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A lua

por Jorge Soares, em 10.08.15

A lua de Fernando Pessoa

 

A LUA (dizem os ingleses) 
É feita de queijo verde. 
Por mais que pense mil vezes 
Sempre uma idéia se perde.

 

E era essa, era,  era essa, 
Que haveria de salvar 
Minha alma da dor da pressa 
De... não sei se é desejar.

 

Sim, todos os meus reveses 
São de estar sentir pensando... 
A Lua (dizem os ingleses) 
É azul de quando em quando.

 

Fernando Pessoa

 

Parque Urbano de Albarquel, Setúbal

Julho de 2011

Jorge Soares

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publicado às 22:06

Coisas, pequenas coisas

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Gosto da Primavera... gosto de pequenas coisas, gosto das cores suaves das pequenas margaridas que nascem nos muros dos campos da minha infância, gosto

 

Jorge Soares

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publicado às 23:25

António Ramos Rosa - A Festa do silêncio

por Jorge Soares, em 23.09.13

A Festa do silêncio

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"



Canoas à espera na barrgaem de Montargil

Junho de 2010


Post publicado inicialmente no Momentos e Olhares em Dezembro de 2010

 

Autor de uma das obras poéticas mais extensas e marcantes da poesia portuguesa contemporânea, António Ramos Rosa morreu esta segunda-feira aos 88 anos.


Há pessoas cujas palavras nunca morrerão


Jorge Soares

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publicado às 22:12

A palidez do dia é levemente dourada.

por Jorge Soares, em 23.08.13

palidêz

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

A palidez do dia é levemente dourada.

O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas

                Dos troncos de ramos secos.

                O frio leve treme.

 

Desterrado da pátria antiquíssima da minha

Crença, consolado só por pensar nos deuses,

                Aqueço-me trémulo

                A outro sol do que este.

 

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole

0 que alumiava os passos lentos e graves

                De Aristóteles falando.

                Mas Epicuro melhor

 

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre

Tendo para os deuses uma atitude também de deus,

                Sereno e vendo a vida

                À distância a que está.

 

Ricardo Reis

 

Gerês

Novembro de 2010

Jorge Soares

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publicado às 23:18

ausência

por Jorge Soares, em 22.08.13

ausência

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Ausência

 

Um deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda que a tua

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 
Num fim de tarde no Jardim do Bonfim
Setúbal
Outubro de 2012
Jorge Soares
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publicado às 17:17

Fui sabendo de mim

por Jorge Soares, em 20.08.13

fui sabendo de mim

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia


fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

MIA COUTO
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publicado às 17:12

Se você quer ser minha namorada

por Jorge Soares, em 19.08.13

Conversa

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Se você quer ser minha namorada
Ai, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exactamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarzinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porquê
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois.

 

Vinícius de Moraes


Ouvir


Lagoa de Óbidos

Julho de 2012

Jorge Soares

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publicado às 17:10

que fechadura encerra os dois lados do infinito?

por Jorge Soares, em 18.08.13

Fechadura

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

As Ruas

 

 

No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:

era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

Mia Couto
In "Tradutor de chuvas", Ed. Caminho.

 

Farol do Cabo São Vicente

Sagres

Julho de 2012

Jorge Soares

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publicado às 17:08

Para a tua boca, todas as vidas.

por Jorge Soares, em 17.08.13

mulher

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demónios.

Para um só Sol, quatro Luas.

Para a tua boca, todas as vidas.

MIA COUTO

Do poema "Números",
no livro "Idades cidades divindades"

Mulher passeia na areia molhada da Praia do Meco

Sesimbra, Julho de 2012

Jorge Soares

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publicado às 15:07

La mariposa volotea

por Jorge Soares, em 16.08.13

Mariposa

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

LA mariposa volotea
y arde —con el sol— a veces.

Mancha volante y llamarada,
ahora se queda parada
sobre una hoja que la mece.

Me decían: —No tienes nada.
No estás enfermo. Te parece.

Yo tampoco decía nada.
Y pasó el tiempo de las mieses.

Hoy una mano de congoja
llena de otoño el horizonte.
Y hasta de mi alma caen hojas.

Me decían: —No tienes nada.
No estás enfermo. Te parece.

Era la hora de las espigas.
El sol, ahora,
convalece.

Todo se va en la vida, amigos.
Se va o perece.

Se va la mano que te induce.
Se va o perece.

Se va la rosa que desates.
También la boca que te bese.

El agua, la sombra y el vaso.
Se va o perece.

Pasó la hora de las espigas.
El sol, ahora, convalece.

Su lengua tibia me rodea.
También me dice: —Te parece.

La mariposa volotea,
revolotea,
y desaparece.

 

Algures perto do mar nas Astúrias

Agosto de 2012

Jorge Soares

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publicado às 17:05

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