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Conto - Schadenfreude

por Jorge Soares, em 15.11.14

pernas.jpg

 

 

– Óptimo, óptimo …  

 

As palavras enrolam-se-lhe, pastosas, sob o efeito do antidepressivo que tomou empurrado por um gole de vodka com sumo de laranja.

 

– Óptimo! – ainda repete.

Maria Teresa tinha acabado de dizer-lhe, e ele tem necessidade de expfressar contentamento mesmo sabendo que mente, mesmo perante ela que sabe. Ainda assim, afirma, a compor melhor o quadro:

 

– Estou tão contente, tão feliz por eles.

E despede-se.

 

Frederico Esteves a baloiçar o corpo magro de um lado ao outro da sala imensa que é o estúdio onde vive. O meu tugúrio, como diz, por graça.

 

Maria Teresa tinha sido directa. Nem boa tarde, nem olá xuxu como ela gosta de tratá-lo. Atirou certeira: é apenas para te dizer que acabei de casá-los. Assim, sem mais delongas, e ele naquele: óptimo, óptimo, tão amaricado que, mesmo pela voz, mesmo ao telefone, se juraria dos seus gostos em matéria de género. E no entanto, ele diz de si mesmo num maneirismo repleto de trejeitos: eu não me assumo bicha, que querem... E jura que gosta é de mulheres. E a dizer assim, ri como só ele sabe, a cabeça ligeiramente descaída para trás sobre o ombro esquerdo, e a mão do mesmo lado a tapar-lhe a boca que propositadamente escancara em demasia.

 

Com que então, José Pedro tinha mesmo casado.

 

Frederico Esteves a remoer no que acaba de saber, senta-se no sofá, as pernas esticadas em cima da caixa que um dia encontrou num contentor de lixo. Trouxe-a para casa numa noite de copos. Recuperou-a ele mesmo. Nela guarda as bebidas além do stock da dispensa. Hoje, faltou suco de laranja, mas é raro, e Frederico Esteves despeja no copo o que resta na garrafa.

 

– Pois que sejam felizes – diz assim em voz que outros ouviriam se ali estivessem, e simula um brinde erguendo o copo no braço esticado para o ar da sala.

 

Que aquele consórcio lhe seja fonte de penas sem medida, pensa Frederico Esteves, como praga que rogasse, mas afasta de si esse sentimento, e emborca o copo de um só gole, e volta a enchê-lo com Vodka ardente.

 

 ***

 

Maria Teresa fez o que ele tinha pedido: quando os casares, por favor, avisa-me. E ela telefonou-lhe.

 

Tinha sido numa outra noite, e tinham jantado. Frederico Esteves chorara-lhe as mágoas daquela paixão, e ela tinha-o aconselhado. Que não dramatizasse, dissera-lhe a notária do alto de uns sapatos muito altos e muito encarnados. Era o seu aniversário e, não estando reduzida à amizade de Frederico Esteves, não lhe tinha apetecido senão ele para comemorar. Gostava daquele seu modo de ser abichanado. Dava-lhe gozo percebe-lo sofrendo pelo lado errado. E com ela Frederico Esteves sofria todo o seu sofrimento sem ensaios nem segredos, que Maria Teresa tinha aquele modo especial de o fazer ficar cada vez mais sofrido, cada vez mais um homem sem rumo e sem sentido, pequenino, perdido de si mesmo, angustiado, e ela deleitava-se a ouvi-lo, e consolava-o exacerbando-lhe os desgostos.

 

Tinham-lhe dito que era sadismo, mas ela achava que era mais a raiva de não ter o pénis dele, de não poder usá-lo. E detestava-o. Que ele sofresse fazia-a sentir-se num quase orgasmo.

 

Fora assim na noite dos seus quarenta e cinco anos. Frederico Esteves sofrendo pelo amor imenso que José Pedro nutria por aquela criatura esquelética e inculta, assim dizia ele da que seria muito em breve a esposa do seu idolatrado. Maria Teresa apressara-se a dizer-lhe: vai casar, está confirmado. E ele chorara de baba e de ranho.

 

Maria Teresa apressara-se a contar-lhe, como se apressou, ainda há nada, a dizer-lhe que os tinha casado.

 

****

 

– Nunca perceberei tanto gastar de tinta, tanta discussão a interpretar o que só poderia ter sido de um modo.

 

É Frederico Esteves remoendo o artigo que acaba de ler numa página do jornal que tem desdobrado sobre a mesa.

