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Há quem consiga muito melhor que eu colocar por palavras muito do que eu penso, o texto abaixo é sobre o programa de ontem na RTP em que se falou de hiperactividade, de diagnósticos e de medicação, mas também é sobre a doença e os transtornos a ela associados  e quanto a mim, contribui e muito para desmistificar e esclarecer... usem 5 minutos para ler e reflectir.

 

O programa recentemente transmitido na RTP Cérebro meu – falsos diagnósticos de PHDA e os efeitos do metilfenidato – levanta uma séria de questões que não nos podem deixar indiferentes.

 

O diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção (PHDA) não pode ser tomado de forma leviana, pela primeira aparência. É uma regra de ouro da arte médica a importância da anamnese clínica cuidada e a recolha de informação de diferentes elementos, analisados de forma integrada.

 

No diagnóstico de PHDA, é essencial considerar outras causas de desatenção e hiperatividade, incluindo variações cognitivas e comportamentais aceitáveis para a idade, desadequação pedagógica, práticas educativas ineficazes, disfunção familiar, ansiedade, depressão, autismo, atraso no desenvolvimento, défice intelectual, disfunção familiar, perturbações da vinculação, entre outras. “Nem tudo o que mexe é PHDA” disse certa vez numa entrevista para um artigo, e é bem verdade. É um diagnóstico complexo, realizado com informação comportamental, eventualmente auxiliado por avaliação objetiva da atenção e de outras funções executivas em alguns casos.

 

Mas é importante esclarecer que não existe nenhuma evidência científica de que o doseamento de neurotransmissores nem outro tipo de análise química seja útil no diagnóstico da PHDA ou do Autismo. O problema dos neurotransmissores está no cérebro, não no sangue. Não é útil para confirmar e não é útil para excluir. A verdade científica demonstra-se, não se estabelece porque alguém diz da sua opinião ou experiência. É muito errado disseminar esta informação falsa que só pode beneficiar os laboratórios que fazem estas análises. As crianças não.

 

Num congresso recente sobre PHDA, que reuniu os maiores especialista e investigadores mundiais nesta área, ficou bem patente que a PHDA é uma situação muito heterogénea. As crianças que recebem este diagnóstico são muito diferentes e, provavelmente por isso, não foi possível ainda identificar nenhum teste químico útil para o diagnóstico. Os mecanismos podem ser bastante diferentes de criança para criança, embora as manifestações possam parecer semelhantes à superfície.

 

Os medicamentos que usamos para a PHDA são como todos os outros – são para usar apenas quando existe uma razão clínica, enquanto for necessário e se produzirem um efeito benéfico. Sim, podem ter efeitos secundários como todos os medicamentos, até mesmo os ditos “produtos naturais”. O tratamento tem de ser estabelecido por uma pessoa com experiência nesta área, com monitorização dos efeitos e reajustes ao longo do tempo.

 

Frequentemente, as crianças mais jovens não notam nenhum efeito da medicação, quem nota são os cuidadores. Mas é preciso que alguém note. Se ninguém nota efeito benéfico na altura suposta, não vale a pena continuar. Por outro lado, muitos efeitos secundários melhoraram com um ajustamento da dose, ou podem ser razão para suspender o medicamento.

 

O que é lamentável na peça jornalística, é a tentativa de  generalizar experiências pontuais negativas ignorando os milhares de crianças a quem a medicação ajuda de facto. A medicação tem ajudado a interromper muitas espirais negativas de baixo desempenho, má auto-estima, desmotivação escolar, depressão, envolvimento em comportamentos de risco, incluindo o risco de acidentes, consumo de substâncias, envolvimento em delinquência e exclusão social. Contudo, é importante realçar que a medicação não é tudo e não resolve tudo. A PHDA é um desafio que precisa de ser abraçado por todos: a criança, os pais, a escola, os médicos e psicólogos, a comunidade. Existem inúmeros ajustamentos que se podem fazer para além da medicação com potencial de melhorar a qualidade de vida destas crianças e das suas famílias – a  chamada intervenção multi-modal.

 

Outra ideia errada é que a PHDA foi inventada por Leon Eisenberg em 1969. Nem precisava, a PHDA sempre existiu e foram encontrados relatos médicos que descrevem muito bem estes sintomas pelo menos desde o século XVIII.

 

Em alguns países como EUA, pode existir um diagnostico excessivo de PHDA, com prevalências até 14%. A prevalência mais consensual é 5%, bastante conservada entre os continentes. Não existe uma epidemia de PHDA mas existe uma maior reconhecimento e uma pressão crescente sobre o desempenho que torna mais evidentes as dificuldades da PHDA, por vezes em idades mais tardias.

 

A sociedade da informação trouxe-nos muita informação útil mas também grandes desafios: distinguir o que tem fundamento, o que é fidedigno, o que é verdade, o que é generalizável, o que se aplica à nossa realidade e ao nosso caso. Nem tudo o que aparece no Google é verdade, alertava um jornalista nesta semana. Analise bem as suas fontes de informação sobre a PHDA, esclareça as suas dúvidas com os profissionais de saúde em quem confia e decida com liberdade, de forma verdadeiramente esclarecida.

 

FILIPE GLÓRIA SILVA

 

Retirado de Dormir e crescer

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publicado às 22:06

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