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Conto - Onde devem estar os gritos

por Jorge Soares, em 25.06.16

gritos.jpeg

 

 
Sempre guardou segredos. Aprendeu a ser silêncios desde pequena. A ser apenas gritos internos. Quantos anos tinha? Quatro, cinco? Memórias incertas. A babá se perfumando com os frascos caros da penteadeira da mãe. A babá ajeitando os ca- belos no espelho oval do corredor. A babá encostando a língua na língua do moço que entregava as compras. Aquele passear de mãos pelo corpo inteiro; por cima e por dentro do uniforme. Os apertões, os tapas. Gemidos de dor quase não gemidos. Entrecortados, semitonados. E o rosto contorcido, exausto. Coitadinha. Não gostava do moço que fazia a babá gemer. E estranhava aquela dor que não pedia socorro. Quis respostas. Perguntou. Arrependeu-se. Você quer que a babá vá embora? Quer? Você quer ver a babá chorar? Não queria. Calou-se. Descobriu que o nome desse não contar era segredo. E que calar era um jeito de não perder as pessoas. Gostou de ser segredos. Cresceu silêncios.
 
 
Além dos gemidos e gritos, aprendeu como escoar para dentro também os risos de deboche que recebia na escola. A limpar pacientemente a terra jogada nos cabelos longos pelas meninas no recreio. A encapar os livros duas vezes, para protegê-los melhor das poças d’água nas quais eram jogados uma, duas vezes por semana. Silêncios.
 
 
Quando ouviu as meninas falando sobre o príncipe encantado que chegaria no meio da noite para levá-las na garupa de um cavalo branco, pensou em lhes contar que não havia cavalo nenhum. Que o príncipe suado viria do quarto ao lado e se deitaria sobre elas e passearia as mãos sobre seu corpo e lhes cobriria a boca com a mão pesada, repetindo em seus ouvidos: minha princesinha, minha princesinha. Contar-lhes sobre a invasão negociada a promessas de brinquedos e viagens. Sobre a verdade impedida por manipulações traiçoeiras. Se mamãe souber vai ficar triste com você. Você quer que a mamãe vá embora? Quer fazer a mamãe chorar? Mas não disse nada. Ela guardava segredos.
Aprendeu como limpar o sangue escuro que saía do sexo pequeno sem gemer a agonia das feridas. As dores na barriga, os calafrios, a tontura. Tudo fluindo para dentro. Sem voz. Sem alarde. Até que os seios fartos e as ancas redondas lhe disseram que era tempo de basta. Criou coragem de mulher. Contou à mãe sobre as noites de princesa. Arrependeu-se. Mentirosa! Você quer que seu pai vá embora? Que ele me deixe sozinha? Quer? Você sempre teve ciúme do seu pai comigo. Cala essa boca e some daqui.
 
 
Descobriu que falar era um jeito de afastar as pessoas. As piores pessoas. Que falar tinha sabor de alívio. Transbordou. Vomitou segredos e silêncios. Jogou tudo para fora. Para fora, onde devem estar os gritos.
 
Cinthia Kriemler
 
Retirado de Samizdat
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publicado às 21:13

cartadiego.jpg

 Imagem de aqui

 

Diego tinha  11 anos, deixou um recado junto à varanda da que se atirou ao vazio, "Vão ver no Lucho". Lucho era o seu boneco preferido, nela estava guardada a seguinte carta de despedida:

 

"Pai, mãe, estes 11 anos que estive convosco foram muito bons e eu nunca vos vou esquecer.

 

Pai, tu ensinaste-me a ser uma boa pessoa e a cumprir o prometido, além disso, brincaste muito comigo.

 

Mãe, tu protegeste-me muito e levaste-me a muitos sítios.

 

Os dois são incríveis e juntos são os melhores pais do mundo

Tata, tu aguentaste muitas coisas por mim e o meu pai, estou-te muito agradecido e gosto muito de ti.

 

Avô, tu sempre foste generoso comigo e sempre te preocupaste. Gosto muito de ti.

