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Pode a escola educar para a pontualidade?

por Jorge Soares, em 20.09.16

Pontualidade (1).jpg

 

Imagem de aqui

 

Já aqui falei sobre a pontualidade ou a falta dela, foi neste post, hoje vou voltar ao assunto, porque ele foi tema na reunião de pais do inicio do ano na escola da R:

 

Há episódios que nos marcam, andava eu no segundo ano da faculdade no IST e tinha uma cadeira chamada Medida da Integração, era uma coisa super teórica em que se falava de teoria dos números e de muitas outras coisas super abstractas da matemática. O professor era o Manuel Ricou, trabalhava numa multinacional e dava aquela cadeira  às oito da manhã, era sempre super pontual.

 

Um dia, deviam ser oito e quinze quando entram dois alunos atrasados, ele interrompeu a aula e virando-se para eles disse:

 

-Desculpem lá, para eu poder estar aqui às  oito da manhã em ponto, os meus filhos tem que se levantar às seis e meia de modo a que eu os possa deixar na escola, se eles se podem levantar a essa hora para eu estar aqui a horas, vocês pelo menos deviam ter a decência de chegar a horas, façam favor de sair e não voltem a chegar atrasados.

 

A semana passada na reunião com a directora de turma da R., fomos informados que o liceu de Setúbal alterou o regulamento interno, acabaram-se os 10 minutos de tolerância e as faltas por atraso, a partir de agora após cinco minutos as portas das salas são encerradas e quem não tiver entrado já não entra. E os alunos ficam inclusivamente proibidos de andar pelos corredores após  este tempo.

 

Confesso, não pude deixar de sorrir ao ouvir isto, a professora reparou e ficou a olhar para mim... alguns dos pais pediram esclarecimentos mas o assunto foi pacifico. No dia a seguir fiquei a saber pelo Facebook que houve turmas em que os pais que não acharam piada nenhuma e inclusivamente exigiram que ficasse a sua reclamação em acta.

 

Pessoalmente não posso estar mais de acordo com esta medida, que melhor lugar que uma escola para ensinar aos jovens a importância da pontualidade?

 

Imagino que os pais que estão contra são os mesmos que chegam sempre pelo menos 15 minutos atrasados às reuniões de turma, à hora em que devia iniciar-se a reunião, numa turma de 23 alunos,  estávamos: a professora, eu e uma mãe. A reunião começou 15 minutos depois da hora marcada e houve muita gente que chegou depois disso.

 

É claro que quem não consegue ser pontual dificilmente consegue transmitir a ideia aos seus filhos, e quando o exemplo não vem de casa ... 

 

Custa-me entender que os pais sejam contra uma medida destas, se a importância da pontualidade não se ensina em casa e não queremos que seja ensinada na escola, então queremos o quê? Alguma coisa se tem que fazer porque a verdade é que cada vez mais este país é um atraso de vida com tanta gente a chegar sempre atrasada..

 

Jorge Soares

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publicado às 23:33

assunção cristas.jpg

 

"De que adianta falar de motivos?

Às vezes basta um só,

às vezes nem juntando todos"

José Saramago

 

"faz sentido olhar para estes critérios" - usados para definir os contratos de associação - "e decidir se, nalguns casos, não deve ser a escola privada ou do setor cooperativo a ser sacrificada, mas deve ser a escola pública que, claramente, não [deve] abrir mais uma turma"

 

Desde ontem que anda a circular um vídeo da manifestação do fim de semana em que um grupo de meninos usa um slogan singular : "Cá não há misturas é tudo boa gente""  Pois é, não há misturas, e aqui reside um dos principais problemas dos contratos de associação, não há misturas e não há os mesmos direitos para todos... os luxos e privilégios são só para alguns, só os filhos de boa gente, escolhidos a dedo e de preferência bons alunos, não há colégio fino que se preze que não queira  ficar bem naquela aberração que se chama ranking das escolas.

