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Conto - Pequenos Milagres

por Jorge Soares, em 01.02.14

Pequenos Milagres

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Mariana encolheu os ombros:

 

-  Não sei.

João encolheu os seus:

-  Eu também não.

 

Ficaram calados, os olhos fixos no horizonte de casas e carros, cada um deles perdido na sua imensidão de pensamentos.

 

-  Podemos falar com ele.

-  Para quê? Já falámos, ele nem ouve. Vai dizendo que sim, que sim e se lhe perguntares depois o que é que dissemos, ele não sabe responder. Nem ouve.

 

-  Mas não podemos ficar sem fazer nada, ele vai acabar por se matar…

-  Eu sei. Mas não sei o que fazer.

-  Pois, eu também não.

 

Calaram-se novamente.

 

-  E a mãe dele?

-  Morreu o ano passado, não te lembras? Já era velhota.

-  Caramba, ninguém devia ser filho único.

-  Isso não interessa nada, olha a Paula: 3 irmãos e não se falam há milénios, detestam-se. E há mais exemplos, tu sabes. Além disso, que poderiam fazer? Ele não ouve.

-  Pois, é verdade.

 

O silêncio, pesado de impotência, voltou.

 

-  Achas que se ele estivesse 2 semanas inteiras sem beber, curava-se?

-  Não sei… Mas ele não fica nem meia hora, quanto mais 2 semanas!

-  Olha, eu posso tirar 2 semanas de férias, tu também tens férias, não tens?

-  Tenho, acho que na próxima semana posso meter, mas qual é a tua ideia?

 

-  Vamos lá para cima, os três. Tu sabes, a casa daqueles amigos do meu pai, no inverno nunca está lá ninguém. Montamos guarda ao Nené, ele não vai beber nem um pingo por muito que insista. Que é que achas?

 

-  Não sei, Mariana… Ele até é capaz de ir com a gente mas chegando lá vai ser a chatice do costume!

-  Eu sei mas aí nem que a gente tenha de o amarrar, ele não vai beber nem um pingo. Achas que dá? Temos de fazer alguma coisa!

-  Não sei, tu já viste como é, até fica agressivo…

-  Eu sei. Mas tu és maior do que ele e se não for isso, fazemos o quê?

-  Não sei…

-  Sei eu. Vamos meter as férias e falamos com ele. Eu arranjo a casa com o meu pai e na próxima terça-feira estamos lá. E olha que não estava a brincar, João, vou levar corda e aqueles atilhos de plástico – nós vamos ter de dormir de vez em quando.

 

...

 

Quando viu o pai de Mariana, o rapaz reconheceu-o e encolheu-se. O senhor aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro:

 

-  Olha, a culpa não foi tua, está bem? Foi um acidente, um estúpido acidente. Quero que tu saibas que a culpa não foi tua, foi o camião que ficou sem travões e o condutor não conseguiu fazer nada, pobre diabo.

-  A Mariana?...

-  A Mariana morreu, Nené. O João também e o condutor do camião.

-  Todos...?

-  Sim, todos menos tu. E eu tinha de vir cá falar contigo, porque era preciso que tu soubesses que a culpa não foi tua, para não ficares para aí a pensar parvoíces e dar cabo da tua vida sem razão. A Mariana era muito tua amiga, devo-lhe isto.

 

O senhor passou-lhe a mão pela face, sorriu-lhe, virou-se e saiu do quarto com passos pesados de desgosto.

Anos e anos depois, o Nené ainda explicava nas reuniões dos AA como é que tinha sido recuperado para a vida em menos de cinco minutos pelo pai de Mariana.

 

MAC

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:06

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