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Padres de calendário

por Jorge Soares, em 11.12.14

padres.jpg

 

Imagem de aqui

 

Calendários com padres não são novidade, há uns tempos o Vaticano até patrocinou um em que se mostravam uns senhores de carinha laroca, isso sim, com a batina vestida e com a bíblia bem à vista. Esta semana foi noticia um calendário da igreja ortodoxa romena em que ao contrário do de Roma, não se vêem as caras, em contrapartida e a julgar pelas fotografias que me tem estado a passar pelo facebook, vê-se quase tudo o resto.

 

Pelos vistos na igreja ortodoxa os padres são pouco ortodoxos, não faço ideia se o calendário do Vaticano terá tido muito ou pouco sucesso, mas a julgar pelos comentários que tenho lido nas redes sociais, não há duvida que este vai vender e até já há por aí muita gente que de um momento para o outro está completamente convertida à fé, não sei é se é em deus ou ... nos padres.

 

O calendário que já teve versões anteriores em 2013 e 2014, tem em 2015 o objectivo de lutar contra a homofobia na igreja ortodoxa e é um tributo à tolerância dentro da igreja. As diversas fotografias pretendem representar os pecados antigos esquecidos por uma igreja que se empenha em demonizar lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT).

 

Quem estiver interessado, eles tem um site, aqui.. e tem um vídeo promocional, este:

 

 

E pensar que houve gente que ficou escandalizada com o calendário dos bombeiros de Setúbal...

 

Jorge Soares

 

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publicado às 21:51

jéssica athayde

 

Coisas que eu poderia dizer se conseguisse escrever assim:

 

É disto que eu falo quando me fazem subir a mostarda ao nariz.


É isto que eu tento demonstrar quando me colocam uma plateia de vaginas à frente. Em formação, entenda-se:

Meninas, abram os olhos. Assumam-se. Pensem à gajo!

Como é possível falar em emancipação feminina, em igualdade de género, em repartição igualitária de tarefas no espaço doméstico, em progressão nas carreiras profissionais, na defesa das mesmas oportunidades que os gajos têm quando, depois, tudo o que muitas mulheres veem à frente é - tão só e unicamente - mamas e rabos. Piores que eles, for god´s sake!

E quase que aposto que as meninas dos comentários sobre celulite, abdominais e afins são as mesmas que enchem os restaurantes, no Dia da Mulher, a dançar o “põe o carro, tira o carro”, comemorando uma pseudo libertação que há-de chegar! Quando? Por este andar, com este “exército de salvação”: nunca.

Não nos perdoamos umas às outras. É incrível.

PS – Sou só eu que acha a Jéssica uma boazona?

Carla R. no Facebook

 

Não Carla, não és só tu, há muito mais gente a achar o mesmo... vai por mim

 

Jorge Soares

PS: PS: Número de dias sem gritar - 12

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publicado às 22:11

Conto - Recruta

por Jorge Soares, em 28.06.14

sedutora

 

Não estava em seus planos apaixonar-se. Desde a separação, há oito anos, só pensava em cuidar dos filhos e honrar o estável cargo público. Tudo caminhava bem, sem rebolados, desvios ou cambalhotas. Nunca mais dera gargalhada. Um sorriso magro era suficiente. Nunca mais saíra dos trilhos. Descarrilar era para cambetas. Bastava ir naquela direção, firme e sempre — para esquivar-se de eventuais escorregos e desastres.

 

Margarete era assessora de imprensa. Preparava clippings, contextualizava para a chefia os fatos mais pertinentes, agendava entrevistas, escrevia releases. Bem informada, a criatura. Lidava com gente de todo o naipe, peneirava declarações, sintetizava casos emblemáticos. 

 

Conhecia bastante da vida alheia, mas procurava reservar-se. Gostava de novidade, mas não queria virar notícia. No gabinete, pouco falava de sua vida pessoal.

 

Seu lema era manter a objetividade jornalística e a discrição pessoal.  O casamento aconteceu de forma planejada, com um namorado da faculdade. Durou até bastante: doze anos. E acabou sem grandes sofrimentos, amor já mirrado. Desde então, optou por não mais se iludir com promessas de afeto. 

 

Era comum nutrir admiração por homens com quem convivia. Porém, quando ela sentia a iminência de uma paixão, tratava de podar o sentimento logo na cepa para que a decepção não frutificasse.

 

Margarete só não contava com um novo estágio em sua vida. Naquele bendito agosto, foi contratado pela assessoria de imprensa do tribunal o jovem Márcio, que cursava o penúltimo período de jornalismo na Universidade de Brasília. A vaga foi concorrida: oito estudantes pleiteavam o emprego. Márcio desbancou os concorrentes pela escrita clara e desenvoltura. Redigiu, à queima-roupa, um texto interessante sobre a crise dos Três Poderes no Brasil. Além de cultura, o rapaz demonstrou disposição, simpatia e a maior das virtudes: uma boniteza linda de arder.

 

Contratado com louvor, o candidato perfeito passou a cumprir vinte horas semanais de estágio remunerado. Enquanto aprendia jornalismo, Márcio cativava, seduzia, enlouquecia Margarete, num vertiginoso crescendo. 