 

Assunção Cristas veio agora defender que se é para sacrificar que se sacrifique a escola pública.  Assunção Cristas esteve no governo uma legislatura inteira, o mesmo governo que fechou centenas de escolas pelo país todo e que de uma penada decidiu terminar com o programa de reabilitação e acondicionamento de escolas que tinha transitado dos governos anteriores.

 

Bom ou mau, a verdade é que foi graças a esse programa que centenas de escolas viram as suas condições melhorarem, infelizmente, como esse programa foi simplesmente cancelado pelo governo anterior, existem muitas outras centenas onde tudo está por fazer.

 

Agora percebemos porquê, para que gastar dinheiro em escolas onde cabem todos? Pobres, ricos, brancos, negros, ciganos, emigrantes, refugiados, se esse dinheiro é necessário para manter abertos e com todos os luxos os colégios onde vão os meninos bons e onde não há misturas?

 

Eu não tenho nada contra os colégios privados, acho que quem tem possibilidades pode e deve escolher o tipo de educação que quer dar aos seus filhos, felizmente somos um país livre e democrático, se as pessoas acham que o melhor é um colégio privado e o podem pagar, estão no seu direito. 

 

O que eu não percebo mesmo é porque tem que ser o governo a pagar a existência desses colégios quando o dinheiro pode e deve ser aplicado em melhorar a qualidade do ensino público, aquele onde felizmente há misturas e onde devem caber todos, até  mesmo os que não são filhos de boa gente.... porque as crianças não conseguem escolher os pais que lhes cabem em sorte.

 

Há milhares de empresas privadas em Portugal, são elas que dão emprego aos portugueses e garantem o funcionamento da  economia, essas empresas, pelo menos a maioria, sobrevivem com o que produzem e não estão à espera de que seja o estado com os impostos de todos nós, a financiar os seu funcionamento, porque é que os colégios finos hão de ser diferentes de outra empresa qualquer?

 

Jorge Soares

 

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publicado às 23:25

A escola pública e o direito a escolher.

por Jorge Soares, em 09.05.16

escolas.jpg

 

Imagem de aqui 

 

Tenho três filhos, dois estão na escola pública, um está numa escola privada porque não "há" lugar para ele na pública. Já tivemos experiências boas e más com a escola pública e com as privadas e posso dizer que sei do que falo.

 

Há pouco no telejornal um grupo de pessoas ia entregar cartas ao primeiro ministro, cartas a pedir a manutenção dos contratos de associação entre o ministério de educação e as escolas privadas. Entre as pessoas que foram entrevistadas duas ou três diziam que o governo lhes tem que garantir o direito a escolher o tipo de educação que elas querem dar aos filhos.... para ser sincero não percebi onde lhes foi retirado esse direito, mas já lá vamos.

 

As pessoas não percebem que a questão não é essa, não tem nada a ver com direitos de escolha, tem sim a ver com todos termos direito a uma educação digna, de excelência e igual para todos, e não,  não é de certeza este modelo de financiamento que estas pessoas tanto defendem, que garante esse direito.

 

Há uns dias o meu filho participou num jogo de basket contra o Estoril Baket, esta equipa joga no Pavilhão da Escola Salesiana de Manique. Um pavilhão com todas as condições, bastante melhor que o pavilhão municipal de Setúbal, ao lado do pavilhão havia uma piscina coberta, do outro lado havia um campo de futebol relvado e uma pista de atletismo sintética. O resto das instalações da escola estavam ao mesmo nível.

 

Acontece que a Escola Salesiana de Manique é uma das escolas com contrato de associação e é uma das escolas a que aqueles pais, que não sabem ou não querem saber mas que na realidade são uns privilegiados, se acham com direito a escolher.

 

Mas qual é a realidade do resto do país?

 

A equipa de basket onde joga o meu filho utiliza, por especial favor da câmara municipal,  para treinos e jogos o pavilhão de uma das escolas de Setúbal, basicamente são quatro paredes, um telhado  e pouco mais.

 

A minha filha mais velha está no Liceu de Setúbal, no inicio do ano escolar uma parte do telhado pavilhão caiu, como não há dinheiro para a reparação,  nos dias de chuva não há educação física, nos dias em que não chove as aulas são ao ar livre, esteja frio ou calor.

