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"tuga timings!!!"

por Jorge Soares, em 09.10.14

burocracia2.jpg

 

O termo apareceu-me hoje a meio da tarde via email, uma mãe contava o seguinte:

 

"Aguardamos apenas que o tribunal informe a conservatória para o podermos fazer. E é neste "apenas" que reside a questão: ando há semanas a ligar para a conservatória indicada pelo tribunal a perguntar se já receberam a nossa informação e, até há pouco quando fiz o último contacto, nada. Já fomos pessoalmente ao tribunal por duas vezes perguntar quando fariam a comunicação à conservatória - fomos informados que seria o mais breve possível que "davam prioridade a estes casos, vá ligando para a conservatória a perguntar" e que no máximo na semana seguinte deveria estar tudo tratado. Não está. Infelizmente, em relação ao atraso do tribunal, não há aqui nada de surpreendente. Acabamos por nos habituar. Agora o que me tem custado muito a engolir é a arrogância, a deselegância e mesmo a forma desagradável com que me atendem da conservatória. Tenho ligado uma vez por semana. Verificam que não têm a informação  e invariavelmente sugerem-me, com maus modos, que ligue para a conservatória do assento de nascimento  ou que vá perguntar ao tribunal. Hoje o argumento foi "porque estou a ver que a senhora está com muita pressa em tirar os documentos", seguido de "e porque é que está a ligar para aqui? Sabe quantas conservatórias há nesta zona?"

 

Ao testemunho desta mãe seguiram-se outros mais ou menos nos mesmo termos e a Rita, que já passou pelo mesmo, terminou o seu comentário com:

 

Vai chegar, embora demore os ´tuga timings!!!

 

Percebo a ideia da Rita, os "tuga timing" é a medida normal para a demora dos processos burocráticos neste país, aqueles que ninguém sabe bem quanto tempo demoram, tanto podem demorar uma semana como 3 ou 4 meses, também ninguém consegue explicar porque é que demora tanto, mas lá está, como sugere a Rita, mais tarde ou mais cedo termina por acontecer.

 

O mais estranho é que pelo que percebi dos vários testemunhos, podem ou não ser abreviados, tudo depende da nossa capacidade de chatearmos os funcionários na medida certa sem que eles se chateiem connosco, da nossa capacidade de pedinchar, do bom ou mau humor de quem nos atende naquele dia e sobretudo, da nossa capacidade de arranjarmos forma de alguém naquele dia fazer o jeitinho de procurar saber o que se passa com os documentos... que podem estar perdidos no tribunal, na repartição na que estamos ou noutro sitio qualquer.

 

A verdade é que já estamos todos resignados aos "tuga timings", mas não devíamos, não há motivo nenhum para que após uma sentença em tribunal os documentos não estejam de imediato ao dispor dos pais para que possam registar os seus filhos, se basta um papel do hospital para registar um bebé, porque é que não basta um papel do tribunal para registar um filho adoptado?

 

Quanto tempo demora a digitalizar uma sentença e enviar por email para uma conservatória? E porque é que estas coisas não tem um prazo máximo para estarem prontas? Se calhar tem, mas é em "tuga Timing"...

 

Tenho um colega que há coisa de um ano teve de renovar a carta de condução, está desde então à espera que ela chegue, tem um papel que vai carimbando que diz que pode conduzir, mas ninguém lhe sabe explicar quando chegará a carta... lá está tuga timings.... Já repararam que se pedirmos um cartão de crédito os bancos não demoram mais que dois ou três dias na entrega?... como é que imprimir uma carta de condução demora mais de um ano?  "Tuga Timings"

 

Depois perguntamos-nos como é que este país não passa de um atraso de vida.

