato. Tudo bem. O cabo do rodo resolve. Só tenho que cutucar. E aí vem o primeiro. A Gaia Ciência. Nietzsche...? A avó lia Nietzsche? Talvez tenha sido presente de alguém. Uma folheada e vejo as expressões "Deus está morto" circuladas a lápis. São três. No rodapé de uma das páginas, escrita com a letra miúda e desenhada da avó, a anotação: "declarar a morte é reconhecer a existência?", seguida de outras duas que não consigo ler. Em outra página, há uma frase inteira marcada: "Há qualquer coisa de estupidificante e monstruoso na educação das mulheres da alta sociedade, talvez nada mais haja tão paradoxal. Todos estão de acordo em educá-las numa ignorância extrema das coisas do amor...". 
Além dos comentários em Nietzsche, há expressões grifadas e questionamentos anotados em Sartre, Beauvoir, Camus. Desconcertantes. Como a mulher que os escreveu.
Finalmente, o último livro da prateleira vem para as minhas mãos. A capa amarrada por uma fita estreita chama a atenção. Cartas a um jovem poeta. Rilke subjugado, sequestrado, preso em seu próprio livro é um pensamento idiota. Mas é tudo o que me vem à cabeça. Desfaço o laço empoeirado e quatro envelopes amarelados caem no meu colo. Eu me pergunto se devo ler; se quero ler. Mas meu constrangimento não resiste ao argumento conveniente de que as fatalidades não devem ser desprezadas.
No primeiro deles, uma carta que me parece em escrita lusitana. José de Arimatéia Sobrinho é o remetente. O texto é curto. A despedida magoada e piegas de um amante ressentido. "Não te importunarei mais. A nossa história morrerá comigo. Eu só estou a cismar como há-de ser possível que consigas viver ao lado desse gajo que teu pai te escolheu para marido, porque eu sei que não és rapariga de aceitar cabrestos. Mas como tu mesma o disseste, isso não é da minha conta. Envio-te os retratos que pediste, e que tanta apreensão te causam."
Quem é esse homem? Que fotos são essas? A data na carta não deixa dúvida: a avó ainda era bem jovem quando a recebeu: Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 1950. Foi escrita aqui mesmo e não vejo carimbo dos correios, o que me leva a crer que tenha sido entregue por um mensageiro ou por um amigo comum, cúmplice de histórias obscuras. 
No segundo envelope, a data da carta é anterior à primeira: Rio de Janeiro, 4 de junho de 1950. Talvez revele um pouco mais. Mas não. O tal José de Arimatéia pede desculpas por não ser um homem livre e declara-se apaixonado. Mais adiante, escreve um parágrafo de desprezo por Alberto Vargas, a quem se refere como "o marido de conveniência”.
Não, José de Arimatéia. Alberto Vargas não foi um marido de conveniência. Foi o meu avô amado. Que me dava escondido as balas e os chocolates que mamãe proibia. Que me ensinou a andar a cavalo, a jogar cartas, a gostar de viajar, a caminhar pela praia às seis da manhã. Que foi o único pai que eu tive, depois que o meu morreu tão cedo. Você, sim, é um oportunista, José de Arimatéia. E eu não gosto de você. Aliás, eu detesto você. 
O terceiro envelope não está sobrescritado. Dentro dele, um recorte de jornal, com data de 23 de setembro de 1950, mostrando o desfecho daquela história incompleta: "Fogo em Laranjeiras mata empresário português". Na matéria, a dúvida da polícia entre acidente e incêndio criminoso, seguida de uma declaração da mulher do morto e de uma breve  menção aos três filhos do casal. 
No último envelope, também não endereçado, quatro fotografias em preto e branco. E é você, avó, em cada uma delas. 
Você, exibindo os seios para o homem atrás da câmera. Você, de braços levantados, de pernas abertas, equilibrando o corpo despido sobre os saltos altos. Você e uma nudez descarada sobre a cama desfeita de um quarto qualquer. Você feliz. De uma felicidade que dá estocadas nos meus olhos. 
Você sabia que seria eu. Quem mais? Sabia que eu encontraria o seu segredo, e que as minhas narinas iriam respirar rapidamente em descompasso, e que eu precisaria usar de novo os saquinhos de papel marrons, e que eu vomitaria no banheiro o meu pudor oportunista. Porque somente eu viria aqui. Para levar o gato. Para esvaziar o apartamento. Para folhear seus livros. Para invadir a sua morte. Você sabia. E preparou a armadilha da fita amarrada. Só não me preparou para você.
Tenho que levar as almofadas para Oscar Wilde. Ele sente falta delas. Colocar em caixas separadas as roupas de cama, a louça, os bibelôs. Avisar à transportadora que pode vir buscar os móveis da sala, da cozinha, dos quartos. Levar comigo os quadros menores; a coleção de M. Delly que vou devolver à mamãe; a caixa com os existencialistas, que acabo de doar a mim mesma para poder ler com atenção cada anotação da avó.
Preciso de mais tempo para me decidir se vou rasgar estas fotos. Ou para me convencer de que isso já não faz diferença. Rasgada ou intacta no envelope amarelado, não importa, a avó dos bolos e da manteiga de verdade não é mais de verdade. Mas talvez a mulher nua das fotos seja. A mulher que esperou a morte para se apresentar honestamente a mim. 
Cinthia Kriemler
Retirado de Samizdat
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