 

Os colegas notaram a diferença: a mulher renovou, perfumou-se, desembestou a rir alto, passou a falar de si como que a exigir elogios. Estava timbrado em sua testa: APAIXONADA. 

 

A diferença de idade seria relevante para o belo foca? A incerteza atormentava a chefa. Queria se declarar logo para o moço e confessar que ele lhe trouxera novas cores e que aquela paixão fulminante não cessava e que aquilo estava muito errado, mas que ela não podia perder a chance da grã-felicidade. 

 

Enlouquecida pelo estagiário! Poderia haver situação mais ridícula para uma respeitável servidora pública? Só crescia o medo de ser enjeitada pelo jovem atlético, espetacular. Ao mesmo tempo, o desejo de conquistar o estagiário movia e dava sentido a cada respiração de Margarete — uma mulher de 44 anos completos e não privada de beleza.

 

Foi num final de expediente, em sexta-feira de entrevista coletiva, que Margarete cercou Márcio. A repartição já estava vazia, e ela considerou o momento inadiável:

 

— Você é o melhor estagiário que já tive.

— Bom saber. Eu me esforço bastante.

— Tenho sonhado com você, Márcio.

— Espero que não seja pesadelo

— brinca, mostrando aquele sorriso.

— Você me acha velha?

— Claro que não. 

— Feia?

— Nada disso. Você é muito bonita, chefa. E inteligente.

— Topa sair comigo agora?

— Opa. Demorou.

 

Márcio encarou a situação com naturalidade e acompanhou Margarete. Ela dirigia o carro tremendo — de febre, comichão... “Será que devo avançar?” Durante o caminho até o Parque da Cidade, a mulher emudeceu. Pensou em retroagir. Não sabia se o encontro resultaria em graça ou desgraça. “E se Márcio for virgem?” — pensava, em estado de choque. “E se zombar de mim?”.

 

Ela parou num dos estacionamentos do parque, debaixo de uma árvore frondosa. Tentava manter a calma; mas estava pálida, doente de angústia. Perguntou se ele gostava de verde, se amava Brasília, se queria mesmo trabalhar como jornalista. Ele respondeu positivamente, com uma doçura inacreditável, a boca rogando um beijo imediato.

 

Se Márcio a repeliu? Não, muito pelo contrário. Agarrou Margarete como ela assim desejava: demorado, quente, com conhecimento de causa e sem pudor. “Como pode um garoto de 20 anos com uma pegada dessas?” — suspirou, boba de tão feliz. 

 

Vendo os olhinhos virados da chefa, Márcio ousou mais, com brincadeiras de amor criativas e carícias pontuais. A assessora de imprensa se desmanchou, permitindo tudo, sem hesitar. Cheia de esperança, paixão, encantamento, completamente desbussolada, Margarete deixou-se amalgamar ao corpo hercúleo de seu jovem aprendiz.

 

Ele se comportou de forma gentil e delicada. Não delatou o ataque nem menosprezou o sentimento da patroa. Propôs a Margarete — por que não? — um encontro por semana, em sigilo, onde ela desejasse. 

 

“Será que é verdade?” — delirava a quarentona, sentindo-se desmerecedora de tão insólito e apetitoso enredo.

 

A jornalista bem que tentou, mas não conseguiu disfarçar a doentia preferência pelo discípulo. Percebeu um ou outro olhar de repreensão e despeito de alguns colegas. Mas e daí? Quem nunca se apaixonou e, por conta disso, deu bandeira, vacilou? 

 

A relação acabou abrupta, com o fim do estágio profissional de seu amado. Foi um adeus embargado, dolorosamente necessário. Margarete abateu-se, mas sem desespero ou desejo de morte. Aprendeu muito com a história vivida. Aulas práticas de vaidade, confiança, autoestima, superação, feminilidade, prazer... A mulher desprezível ficou pra trás e deu lugar a uma criatura em constante descarrilamento. 

 

No seguinte processo seletivo de estagiários, o escolhido foi Raul. Não tão belo, não tão jovem quanto Márcio; mas também interessante e vigoroso. 

 

Desta vez, a iniciativa não foi da chefa; mas do novato, que, em menos de um mês de trabalho, já a convidava para um programa romântico na Ponte JK. Ela bem que achou graça daquele assédio ao contrário.

 

À saída de um motel, no Núcleo Bandeirante, os dois foram surpreendidos por um assaltante de capuz encardido e arma brilhante graúda. O delinquente entrou no carro como demônio.  Ainda haveria muitos deliciosos estágios a viver, mas a bela assessora de imprensa foi friamente abatida nos braços de Raul. 

 

No exato momento do tiro, o celular de Margarete assobiou: era Márcio disparando pra ex-chefinha um recado carinhoso pelo WhatsApp: “Saudade”.

 

Maria Amélia Elói.