 

Lolo, tu ajudaste-me muito com os trabalhos de casa e trataste-me bem. Desejo-te muita sorte para que possas ver a Eli.

 

Digo-vos isto porque não aguento mais ir ao colégio e não há outra maneira de deixar de ir. Por favor espero que algum dia possam odiar-me menos.

 

Peço à mãe e ao pai que não se separem, eu só serei feliz se estiverem juntos.

 

Vou sentir saudades vossas e espero que algum dia nos encontremos no céu. Bem, despeço-me para sempre

 

Assinado, Diego.. outra coisa, Tata, espero que encontre trabalho rapidamente.

 

Diego González"

 

Diego atirou-se do quinto andar em Outubro passado, a noticia surgiu agora porque apesar da carta não há justiça nem culpados pelo que sucedeu. Tal como tantas vezes acontece nestes casos, a escola e a sociedade em geral negam-se a aceitar as evidências, procuram-se outras respostas, outras causas, ninguém quer pôr o dedo na ferida e atacar o verdadeiro problema.

 

Para mim que tenho filhos é dificil ler esta carta e aceitar que estas coisas possam acontecer, todos lamentamos a morte do Diego e de todos os outros Diegos que há por aí, mas a verdade é que pouco ou nada fazemos para proteger as nossas crianças do medo e dos abusos.... 

 

O que aconteceu ao Diego tem um nome, chama-se Bullying e enquanto não fizermos nada, todos: pais, escola, sociedade somos culpados, porque todos tinhamos obrigação de proteger Diego e ninguém fez nada.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:32

Espera-nos um futuro violento?

por Jorge Soares, em 13.05.15

video_agressoes.jpg

 

Imagem de aqui

É curioso, foi há dois dias que por aqui se discutiu se colocar umas orelhas enormes a um concursante dos ídolos era bullying ou não, bom, hoje ficamos todos a saber o que é realmente bullying.

 

O vídeo apareceu-me no Facebook ontem à noite, confesso que não consegui ver mais que dois ou três minutos, tal foi a impressão que me causou. Tudo me fez impressão, a forma como o miúdo era agredido, a forma como todo o bando de energúmenos se ria da situação e sobretudo a forma como ante todo aquele ataque, ele simplesmente estava ali, a ser sovado daquela forma sem uma resposta, um grito, uma reacção.

 

Felizmente existem as redes sociais e em poucas horas não só todos tomamos consciência de que estas coisas podem acontecer, como graças à divulgação e à enorme proporção que o caso tomou, não só já foi apresentada queixa, como já foram identificados todos os agressores e (esperamos nós) será feita justiça, casos como estes não podem de forma alguma ficar impunes.

 

Como não podia deixar de ser, há quem ache que se está a violar os direitos dos agressores (alguns são menores de idade) ao divulgar o vídeo e as suas imagens, se calhar é verdade, mas também é verdade que foi graças a essa divulgação que em muito pouco tempo se conseguiu alertar as autoridades e identificar agredido e agressores.

 

Entretanto o que parece que tem impressionado mais as pessoas é olhar para o aspecto tão "normal" das agressoras, parece que as pessoas associam este tipo de violência a bairros e zonas degradadas, nada mais errado, estas coisas acontecem em todos os estratos sociais, a falta de educação, de civismo e de princípios não tem nada a ver com estratos sociais, este tipo de coisas tanto pode acontecer num qualquer subúrbio de uma grande cidade como nas escolas de classe média ou até nos colégios mais caros... temos é que estar atentos e actuar ao primeiro sinal.

 

A questão que se coloca, é: atendendo à juventude que estamos a criar, que futuro nos espera?

 

Jorge Soares

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publicado às 21:36

Praxe

 

Imagem de aqui 

 

Dos mais de 60 comentarios ao meu post sobre as 24 matriculas do Dux de Coimbra, ler aqui, gostava de destacar este da Dulce:

 

Estudei em Coimbra, Licenciatura, Mestrado, Doutoramento. Junto com vida pessoal somo 3 filhos, um divórcio, 2 casamentos, 5 mudanças de casa, a construção de habitação própria, etc., etc. e trabalho há mais de 20 anos. 

