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Conto - Fomes

por Jorge Soares, em 17.10.15

fomes.JPG

 
A fome não é exigente: basta contentá-la, 
como, não importa. 
(Sêneca)
 
No primeiro tombo, ralou os joelhos no assoalho duro. Ganhou consolo, colo, chupeta. Viu o piso inanimado de madeira ser chamado de bobo e feio pela mãe, e receber do pai tapas insanos. Não achou graça. E chorou aos gritos, nariz escorrendo, punhos tão cerrados que arrebentou a pulseira de ouro de chapinha na qual o nome dela estava gravado em letra bordada. Esperneou, corcoveou, puxou os próprios cabelos e os da mãe, que a sujigava nos braços para que ela não caísse. Então, o pirulito. Grande, multicolorido. Entregue pelo pai como um troféu melado. E não houve mais choro ou ranger de dentes. Que gracinha! Menina linda da mamãe! Amorzinho do papai! Que belezinha!
 
Passou a infância entre doces, sorvetes, choros e elogios. Chocolates pretos, brancos, crocantes, recheados. Recebidos em momentos de dor, de aflição, de insegurança, de carência. Na adolescência, descobriu os sanduíches de dois andares, os refrigerantes, os achocolatados misturados com granulados, as casquinhas de biscoito que enfeitavam os milk-shakes e que depois passaram a ser comidas sem os milk-shakes. E como a ansiedade não passava, e como os meninos já eram ridiculamente fiéis às formas esquálidas, e como as dela eram redondas e macias como as almofadas do sofá, deixou que toda aquela fome, constante e imensa, fosse aplacada por novos sabores. Incluiu na dieta um baseado por noite e cinco dias de álcool por semana. Vodca. Retirada sem aviso do estoque do pai. A Stolichnaya era tomada em copo de plástico branco. Em casa. No quarto. Caso alguém entrasse sem bater, não daria muita atenção a um copinho descartável. Na rua, fazia vaquinha com os amigos; compravam gelo.
 
Mas a fome não passou. Não passava nunca. Além do apetite causado pela larica e pela ressaca, havia mais. E ela queria esse mais. Da primeira vez que fez sexo, sentiu-se saciada, relaxada. O banco de trás do carro era apertado para o seu corpo gordo, mas aquele aperto todo tinha excitado o parceiro. Mais atrito, mais encaixe, mais penetração, ele explicou assim que a trepada terminou. Naquela noite, ela se esqueceu do baseado e do copo de vodca, que dormiu metade cheio embaixo da cama.
 
Viciou-se naquele alívio que a fez esquecer os doces, os refrigerantes, as pizzas, o álcool. E descobriu que o que lhe dava mais prazer no sexo era enfiar na boca o membro ainda mole e senti-lo crescer ao comando da sua língua nervosa. Em pouco tempo, ganhou fama de ser a melhor na prática do sexo oral. Ela diria pênis e boquete, mas ainda não estava pronta para essas palavras tão íntimas.
 
Namorados, amantes, ficantes. Ela escolhia. Marcava e desmarcava dia e hora. E decidia quanto tempo duravam. Desejava, implicava, atraía, rejeitava. Passou a trocar o almoço por transa. O jantar, os lanches de fim de semana. Trocou de idade várias vezes, virou mulher. Gostosa, safada, experiente, esperta. Magra na medida certa. Cheia nos lugares certos. Até que cismou que precisava entender aquela fome maior do que ela. Procurou psicólogo, padre, benzedeira, astrólogo. Comprou livros que falavam de obsessão, de compulsão, de possessão, de fugas, de vícios, de complexos, de negação, de distúrbios. Nada. 
 
Então, leu sobre o controle e sobre a dominação. E teve fome de algemas, chicotes, correntes. Fome de poder. Esse pirulito grande, multicolorido.
 

Cinthia Kriemler

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:31

É um político português com certeza

por Jorge Soares, em 19.09.13

Limitação de mandatos

 

Imagem de aqui

 

Não vou discutir sobre se a lei de limitação de mandatos faz ou não sentido, há meses que andamos a falar do assunto e imagino que já todos devem ter a sua opinião sobre a mesma, sobre o seu espírito e sobre a forma como ela é interpretada ao sabor dos interesses de cada um.

 

Também acho que mesmo para aqueles que agora se beneficiaram das suas falhas, não restam dúvidas que esta é uma lei que nasceu torta e parece que infelizmente não há vontade de a endireitar. Terá sido uma falha do legislador, um erro de quem a transcreveu, uma forma de deixar pontas soltas, o certo é que a cada dia que passa se descobre que há mais uma forma de lhe dar a volta...

 

É claro que desenrascados como somos, há sempre alguém que se aproveita de uma forma ou outra de qualquer buraquinho para se  tentar perpetuar no poder... mesmo que se esteja a falar de uma junta de freguesia... um lugar que mais que outra coisa qualquer, costuma dar muito trabalho e pouco proveito.