 

É claro que todos os pais que fomos ver o jogo a Manique estávamos de acordo, aquela era a escola ideal para os nossos filhos, o problema é que não há uma escola daquelas com contrato de associação em Setúbal e para quem cá mora já é uma sorte se conseguir escolher a escola pública onde colocar os seus filhos.

 

Aqueles pais que iam entregar cartas ao primeiro ministro acham que  o estado lhes deve garantir o direito a escolher o tipo de educação que querem para os seus filhos, eu concordo, a eles e a todos nós. O problema é que antes de se chegar a esse ponto, há muitas outras coisas para resolver e garantir. Por exemplo, garantir que há dinheiro para reparar o pavilhão do liceu de Setúbal para que os alunos possam ter todas as aulas de educação física a que tem direito.

 

Em lugar de gastar milhões a financiar escolas privadas de luxo, o estado deve garantir que existam escolas públicas com condições mínimas. Qual é a lógica de se fazerem contratos de associação com escolas privadas em cidades onde há ensino público suficiente?

 

A maneira do estado garantir uma educação pública eficiente e igual para todos não é financiando escolas privadas de luxo, é usando o dinheiro para melhorar o ensino público.

 

Já me esquecia,  evidentemente todo o mundo tem direito a escolher entre as publicas e as privadas, basta que se disponha a pagar, que foi o que eu fiz quando percebi que na pública neste momento não "há" lugar para o meu filho e que a resposta era nas privadas..

 

Jorge Soares

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publicado às 23:29

Racista

 

Imagem de aqui

 

Ninguém nasce racista, são os adultos que ensinam isso

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publicado às 22:50

Pontualidade (1).jpg

 

Imagem de aqui

 

Por vezes dou por mim a pensar que nasci no país errado, sou sempre o primeiro a chegar a qualquer reunião de trabalho, chego sempre pelo menos 10 minutos antes a qualquer consulta, quando vou de viagem e para desespero da minha meia laranja, chego sempre duas horas antes ao aeroporto.... mesmo que o voo seja de madrugada.

 

Chego sempre cedo a qualquer jantar de amigos ou a qualquer encontro seja pessoal ou profissional, estou sempre em qualquer sitio a horas.

 

Quando vou de carro a qualquer sitio pela primeira vez tenho sempre o cuidado de na véspera, ir ao google maps para ver não só o percurso como os arredores, não vá ser que seja num beco perdido e/ou não haja onde estacionar. É claro que por norma sou o único que faz isso, e depois os outros tem sempre a desculpa que não conseguiam encontrar o sitio e por isso chegaram atrasados... É claro que sair de casa com tempo para os imponderáveis também ajudava...mas quem se preocupa com isso?

 

Tudo isto resulta sempre em que:

 

1 - Como chego antes e os outros chegam sempre atrasados, seja o que for começa atrasado, tenho sempre que esperar muito tempo.

 

2 - A minha família odeia a minha pontualidade, já seja porque estou sempre a apressar todo o mundo para sair, ou porque depois a espera no destino é sempre uma seca... ou ambas as coisas.

 

Já me perguntei mais que uma vez porque sou assim, não consigo explicar e se há coisa que me custa mesmo muito, é que apesar de todos os meus esforços, não consigo educar os meus filhos para que sejam assim... Não sei se haverá um gene para a pontualidade ou não, mas se há, a minha filha mais velha definitivamente não o herdou.

 

Educar os filhos é uma ciência complexa, pela amostra cá de casa, educar adolescentes para a pontualidade e os horários é uma missão impossível, eu já tentei tudo, desde os gritos até sair porta fora sem eles, para nada, porque na vez seguinte volta tudo a acontecer.

 

Está visto que não é uma questão de educação, se fosse eu já tinha conseguido a bem ou a mal.