24 anos é muito tempo, tal como o Jorge diz.

Estudei em Coimbra sei do que o José Silva está a falar. É-se obrigado a beber sim, senão a humilhação ou outras punições sobem de tom. Há raparigas violadas na primeira noite em que vão a "jantares de curso" e são embebedadas por um "veterano" qualquer. Somos todos obrigados a obedecer aos mais velhos, a servi-los, a fazermos coisas que não queremos fazer. 

Ser apanhado numa trupe e rapado é uma humilhação. No dia seguinte aparece-se nas aulas com o corte de cabelo que deu para fazer depois do rapanço e as humilhações continuam. A ideia original de manter os caloiros em casa depois de determinadas horas há muito tempo que se perdeu, é uma farsa.

A própria Queima das Fitas é um exagero de alcool e comportamentos impróprios até para uma pessoa sem nenhuma formação, quanto mais para pessoas a finalizarem a sua licenciatura. Não sei como há tolerância a isto a que chamam praxe.

E o que se tem passado nos últimos anos é demasiado grave para agora se vir defender uma prática que é responsável pela morte de várias jovens.

A praxe é um bullying com supostas regras que há primeira cerveja são esquecidas.

 

Para encerrar o assunto e em jeito de conclusão, gostava de dizer o seguinte:

 

Se lermos com atenção os comentários aos meus posts e a todos os outros, podemos tirar as seguintes conclusões:

1 - Em Coimbra, e de resto um pouco por todo o país,  há dois tipos de praxes, as  regulamentadas e supostamente controladas, já lá vamos ao supostamente,  e todas as outras.

2 - Em ambos os casos o objectivo será o mesmo, a integração e o conhecimento da universidade.

3- Para a maioria das pessoas que defende as praxes, só o que acontece de acordo com o regulamento é praxe, os abusos não são praxe, são outra coisa qualquer que deve ser punido não pelas universidades, associações de estudantes ou comissões de praxe, mas pelo estado, é para isso que existem leis.

4 - Em Coimbra supostamente existe um regulamento de praxes que impede os abusos, e até a praxe depois das 23:30, regulamento esse que pelos vistos contempla e permite a existência de algo que se chama Trupe, que mais não é que um bando de energúmenos que durante a noite e valendo-se da superioridade numérica, atacam cobardemente os caloiros aos que cortam o cabelo em contra da vontade destes. Podem ler este artigo de opinião do Público onde alguém relata a coisa em primeira pessoa.

A mim custa-me a entender como depois dos exemplos deixados pela Dulce no comentário acima, pela Golimix neste post, e por tanta outra gente em reportagens de televisão ou nos jornais, ou em outros blogs, continue a existir quem defenda a praxe quase como se de uma questão de fé se tratasse. Está à vista que os regulamentos da UC e das outras faculdades não passam de meras figuras de estilos e a realidade é muito diferente daquilo que se pretende pintar.

Ontem ouvi o DUX da Escola Superior Agrária de Coimbra, de onde supostamente saiu a fotografia do  meu Post e que segundo alguns dos comentários será famosa pelas praxes violentas, dizer numa das televisões que lá não se passa nada, a praxe deles consiste em fazer os caloiros apanhar uvas... eles também tem um regulamento e não há abusos... 


Parece que para a maioria das faculdades o facto das coisas acontecerem fora dos muros da universidade funciona como uma forma de desresponsabilização, como se caloiros e demais alunos deixassem de ser estudantes ao sair da porta da faculdade... além disso, é suposto as praxes serem uma forma de integração na universidade.

