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Conto - A mãe que você será

por Jorge Soares, em 10.05.14

A mãe que você será

 

Para Denise, esta amada mãe moderna


Um filho sempre foi uma abstração em nossas vidas. Jamais um plano real, jamais esteve nos projetos futuros.


Era somente uma hipótese, um "e se...?"

Isto até você me dizer que estava pronta, que havia chegado a hora, que devíamos tentar.


Primeiro, pensei que fosse brincadeira, depois fiquei um pouco intimidado.


Uma criança em nossa vida completamente desregrada, sem rumo, sem paradeiro, sem rotina? Daria certo isto?


Mas como todas nossas demais decisões loucas, topei e nove meses depois estávamos com o nosso bebezinho nos braços.


E agora?

Somos só eu e você. Somente eu e você. Todos nossos parentes e amigos de verdade estão a milhares de quilômetros daqui, portanto, todas as responsabilidades estão sobre as nossas costas. Sem ninguém para nos dar uma forcinha, sem tréguas, sem apoio.


Mais do que exceção, penso que o nosso tipo de família está virando uma regra.


O nossa maior conselheira?


A internet.


"Como os pais viviam antigamente sem internet?", você me perguntou, uma vez.


Viviam das tradições, dos rituais que mães passavam para filhas, de crendices como "congestão", "não comer olhando no espelho" ou "não lavar o cabelo na quarentena". Aliás, muita gente ainda vive assim.


Você se tornou uma mãe moderna, que pesquisa cada escolha para nosso filho, que conscientemente planeja o que pensa ser o melhor para ele. Isto mesmo antes de ele nascer, quando estudou sobre os tipos de partos, hospitais e exigiu nada mais do que o melhor que houvesse disponível. E depois veio a luta para prosseguir na amamentação, os sacrifícios que você fez para o melhor do nosso bebê.


Também pesquisou sobre os alimentos e sobre os métodos para estimular melhor a criança, e apesar de ainda ter um tempo pela frente, já está também lendo sobre qual será a melhor educação para ele.


Compartilhamos das mesmas ideias radicais (ou revolucionárias!), então não sabemos se isto será bom ou ruim. Já nos mudamos para outro país e voltamos com o nosso bebê ainda de meses. Já viajamos com ele. Viajaremos muitas vezes mais. Não mudamos tanto a nossa rotina.


Esta é a mãe que você se tornou.


E talvez seja uma pequena amostra da mãe que se tornará.


Uma mãe que deseja que seu filho seja livre, ou melhor, que seja o que é.


E não é este o maior ato de amor possível, que o nosso filho cresça para se tornar o que tem de ser, e não apenas um espelho (ou uma frustração) do que nós somos?

Percebo que sua maior preocupação é a de criar nosso filho para o mundo, de que ele seja uma pessoa digna, que esteja preparado para esta selva que há aí fora.


Queremos fazer tantas coisas diferentes dos nossos pais e, justamente por isto, cometeremos outros erros. Que solução nos resta além de tentar e correr estes riscos? Optar pelo óbvio, pelo mais simples, pelo que todos fazem?


Mas aí não seria você. Não seria esta mãe moderna, que está sempre olhando para a frente, rumo ao futuro.


Você não é igual a mais ninguém, como esperar que fosse uma mãe igual às outras?

Só conheceremos o resultado de nossos atos daqui a muitos anos. Todavia, assim como na música que sempre a faz chorar, "o acaso vai nos proteger, enquanto eu andar distraído".


O acaso, este nosso imprevisível companheiro, continuará nos protegendo. E ele a protegerá sempre.

Nosso bebê ainda é muito pequeno para expressar gratidão, por isto, agradeço por ele. Sei que um dia ele saberá que teve a melhor mãe do mundo 

 

Henry Bugalho

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:10

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