 

Hoje foi noticia que em Sátão, distrito de Viseu, na Freguesia de Ferreira de Aves, o actual presidente da junta decidiu que como ele não se pode candidatar, candidata-se a sua mulher. Ele é o número dois da lista, no caso da senhora ganhar as eleições, demite-se de imediato, passando o poder para ele.

 

A senhora é candidata pelo PSD e segundo o telejornal da RTP, nem sequer aparece em nenhum dos cartazes, quem aparece é ele.

 

Isto é o chico-espertismo elevado ao seu mais alto nível, e custa-me a entender que o PSD, afinal o partido que neste momento está a governar o país, aceite estratagemas como este para se perpetuar no poder... mesmo que seja numa pequena aldeia perdida no interior do país... É que de uma forma ou outra, o que transparece de tudo isto é uma enorme falta de seriedade.

 

Resta saber se este será caso único ou se há mais chicos espertos destes e se os partidos pelos que estão a concorrer às eleições dão cobertura a tais aldrabices.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:34

Fernando Nobre renumciou ao cargo de deputado

Imagem do Público

 

"Quanto ao Sr Fernando Nobre, é cedo para a campanha eleitoral..e se como presidente da Ami ainda não conseguiu colocar-se em perspectiva sobre a realidade do mundo em que vivemos, o melhor é que se continue a dedicar à Medicina e deixe a politica de lado."

 

A frase é minha e foi escrita neste mesmo blog no dia 17 de Fevereiro de 2010, o post tinha como título Tudo na vida é uma questão de perspectiva, tinha voltado de Cabo Verde há uns dias com mais uma filha e uma perspectiva do mundo muito diferente. Entretanto entre o episódio da utilização da fotografia nos cartazes de campanha e as reviravoltas do senhor, escrevi mais sete posts sobre ele... podem ver os títulos aqui.

 

Muita gente olhou para Nobre e viu como uma alternativa aos políticos, um exemplo de cidadania, alguém que poderia fazer a diferença, bom, nem tudo se perdeu, em ano e meio ele conseguiu mostrar que as alternativas que nascem da cidadania são uma utopia. A capacidade politica, a liderança, a capacidade diplomática, não são algo que nasça espontaneamente. Os partidos políticos, todos os partidos políticos, são para além de mais escolas de liderança, com tudo o que de bom e de mau isso quer dizer. Não é líder quem quer, é líder quem tem a capacidade de o ser e se prepara para isso.

 

Foi a 17 de Fevereiro de 2010 que Nobre apresentou a sua candidatura à presidência da República, há quase exactamente um ano  e meio, desde então foi acumulando disparates e contradições. Hoje saiu a noticia da sua renúncia ao cargo de deputado. Pelos vistos  servir o país só tem piada quando estamos sentados na cadeira do poder, servir o país desde a terceira ou quarta fila da assembleia da República só dá trabalho, não dá prestigio. 

 

Espero que lhe tenha servido de lição, a ele, aos partidos politicos e ao país, a coisa não está para utopias e lirismos.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:43

O que faz correr o Nobre?... o tacho é claro!

por Jorge Soares, em 15.04.11

Sede de poder

 

Já passaram por fases da vida em que parece que já viram o filme em que estão metidos?.. a mim acontece-me algumas vezes, não fosse eu um céptico que não acredita no destino ou em premonições e se calhar era capaz de fazer dinheiro com isto.

 

Numa destas noites a conversa no messenger com a revisora oficial dos textos aqui do blog {#emotions_dlg.blueflower} versava sobre o Fernando Nobre e as suas verdadeira intenções. Não é segredo para ninguém que eu, apesar de admirar a obra da AMI, não sou precisamente um admirador do senhor e das suas ideias (????) no que toca a política, eu não gosto de demagogos e a forma como ele utiliza o seu currículum social com proveitos políticos a mim parece-me vergonhoso.

 

A meio da conversa eu dizia à minha amiga que apostava em como no caso de não ser eleito presidente da assembleia ele renunciava ao cargo de deputado, os deputados trabalham  e na maioria dos casos não têm o protagonismo que o senhor ambiciona.... o presidente da assembleia da república é a segunda figura do estado, dá prestígio.. ora, não tardaram 24 horas para que aparecesse a seguinte noticia:

 

Fernando Nobre ameaça renunciar ao mandato de deputado e ao lugar na bancada do PSD, se não tiver a maioria absoluta dos votos dos deputados para ser eleito presidente da Assembleia da República

 

No outro dia num dos comentários a este post, alguém questionava o que faz correr o Nobre, acho que não restam dúvidas...

 

Jorge Soares

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publicado às 22:48

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