Concluindo, há coisas que não tenho duvidas:

Chamem-lhe o que quiserem, o que aconteceu no Meco tem a ver com praxes

As praxes são uma forma de bullying sim e está visto que as universidades não sabem, não querem ou não conseguem lidar com o assunto, pelo que terá que ser alguma entidade externa a faze-lo, já seja regulamentando e fiscalizando ou simplesmente proibindo-as.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:39

Escola de Braga

 

 

Imagem do Público

 

"Nélson tinha 15 anos. Colocou termo à vida, enforcando-se num pinheiro próximo de casa, em Adaúfe, Braga, na noite do passado sábado. Eram 23.36 horas. Deixou duas cartas: aos pais e à namorada. O que o terá levado ao suicídio não é ainda claro"

 

Talvez porque vivi estas coisas em carne própria, talvez porque já senti que os meus filhos podiam estar a passar por isto, o bullying é algo ao que sou muito sensivel. Hoje ao ler no JN online o artigo sobre o suicídio de mais um jovem, não queria acreditar no que estava ali escrito.

 

Segundo os colegas do Nelson na sexta feira este foi despido ou obrigado a despir-se no recreio da escola,  li também algures que não era a primeira vez que este tipo de coisas lhe acontecia, mas Fausto Farinha, director do Agrupamento de Escola Sá de Miranda em Braga onde está integrada a EB 2/3 de Palmeira, desmente a existência de "bulliyng". Segundo o senhor isto são brincadeiras inocentes.

 

Brincadeira? Que tipo de pessoa é um director de escola que acha que alunos que despem outros e os deixam em cuecas no pátio da escola é uma simples brincadeira? Para este senhor isto não é Bullying,  que será necessário para que ele considere Bullying? Arrancar olhos? Deixar os colegas nus e cheios de penas de galinha? Violar um colega? Talvez matar?

 

É precisamente por termos à frente da escola pessoas com esta mentalidade que jovens como o Nelson se suicidam, que outros se negam a ir para a escola e que muitos outros crescem com medo, traumas  e vergonha.

 

É claro que agora ninguém quer assumir as suas responsabilidades, a escola não sabia de nada, as autoridades não sabiam de nada, como é que ninguém sabia de nada se há colegas que dizem que falaram do assunto com os professores? Como é que o padre da aldeia sabia o que se passava na escola e os responsáveis não sabem de nada?

 

Bullying são muitas coisas, há muitos tipos de violência e muitos jovens que sofrem todos os dias em silêncio, é responsabilidade das escolas e das autoridades estarem atentas ao assunto, se enterram a cabeça na areia e dizem que tudo não passa de brincadeiras, estão a ser cúmplices de quem maltrata.

 

Para mim o senhor que diz que o que fizeram ao Nelson foi só uma brincadeira, devia ser acusado de homicidio, será que o senhor tem consciência? Como é que nós pais podemos estar descansados quando entregamos a segurança dos nossos filhos a pessoas como estas?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:25

Hoje vou roubar as palavras e o título do post no Quinta da Ribeira

 

Fabian, o protagonista deste vídeo, vestiu uma roupa de urso carinhoso e foi para a rua tentar conseguir alguns abraços. O facto é que o Fabian, muitas das vezes que viaja de autocarro, tem o assento ao seu lado vazio. O vídeo foi feito pela ‘Pro Infirmis’ e tenta mostrar a verdadeira atitude das pessoas, perante as aparências.

 

Qual é o problema das pessoas? É preciso disfarce para aproximar as pessoas?

 

Veja o vídeo até ao fim... só assim entenderá!

 

 

 

O Vídeo fez-me recordar o Rafael, de que falei no post de segunda feira,  e os motivos que o fizeram terminar com a sua vida quando ela práticamente ainda nem tinha começado.

 

O Rafael morreu porque era diferente e porque o mundo à sua volta não soube aceitar e entender a sua diferença, quando me deparo com coisas destas fico sempre com um nó na garganta. Talvez porque também eu já senti o que é de um certo modo ser diferente, talvez porque tenho 3 filhos todos diferentes entre si e muito diferentes do mundo que os rodeia, talvez porque tenho consciência de que somos uma sociedade que não sabe respeitar as diferenças.

 

Olhamos para vídeo e no fim ficamos sempre com a dúvida, quantas daquelas pessoas seriam capazes de abraçar o Fabian se ele não tivesse o disfarce vestido? Quantos de nós o faríamos? Somos capazes de educar os nossos filhos para que o futuro da sociedade seja melhor e não sejam necessários disfarces?... atendendo à forma como o Rafael morreu, acho que não.

