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Conto - As Vitalinas

por Jorge Soares, em 06.02.16

vitalinas.jpg

Cícera acordou sobressaltada e agarrou o peito como quem segura um pássaro ferido. Marilda, deitada na cama ao lado, riu do desassossego da irmã e fingiu pouco interesse ao perguntar se havia sido o mesmo sonho. Sentando-se com dificuldade no gasto colchão de estopa, Cícera confirmou a suspeita fraterna com um aceno de cabeça. O pesadelo que perturbava suas poucas horas de sono havia se repetido.

         ― Ciça, um dia tu me conta que diacho de sonho é esse? ― quis saber a mais jovem das idosas, enquanto calçava as sandálias que mal enxergava com seus olhos miudinhos.

         ― Te preocupa com o manto da santa, Dindinha. Depois do café, vou preparar o altar. Pirru já chegou pra varrer a casa e passar o pano? ― perguntou incomodada, certa de que o rapaz que lhes ajudava nos afazeres domésticos havia se atrasado.

         ― Sei não ― respondeu Marilda esfregando as pernas. ― Acordei com teus bodejo. Anda, te sacode que o dia hoje vai ser comprido.

         Na pequena Cabo Amaro, todos conheciam e respeitavam as irmãs Alvarenga, últimas descentes de uma família que emprestava o nome à pracinha da cidade. Cícera e Marilda eram tão velhas quanto as lendas locais, amalgamavam-se ao folclore e causos transmitidos às novas gerações de contadores de história. Muito se falava sobre a natureza dócil e solteirice de ambas, mas poucos sabiam a verdade.

 

 

         A mais velha delas, Cícera, fora destinada ainda menor de idade a casar com um comerciante local, mas se apaixonou por outro homem, um boiadeiro dono da viola mais afinada das redondezas. Rapaz sem posses nem instrução ― porém fino no trato com as senhoritas ―, devotava suas melodias à jovem Marilda, irmã mais moça daquela que lhe dirigia sincero afeto.

         Coronel Alvarenga, pai das moças, jamais permitiria que uma de suas graças caísse nas mãos de um violeiro que nem sequer tinha um pé de pau para lhe fazer sombra. Depois de casar a primeira, desposaria a mais nova com Jesus Cristo. Nem mesmo seus filhos homens possuíam autonomia para contrair núpcias com aquelas que bem entendessem. Todos se dobravam à vontade do pai e torciam conformados pela melhor das sortes. Mas sorte é uma coisa que muito cedo as mulheres sertanejas descobrem que não existe.

 

         ― No dia do meu casamento com o Seu Quaresma do Depósito, tu aproveita pra fugir com o Barreto, Dindinha ― pediu Cícera com franqueza, segurando junto ao colo as mãos da irmã.

         ― Não posso, Ciça ― protestou Marilda deitando a cabeça nas pernas de sua única amiga e confidente. ― Eu num vou fugir com o homem que tu ama, criatura.

         ― Mas que só tem vista pra ti ― constatou Cícera com um sorriso e uma lágrima. ― Eu também vejo o jeito que tu olha pra ele, Marilda. Já faz tempo que vocês se enamoraro... Seu Quaresma já tá velho, talvez ele seja bom pra mim.

         ― Bom? Se ele fosse bom não fazia gosto nessa maldade. Mana, vamo jurar uma combinação? Tu não casa com o carrasco e nem eu com a Santa Igreja. Será pecado querer mais da vida do que um hábito, um marido ou a garupa do Barreto? Ele é bonito, tem duas estrela onde era pra ser os olho, mas só ia servir pra encher o bucho de uma de nós duas de menino. Se tu desfizer teu noivado, eu rejeito o capuz e o limpel. Sou devotada à minha fé, mas num quero ser freira.  

         ― Arra! Tu só pode ter comido pirão e tomado banho no açude. Papai bota nós pra fora de casa e deserda a gente. Já pensou?

         ― Que seja. Por essas banda, mulher já nasce mesmo sem nada. Quem tomaria conta da nossa herança seria outro homem, mesmo? Que serventia tem isso? Primeiro, a gente precisa ser alguém na vida, mana. Melhor fugir daqui, procurar um trabalho, se matricular numa escola. Essas coisa do amor pode ficar pra depois. Arriégua. Será que pra tudo nós há de necessitar de um macho? Tem que fugir com um pra escapar do outro? Galdino, Carlito e Bonifácio tão estudando pra ser doutor, enquanto a gente só estuda pra escrever carta e ler a bíblia. Quero fazer diferente dessas abestada daqui de Cabo Amaro, minha irmã. Vamo ganhar o lote, cair na estrada.