 

A falta de pontualidade é mesmo um problema da cultura portuguesa, lembro-me de estar no último ano da faculdade e ter assistido a uma palestra de dois dias com um senhor que veio especialmente da Alemanha patra o efeito... a seguir aos intervalos por norma à  hora marcada estávamos sempre presentes eu e ele, o resto, professores incluídos, ia aparecendo com um sorriso amarelo e pedidos de desculpa entre dentes.

 

No encerramento o senhor não evitou um comentário sarcástico sobre a pontualidade portuguesa, que imagem terá ele levado da nossa forma de trabalhar?

 

E que dizer das pessoas que vão a entrevistas para empregos e chegam atrasados como já vi acontecer muitas vezes? Já para não falar nos casos  vergonhosos dos médicos que para além de levarem uma fortuna pelas consultas, numa clara falta de respeito pelos doentes marcam sempre mais consultas que aquelas que podem fazer e depois estão horas atrasados.

 

Depois queixamos-nos que este país é um atraso de alma, pudera, se ninguém chega a horas para nada como pode o país andar certo?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:14

Para que servem os rankings de escolas?

por Jorge Soares, em 15.12.15

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A noticia do fim de semana  foi a saída dos rankings das escolas, ranking que como é costume e normal, é dominado pelos mais finos e mais caros colégios de Lisboa e Porto, sendo que é necessário descer até ao lugar 23 para encontrar a primeira escola pública.

 

Tenho 3 filhos, já todos andaram na escola pública e na privada, apesar de algumas coisas que já aqui fui contando, ver a tag educação, tenho a melhor das impressões da escola pública  e uma não tão boa opinião de alguns colégios que fui conhecendo.

 

Dito isto, em primeiro lugar não percebo para que servem os rankings, não sei qual o seu objectivo nem qual a finalidade para que foram criados.

 

Não percebo como pode existir um ranking que junta na mesma lista colégios privados das zonas finas das grandes cidades em que os alunos chegam de chofer,  com escolas publicas que ficam em concelhos rurais onde por vezes os alunos para estarem a horas nas aulas saem de casa antes do sol nascer e chegam depois do sol posto

 

Como é que se pode ter no mesmo ranking e avaliar da mesma forma, os alunos dos melhores e mais caros colégios do país com escolas inseridas em bairros sociais?

 

Não é segredo nenhum que para chegar ao topo dos rankings os colégios escolhem a dedo os seus alunos, há colégios onde se fazem exames de admissão  e outros onde quem não tem o aproveitamento e a atitude "certas" é  de uma forma ou outra "convidado" a mudar de ares. 

 

Os exames nacionais tornaram-se  num excelente negocio para as editoras, os colégios, os ATL's , centros de explicações e  milhares de explicadores. Em nome dos rankings todo o mundo lucra... bom, todos menos os alunos e os pais. Os primeiros porque em ano de exame nacional deixam de ter vida para terem treino intensivo para o exame, em ano de exame é certo e sabido que o tempo livre passa a ser para explicações e preparação  para o mesmo... tudo isto evidentemente pago à parte, mesmo que seja dentro do colégio e no fim contribua para o ranking e correspondente boa publicidade de quem fica no topo da lista,

 

Tudo somado os rankings não passam de uma enorme mentira que avaliam não os verdadeiros conhecimentos mas a capacidade de ensinar a resolver exames e comparam realidades que dificilmente são comparáveis. A verdade é que apesar de estarem inseridos no mesmo sistema de educação, as escolas, os alunos e os pais não tem acesso às mesmas ferramentas portanto dificilmente podem ter os mesmos resultados.

 

Jorge Soares

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publicado às 23:16

escola.jpg

 

Imagem retirada de Petição Pública

 

Há uns dias Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), veio para a comunicação social defender que tal como os adultos, as crianças deveriam ter onze meses de aulas e um mês de férias... 

 

Hoje deparei-me com a existência de uma petição online (aqui) em que "Pais e cidadãos" se manifestam contra a proposta da CONFAP.

 

Demais está dizer que nem tanto ao mar nem tanto à terra, fiquei curioso e fui ler (aqui) o que na realidade disse o senhor da CONFAP, depois de ler, não sei se discordo assim tanto dele.