 

Qual é o problema das pessoas? É preciso  um disfarce para as aproximar?

 

Jorge Soares

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publicado às 21:18

E o bullying volta a atacar, morreu o Rafael

por Jorge Soares, em 24.10.11

Bullying infantil

Imagem de aqui

 

A noticia é do Correio da manhã, na versão online não merece mais que umas poucas palavras, as mesmas que são repetidas por um outro jornal online e diz o seguinte:

 

"Um menino de 10 anos era gozado na escola por causa das orelhas grandes e pôs termo à vida." 

 

Ontem a Teresa no Energia a mais esclarecia um pouco mais:

 

"...tinha dez anos, andava no quinto ano

 e para além de todas estas coincidências com o meu filhote, partilhava ainda a patologia - sofria também de PHDA....e dos «inevitáveis» problemas na escola....

 que ninguém soube resolver, que ninguém conseguiu contornar!"

 

Foi há pouco mais de um ano que todos ouvimos falar do Leandro, o menino de Mirandela que farto de ser gozado e agredido pelos colegas, um dia saiu da escola e deitou-se ao rio.

 

Ontem foi o Leandro, hoje foi o Rafael, amanhã pode ser um dos meus filhos, ou os filhos de outra pessoa qualquer e a sensação com que fico é que nada muda, não há responsabilidades, não há culpa, não há culpados.

 

A semana passada o meu filho que anda no quinto ano na Secundária do Bocage, o ciclo de Setúbal, contava que a meio do dia um grupo de adolescentes entrou na escola munido de paus e correntes com o intuito de agredir um dos alunos, passeou-se alegremente até que o encontrou e espancou de tal forma que teve que ser levado para o hospital.

 

Como é que um grupo de estranhos consegue entrar numa escola pública e agredir um aluno?, fácil, pela porta principal, a mesma por onde depois saíram.

 

Nós entregámos os nossos filhos na escola todos os dias, eles passam lá a maior parte do dia, mas na realidade estão entregues a quem? está a escola obrigada a cuidar da sua segurança e bem estar enquanto eles lá estão?, há alguém que seja responsável e a quem pedir contas pelas coisas que lá se passam? É a escola responsável por garantir a segurança dos nossos filhos? Alguém me sabe responder? Quantas crianças tem de morrer para que alguém encontre respostas para todas estas perguntas?

 

Este é o estado actual do nosso sistema educativo, em tempos havia algo chamado escola segura, não sei se efectivamente servia para algo, mas a verdade é que pelo menos víamos os carros parados na porta da escola. Há dois anos que vou buscar os meus filhos à porta da Bocage, não me lembro de por lá ter visto um policia.

 

Toda esta situação é deveras preocupante, porque a ideia que fica é que existe uma total impunidade por parte dos agressores e uma total desresponsabilização  por parte dos conselhos directivos das escolas e associações de pais..... desculpem lá, mas isto é assustador.

 

Update: Depois do comentário da DH investiguei melhor, o espancamento com paus e correias em Setúbal não foi dentro da escola, foi na porta da escola... não é muito diferente, porque se existisse vigilância nessa porta isto não acontecia...

 

Jorge Soares

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publicado às 22:40

Quando o bullying nos entra por casa

 

Há coisas na vida às que não há como dar a volta, já por aqui se falou de bulliyng, neste post eu falei de mim e de como tive que enfrentar a situação,  de como até hoje restam marcas desse tempo.

 

Durante muito tempo pensei como reagiria se um dia sentisse que o mesmo acontecia com os meus filhos e de como não deixaria que isso acontecesse... bom, a vida é cruel.

 

A R. sempre foi uma miúda alegre e bem disposta, é despassarada e e desorganizada, mas nunca tivemos problemas na escola e ainda há um mês atrás eu estive a falar com a directora de turma e ela confirmou tudo isso, mas também disse que é uma miúda que não dá problemas... Era,  nos últimos 15 dias tudo mudou de repente. A caderneta que raramente era utilizada passou a ter escritos quase diários e inclusivamente a directora de turma ligou para a mãe depois de uma actividade fora da escola que correu mesmo muito mal e com comportamentos inadmissíveis.

