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Adopção, ao cuidado de todos os candidatos

por Jorge Soares, em 22.05.13

Filhos

 

A propósito do post de há dois dias em que se falava da devolução de crianças, a Ana (muito obrigado) em resposta àquela mãe, deixou o seguinte comentário:


Em 2009 chegaram os meus filhos, também pela via da adopção, na altura o meu filho tinha apenas 5,5 anos e a minha filha tinha 2 anos. O meu filho com apenas 5,5 anos, bateu-me a mim, a todas as professoras que encontrou pelo caminho durante os 6 meses seguintes, pintou o cão da escola, bateu em quase todos os colegas da escola, arrancou inúmeros cabelos ás professoras, arrancou-me cabelos a mim, partiu coisas em casa, disse várias vezes que queria era estar na instituição, que lá é que tinha os amigos/as dele, etc.etc . Podia contar muito mais, mas acho que estes exemplos chegam. Desistir do meu filho nunca! Ele era mau por fazer isto e não gostava de nós? Não!


O meu filho é e sempre foi um doce, ama-nos acima de tudo, lembra-se da outra mãe? Claro que sim, falamos disso sempre que ele precisa, mas eu sei que ele me ama muito e não é porque o diz mas porque eu o sinto. Ele fazia todas aquelas coisas para nos testar, para nos levar até aos limites, para ver se também esta nova família o iria deixar novamente a ele e á irmã.

Cara Madalena, não corrigimos estes comportamentos dando todos os presentes que o meu filho queria, corrigimos aplicando regras desde o primeiro dia, aplicando castigos quer na escola quer em casa sempre que necessário, foi um primeiro ano de intensa luta entre nós, a escola e ele.

Quantas vezes me apetecia abraça-lo e tinha que o castigar? Quantas vezes lhe disse que fizesse o que fizesse mal, nós agora éramos sempre a família dele e gostávamos sempre dele e ele tinha que acreditar nisso. Não lhe consigo dizer quantas vezes foram, mas uma coisa posso garantir que não passa em 3, 4 ou 6 meses! Levou um ano ou mais até que o meu filho melhorasse radicalmente o seu comportamento!

Hoje (passaram apenas 4 anos), não temos uma queixa da escola, todos os dias ele tem que nos dizer que nos ama, que todo o coração dele é meu, que tem o melhor pai do mundo, que não se vai casar porque quer viver sempre nesta casa com os pais….(até já brincamos com ele, que se não sair para a casa dele até aos 30 anos saímos nós!!!!!!)

Cara Madalena, nós não temos que pagar sessões de psicoterapia para que os nossos filhos gostem de nós, temos que pagar um pedopsiquiatra para ajudar os nossos filhos a lidarem com o sofrimento deles e também para nos ajudarem a nós. Estas crianças, os meus filhos e as suas filhas o que mais querem é ter a certeza que vocês (nós) vão estar sempre aí para as apoiarem e amarem.

Agora deixo esta pergunta no ar : e se eu, durante os 6 meses do período de pré adopção tivesse desistido dos meus filhos? Acredite que também foi terrível! Nunca tal nos passou pela cabeça mas se tivesse acontecido, hoje não teria ao meu lado os Melhores Filhos do Mundo, com todas as preocupações que já nos deram e que sabemos que ainda vão dar! E o que teria sido dos meus Filhos com o peso de mais uma família a desistir deles?

Peço desculpa Jorge, por ocupar o seu espaço desta forma, mas não ficava bem comigo mesma se não apelasse à Madalena que deve procurar ajuda, existem pedopsiquiatras maravilhosos, mas não desista de amar estas duas crianças!


Ana

 

Um texto para reflectir,  um texto que deveriam ler todos os candidatos à adopção e todas as pessoas que alguma vez pensaram em adoptar, é claro que nem todos os casos são assim, mas acreditem em mim, não há casos fáceis. E não, adoptar bebés não minimiza os problemas, nós adoptamos um bebé com um ano e basta procurar neste blog a palavra hiperactividade para se perceber como nada é  fácil, mas não há a mínima dúvida, o amor pode sempre mais que qualquer tipo de problema.