 

Retirado de Samizdat

 

 

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publicado às 21:20

Conto - O amanhecer em quarto estranho

por Jorge Soares, em 07.06.14
O amanhecer em quarto estranho
Acordei e logo, percebi que meu corpo estava dolorido. Pensei que tinha apanhado. Então abri os olhos. Olhei ao redor e tentei reconhecer onde eu estava. Aquele quarto não me era familiar. Com certeza não era o meu. As estantes brancas, organizadas com livrões e enfeites e alguns bichinhos. Não era de alguém muito próximo. Eu conhecia o quarto das pessoas próximas a mim.
Não caí em desespero. Permaneci calmo. Afinal, não era a primeira vez que acordava em lugar estranho, e tampouco seria a última. Além disso o quarto era limpo e eu estava bem confortável. Uma cama excelente.  Diferente de acordar na rua, com o corpo gelado e sujo.
Fechei os olhos novamente. Esforçava-me para tentar lembrar o que tinha acontecido na noite anterior. Aos poucos algumas imagens surgiam.
Lembro-me que saímos para comer alguma coisa, mas era apenas uma desculpa para bebermos. Assim que chegamos no restaurante, pedimos algumas cervejas. Jantamos e continuamos bebendo. Acho que era próximo da  meia-noite, quando uma das meninas, que nos acompanhava, a mais bonitinha, disse que queria dançar. Eu não queria dançar. Não gosto de dançar. Mas ela era bem bonitinha e eu já tinha bebido algumas, achei que fosse uma boa ideia.
Cara, como ela era bem bonitinha. Bonita mesmo. Seu nome era Amanda. No fundo, eu sabia que não tinha nenhuma chance com ela, mas diabos um trago faz a gente pensar que pode tudo; faz acreditar que sonhos impossíveis são possíveis. Era certo, que em estado sóbrio ela nunca ficaria com um cara tímido e gordo, com uma barba de meses no rosto. Não sou muito propenso a fazer barba. Acho que os pelos em nossos corpos são naturais. Não gosto dessa estética plástica que nos impõem uma limpeza total dos pelos no corpo, com um esforço em tentar esconder a sujeira da humanidade. Às vezes, me pergunto, onde esta a sujeira da humanidade? Também não gosto de textos limpos demais, não me refiro só a linguagem, me refiro àqueles com um mundo cor de rosa, onde tudo se encaixa, tudo é perfeitinho. Menininho se apaixona pela menininha, se casam tem filhos e nunca falta dinheiro ou comida. Sempre estão felizes. Fico pensando que porra é isso!!?? Fico indignado. Talvez, por isso que eu gosto mesmo, é de acordar com do velho Johnnie e um texto do Bukowski.

 

Carlos Carreiro

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 20:36

Conto - Intimidade, de Edla van Steen

por Jorge Soares, em 24.05.14

Intimidade

 

Para mim esta é a melhor hora do dia — Ema disse, voltando do quarto dos meninos. — Com as crianças na cama, a casa fica tão sossegada.

 

— Só que já é noite — a amiga corrigiu, sem tirar os olhos da revista.

 

Ema agachou-se para recolher o quebra-cabeça esparramado pelo chão.

 

— É força de expressão, sua boba. O dia acaba quando eu vou dormir, isto é, o dia tem vinte e quatro horas e a semana tem sete dias, não está certo? — descobriu um sapato sob a poltrona. Pegou-o e, quase deitada no tapete, procurou o par embaixo dos outros móveis. — Não sei por que a empregada não reúne essas coisas antes de ir se deitar — empilhou os objetos no degrau da escada. — Afinal, é paga para isso, não acha?

 

— Às vezes é útil a gente fechar os olhos e fingir que não está notando os defeitos. Ela é boa babá, o que é mais importante.

 

Ema concordou. Era bom ter uma amiga tão experiente. Nem precisa ser da mesma idade — deixou-se cair no sofá — Bárbara, muito mais sábia. Examinou-a a ler: uma linha de luz dourada valorizava o perfil privilegiado. As duas eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. Até ter filhos juntas conseguiram, acreditasse quem quisesse. Tão gostoso, ambas no hospital. A semelhança física teria contribuído para o perfeito entendimento? "Imaginava que fossem irmãs", muitos diziam, o que sempre causava satisfação.

 

— O que está se passando nessa cabecinha? — Bárbara estranhou a amiga, só doente pararia quieta. Admirou-a: os cabelos soltos, caídos no rosto, escondiam os olhos cinza, azuis ou verdes, conforme o reflexo da roupa. De que cor estariam hoje? — inclinou-se — estão cinza.

 

Ema aprumou o corpo.

 

— Pensava que se nós morássemos numa casa grande, vocês e nós... Bárbara sorriu. Também ela uma vez tivera a idéia — pegou o isqueiro e acendeu dois cigarros, dando um a Ema, que agradeceu com o gesto habitual: aproximou o dedo indicador dos lábios e soltou um beijo no ar.

 

— As crianças brigariam o tempo todo.

 

Novamente a amiga tinha razão. Os filhos não se suportavam, discutiam por qualquer motivo, ciúme doentio de tudo. O que sombreava o relacionamento dos casais.

 

— Pelo menos podíamos morar mais perto, então.

 

Ema terminava o cigarro, que preguiça. Se o marido estivesse em casa seria obrigada a assistir à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho — levantou-se, repelindo a lembrança. Preparou uma jarra de limonada. Por que todo aquele interesse de Bárbara na revista? Reformulou a pergunta em voz alta.