 

É claro que se nos ficarmos pelos títulos das noticias, todos somos contra termos as crianças na escola durante onze meses, se nos dermos ao trabalho de ler com alguma atenção, o que verificamos é que o senhor na realidade não pede mais tempo de aulas, pede sim, melhor tempo de escola, ou se quisermos, uma forma diferente de se estar na escola.... convenhamos que é difícil estar contra essa ideia.

 

Tenho três filhos em idade escolar, a maior parte do tempo o que sinto é que hoje em dia para os nossos filhos a escola está convertida numa corrida de obstáculos em que muitas vezes se luta contra o tempo e quase nunca se conseguem atingir todos os objectivos.

 

Os programas são cada vez mais extensos e exigentes e a maioria das crianças divide o seu tempo entre a escola, os ATL e os locais de apoio ao estudo, para onde são despejados mal saem das aulas, sendo que o tempo para brincar e ser criança é cada vez menos e de menos qualidade.

 

Quando eu era criança, já choveu muito e muitas coisas mudaram desde essa altura, tinha aulas de manhã, ia e vinha a pé  para e da escola, a minha mãe estava em casa e  tratava do almoço, eu fazia os trabalhos de casa e  tinha o resto do dia para mim e para os amigos. Hoje em dia os meus filhos saem de casa às oito da manhã, pouco depois de mim e voltam quando eu ou a mãe os vamos buscar depois dos empregos, já seja à escola ou ao ATL.

 

Não sei se a solução terá que passar por onze meses de escola ou não, mas numa coisa concordo com o senhor, há muitas coisas a mudar nas nossas escolas, eu diria que há uma revolução por fazer, muitas coisas a repensar, os nossos filhos tem direito a ser crianças e entre nós e a escola, estamos a negar-lhes esse direito.

 

É claro que muito disto passa por opções nossas e não da escola, mas o que podemos fazer quando ambos os pais temos que trabalhar e não há avós ou família por perto? E o que fazemos com as crianças durante estes três meses de férias quando temos que ir trabalhar e não há com quem as deixar? Felizmente eu posso pagar ATL's e tempos livres, mas o que faz quem não pode? Deixa as crianças sozinhas em casa?

 

Os  números da fotografia acima parecem esclarecedores, mas a realidade é que podem ser enganadores, menos horas de aulas não necessariamente tem que significar menos tempo na escola.

 

Se lermos as declarações de Jorge Ascensão com atenção reparamos que o que ele quer não é mais escola, é sim uma escola melhor e mais equilibrada.... há alguém que não concorde com essa ideia?

 

Jorge Soares

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publicado às 23:11

Hiperactividade - o primeiro passo é aceitar!

por Jorge Soares, em 25.05.15

A Hiperatividade é uma condição física que se caracteriza

pelo sub-desenvolvimento e mau funcionamento de certas partes do cérebro.

Retirado de aqui

 

 

Não é a primeira e não será de certeza a última vez, mas nunca deixa de me fazer impressão, há uns dias num grupo do Facebook  onde se fala da hiperactividade, uma mãe vinha partilhar as suas preocupações e pedir ajuda a outros pais... só que começava a explicação com: "vocês desculpem mas eu não acredito nesta doença"

 

Estou habituado a ler e ouvir muitas vezes essa frase, principalmente vinda de: Quem não tem filhos e acha que tudo não passa de birras e falta de educação que se fossem eles os pais se resolveriam facilmente com  castigos e/ou com palmadas. Ou de professores que acham que tudo não passa de desculpas dos pais para o comportamento dos filhos que não souberam educar.

 

Há uns tempos também no facebook tive uma troca de ideias com uma mãe, no infantário, ante as atitudes e o comportamento do seu filho,  tinham-na aconselhado a levar o miúdo a uma consulta de avaliação. 

 

Evidentemente a senhora negava-se, ela concordava que o miúdo não era uma criança "normal", mas de forma alguma o levaria alguma vez à consulta... segundo ela o que a criança precisava era de amor e mão firme, ninguém a ia convencer que o miúdo tinha alguma doença e ia alguma vez precisar de tomar medicamentos.