 

Ana, não tem que pedir desculpa, eu é que agradeço as suas palavras.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:15

Adopção: de novo as crianças devolvidas

por Jorge Soares, em 20.05.13

adopção

 

Alguém me deixou o seguinte comentário neste post do Nós adoptamos


"Aprecio que tenha corrido tudo bem ao autor do blog, no entanto comigo não se passou assim...
Recebi dois irmãos de braços abertos para quem preparei tudo e dediquei muito tempo da minha vida á espera.

No entanto um dos irmãos (menina de 9 anos), cujo passado não era dos melhores e eu até já sabia, pois tinha suspeitas de abusos sexuais por parte dos pais), revelo-se se ainda pior.
Com o tempo soube que a menina não só tinha sido abusada pelo pai mas também pelo tio, ( com a indiferença dos pais), pois também soube que a sua irmã mais velha que vivia com a avó era filha do avô.

Isto tudo descobri á posteriorí, pois quando me foi apresentado o processo só me disseram que havia suspeitas, (no entanto estava tudo nos registos do tribunal que mais tarde tive acesso).
Acontece que a menina que esteve numa instituição cercade dois anos não teve qualquer apoio psicológico e que a sua preparação para a nova família foi apenas a psicóloga dizer-lhe que não precisava gostar dos pais novos tinha só de pensar que ia receber muitas prendas.

Escusado será dizer que a menina nunca gostou de nós e que desde que entrou na nossa casa só pedia que lhe dessemos tudo e fazia exigências tendo tornado-se até um bocadinho mal educada e pedindo coisas com alguma soberba.

Pois a resposta da segurança social foi que tinhamos que colocar a menina em apoio psicológico e psicoterapia.

Agora pergunto-me, sabendo a instituição de tudo isto e recebendo os subsidios do estado que como sabemos não são poucos, não deveria ter sido esta a colocar a criança em psicoterapia.... será legitimo pedir aos candidatos em pré-adoção que se querem ter uma menina que goste deles terão de lhe pagar sessões de psicoterapia...

Digo-lhe que estou prestes a devolver a menina pois esta de dia para dia vai estando pior, e como não lhe damos a prendas prometidas pela psicologa da instituição cada dia nos trata pior e como seus criados. ainda não a devolvemos só por causa da irmã mais nova que se adaptou bem a nós e que está muito bem integrada, e que sabemos que iremos perder se entregar-mos a mais velha.... e neste caso a culpa é de quêm? dos pais que esperam pelo menos uma criança que os trate bem e que não parta televisões de propósito e depois ainda se ria?

Será que as nossas instituições estão a funcionar devidamente ou só se interessam mesmo com os subsidios não se preocupando nada com as crianças que albergam nem as avaliando devidamente nem preparando para ter uma familia?

Antes de descriminar-mos quem devolve crianças deveremos pensar mesmo nas razões..... e não nos podemos esquecer que também existem crianças crueis e algo más."


Deixe lá ver se eu percebi:

Se tivesse sabido dos abusos sexuais não tinha aceite a criança, é isso? Ou seja, para a criança o facto de ter passado por uma experiência traumática como essa, torna-se um castigo, um motivo para ser retirada à família e um motivo para não voltar a ter família, é isso?

É evidente que também acho que a criança deveria ter sido acompanhada durante a institucionalização, mas isso não pode ser motivo nem para não ser adoptada nem para ser devolvida.

Repare, é de uma criança de 9 anos que estamos a falar, a senhora é uma adulta não é ela que tem que se esforçar para lhe agradar, é a senhora que se tem que esforçar para a conseguir cativar.

Não podemos exigir a uma criança de 9 anos que sofreu de maus tratos e abandono que não tenha problemas, nós adultos é que temos que aprender a amar essa criança apesar dos seus problemas.

Diz que a menina nunca gostou de si, e a senhora, dispôs-se a gostar dela apesar dos problemas?

Eu tenho dois filhos que estão a entrar na adolescência, naquela fase em que se acham donos do mundo e da verdade, há dias em que perco a paciência e já não sei que fazer, um é adoptado e hiperactivo, a outra é biológica e cheia de personalidade, há dias em que me sinto mesmo farto, em que também acho que eles são uns mal agradecidos e que não dão valor à família e ao esforço que fazemos por eles, acha que também os devo devolver?