 

— Nada em especial. Uma pesquisa sobre o comportamento das crianças na escola, de como se modificam as personalidades longe dos pais.

 

No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.

 

— Porcaria, meu sutiã arrebentou.

 

— A alça?

 

— Deve ter sido o fecho — ergueu a blusa — veja.

 

Bárbara fez várias tentativas para fechá-lo.

 

— Não dá, quebrou pra valer.

 

Ema serviu a limonada. Depois, passou a mão pelo busto.

 

— Você acha que eu tenho seio demais?

 

— Claro que não. Os meus são maiores...

 

— Está brincando — Ema sorriu e bebeu o suco em goles curtos, ininterruptos.

 

— Duvida? Pode medir...

 

— De sutiã não vale — argumentou. — Vamos lá em cima. A gente se despe e compara — aproveitou a subida para recolher a desordem empilhada. Fazia questão de manter a casa impecável. Bárbara pensou que a amiga talvez tivesse um pouco de neurose com arrumação.

 

Ema acendeu a luz do quarto.

 

— Comprou lençóis novos?

 

— Mamãe mandou de presente. Chegaram ontem. Esqueci de contar. Não são lindos?

 

— São.

 

— A velha tem gosto — Ema disse, enquanto se despia em frente ao espelho. Bárbara imitou-a.

 

É muito bonita — Ema reconheceu. Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso infantil. Porém, ela não perdia em atributos, igualmente favorecida pela sorte. Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que entendessem, em se tratando de usar o corpo — não é, Bárbara?

 

— Decididamente perdi o campeonato. Em matéria de tamanho os seus seios são maiores do que os meus — a outra admitiu, confrontando.

 

Carinhosa, Ema acariciou as costas da amiga, que sentiu um arrepio.

 

— O que não significa nada, de acordo? — deu-lhe um beijo.

 

— Credo, Ema, suas mãos estão geladas e com este calor...

 

— É má circulação.

 

— Coitadinha — Bárbara esfregou-as vigorosamente. — Você precisa fazer massagens e exercícios, assim — abria e fechava os dedos, esticando e contraindo na palma. — Experimente.

 

Eram tão raros os instantes de intimidade e tão bons. Conversaram sobre as crianças, os maridos, os filmes da semana. Davam-se maravilhosamente — Bárbara suspirou e se dirigiu à janela: viu telhados escuros e misteriosos. Ela adoraria ser invisível para entrar em todas as casas e devassar aquelas vidas estranhas. Costumava diminuir a marcha do carro nos pontos de ônibus e tentar adivinhar segredos nos rostos vagos das filas. Isso acontecia nos seus dias de tristeza. Alguma coisa em algum lugar, que ela nem suspeitava o que fosse, provocava nela uma sensação de tristeza inexplicável. Igual à que sente agora. Uma tristeza delicada, de quem está de luto. Por quê?

 

— Que horas são? — Ema escovava o cabelo.

 

— Imagine, onze horas. Tenho que sair correndo.

 

— Que pena. Não sei por que fui pensar em hora. Fique mais um pouco.

 

— É tarde, Ema. Tchau. Não precisa descer.

 

— Ora, Bárbara... deixa disso — levou a amiga até o portão.

 

— Boa noite, querida. Durma bem.

 

— Até amanhã.

 

Ema examinou atentamente a sala, a conferir, pela última vez, a arrumação geral. Reparou na bandeja esquecida sobre a mesa, mas não se incomodou. Queria um minutinho de... ela apreciava tanto a casa prestes a adormecer — apagou as luzes. A noite estava clara, cor de madrugada pensou, sentando no sofá. Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio. Um sentimento místico, meio alvoroçado, de alguém que, de repente, descobrisse que sabe voar. Por quê?

 

Edla van Steen

 

(O Prazer é Todo Meu — Contos Eróticos Femininos)

 

Retirado de Trapiche dos Outros

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publicado às 21:07

Conto - Autodeclaração

por Jorge Soares, em 08.03.14

Pardos

 

Imagem de aqui 

 

 

Mal ou bem, já nos acostumamos. Cada vez que se tenta entrar numa rede social na internet é necessário prestar contas, minimamente, sobre quem se é. É o nome, o sobrenome, o jeito como deseja ser chamado, a data de nascimento, o trabalho ou a ocupação, interesses, preferências, restrições, e e-mails: o principal, o alternativo, o de segurança, etc. Depois de completar campos marcados com asteriscos e ficar em dúvida se gasta tempo ou não com os opcionais, a pessoa precisa ainda digitar como vê uma sequência de letras, números e outros símbolos misturados dentro de um retângulo editável. Para provar que não é um robô. Está assim de gente recorrendo a terapias para curar a crise existencial que momentos decisivos como esse disparam. Se na rotina virtual é dessa maneira, imagina na vida, ordinária, nessa, de todo dia?