 

Na altura dei por mim a pensar que eu também tinha passado por essa fase, também eu passei muito tempo a recusar-me a aceitar que o meu filho tinha um problema e que esse problema estava muito para além do que eu conseguiria resolver... 

 

Mais tarde ou mais cedo todos terminamos por cair em nós e perceber que o problema existe mesmo e que tem que ser tratado por médicos e especialistas, o problema é que no entretanto fazemos da nossa vida, da dos nossos filhos e da restante família, um inferno.

 

Eu demorei dois ou três anos a aceitar que não era por ficar sem prendas, por ficar de castigo durante semanas ou com palmadas e até sovas, que o meu filho ia melhorar o comportamento...

 

Não é fácil lidar com tudo isto, não é fácil lidar com os comportamentos, normalmente é muito difícil lidar com a escola, com os directores de turma, com os professores,até com os pais das outras crianças que acham sempre que os seus filhos são perfeitos. Nada disto é fácil, mas não é fácil para nós pais e não é fácil para os nossos filhos... mas a primeira regra para se conseguir viver e sobreviver é que temos que aceitar que o problema existe mesmo.

 

Depois há a questão da medicação, seja Ritalina, Concerta ou outro medicamento qualquer, há sempre mais alguém que leu um artigo ou ouviu uma teoria, para além dos milhentos efeitos secundários, aquilo causa habituação e não serve para nada.... e quem quer dar drogas aos seus filhos?

 

Ninguém, eu também não, infelizmente consigo ver a diferença entre quando ele toma ou não toma, mesmo os professores que nem acreditam em nada do que dizemos, conseguem ver a diferença quando por algum motivo nos esquecemos de lhas dar.... e na maior parte dos casos, os miúdos conseguem ver a diferença e terminam por nos pedir para lhas dar, porque sabem os efeitos no comportamento e no aproveitamento escolar, acreditem, ninguém é feliz a ser sempre o que tem mais castigos e recados e tira as piores notas da turma.

 

Negar que o problema existe, que seja uma doença e que tem que ser tratado na maior parte dos casos com recurso à medicação, só torna as coisas muito mais complicadas...

 

Voltando ao inicio, depois de ler o comentário da senhora no facebook dei por mim a ter pena dela e muita pena dos seus filhos, porque eu sei as vezes que fui, às vezes ainda sou, injusto com o meu.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:49

asperger.jpg

 

Imagem de aqui

 

Boa tarde,

Antes de mais, gostaria de deixar bem claro que não tenho como intenção apontar o dedo a ninguém, nem julgar, nem reclamar. Apenas gostaria de partilhar convosco a minha experiência e, quem sabe, talvez um dia possa ajudar alguém para que não aconteça com mais ninguém o que nos aconteceu.

 

O meu filho, depois de 10 anos de muita luta, foi finalmente diagnosticado com Síndrome de Asperger, em Dezembro passado. Sempre tivemos muitos problemas com ele e, principalmente a escola, devido ás suas dificuldades na interacção social.

 

O inicio deste ano escolar foi particularmente difícil. Mudou de ciclo e, como tal, de escola e de DT - tudo coisas que por si só já são complicadas. O pior foi o Director de Turma que mudou. O do ano passado era um anjo vindo do Céu para o orientar e ajudar. Ele sentiu muito essa "perda". A nova DT é uma pessoa muito agressiva, fria e sem qualquer paciência para alguém como o meu filho.

 

Fizemos várias reuniões com a escola, sozinhos e com a presença de uma psicóloga privada que contratámos, já que o SNS achou que ele não carecia de acompanhamento, com o intuito de pedir ajuda para ele - para os consciencializar para as dificuldades dele e a necessidade de uma abordagem um pouco diferente, mas a escola recusou veementemente em aceitar que ele tinha sequer qualquer dificuldade ou problema! Tinha no seu Plano de Educação Individual as adequações que o serviço de Educação Especial achou conveniente e mais nada. No ponto de vista da escola, tratava-se de um miúdo preguiçoso e pouco disciplinado, mas que de resto era tão normal e adaptado como qualquer outro aluno, e a carga negativa foi fulminante desde o primeiro dia.