 

Fiz uma primeira tentativa de falar com ela que não deu em nada, inventou histórias e inclusivamente mentiu-me descaradamente, com a mãe abriu a alma. As reacções  dela tem a ver com a forma como é tratada pelos colegas. Mentiu-me porque não quer que eu intervenha, porque acha que isso só vai piorar as coisas...

 

Esta tem sido uma semana complicada para mim, ainda há dois minutos a P. me perguntava o que me anda a chatear...  na verdade não é só isto, mas também é isto... e eu sinto um formigueiro a mexer no estômago... tento manter a calma, tento deixar que a escola resolva o assunto... tento... mas não consigo deixar de pensar no assunto e na forma como há uns 30 anos eu o tive que resolver por mim....

 

É verdade que as coisas ainda não atingiram um nível de gravidade muito alto, mas o que sinto é que tem vindo a piorar e que se não colocamos um travão no assunto ....

 

Passamos tanto tempo a achar que estamos vacinados contra o mundo, a achar que porque estamos atentos, porque estamos em cima, porque nos preocupamos,  as coisas não acontecem...e afinal.... Espero realmente que as coisas se resolvam, que a escola saiba estar atenta, que saiba resolver... porque caso contrário... bem, nem quero pensar... mas uma coisa é certa.. eu não vou deixar que a vida marque os meus filhos com as mesmas marcas que me marcou a mim.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:38

 

Ontem ligaram para a Mãe da escola do menino a perguntar se o Bruno tinha ido para a escola com os dentes todos!!!! É só impressão minha ou parece que ainda estão a gozar??? Ontem uma menina deu-lhe um "estalo" que arrancou um dente ao Bruno. Eu chamo a isto um murro. O Tesourinho estáva todo cheio de sangue e por isso tiveram que chamar a Mãe.

 

Depois de se averiguar quem foi, a Mãe falou com a responsável da escola e iriam tomar as medidas necessárias. ...

 

...Hoje quando a Mãe o foi levar á escola, pediu para falar com a professora do menino para lhe explicar o que tinha sucedido ontem, pois já tiha sido quase ao fim do dia, e qual não foi o espanto que ela pura e simplesmente recusa-se a falar com os pais a não ser um assunto muito grave, ao qual a Mãe lhe disse que o Bruno estar a levar todos os dias dos meninos mais velhos não era grave o suficiente... Pelos vistos não... Não aceitou falar com a Mãe. Mas o pior ainda está para vir. Quando ela vinha embora, vai despedir-se do menino e a conversa entre eles foi assim:


-"A Mãmã vai embora Tesourinho. Porta bem."

-"Embora não Mãmã.... meninos batem."

-"Isso foi ontem filho. Hoje já não te vão bater."

-"Sim Mãmã. Murro."

 

E uma menina que lá estáva e viu tudo disse á Mãe que um outro menino do 3º ano passou e deu um murro no Bruno.

 

Pedi autorização para copiar e utilizar o post que podem ler no O Tesourinho, tive que ler e reler mais que uma vez, porque me custava a acreditar que algo assim fosse possível. Na reposta ao meu comentário, a mãe do Bruno diz que os outros miúdos não batem no Bruno por ele ter Trissomia 21, ou por ser de outra etnia..  se calhar é verdade, e também não devem bater por ele ser adoptado, mas é difícil esquecer que tudo isto é verdade.

 

No outro dia eu dizia num post em que falava do suicidio de um professor, que não são só as crianças que são vitimas de bullying, este também afecta funcionários e professores, mas se isto é verdade, o contrário também se aplica, se o bullying existe a responsabilidade também não é só das crianças que o praticam, também é da responsabilidade de funcionários e professores que não se podem simplesmente demitir das suas funções de educadores e fingir que não se passa nada.