 

Valéria vivia passando recibo a respeito de si, mas nem percebia de tão envolvida que sempre esteve com o futuro. Tudo nela parecia acusar, revelar, apresentar, dizer. Em parte. Em uma parte visível e fácil de lidar. Queria ser médica e andar pelo mundo tratando de doenças em regiões de onde normalmente tinha notícia somente pela televisão. Era cabeça, tronco, membros, pele, órgãos, células, sangue, oxigênio, bisturi, medicamentos, livros e mais livros sobre saúde e sobre como funcionam os corpos humanos, um interesse sem fim e o mesmo assunto compulsivamente, feito vinil arranhado, repetindo e repetindo e repetindo o mesmo trecho. Além da que tinha na escola, sabia o rumo das bibliotecas da cidade e da universidade e fazia desses lugares pontos estratégicos de concentração. Falta pouco para os exames de admissão e preciso estar pronta, dizia para dentro pelo menos uma dúzia de vezes, diariamente, como uma reza, um mantra particular, enquanto cumpria à risca seu plano de estudos. 

 

Prestaria provas em oito instituições de ensino superior, todas com seus calhamaços de exigências e formulários, curiosidades estapafúrdias - ô palavrinha que gostava de pronunciar: es-ta-pa-fúr-dia e suas variações – e prazos de inscrições abertos. Cheia de esperanças, juntou documentos e começou a preencher os requisitos da primeira. Com os novos rearranjos do governo para o ingresso nas universidades, as combinações poderiam ou não dar certo para Valéria. Andava sobre a linha que separa ou amarra esforço e sorte quando percebeu que, na verdade, não entendia o jogo. Havia estudado mais do que bastante, mas nem chegara perto do todo, do infinito.

 

Autodeclarar-se isto ou aquilo não era problema, o caso é que realmente não sabia. As certezas resvalando pelas teclas do computador. Olhou para as mãos abertas, correu os olhos pelos braços e. Não era preta, nem branca, nem amarela, que raio significava o termo “pardo”? Só lembrava do rolo de papel que na escola usavam para fazer cartazes. E sexo? Nunca tinha feito. Nasceu com vagina, mas não tinha tempo para desejar ninguém, podia muito bem gostar de mulheres e/ou de homens, tinha um apreço tão grande por gente, em especial por crianças e velhos. E que diferença fazia contar do salário da mãe e do pai, um morto outro sumido, se era ela e não eles quem auscultaria peitos e diagnosticaria dores dali para frente? Seria indígena? Compartilhava de cabelos lisos e negros e selvagens e de uma vontade inexplicável de verde com povos distantes. Por que não? Na dúvida, Valéria rasurou os espaços em branco e escreveu “sou um robô” em letras bem maiúsculas no espaço “observações”. Confusa, vestiu o cansaço, suspirou intenção e dúvida, e guardou a médica no bolso.

 

Andreia Pires

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:37

E se os homens fossem tratados como tratam as mulheres?

 

Imagem do Público

 

 

Num dia qualquer, um homem está em cima de uma bicicleta parado num sinal vermelho. Desde  passeio uma mulher dirige-se a ele aos gritos, oferecendo-lhe favores sexuais enquanto o ofende. A tentativa de negação é recebida com uma reacção violenta da mulher  que continua com os insultos. Seria assim um mundo dominado pelas mulheres, segundo a realizadora e actriz francesa Eléonore Pourriat. Não é bem o espelho da sociedade em que vivemos mas é uma aproximação bastante credível.

 

Chama-se Maioria Oprimida e é uma curta metragem que pretende mostrar como seria o mundo se em lugar de pelos machistas fosse dominado pelas feministas, ou seja, como seria o mundo se os homens fossem tratados como costumam tratar as mulheres.

 

O filme mostra-nos  um dia na vida de um homem anónimo que se depara com várias situações de opressão e violência de género. Enquanto percorre as ruas para ir ter com um amigo cuja mulher o obrigou a usar um véu, é alvo de todo o tipo de piropos de grupos de mulheres com ar ameaçador.

 

É uma perspectiva bastante interessante sobre a forma como uma mulher de hoje em dia vê o mundo e a forma como uma grande parte das mulheres é tratada no dia a dia.

 

Um filme a ver, a rever e que nos deve fazer pensar.

 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:04

Conto - O namorado de vivi

por Jorge Soares, em 08.02.14

 

–– ORA, MAS VIVI era praticamente da família! E não me venha com essa história

de que “todo mundo diz isso!”. Vivi era, sim, praticamente da família! 

 

        Lembro-me ainda do dia em que fomos para Lagoa de Itaenga, onde fica a fazenda de vovô e naquele dia ensolarado, debaixo da cachoeira friíssima, conheci a Vivi... Eu tinha escorregado, sabe?, era uma criança, ainda, uma menina de meus lá oito anos, dos quais os oito tinham transcorrido em Recife. A única coisa que eu sabia da vida aventureira de criança era o que me diziam os parques da Jaqueira e o Sítio da Trindade!

 

Não, não mesmo, nunca frequentei o Parque Treze de Maio... Mainha e painho não deixavam, diziam que lá só tinham crianças pobrezinhas e gente se esfregando, uma pouca vergonha! Enfim, tudo o que eu sabia de uma vida aventureira se encontrava naqueles parques que acabo de lhe dizer; Ademais disso, vivia nos Shopping Centers, dentro dos cinemas e Game Stations... Essa era toda minha vida de criança no Recife.

