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Terá sido há mais de dois anos que eu recebi um mail de alguém da  SIC em que me era pedida ajuda para encontrar um casal que estivesse a iniciar um processo de adopção internacional e estivesse disposto a ser seguido durante todo o processo. Tal como faço sempre, encaminhei o pedido para os candidatos à adopção que conheço, mas nunca pensei que alguém estivesse disposto a participar em algo deste tipo, a adopção é um assunto muito sério, na maioria dos casos colocam-se inclusivamente problemas legais e de privacidade da criança e dos adoptantes.

 

Tal como a maioria das pessoas que adoptaram fiquei chocado com a reportagem da SIC sobre a suposta "adopção" de uma criança em Cabo Verde.

 

Em primeiro lugar convém perceber que o que se vê na reportagem não é uma adopção, Portugal e Cabo Verde adoptaram a convenção de Haia, para haver adopção a criança tem que ser entregue a quem adopta através de um processo legal que terá sempre que envolver um tribunal. No caso apresentado a criança é entregue ao casal português directamente pelos pais, com a intermediação de um conhecido e sem qualquer intervenção das autoridades de Cabo Verde.

 

Eu não coloco em causa a honestidade de todos os intervenientes neste caso, mas sem a intermediação das autoridades portuguesas e de Cabo Verde, como é que se consegue garantir que a criança não foi entregue a troco de dinheiro? 

 

Mas há muitas mais coisas que me chocam, qual é a ideia de ir entrevistar a família biológica da criança, mostrar que há miséria em Cabo Verde? Qual é a novidade nisso? Mostrar que o que estão ali a fazer está certo? Desculpabilizar quem é capaz de passar por cima de todas a leis para conseguir aquilo que quer?

 

Como é que a senhora pode dizer que não tinha conhecimento da forma em que deveria tratar do processo? Eles eram candidatos em Portugal, não perguntaram às assistentes sociais  o que era necessário para um processo de adopção internacional? Não lhes foi explicado que o processo teria sempre que ir através da segurança social de Portugal para a de Cabo verde? 

 

Durante a reportagem falam várias vezes em justiça, então e a justiça para todas as outras pessoas que estavam à espera antes deles? Não conta? Então e a justiça e as leis que dizem como deve ser tratada  uma adopção internacional entre Portugal e Cabo Verde, não interessa?

 

Passamos a vida a dizer que os processos de adopção em Portugal são demorados, há casais em Portugal à espera há quatro e cinco anos, pelo que percebi a este casal foi-lhes proposta pela segurança social portuguesa uma criança com dois anos e meio, criança que eles não aceitaram. Entre os muitos comentários que li, alguém dizia que aquela criança de Cabo Verde tem direito a ser feliz, então e a criança portuguesa que lhes foi proposta não tem direito a ser feliz? Só eles tem direito a ser felizes?

 

Afinal qual é o propósito da adopção, arranjar bebes perfeitinhos para os casais? Mas não deveria ser arranjar famílias para as crianças que precisam?

 

Eu adoptei em Cabo Verde, pela via legal, o processo foi para Cabo Verde algures em 2008, a criança foi-nos entregue pelo tribunal em 2011, tivemos que lá voltar em 2012 para ser ouvidos pelo juiz que tinha o processo, os pais biológicos foram ouvidos umas cinco vezes, e a adopção foi decretada em 2014... é justo que um processo de adopção tenha estes passos todos? Se calhar não, mas é assim que funciona e é a forma de garantir que não se brinca com a vida das crianças.

 

Era bom que estes senhores se mentalizassem para o que se segue, depois do que eu vi e ouvi na reportagem, tenho muitas duvidas que algumas vez seja decretada esta adopção, entretanto a criança está em Portugal, o visto com que veio é válido por seis meses e dependendo da boa vontade dos funcionários do SEF, será renovável ou não cada três meses, nós desistimos das renovações quando enchemos todas as folhas do passaporte e a nossa filha passou a estar indocumentada... e o nosso processo tinha seguido todos os passos legais..

 

Quanto à  SIC, com esta reportagem que puxa à  lágrima fácil mas que mais que informar desinforma, deviam ter vergonha de chamar a este caso adopção, meus senhores isto não é uma adopção, o que mostraram na reportagem não tem nome, e a forma como expuseram a vida desta criança e da sua família biológica mostrando os lugares e as pessoas daquela forma, é uma enorme falta de respeito.

