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Conto - Madrugada

por Jorge Soares, em 19.09.15

madrugada.jpg

 São três da madrugada. Ou falta pouco. O homem do barulho acabou de chegar aqui embaixo na rua. O som, parecido ao de um tambor, é o alerta. Quando ouvi pela primeira vez, meses atrás, acordei assustada. Algum ladrão tentando abrir os carros, com certeza. Não era. Tampouco um bicho virando latas. Um bicho, não. Um homem. Catando de madrugada os restos da lixeira que deveria estar trancada, mas não estava; nunca está. O som de tambor é da caixa de plástico que ele deixa cair no chão, já meio cheia de outros restos recolhidos ao longo da noite. Pelo canto da cortina, vejo uma barba grisalha e desgrenhada que emoldura o rosto redondo e azulado pela luz do poste. Ele não é maltrapilho. Usa roupas simples, mas não está rasgado ou sujo. Daqui de cima posso ver que está limpo. E que mantém o corpo ereto como o daqueles que se recusam a ceder. Ele tem a postura de quem já foi maior. Diferente de outros que já nascem afundados em si mesmos e que se deixam empurrar para baixo pelo destino, pela miséria, pelo desencanto. Não, não é preconceito. Não sou eu que os vejo diferentes, que os distingo. Eles são. Eu apenas os percebo. A uns o destino molda. A outros é a vida. A uns acontece de uma vez. A outros é aos poucos. Em todos a mesma fome. De comida e afeto. E uma submissão inevitável. 

 
Mas voltemos à janela. 
 
Há meses, quando me levantei com medo e olhei disfarçadamente por entre as lâminas da persiana, eu o reconheci. E o reconheço sempre. Sem nunca tê-lo visto. É um desses homens que escolhem as rotas seguras. Há indícios claros. O meu prédio não é alinhado à avenida; não está perto de nenhum comércio; não é construção de gente rica; não tem atrativos para quem cisca lixos. Por isso mesmo é seguro, caso a polícia apareça chamada por um morador medroso ou por um mais neurótico. Não. Maldade minha. Outra vez. Mas não é preconceito. É só verdade. Afinal, se não for por medo ou por cisma, que outro motivo leva alguém a chamar a polícia para um homem moreno, de meia-idade, barbas grisalhas e roupas simples, mas asseadas. Um homem que não grita, que não mendiga junto às janelas; que não rouba; que só subtrai alguns restos. Que se submete a andar pelas ruas enquanto todos dormem. Ou deveriam dormir. Um homem que só faz voltar, todas as madrugadas — meia hora a mais, meia hora a menos —, para o mesmo ritual. Para pôr no chão a caixa plástica que faz som de tambor. E abrir a porta da lixeira. E catar restos de comida. E separar objetos para os quais ainda se pode inventar serventia. 
 
Ele sai da lixeira. Agora, não joga, mas pousa com calma a caixa plástica no chão. Fecha a lixeira com cuidado, preocupando-se em não deixá-la entreaberta para ratos e morcegos. Só as baratas vão conseguir passar, porque as baratas se esgueiram mesmo por qualquer buraco. Retoma a caixa e afasta-se para o breu além-poste. Ao vê-lo de costas, se distanciando, dou-me conta de que seus ombros estão um pouco mais caídos do que na semana passada. Como eu disse, para uns é aos poucos. Em inevitável submissão.
 
Cinthia Kriemler
 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:42

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