Eu já disse isto e volto a dizer, não há motivo nenhum para se devolver uma criança, e quando isso acontece a culpa NUNCA é da criança, é sempre de quem a devolve e  da equipa da segurança social que a entregou a quem não devia

Devolver uma criança é desistir de ser pai, é abandonar de novo e maltratar alguém que já foi abandonado e/ou maltratado, é dizer à criança que ela não serve para ser amada... e não há criança nenhuma que não mereça ser amada, há é pessoas que não sabem amar.

Eu sei que todos nós sonhamos com ter os filhos perfeitos, sei que muita gente que se propõe a adoptar idealiza os filhos perfeitos, amorosos e agradecidos porque alguém os aceitou, mas sabe uma coisa?, isso não existe.

 

Não há crianças perfeitas, e não as há entre as adoptadas ou entre as biológicas, cada criança é uma criança e cada caso é um caso, mas os adultos somos nós..e somos nós que temos que aprender a viver com os nossos filhos.

Se quer o filho perfeito, o melhor é desistir de tentar ter filhos

Jorge Soares

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publicado às 22:55

Adopção crianças devolvidas

Imagem de aqui

 

"Ele é muito dócil mas há outra face, ele não queria saber da escola!"

 

Juro que me vieram as lágrimas aos olhos, como é possível?..estou para aqui a tentar verbalizar o que me vai por dentro e não consigo, como é que é possível?, como é que esta senhora tem a lata de vir dizer uma coisas destas para a televisão?  Mudava de roupa todos os dias..e isso é defeito?, teve 3 negativas num período... e isso é motivo para se abandonar uma criança ao fim de cinco meses e meio do período de pré-adopção?

 

Supostamente a imbecil, desculpem mas hoje não vou estar com meias palavras e não me ocorre nenhuma outra forma de me referir a ela, tem dois filhos biológicos, será que eram ambos perfeitos?, tiveram sempre boas notas, nunca se portaram mal, nunca fizeram uma asneira? Nunca os devolveu porquê? Porquê escolheu uma criança que já tinha sido abandonada antes, que viveu uma grande parte da sua vida na expectativa de encontrar uma família,  para a voltar a abandonar e a fazer sofrer?

 

Gostava sinceramente de falar com as assistentes sociais que fizeram a avaliação do processo, gostava de saber como foi avaliada esta senhora, porque entregam uma criança a alguém que está à espera que esta seja perfeita. Não faço ideia da história de vida da criança, mas não é difícil de entender que não terá tido uma vida fácil, como pode alguém estar à espera que ela seja perfeita?..existem as crianças perfeitas?

 

Eu sempre disse que adoptar é um acto de egoísmo, ninguém adopta por querer ajudar as criancinhas, todos adoptamos porque queremos ter filhos, mas um filho não se escolhe, e não se escolhe quando é biológico como não se escolhe quando é adoptado, um filho é uma davida que se recebe de braços abertos e se aprende a amar, com virtudes e defeitos.

 

Entretanto alguém deixou o seguinte comentário na noticia da TVI:

 

"Esta criança no dia em que deixou a instituição para ir com esta família irradiava alegria, felicidade, e sempre o ouvi dizer que queria ser adoptado. Sou voluntária nesta instituição e esta criança já tinha laços com esta família antes de lhe ser entregue."

 

Ainda por cima eles já conheciam a criança desde antes, coisa que não acontece na maioria dos casos, como é que há gente tão anormal que consegue destruir assim os sonhos de uma criança?

 

O mais grave é que estas coisas passam impunes, como dizia a Susana há pouco no Facebook, se alguém abandona um filho biológico é recriminado e  criminalizado, esta gente abandona as crianças desta forma e não só não é responsabilizado, como continua na lista de adopção e há quem lhes entregue outras crianças.