 

Quando encontrei a Vivi na cachoeira lá em Lagoa de Itaenga eu estava numa situação inusitada, ao menos para mim naquela época, sabe? Calma, vou dizer. Aliás, já disse, eu tinha escorregado e me relei todinha nas pedras da cachoeira, se não fosse a Vivi... Ah, meu Deus, Vivi era praticamente da família!

 

Tudo bem, vou contar, ela ali, estava na cachoeira, me olhando de rabo de olho, era que eu, menina da cidade grande, queria não junto de mim os matutos da roça, mas veja, não me leve tão a mal, isso era o que me tinham incutido mainha e painho, eles, grandes médicos, me diziam que as perebas dos ricos e a dos pobres eram diferentes, veja só! Eu só podia crer como verdade... Além do mais, minha própria avó me dizia que quando rico morre, morre diferente de pobre. Confesso que morremos sim, diferentes, nós no luxo, eles na penúria, sofrendo sofrimento horrível... Caixão e vela preta!

 

Não que eu queira dizer que vamos para lugares diferentes..., sim, eu conheço a tal parábola do rico e do pobre... Mas não era pra menos, sendo Jesus filho de carpinteiro, achas mesmo que ele ia colocar o pobre no inferno e o rico no seio de Abraão? Ah, meu filho se toque!

 

Você não acha que estamos fugindo muito do foco? Tenho amigas que vivem me dizendo que gosto tanto de digressões que barro aquele meu velho ex-professor de Ciência Política e Teoria Geral do Estado!

 

O fato é que Vivi veio nova ainda aqui pra casa, todo mundo tinha gostado do que ela tinha feito –– pulou na cachoeira e foi nadando no fito de me socorrer lá em baixo... Pie só, eu estava sendo puxada pelas águas da cachoeira, e mais em baixo tinha outra... Seria mortal. Vivi me salvou.

 

Em troca disso, painho considerou dar-lhe um prêmio: uma oportunidade de viver na capital do Estado. Veja bem, você não acha inusitado, algo bom por demais da conta, para uma pessoa tão pobre e desajustada na vida? Os pais de Vivi cortavam cana, trabalho braçal insuportável naquela usina duns tais Campellos... Sabes qual seria sua maior herdade? Cortar cana como os pais e irmãos...

 

Lembrando disso eu até sinto que painho deve de estar agora no céu ao lado da Virgem ouvindo essa história que estou lhe contando e se arrepiando todo... Deus que lhe ilumine a alma! A caridade que fizemos, ninguém faz hoje em dia... Vivemos tempos de mentes secas, duma seca pior que a do sertão.

 

Daí, Vivi cresceu comigo, estudou numa escola daqui mesmo da capital. Como? Particular? Não, não, mainha colocou ela numa escola pública boa. Isso bastava, não? Considerando que ela não iria sequer estudar em Lagoa de Itaenga!

 

O que ela virou? Ora, claro que Vivi era nossa empregada! Ela foi por nós empregada para poder ter o dinheiro dela, para poder usar como bem lhe apetecesse, para poder ser alguém, entende? Ah, mas se eu ganhava mesada era porque era filha, se Vivi ganhava o dinheiro dela, era porque era trabalhadeira, e isso a ninguém repugna!

 

E daí, com a morte de painho, que Deus o tenha em firmes tronos, mainha já estava bastante velha e eu já casada e morando na mesma casa nossa no Poço das Panelas. Vivi, grande, tornou-se minha ajudante sem igual. Uma ajudante número um, sem falar que ganhou lá uns aumentos salariais... 

 

       Claro que foi por conta do plano real! Mas foram aumentos! Não diga que não foram, que importa o aumento das coisas, Vivi morava comigo, comia do meu pão, bebia do meu vinho, quer dizer, vinho mesmo ela num bebia não, não tinha costume, mas bebia da minha água, nunca precisou de comprar uma bolacha sequer, como disse, era praticamente da família!

 

       Meus filhos nasceram, e tanto eu quanto o Adalberto ficamos felizes da vida, nossa vida seria ainda melhor, e Vivi, ora, Vivi era a única pessoa em quem nós confiávamos para cuidar deles, para gerir seu carinho e cuidado... Vivi foi nossa babá.

 

       Mas veja só como o tempo passou! Estou eu agora com meus quarenta anos e minha filha mais velha com vinte! Vivi? Acho que deve ter minha idade, sempre foi maiorzinha, sabe?, nunca perguntei nem nada! Carteira de trabalho? Ora, já não falei que era quase da família?! Você assinaria a carteira da sua mãe? E não obstante ela sempre trabalhou pra você!

 

       Mas o problema veio quando Vivi arrumou aquele namorado! Quem já se viu, uma mulher de sues quarenta anos arrumando namorado, e foi numa folga que eu dei a ela para ela brincar o São João, ah meu Deus como eu me arrependo disso! Arrumou um traste de um namorado pelos lugares aí em que foi e, o que é pior... Engravidou! Sim, querido, isso mesmo, EN-GRA-VI-DOU!