 

Já agora deveriam ter esclarecido que esta criança não veio para Portugal adoptada, terá vindo entregue em confiança judicial e que isto não tem nada a ver com adopção e vai passar muito tempo até que esta criança seja adoptada... se é que alguma vez o será.

 

Para quem estiver interessado a reportagem pode ser vista aqui

 

Jorge Soares

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publicado às 21:40

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7 comentários

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De DyDa/Flordeliz a 27.01.2015 às 03:16

Fiquei a pensar em ti ao ver a reportagem. Não me surpreendes. Pensei como tu. Não entendi a obsessão em querer uma criança à força. Porque se gostou? Porque se está ansioso?....porque se fez planos? Porque sim?! Também não compreendi porque não adoptar a criança de dois anos. É como ir ao mercado ? Escolhe-se o bem? Lágrimas contam ? O sofrimento de uns é maior que o de outros? Ou é a teimosia que é premiada? A criança tinha pais. A avó era contra . O pai ... Sabia lá o que queria? Podem chamar adopção. Quanto a mim foi rebelde teimosia. Quanto à reportagem , parece que o que conta é mostrar que lágrimas e persistência é o caminho mais curto. Gostei da opinião da senhora em Cabo Verde. No entanto, parece que de nada adiantou. Coisas... Que custam a entender.
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De Natalia a 27.01.2015 às 07:48

Foi com essa impressão que fiquei... mas eu não percebo nada dos processos em si... o que sei é o que leio por aqui...
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De mãe de coração a 27.01.2015 às 11:19

Confesso que ainda não vi a reportagem, mas depois de ver a apresentação da mesma, também não tive muita vontade de ver, pois pareceu-me uma "fantochada". Depois de ler o que escreveu Jorge, ainda estou mais convencida disso mesmo! ...Parece-me que é assim que se mantém os preconceitos.
Continuamos a falar sobre adopção pela perspectiva do coitadinho! Acho muito triste e muito desfasado da realidade!
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De golimix a 27.01.2015 às 11:30

Ainda não vi reportagem mas pelo que dizes parece-me que tratam crianças como objectos. Escolhe-se e cede-se.
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De Olívia a 27.01.2015 às 11:30

Em Portugal muitas vezes o jornalismo desce a níveis abaixo do aceitável... mas as audiências é que ditam as regras, fazem entrevistas sem se prepararem antes, não lêem a legislação e depois querem dar espectáculo fazendo reportagens dos coitadinhos...

Nós também colocámos a hipótese de um dia fazermos o pedido de uma adopção internacional no futuro (era suposto tentarmos adoptar uma menina chinesa) e em menos de uma manhã procurei todas as informações sobre como se faz, onde e a quem recorrer... eu, que nem sou investigadora nem nada consegui perceber bem de onde poderia adoptar, mais ou menos o valor que poderia vir a gastar em papeladas e viagens... até que descobri que Portugal não tem acordo com a China! Por isso quem quer fazer as coisas correctamente tem de saber como se fazem, esperar o tempo necessário e tratar de tudo conforme a lei, afinal se o futuro de uma criança é importante, o futuro dos nossos filhos ainda é mais!
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De Kok a 28.01.2015 às 14:27

Correndo o risco de ser injusto, tanto mais que não conheço as pessoas e, verdade seja dita, não me recordo de ter visto a reportagem, acho que a culpa é da Madona e da Angelina Jolie.
Não desmereço o que elas fizeram ao adoptarem as crianças que adoptaram; mas é porque sei (afinal sabemos todos), que nos próprios países há (centenas, milhares ou mais de) crianças que são tão merecedoras (esta palavra não é a melhor para se dizer neste contexto), como quaisquer outras e que, por razões que eu não entendo, são "deixadas" para trás.
Entendo que todas as crianças são dignas de serem acarinhadas, sendo adoptadas ou não. A questão é: quer a Madona, quer a Angelina precisavam de ir tão longe?
Se acaso feri a susceptilidade de alguém com este meu comentário, peço antecipadamente desculpa porque não é essa a minha intenção.
1 abraço pah.
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De Ana M a 09.03.2015 às 17:05

Caro Jorge, concordo completamente com o que disse. Achei uma falta de respeito paar com outros candidatos em lista de espera este tipo de "adoção". Não conheço as pessoas também não posso julgar as pessoas mas todo este processo foi uma fuga às regras de adoção em Portugal e Cabo Verde....

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