 

Pedimos para valorizarem o positivo. A resposta foi um ataque brutal a TUDO de negativo. Implicaram porque não fazia os TPC. Pedimos ajuda para ele os fazer na escola, pois em casa, na cabeça dele, não era lugar para fazer as coisas da escola. A escola recusou. A disgrafia dele mantinha-se acentuada. Pedimos á escola que o deixassem entregar trabalhos em suporte digital (no PC). A escola recusou. Ele, ao abrigo do artigo 3/2008 deveria de estar numa turma de tamanho reduzido. Foi recusado e ele integrou numa turma de quase 30, incluindo alunos repetentes e destabilizadores.

 

O resultado do primeiro período foi uma desgraça. Teve 3 negas. Fiquei aterrada, pois ele é aluno de inteligência acima da média que nunca tinha tido notas semelhantes a estas. Falámos com ele e resolvemos fazer um acordo e um esforço para melhorar. Sem qualquer ajuda ou envolvimento da escola, ele no final do segundo período tinha subido de 3 negas para apenas 1 e ainda teve 5 quatros! Subimos todos aos céus de felicidade. A resposta da escola foi considerar que ele tinha tido apenas uma "ligeira melhoria" e que iria manter a imposição total do seu cumprimento com todos os projectos propostos.

 

No inicio do 3º período tudo piorou dramaticamente. O meu filho estava desanimadissimo com a reacção da escola ao seu esforço monumental. Na 6ª Feira passada, depois de mais uma reclamação da escola por ter TPCs inacabados/mal feitos aconteceu o que não desejo a NINGUÉM neste mundo. O meu filho acabou por pôr termo á vida. Tinha 14 anos.

 

Sabíamos que ele estava sob uma pressão desumana por parte da escola mas nunca, NUNCA em mil vidas nada os levou a pensar que isto seria sequer ponderável.

 

Portanto, deixo aqui um apelo para TODOS os professores e pais deste país e deste mundo. A vida de uma criança é o nosso maior tesouro. Por favor, NUNCA desvalorizem um pedido de ajuda de uma mãe. Não há NINGUÉM neste mundo que conheça melhor o seu filho do que ela. Se ela acha que precisa de ajuda, ajudem. Mas ajudem de coração. Nem que seja por indulgência, porque a dor que uma mãe sente ao perder um filho por quem pediu ajuda a tantas pessoas, tantas vezes e com toda a força que tem é algo que é indescritível.

 

Não aceito que qualquer situação politica justifique a falta de humanidade que hoje se vive diariamente nas nossas escolas e na nossa sociedade, sob desculpa de "cortes" e "crises" e afins. Somos humanos. Os nossos filhos são o nosso futuro. Professores e pais deviam de ser uma equipa, não inimigos.

 

Apelo, de coração destroçado, para que algo ou alguém mude a mentalidade de quem tem o poder de alterar mentalidades para que as nossas crianças deixem de ser consideradas um fardo que têm de ser educadas, e que passem a ser vistas como seres que carecem de orientação de quem já viveu o suficiente para os poder ENSINAR. Respeito, consideração, compaixão - são coisas que se ensinam em casa, é verdade - mas que devem de ser reforçados na escola. Lamento profundamente que hoje em dia isto puro e simplesmente não acontece.

 

Desejo a todos muita paz e todas as bênçãos do Alto e o meu muito obrigado por me ter sido permito este desabafe.

 

Ana Sheila Martins na página do Facebook Asperger Portugal

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publicado às 22:31

 

 

Disclaimer - Para quem aqui vem à espera de encontrar um daqueles artigos que dizem que a hiperactividade é uma invenção dos médicos e da industria farmacêutica, pode voltar por onde veio, a hiperactividade é uma doença real e infelizmente afecta mesmo muitas crianças.