 

       O que eu poderia fazer, meu Deus!, criar o filho de Vivi? Mas é claro que não! Já criei a própria Vivi, junto com minha mãe, ela era praticamente da família, tinha quarto, tinha cama, mesa e banho, tinha tudo, família e carinho, e jogou tudo por cima da janela como se fosse nada.

 

       Espaço? Mas é claro que minha casa tem espaço, mas a questão não é espaço, meu caro, é de espaço que vem o dinheiro que se gasta com comida, médico, consultas, escola, educação, moral e bons costumes e outras coisas mais que criança precisa? E veja, Vivi não era um bebê, tinha lá seus oito, nove anos, como eu, quando veio... Além do mais, na minha casa mando eu e meu marido, mas quando Adalberto cisma com alguma coisa, só posso fazer meu papel de boa diplomata. Adalberto disse categórico: “Não quero saber de menino chorando por aqui. Meus filhos já criei, essa daí que crie os dela”!

 

       Ora, não recrimine o Adalberto por dizer “essa daí” de Vivi, é que, os homens são mais estourados, não sabe? E ele, como quase um pai que foi pra Vivi, não podia ficar calado... Não, não, Vivi não foi minha madrinha de casamento, pra seu governo tenho grandes amigas, como poderia chamar Vivi?

 

        Falamos pra ela sobre esse problema e ela mesma resolveu voltar pra Lagoa de Itaenga, pra criar o filho lá. Disse ela, dis-se-E-la, que o tal namorado ia ajudar, quero ver como, só pode ser cortando cana!

 

        Não temo ter demitido Vivi, ou melhor, que conste que ela mesma é quem se despediu, só dói aqui no peito, sabe? Vivi era praticamente da família!

 

        Minha filha? Que tem minha filha? Sim, sim, minha filha está grávida do namorado... Mas veja, ele é estudante de direito da Universidade Federal, os pais são advogados e procuradores, tem escritório próprio, etc., boas relações na alta sociedade recifense, o rapaz faz despachos com desembargadores federais e estaduais..., não é a mesma coisa! Minha filha está bem assistida, e fez o que era certo, não foi com um desses quaisquer que ficam dançando forró por aí...

 

        Entenda, a mulher precisa mesmo de quem lhe dê de tudo. Homem sem dinheiro num pode ter mulher. Só tem mulher quem pode.

 

        Além do mais, já disse mil vezes, parece que você ainda não entendeu!, Vivi era pra-ti-ca-men-te, da família... Nunca disse que ela e-ra da família.

 

Mario Filipe Cavalcanti

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publicado às 21:18

Conto - Desejo

por Jorge Soares, em 18.01.14

desejo

 

Olhou-a pelo canto do olho. Timidamente. Nada. Nenhum gesto, nenhum sinal de que ela o percebia ali tão próximo. Tossiu, esperando que o barulho a fizesse virar-se. Ao contrário. Ela abaixou ainda mais a cabeça na direção da revista que a entretinha. Podia jurar que a tinha irritado. Será?

Era assim já havia um tempo. Ele se consumindo de paixão e de tesão a cada vez que entrava naquela sala apertada. Se esta sala fosse maior...

 

Se pelo menos as nossas mesas fossem mais afastadas... Tolice. Consumia-se dia após dia entre os batimentos acelerados e a vontade que crescia dentro das calças. E agradecia a Deus e ao diabo pela mesa de trabalho que encobria os seus desejos. Talvez se eu tivesse coragem de conversar com ela, se eu pudesse mostrar que sou um cara legal... Ilusão. Só os dois naquela sala apertada; e ele travado. Rotina. Ele, com seus documentos e processos. Ela, sempre ao telefone, no computador ou na sala do chefe.

 

No fim do ano, na festa da empresa, esbarrara nela uma ou duas vezes. De propósito. Só para pedir desculpas e obrigá-la a dar-se conta de que ele existia. Mas nem um muxoxo. Enquanto ainda dizia “desculpe”, ela já tinha sumido. Um inseto. Uma mosca. Era o que ele era. Não. Uma mosca chamaria a atenção pelo barulho irritante, mas chamaria a atenção. Ele, não. Não era mosca. Nem isso.

 

Naquela manhã, entrou na sala com ares de “hoje vai”. Perfume francês que só colocava para ir a festas ou a motéis baratos, das raras vezes em que aparecia uma mulher para transar. Roupa de missa; sapatos de Ano Novo; cabelos de boate — com topetinho feito a gel. "Topa sair comigo hoje?". Não, não estava bom. “E aí, gata, que tal um barzinho hoje?”. Que droga! Nem que tivesse 15 anos. “Escuta, tem tempo que ando querendo convidar você pra sair...”. Assim estava melhor, com reticências. Afinal, o máximo que podia acontecer era levar um fora. Um fora, esse era o problema. Não pela rejeição, à qual estava acostumado, mas por antever como seria a sua vida naquela sala apertada depois do fora. Convivência impossível, vergonha, frustração.