         ― Tu tá é doida, Marilda! ― exclamou Cícera com um brilho no olhar, encantada com o sonho sibilante que facilmente a seduziu.

         ― No jantar de sexta-feira, tu rejeita o Quaresma. E pode deixar que eu mesma trato de dispensar o padre Vivaldo ― concluiu Marilda, beijando a testa da irmã.

         Como haviam planejado, fizeram. O pai quis surrá-las, amaldiçoou-as, mas não as expulsou de casa. Manteve-as ali, sob o junco de sua brutalidade por todos os anos em que ainda se manteve sadio. A mãe nada dizia, não as acarinhava nem protegia, também envergonhada pela desfeita de ambas. Por anos foram impedidas de sair e, se o fizessem sem o consentimento paterno, os peões tinham autorização para arrastá-las pelos cabelos de volta à fazenda.

         O tempo passou e os velhos morreram. Os irmãos Alvarenga venderam a propriedade e retornaram à capital, onde já viviam há anos. Deixaram para as duas vitalinas ― assim as chamavam ― apenas a casa na Rua do Passo Largo. Ali viveram por todos os dias, uma em função da outra: Dois fantasmas cândidos que espiavam através da janela da sala o perambular sem destino dos vivos.

 

         ― Será que fizemo certo em convidar o pessoal do terreiro de Mãe Rainha pra participar da novena desse ano, Marilda? ― perguntou Cícera, receosa de que as carolas da região boicotassem o tradicional evento.

         ― Nossa paróquia tá sem padre pra se opor. Errado era deixar outra vez de fora do festejo gente que também é devota de Sant’Ana ― concluiu Marilda com um muxoxo.

― Ficou linda a manta que tu bordou, Dindinha. Não duvido que nossa protetora permita que tu alcance uma graça logo depois da procissão ― elogiou Cícera agarrando-se ao braço da irmã, enquanto admiravam as feições da estátua de gesso.

         ― Sei não. Faz tempo que peço a mesma coisa e a santinha não me atende ― falou Marilda com enfado.

         ― E que pedido tão impossível é esse? Tu ficou ambiciosa com a idade? ― brincou Cícera enquanto ajeitava a coroa na cabeça da imagem.

         ― Só conto se tu me disser primeiro que sonho é esse que te desgraça o sossego ― barganhou, mais preocupada que curiosa. ― A gente já tá muito velha. Daqui a pouco uma de nós morre. De repente eu tenho remédio pra tua aflição, não sei... Ande, me diga!

         Cícera agarrou os próprios braços como se uma dor a atravessasse. Não tinha mais jeito, não poderia levar aquele fantasma pavoroso para a sepultura.

         ― Toda noite eu sonho que papai vivo, Dindinha ― revelou Cícera com os olhos marejados. ― Que ele me faz casar com o Quaresma e que te manda pro convento. Nós duas nunca mais se encontra... Nunca mais!

         ­― Nosso pai tá morto e enterrado, Ciça. Essa graça Sant’ana já me concedeu faz tempo ― disse Marilda muito séria, abraçada à irmã. ― Venha, deixe de bestagem.

         ­― E teu pedido? Vai me dizer o que é, não? ­― cobrou Cícera, feito uma criança que não se esquece do prometido.

         Marilda passou uma das mãos pelo rosto irmão e, por trás dos sulcos e rugas, buscou enxergar o semblante da menina com a qual crescera.

         ­― Cicinha, tá com uma ruma de tempo que eu venho implorando pra santinha fazer tu parar de acordar com um susto. Mas acho que ela anda ocupada pras banda de Alagadiço Novo, onde ela tem uma capela, num sabe? Minha irmã, hoje nós vamo dividir a mesma cama. Vou vigiar teu sono, pra tu dormir em paz.

― E se papai aparecer? ― calculou Cícera com um arrepio.

Marilda então ajeitou os cabelos em um gesto impetuoso. Com as mãos postas sobre a cintura, lançou o queixo para trás e intimou:

― Nós uma sova nele, rouba o cavalo e a viola do Barreto e vai simbora de Cabo Amaro cantando uma moda bem animada.

 

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

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