 

Quanto a mim, a atitude desta professora é inqualificável, se uma agressão a uma criança que a deixa a sangrar e com medo de ficar na escola não é algo grave, então o que será? É verdade que cada dia é mais complicado ser professor, é verdade que as crianças são cada vez mais difíceis e que cada vez mais os pais se demitem do seu papel de educadores, mas também é verdade que atitudes como as desta professora que se nega a receber uma mãe cujo filho foi enviado para casa a sangrar, não contribuem em nada para melhorar a situação.

 

A responsabilidade por fazer com que as coisas não continuem assim tem de ser de todos nós, e não é olhando para o lado como quis fazer esta senhora, que as coisas vão melhorar, então e se um destes dias uma daquelas criança em lugar de agredir o Bruno, a agredir a ela?, Também vai achar que não é suficiente grave e vai ignorar o assunto? E se for ela a que termine a sangrar?

 

Este tipo de coisas não pode passar em branco, não pode mesmo.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:27

Bullying, a morte não pode ser a solução

por Jorge Soares, em 14.03.10

Violência nas escolas

 

 Professor vítima de bullying preferiu morrer a voltar ao 9º B

 

"Na véspera das aulas com aquela turma, Luís ficava nervoso. Isolava-se no quarto e desejava que o amanhã não chegasse. Não queria voltar a ouvir que era um "careca", um "gordo" ou um "cão". Não queria que o burburinho constante do 9.º B e as atitudes provocatórias de alguns alunos continuassem a fazê-lo sentir aquela angústia. O peso no peito. O sufocante nó na garganta. Luís não era um aluno. Tinha 51 anos e era professor de Música na Escola Básica 2.3 de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra. Era. Na semana antes do Carnaval, decidiu que não voltaria a ser enxovalhado. Pegou no carro e parou na Ponte 25 de Abril. Na manhã do dia 9 de Fevereiro, atirou-se ao rio."

 

Era assim que começava a noticia no público na passada sexta feira, definitivamente o Bullying é um tema que veio para ficar, mas esta noticia mostra-nos que a violência física e psicológica não atinge só as crianças, atinge também professores e restantes funcionários das escolas.

 

Mas há várias coisas neste caso que me deixaram perplexo, em primeiro lugar, segundo uma outra noticia do ionline o suicidio ocorreu a 9 de Fevereiro, mas só agora, após o caso virar noticia na comunicação social, o ministério da educação decidiu abrir um inquérito... isto quando era publico entre alunos e professores da escola que a situação era insustentável. O professor tinha feito pelo menos sete queixas à direcção da escola, queixas estas que não resultaram em nada... quer dizer, em nada não...  resultaram na morte de um professor.

 

Ainda voltando à noticia do publico, podemos ler o seguinte que foi dito por um dos alunos da turma em questão:

 

"Portava-me sempre mal, mas não era por ser ele. Somos assim em todas as aulas, é da idade", reconheceu um dos alunos que tiveram mais participações por indisciplina.

 

Da idade? desculpa?... da falta de educação, que não há idade que desculpe uma coisa destas, e depois foi caricato ouvir alguns dos pais das criancinhas, indignados porque eles é que eram as vitimas....

 

Definitivamente há algo de muito errado na nossa sociedade, não há nada que justifique a indisciplina e a falta de respeito nas aulas, assim como não há nada que justifique a violência sobre os colegas. Há sim uma enorme falta de educação e uma enorme irresponsabilidade por parte de pais que não vêem ou não querem ver que estão a criar uma geração que não respeita nada nem ninguém...  

 

Há uns tempos, neste post, escrevi uma frase que alguém retirou e que foi colocada em alguns blogs de professores, começo a perceber porquê, foi esta:

 

Hoje eles não respeitam os professores

porque já não respeitam os pais

e amanhã não vão respeitar ninguém.

 

Acho que está na altura de nós, como pais, como responsáveis pela educação de toda uma geração, comecemos a pensar o que estamos a fazer de errado, porque não tenham dúvida, a culpa é nossa, não é de mais ninguém. E chegou a altura de fazermos algo, porque a morte,  esta ou a do Leandro, não pode ser a solução.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:03

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