 

Vídeo com a noticia da TVI aqui

 
Jorge Soares
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publicado às 22:13

em Portugal Não se devolvem crianças adoptadas

Imagem de aqui

 

Talvez vocês se cansem de ler, mas eu não me canso de repetir, pelo menos enquanto alguma coisa não mudar na forma como são dadas as noticias neste país, vou repetir algo que já escrevi várias vezes, pode ser que por força de tanto me repetir alguém interiorize: 

 

Em Portugal não há devolução de crianças adoptadas, é um erro que vemos muitas vezes repetido já seja na imprensa escrita ou na falada. Depois de decretada a adopção não há diferença nenhuma entre um filho biológico e um adoptado, a devolução de um filho tem outro nome, chama-se abandono e existem leis contra isso. O que efectivamente acontece algumas vezes, 10 vezes durante o ano 2010, em 2009 foram 16, é a entrega das crianças durante o período de pré adopção por parte dos candidatos a pais.

 

Hoje a noticia é da RTP e fala da devolução de uma criança de 12 anos, porque alegadamente seria esquizófrénica e teria problemas mentais, não faço ideia qual será a formação do senhor que aparece na reportagem, mas mesmo que seja médico, não estou a ver como conseguiu diagnosticar estas doenças durante o curto periodo de um fim de semana. Para ser sincero, não gostei nada nem da noticia nem da forma em que ela foi apresentada, e muito menos das desculpas do senhor.

 

Acreditem, para nós pais adoptivos, há poucas coisas que nos choquem mais que este tipo de casos, não há desculpa nenhuma para que alguém tome uma atitude destas, e a culpa pode ser de muita gente, mas nunca é da criança.

 

Mas o que leva à devolução de uma criança?... de novo vou repetir-me, uma adopção é um processo em que de um dia para o outro nos entra pela casa dentro um estranho, e nós nem sempre temos capacidade de gostar de imediato dos estranhos que vamos conhecendo, ora, se este estranho fica a viver em nossa casa... e se ainda por cima este estranho é uma criança que já passou por situações de vida em que foi maltratado, violentado, abandonado.. o mais certo é que não seja o filho ideal que a maioria das pessoas sonhou. E do meu ponto de vista esse é o maior problema, as pessoas idealizam os filhos, criam uma imagem do filho perfeito que vai chegar ávido de amor e carinho e vai receber os pais de braços abertos.... meus amigos, isso não existe.

 

O primeiro que faz uma criança adoptada é testar os limites dos novos pais, esticam a corda ao máximo e quanto mais corda damos, mais eles esticam, faz parte do processo normal. Até se sentirem seguros, até concluírem que a ligação é mesmo definitiva eles fazem trinta por uma linha.. com o tempo acalmam... mas entretanto mais de um pai que deveria ser babado, já entrou em desespero. Depois há que recordar que estamos a falar de crianças que vêm de instituições, crianças que a maior parte das vezes estão habituadas a viver com regras que não tem nada a ver com a vida familiar.. se a isto juntarmos a pouca auto-estima que tem alguém que já foi abandonado... temos uma mistura muitas vezes explosiva...e nem sempre estamos preparados para isto.

 

Quanto a este caso especifico, acho muito estranho que tanto a instituição como a segurança social tenham de alguma forma tentado esconder a situação médica da criança. Estamos a falar de uma criança de 12 anos que estava institucionalizada desde os seis, tempo mais que suficiente para que se diagnostique correctamente uma doença como a que foi referida pelo senhor.

 

Quer-me parecer que a criança não terá gostado de ser adoptada e encontrou uma forma de fugir para a frente, depois uma coisa levou à outra e  tudo isto levou a criança a ser abandonada de novo... sim, porque para mim isto não passa de uma forma de abandono, quem devolve uma criança está a abandonar essa criança à sua sorte.

 

É claro que no meio de tudo isto não há inocentes... e ouvir que uma só instituição teve desde Agosto até agora 4 devoluções de crianças, leva-me a pensar que algo de errado se estará a passar, ou com a instituição ou com as equipas de adopção que com ela trabalham. E claro, haveria que perguntar quem serão os responsáveis de que a criança tenha estado seis anos institucionalizada, seis anos é muito tempo, tempo demais desde qualquer pespectiva

 

 

 

Jorge Soares

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publicado às 21:35

Adoptar é dar e receber

Foi há pouco na RTP no programa Mudar de Vida, a jornalista Rosário Salgueiro foi ver por dentro como é a vida num centro de acolhimento, um programa muito bem feito que abordou os vários problemas do acolhimento e das crianças institucionalizadas.

