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Conto - Da graça e naturalidade de ser veado

por Jorge Soares, em 04.07.15

veado.jpg

 

 

Acredito que poucas pessoas saibam como o substantivo “veado” tornou-se o desagradável adjetivo que comumente é utilizado para que certa leva de pessoas se refira a homossexuais masculinos, como se estes não possuíssem um nome de batismo. Bem, é sabido que gente preconceituosa e intolerante geralmente é desprovida de discernimento e quase não possui criatividade alguma, portanto, precisa recorrer à observação de seus limitados, enrijecidos e metódicos cotidianos a fim de edificar analogias capazes de realizar e projetar no mundo suas fobias sociais.

 

 É bem provável que o termo “veado”, quando empregado para se referir a homens gays, tenha sido utilizado pela primeira vez em alguma floresta europeia ou norte-americana, onde ainda hoje o animal em questão é caçado em grande escala. Fiemo-nos à hipótese de que um determinado caçador ― valendo-se de sua generosa e infinita estupidez ― estivesse em uma manhã qualquer de domingo a satisfazer suas sádicas taras mortuárias por meio da caça ao veado, o animal, não pelo valor de sua carne, mas pelo sabor do troféu. Digamos ainda que, durante a caçada, este homem de hábitos prosaicos, irredutível em sua colossal macheza, tenha conseguido se surpreender com uma cena extremamente corriqueira na natureza, quando os veados se encontram em época de reprodução: Os machos têm inúmeras, repetidas e vigorosas relações sexuais entre si. Isto acontece porque, no período dos cios, os veados machos produzem muito líquido seminal. E, como não são todos que conseguem acasalar, eles se livram do sêmen acumulado nos testículos montando uns sobre os outros, a fim de aliviar a carga de esperma. Acontece que, mesmo após o coito, muitos machos acabam criando laços afetivos e convivendo como um casal. Somando isso aos trejeitos delicados e graciosos do animal, o apelido foi vinculado à imagem do homem gay.

 

 Imagine quantos pensamentos devem ter passado na conservadora e e perversa mente de nosso viril caçador que, a fim de restabelecer a ordem natural das coisas, deve ter se especializado em caçar veados machos que praticassem sexo com outros de mesmo gênero. Quem sabe a prática tenha ganhado adeptos, deixado as florestas e chegado não só às pequenas e distantes cidades do interior, pois também os grandes centros ― que, pensava-se, eram povoados apenas por homens de mente aberta e pouco inclinados à caça predatória ― desenvolveram gosto pelo hediondo esporte.

 

 No meio deste processo de injustificável carnificina, o veado antropomorfizou-se, mas não adquiriu os direitos reservados a todos os seres humanos. Como seus colegas selvagens, o veado humano só pode existir até segunda ordem. Todavia, em desacordo com a regra que limita a matança dos veados quadrúpedes, para os bípedes não há temporada em que sua caça seja proibida. Quando não são assassinados à custa de armas ou espancamentos, abatem-nos com o gesto doloroso, com a palavra agressiva e contumaz.

 

Não somos veados. A palavra não nos agride, é um belo animal, mas não somos veados. Ninguém pode usar da mesma arbitrariedade sobre nossas vidas com a qual caçadores conduzem o covarde abate destes animais.

 

 Por todo o mundo, aquele que persegue e agride impiedosamente outro ser humano, muitas vezes é chamado de “animal”. Errado. Animais não matam por capricho, ignorância ou diversão. Tirar a vida de alguém ― ou privar uma pessoa de sua liberdade de ser ― é uma atitude essencialmente humana. Onde houver segregação, atrocidades, ou gestos de covardia, não se enganem, lá haverá não um animal, mas um homem. Seja ele veado ou não.

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

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