 

Quem me costuma ler sabe que cá em casa temos um hiperactivo, que apesar de ser seguido e tratado desde os três anos de idade, sofre todos os dias o facto de ter uma doença que influência o seu comportamento, as suas capacidades de aprendizagem e a forma como se relaciona com a família, a escola e o mundo em geral.

 

Num mundo que cada vez mais vive de normas e padrões, um criança que por um ou outro motivo foge ao que se considera "normal" não tem um caminho fácil, ora o N. sofre de Hiperactividade, défice de atenção e dislexia.

 

O facto de ter sido diagnosticado ainda antes de entrar para a escola não ajudou grande coisa, infelizmente há, principalmente nas escolas, muita gente no mundo que acredita que sabe mais que médicos e especialistas e acha que tudo isto não passa de falta de educação e que tudo se resolve com palmadas, castigos, recados nas cadernetas ...  enfim. É triste mas a quantidade de professores que pensa assim é assustadora e muitas vezes para além de tornarem um inferno a estada das crianças na escola, tornam muito complicada a relação entre a escola e os pais.

 

Felizmente esta é uma doença para a que há medicação, mas convém lembrar que estas doenças não tem cura, a medicação normalmente ajuda a atenuar os sintomas, mas não cura. Uma criança  com hiperactividade vai ser um adulto com hiperactividade, e esta é uma realidade que temos que aprender a aceitar e com a que temos que aprender a viver.... cada dia é um novo desafio e cada dia aprendemos um pouco mais.

 

Mas se uma criança hiperactiva é um problema, um adolescente hiperactivo é como uma bomba relógio sempre prestes a explodir... 

 

A adolescência do N. não tem sido nada fácil, e também não tem sido nada fácil acertar com as doses certas da medicação. Por um lado os comprimidos fazem com que seja mais fácil a concentração e a atenção nas aulas, por outro lado há os efeitos secundários, que variam de organismo para organismo mas que no caso do N influenciam o apetite, o sono e especialmente o humor.

 

Nós verificamos que quando toma a medicação, e ao contrário do que acontece nas férias em que não toma, fica muito mais irritadiço e volátil, reagindo de forma abrupta e com forte oposição quando questionado ou contrariado.

 

Depois de vários episódios cá em casa e na escola, em conjunto com o especialista que o segue, decidimos que íamos retirar uma parte da medicação e optar por um tratamento alternativo sugerido pelo médico.

 

A mudança foi da noite para o dia, em lugar de um adolescente irascível e resmungão passamos a ter um jovem que não classificaríamos de normal, mas que pelo menos anda muito mais bem disposto e sem estar em constante oposição.

 

Curiosamente os primeiros a queixar-se do novo N. foram os professores, antes tinham um miúdo que reagia mal à autoridade mas que pelo menos aparentava estar atento nas aulas, agora tem um jovem menos irascível, mais bem disposto, mas que tem muitas mais dificuldades em estar atento e seguir a aula.... curiosamente e apesar das queixas anteriores, os professores parece que preferem a versão com medicação.

 

Eu confesso que tive muitas duvidas sobre qual seria a melhor estratégia, mas a minha meia laranja usou lógica simples para me convencer: Ninguém vai preso por estar desatento e bem disposto nas aulas, mas pode ir se num dos momentos de impulsividade agredir alguém à sua volta.

 

É claro que a falta de atenção nas aulas pode ter consequências ao nível do aproveitamento escolar, mas não é nada que não se supere com trabalho, dele, da escola e nosso, assim haja vontade... 

 

Como disse acima, a hiperactividade é uma doença com a que ele e nós temos que aprender a viver, há dois ou três anos atrás seria impensável retirarmos a medicação, nós não dávamos a medicação nas férias e sinceramente havia anos em que a meio das férias dávamos por nós a desejar que os tempo passasse rápido para voltarmos aos comprimidos e à "paz" que estes traziam... mas isso era válido na altura com uma criança daquela idade, agora com um adolescente a realidade é outra e a forma de a encarar também será outra.

 

Jorge Soares

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publicado às 23:21

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