 

Chamou-me a atenção uma parte em que falam de duas crianças, dois irmãos, que após 3 meses com uma família que as iría adoptar, são devolvidas à instituição.  Quando ouvi a assistente social do centro de acolhimento falar da falta de química senti-me triste, química? como pode uma relação entre país e filhos basear-se na química ou na falta dela?

 

Há algo que sempre digo a quem me questiona, o mais importante na adopção é não criarmos expectativas, as crianças nunca são como as imaginamos, cada caso é uma caso e cada criança diferente da outra. A grande maioria das crianças que vão para a adopção tem histórias de vida complicadas, mesmo as que foram abandonadas à nascença mais tarde ou mais cedo vão sentir esse abandono e vão reagir à sua maneira.

 

Há crianças com histórias de vida terriveis que depois de adoptadas passam a ser crianças completamente normais, bons estudantes e excelentes filhos, há outras que são adoptadas ainda bebés e que vivem toda a vida com o estigma do abandono, não nos podemos esquecer que na maioria destes casos elas foram abandonadas muito antes do nascimento e isso deixa marcas de muitos tipos.

 

O pior que pode acontecer a quem quer adoptar ou a quem simplesmente tem filhos, é ter expectativas, os filhos perfeitos não existem, e não são eles que se tem que adaptar às nossas expectativas, somos nós que nos temos que adaptar à sua realidade....Eles não são os coitadinhos que estão na instituição à espera que alguém os vá buscar, são seres humanos com personalidade e vontades próprias e não é por de repente passarem a ter uns pais e uma casa que as vão mudar de um dia para o outro.

 

Já aqui disse muitas vezes, não há desculpa nenhuma para que alguém devolva crianças, adoptar não é simplesmente receber crianças em casa é estender a mão e esperar que alguém a receba, não é comprar amor e vender carinho é construir pontes.

 

Adoptar é ser perseverante e é sobretudo ser-se  suficientemente humilde e paciente para dar tempo ao tempo.. não há clics, há amor e paciência. De repente um dia entra-nos um estranho pela casa dentro e descobrimos que veio para ficar, há casos em que se forma uma ligação imediata, há outros casos em que é necessário muito tempo e paciência para que as coisas funcionem e para que pais e crianças se adaptem... os laços não se impõem, constroim-se ..de parte a parte. 

 

Química, clic, expectativas.. são só palavras .... na verdade só há uma coisa que conta, a nossa capacidade de aceitarmos os nossos filhos como eles são e de os amarmos.

 

Jorge Soares

 

PS: Pena que a RTP não coloque logo online os programas, quando estiver disponivel coloco aqui o link

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publicado às 21:42

 


Criança triste, os filhos não se devolvem

Imagem da internet

 

Antes de mais um esclarecimento para todos os leitores e que a maioria dos jornalistas deveria ler, em Portugal não há devolução de crianças adoptadas, é um erro que vemos muitas vezes repetido já seja na imprensa escrita ou na falada. Depois de decretada a adopção não há diferença nenhuma entre um filho biológico e um adoptado, a devolução de um filho tem outro nome, abandono. O que efectivamente acontece algumas vezes, 16 vezes durante o ano 2009, é a entrega das crianças durante o período de pré adopção por parte dos candidatos a pais.

 

Mas o que me levou a falar deste assunto, foi esta noticia do IonlineNorte-americana devolve filho adoptado à Rússia, uma noticia que para os nossos princípios é chocante mas que à luz da realidade americana é algo comum, tão comum que em nenhuma das noticias sobre o assunto ouvimos falar de penalizações para a senhora. A cultura americana é muito diferente da nossa e mesmo nas séries americanas que vemos por cá, é muito comum ouvirmos falar da história de vida dos criminosos e da passagem por várias casas de acolhimento e de adopção.. é mesmo assim..e é evidente que não é muito difícil perceber um dos motivos que leva estas pessoas ao crime e à violência.