 

Desistiu, mais uma vez. Até a hora do almoço. Certo de que precisava dar um jeito no que sentia no coração e dentro das calças, tomou duas cervejas e um copinho de pinga durante a refeição. De comida mesmo, só umas três garfadas para forrar o estômago. Almoço de boteco: comida ruim, pinga barata. Que pena que não tenho grana pra mais um copinho, pensou, recontando o dinheiro. Conferiu o relógio de pulso e viu que ainda tinha uns trinta minutos, mas preferiu voltar para o escritório assim mesmo. Queria treinar o convite que faria a ela, antes de colocar na boca as balas de menta que comprara com o troco do almoço. Ah, hoje vai!, pensou, animado pelo álcool.

 

Assim que chegou, viu que o escritório ainda estava todo apagado. Dirigiu-se, então, à sala do chefe para fazer o que era de costume: quem chegasse primeiro, pela manhã ou depois do almoço, tinha a tarefa de ligar seu ar condicionado, arrumar sua mesa e recolher o lixo do cesto.

 

Entreabriu a porta. Silencioso e lento como sempre. E aí ouviu os gemidos. Parado na soleira, acostumou a vista à penumbra até conseguir enxergar os dois corpos contorcendo-se em sexo sobre a mesa de reuniões que ficava mais à direita, ao fundo. Macho e fêmea em sexo irrestrito. Sexo de braços, pernas, bocas e suor. Sexo com sons que ele nunca ouvira.

 

Pensou em sair bem devagar, pé ante pé. Depois, em sair e voltar para bater à porta. Por último, em sair e esquecer o que vira. No entanto, continuou ali, na porta, no escuro, consumindo a beleza daquelas nádegas que cavalgavam um corpo que bem podia ser o seu. Mas não era.

 

Ele e um medo súbito de ser visto. Ele e um medo covarde de que sua respiração entrecortada pudesse ser ouvida. Ele e um medo horrível de ser despedido e de ter que passar a viver sem ela, sem a sala apertada, sem o tesão embaixo da mesa. Foi quando lembrou que não era inseto. Não era mosca. Não fazia barulho. Nem isso. E seus olhos mergulharam novamente naquelas nádegas galopantes.

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:50

Conto - Cinthia Kriemler - Via dolorosa

por Jorge Soares, em 11.01.14

Via dolorosa

"...as prostitutas e os cobradores de impostos
vos precedem no reino dos céus".  

 

Começou a morrer no momento em que foi espirrada da barriga da mãe. Jogada em meio ao amontoado de imundícies do leito do rio, onde catadores bêbados, cachorros magros e ratos enfurecidos disputavam restos de comida, apodreceu em meio às cascas por algumas horas. Mas quis a sorte ou o azar que espremesse um choro azedo exatamente na hora em que Madalena, uma das putas da rodovia, fazia o seu ofício. Curiosa, a mulher escavou a montanha de entulhos e tropeçou os olhos no bebê, que se mexia muito pouco.
Kelly Cristina vingou nas mãos daquela mãe improvisada. E tomou mais corpo do que podiam suportar os olhos embriagados dos catadores e dos drogados que perambulavam pelas margens do rio. Aos 14 anos, já fazia a vida. Aos 16, tinha um dos melhores pontos no calçadão que margeava a rodovia paralela ao rio.  Era a preferida de motoristas e caminhoneiros, que a recolhiam embaixo do viaduto. Aos 17, mais tarde que a maioria, criou barriga. Como queria ver a cara da criança, escondeu a prenhez de Madalena, até que nenhuma das mulheres teve coragem de lhe fazer um aborto.
Viu a filha nascer bem cedo, em uma manhã de sexta-feira. E passou com ela pouco mais que um dia, antes de se levantar e ir trabalhar novamente. Na noite de sábado, apesar do cansaço, saiu para o ofício banhada e perfumada. Não sabia que, ao voltar, a criança teria ido embora. Madalena já tinha destino combinado para a menina e lhe deu sumiço sem avisar a ninguém. Kelly Cristina, histérica, esbofeteou-a para que dissesse onde estava a filha, mas tudo o que recebeu foi um abraço silencioso. Nunca mais soube da criança.  

 

OOO
É tarde da noite. Da vida, também. Kelly conhece o veneno que sacia o seu sangue. Vai morrer do prazer que sente pelo sexo de todo o dia. Não lhe interessa a saúde comprovada pelos exames pagos pela ação social da igreja, uma vez por ano. Seu corpo morre é de vontade, não de descuido; o corpo de curvas sensuais que é disputado sob o viaduto. Há nove anos, provou seu primeiro homem. Tinha gosto de pressa. Nunca mais experimentou coisa melhor que os homens da estrada. Faz com pressa o ofício até hoje. E goza.
O corpo do traficante com quem se amasiou depois de parir a filha acaba de sair porta afora. Ela olha o cadáver, se lembrando das surras quase diárias. Mas também das pedras de crack que ele lhe trazia. O puto só lhe entregava o bagulho em troca de um boquete demorado. Pau mole de merda, pensava, enquanto tentava acelerar o gozo do companheiro. O único contratempo na morte do infeliz é que ela vai ter que arranjar as pedras em outro lugar. Nem o filete de sangue que escorre da sua barriga a incomoda.

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:27

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