 

Está sentado na esplanada do cafezinho onde, por um costume de anos, passa as manhãs de domingo. Uma esplanada arrumadinha que se debruça, lá de cima, sobre o rio. Frederico Esteves gosta de gracejar dizendo que fica ali na hora em que os amigos, os de infância e muitos dos que ainda lhe restam, ouvem missa em alguma igreja. E acrescenta, impertinente: eu faço a minha consagração com um café bem quente e torradas que lambuzo em doce de cereja. Mas não diz que esse é o seu local de leitura dos jornais semanais, que ele não lê outros, e quase só lê a secção literária. No resto, passa os olhos nos títulos, ou saltita-os pelas linhas de uma notícia ou outra.

 

– Mais um a insistir na versão do Bentinho traído – tartamudeia Frederico Esteves olhando o rio que o sol pintalga de reflexos inquietos.

 

Os articulistas e os estudiosos da obra de Machado, preferem que a culpa tenha sido de Capitolina. Preferem isso, a darem um sentido novo à trama urdida pelo matreirice de mestre Assis.

 

Frederico Esteves sorri-se a imaginar como poderia ter sido com Bentinho e Escobar, e vem-lhe à memória a notícia que Maria Teresa lhe deu nem há dois dias. E nisto vai virando as páginas dos jornais, a ler apenas as mais gordas.

 

E surgem-lhe letras diferentes. Cegam-no, aquelas letras enormes, muito negras. Saltam da folha a dizerem-lhe: acidente mata jornalista e sua jovem esposa. E os olhos de Frederico Esteves cegam-se de lágrimas que eles já se desviaram para a linha debaixo onde as letras gritam acima do ensurdecer que é o silêncio da esplanada: José Pedro Reis e sua esposa mortos num brutal acidente.

 

Frederico Esteves não lê os detalhes ou as pequeninas lhe diriam que o casal ia em viagem de núpcias.

 

Morto seu amantíssimo José Pedro, e no entanto, não é um soluço, e nem um  choro o que lhe está acontecendo. É sim um riso, uma gargalhada sem pejo e sem remorso. Um rir genuíno que condiz com um imenso bem estar, enquanto as lágrimas lhe correm cara abaixo.

 

Morreram os dois.

 

Não lhe resta a quem tenha que dizer, insincero e cínico: que sejam felizes, e aquele ardor no peito, e aquele despeito, e aquele horror de não ter sido com ele.

 

Gargalhadas sonoras tremeluzem-lhe o peito e a garganta, saem-lhe pela boca, e o senhor da mesa ao fundo volta-se perturbado e curioso do rapaz tão despudoradamente hilariante.

– Boas notícias?! – atira-lhe o homenzinho a tentar apaziguar tanta euforia.

 

Frederico Esteves pede desculpas embrulhadas em gestos mudos, e decide ir embora. Afasta a cadeira evitando o ruído que seria o metal a rojar na tijoleira da esplanada: quadrados verdes e brancos, nota ele a arrumar os pertences que tem espalhados pela mesa. Ri ainda, mas apenas no silêncio prudente do modo como coloca os olhos e a boca, e no modo como se desloca, que parece ele que nem sente os pés fazendo pressão para que ande, primeiro na esplanada que atravessa de uma ponta à outra, e alguns olham, de dentro da sua pasmaceira de domingo, aquele homem tão contente: terá tido uma boa notícia, parece que pensam. 


Frederico Esteves a tentar desfazer o desarranjo que possa ter causado na quietude que é suposta numa esplanada debruçada sobre o rio numa manhã de domingo. Atravessa o salão diminuto que é o cafezinho, e sai para a rua, os pés sempre naquele desatino de o fazerem ir voando, e o peito num indecoroso sentir-se com o coração leve.

 

Frederico Esteves num bem-estar que não podia ter previsto ao ler a notícia da morte de José Pedro. E aceita aquele sentimento como dádiva de algum céu que ele nem sequer venera. Nunca mais ter que os ver. Nunca mais ter que os cumprimentar. Não ter que repetir o ardor imenso do ciúme, ou a dor incisiva da inveja que o sufocava de cada vez que os via, de cada vez que os visse: José Pedro e a esposa no restaurante, no cinema, em casa dos amigos que ambos frequentariam.

 

 

E liga para Maria Teresa.

Palavras de desgosto, é o que dizem um ao outro, e que Maria Teresa lhe encomende uma coroa linda, pede Frederico Esteves. Que está destroçado, ia dizer-lhe, mas contem-se, e ela jura que serão as flores mais bonitas no cemitério, e que não desespere, que se precisar dela, a chame em qualquer momento.

 

Maria de Fátima

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:38

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