 

Mas estas coisas também acontecem em Portugal, esta noticia no DN fala do caso da casal que devolveu a criança porque não se dava com o cão, que será o motivo que mais nos choca, quer dizer....  qualquer noticia que fale de uma devolução de uma criança é uma noticia chocante. As crianças não são objectos, não se compram na mercearia da esquina e assim como não vêm com livro de instruções, não se devolvem. Nos últimos 10 anos conheci muitos pais e candidatos e muitas crianças adoptadas, tive conhecimento de uma devolução.. Um casal que recebeu dois irmãos e que passados dois ou três dias os devolveu.

 

Acreditem, para nós pais adoptivos, há poucas coisas que nos choquem mais..e na altura todos tivemos que engolir muitos sapos para não dizermos o que nos ia na alma.

 

Mas o que leva à devolução de uma criança?... há algo que eu costumo repetir muitas vezes, uma adopção é um processo em que de um dia para o outro nos entra pela casa dentro um estranho, e nós nem sempre temos capacidade de gostar de imediato dos estranhos que vamos conhecendo, ora, se este estranho fica a viver em nossa casa... e se ainda por cima este estranho é uma criança que já passou por situações de vida em que foi maltratado, violentado, abandonado.. o mais certo é que não seja o filho ideal que a maioria das pessoas sonhou. E do meu ponto de vista esse é o maior problema, as pessoas idealizam os filhos, criam uma imagem do filho perfeito que vai chegar ávido de amor e carinho e vai receber os pais de braços abertos.... meus amigos, isso não existe.

 

O primeiro que faz uma criança adoptada é testar os limites dos novos pais, esticam a corda ao máximo e quanto mais corda damos, mais eles esticam, faz parte do processo normal. Até se sentirem seguros, até concluírem que a ligação é mesmo definitiva eles fazem trinta por uma linha.. com o tempo acalmam... mas entretanto mais de um pai que deveria ser babado, já entrou em desespero. Depois há que recordar que estamos a falar de crianças que vêm de instituições, crianças que a maior parte das vezes estão habituadas a viver com regras que não tem nada a ver com a vida familiar.. se a isto juntarmos a pouca auto-estima que tem alguém que já foi abandonado... temos uma mistura muitas vezes explosiva...e nem sempre estamos preparados para isto.

 

Mas a culpa vai mais além, muitas vezes as crianças não são preparadas devidamente para a nova situação de vida, há bem pouco tempo vimos uma reportagem na televisão, em que explicavam o caso de uma criança que foi levada a conhecer os supostos novos pais sem que nunca lhe tivessem falado do assunto antes, é claro que a criança rejeitou a adopção. Muitas das instituições não tem equipas técnicas capazes de preparar as crianças para a adopção, muitas destas instituições não acham que a adopção possa ser a solução .. portanto não é estranho que a responsável da segurança social de Lisboa tenha dito no encontro nacional de adopção que sabem perfeitamente se as coisas vão ser mais fáceis ou mais difíceis .. porque depende da instituição. E claro, há muita culpa em quem avalia crianças e candidatos, porque é difícil de acreditar que não se detecte nas entrevistas do processo de avaliação dos candidatos que a pessoa está a idealizar.. ou que o cão é mais importante que o filho que aí vem.

 

Muito mais haveria a dizer.. mas o post já vai longo.. só mais um detalhe, adoptar não é ir ao supermercado e escolher... adoptar é querer ter um filho e dar amor ... logo, FILIPA AMBRÓSIO DE SOUSA do DN, o titulo da noticia até pode servir para vender jornais, mas além de infeliz, é triste.. as crianças não se devolvem... porque os filhos não se devolvem... e é dos nossos filhos que estamos a falar

 

Jorge Soares



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publicado às 21:26

Adopção:Crianças devolvidas, porquê?

por Jorge Soares, em 13.04.09

 

Adopção de crianças
 
Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi falar de crianças devolvidas por pais adoptivos, mas como devem imaginar é um assunto que me choca, se já é mau que uma criança seja abandonada, imaginem o que sentirá quando é abandonada uma segunda vez.  É difícil sequer imaginar o que possa sentir uma criança que por vezes está anos à espera, uma criança que muitas vezes anseia por uns pais que lhe dêem amor e carinho e que quando finalmente acha que os encontrou, é posta de lado como se de um brinquedo defeituoso se tratasse, conseguem imaginar o que se possa sentir?
 
Já ouvi umas 4 ou 5 histórias de devoluções de crianças, ontem um dos jornais falava de um casal que devolveu uma criança porque ela não se conseguiu entender com o cão da família. Acreditem ou não, este não foi o caso que mais me chocou. O caso de devolução que mais me chocou foi um em que o motivo para a devolução era... que a criança era carinhosa demais. A candidata a mãe (ia dizer mãe, mas há pessoas que não merecem esse nome) dizia que a criança se tinha apegado demais a ela, que só queria beijinhos e abraços e que nem no centro comercial desgrudava. Quando me contaram isto eu simplesmente não consegui acreditar.... 
 
Segundo  o mesmo jornal, no últimos 4 anos 80 crianças foram devolvidas aos centros de acolhimento, há uns meses o número era de 70, agora passou para 80, não faço ideia de onde tiraram a informação, mas eu entendo que mais que o número, o que interessa aqui é  perceber o que falhou, sim, porque é muito fácil deitar as culpas para quem devolve a criança, mas falta o resto, e o resto está evidentemente em quem avaliou e aprovou essas pessoas como candidatos a adoptar.
 
Os processos de adopção demoram pelo menos 6 meses, é necessário responder a questionários com muitas e complicadas questões, são necessárias entrevistas sociais e psicológicas.... o que falha?
 
Do meu ponto de vista falham muitas coisas, evidentemente que em primeiro lugar falham os candidatos, para a adopção é necessário ir com o coração, há muita gente que só vai para a adopção em ultimo recurso, quando já esgotaram todos os restantes recursos, pessoas que sonham e anseiam com um bebé, sangue do seu sangue...e que depois quando recebem uma criança que de bebé já não tem nada, quando lhes entra pela casa dentro um estranho com vontade própria e que muitas vezes tem uma historia de vida que não se recomenda a ninguém, simplesmente concluem que não são capazes.
 
Mas será que estas situações não deveriam ser detectadas pelas equipas de avaliação? Do meu ponto de vista é claro que sim, se a maioria dos processos até leva mais que os seis meses de lei, porque é que estas coisas acontecem, como é que uma psicóloga não detecta algo estranho numa mãe que depois devolve uma criança porque é carinhosa demais? 
 
Este é um tema muito complicado, mas termino como comecei, no meio de tudo isto quem sofre são as crianças, ser abandonado uma vez, ser colocado num centro de acolhimento onde muitas vezes não se passa de mais um numero, ser esquecido pela família e pelo estado e quando finalmente se pensa que se encontrou uma vida...ser abandonado de novo como se de uma peça defeituosa se tratasse..deve ser algo que marca para toda a vida...e nenhuma criança deveria ter de passar por isso.
 
Adoptar uma criança não é fácil, não tem nada a ver com passar-se 9 meses a ver crescer uma barriga, pensar nos nomes que iremos escolher, ver as fotografias das eco grafias, sonhar com a cor dos olhos, adoptar não é nada disso. Adoptar é receber nos nossos braços um ser humano que existe, um ser humano que já viveu e que muitas vezes tem opinião e maus hábitos. Adoptar  é receber em nossa casa um estranho que não nos diz nada e que de um dia para o outro veio para ficar.
 
A maioria dos candidatos cria expectativas, sonha com esse filho que tanto deseja, idealiza pessoas e situações, acreditem em mim, a probabilidade de que as coisas sejam como as idealizaram.. é muito pequena... mesmo muito pequena... e na maior parte dos casos, não é nada fácil, porque não podemos esquecer que estamos a falar de crianças que já foram marcadas pela vida muito antes de nos conhecerem. Por isso, adoptar tem que vir do coração.
 
Jorge
 
 

 

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publicado às 22:06

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