 

Jorge Soares

 

PS:Número de dias sem gritar - 6

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publicado às 22:53

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10 comentários

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De Olívia a 10.10.2014 às 08:43

E tem mesmo toda a razão em perguntar o porquê do país ser assim, um atraso de vida, mas este país no fundo são as pessoas e as suas mentalidades, eu já trabalhei numa faculdade e era verdadeiramente uma epopeia para que uma simples carta fosse enviada... era escrita por mim, revista pela chefe de secção, autorizada e assinada pelo presidente, pela pessoa responsável pelo trabalho e enviada à secção de expediente, ou seja a carta demorava nestas andanças mais de uma semana... o que para mim era de fazer bradar aos céus...
No processo de adopção a parte final da audição, sentença e envio para a conservatória foi mesmo a mais célere... talvez porque era um caso raro aqui na província, talvez porque as tais pessoas se tenham apercebido que era realmente importante e acelerassem o processo, não sei... mas tenho pena que tenhamos de viver realmente ao ritmo do "tuga timing"!
Só mais uma nota: as pessoas no atendimento ao público deviam deixar de pensar que estão a fazer favores a alguém, elas estão lá a receber um ordenado e por isso devem atender-nos com bons modos e de cara alegre!
Olívia
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De Jorge Soares a 13.10.2014 às 23:49

"as pessoas no atendimento ao público deviam deixar de pensar que estão a fazer favores a alguém, elas estão lá a receber um ordenado e por isso devem atender-nos com bons modos e de cara alegre!"

Deviam fazer cartazes com isto e colar por aí.. incluindo em algumas lojas privadas....

Jorge
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De mãe de coração a 10.10.2014 às 10:36

Pois é Jorge, comigo passasse o mesmo, ou semelhante! Quando fomos a tribunal a informação que nos deram no final da audiência era que no prazo máximo de 15 dias (que seria o prazo legal) nos enviariam carta com a sentença e ao mesmo tempo informariam a conservatória para poder tratar dos papeis. Ora esse prazo legal parece não ser assim tão concreto já que isto se passou há quase um mês e até agora nada de carta.
Se calhar também eu estou numa de "tuguisse" ao não pressionar o tribunal para obter uma resposta.
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De pimentaeouro a 12.10.2014 às 17:56

Caro amigo,
Está com muita sorte, já tive um processo em Tribunal que demorou... 18 anos!
è verdade, não foram 18 dias.
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De Jorge Soares a 13.10.2014 às 23:51

Por essas e por outras é que de vez em quando o estado é condenado ... nos tribunais internacionais, porque nos nacionais era coisa para demorar séculos em vez de anos.

Jorge
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De Jorge Soares a 13.10.2014 às 23:50

Nem sempre pressionar funciona.... mas eu sou daqueles que acho que se estamos a ser mal servidos devemos reclamar, porque temos deveres e direitos, não é só deveres.

Jorge
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De Joana Mendonca a 13.10.2014 às 16:35

Gosto muito de teres levantado essa questão, muito pertinente, mais uma vez. É uma questão algo complexa. Eu já vivi na Suiça, país onde tudo funciona. E onde curiosamente, há imensos portugueses. Lembro-me quando voltamos, um colega meu ter passado 1 dia inteiro na segurança social, e de no fim do dia ter dito à 10ª pessoa com quem falava: a sra. não faz a mais pequena ideia do que é um serviço eficiente. E esta frase diz tudo. Não é por mal, não é porque muitas pessoas não queiram, é porque nunca viram como é de facto um sistema a funcionar, e não fazem mesmo ideia o que isso quer dizer.
Algumas questões:
1. Codificação dos processos - se os processos estiverem completamente definidos e todos os intervinentes os conhecerem, não nos acontece ter diferentes respostas com diferentes intervenientes. Isto implica que qualquer cidadão, independentemente da sua origem, terá que passar pelos mesmos passos e todos sabem quais são;
2. Transparência - relacionado com o anterior, é a questão da transparência. Nós nunca sabemos bem o que temos que fazer e quando. Antes de começar um processo não sabemos os passos que vamos ter que passar. Se todos soubessemos, o sistema seria muito mais eficiente
3. Brio e responsabilidade - em Portugal ninguém tem a "culpa". andamos sempre a passar a porcaria da cruz para outro. Infelizmente, não existe uma cultura de brio e do orgulho em fazer bem feito. Isto não é só uma questão individual, mas sim uma questão de cultura das organizações que não estimulam que isso aconteça. E por isso, conseguimos ser passados de pessoa para pessoa.
Há com certeza mais pontos igualmente importantes. Este são aqueles que me lembro sempre.
Obrigada Jorge, pela discussão.
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De Joana Mendonca a 13.10.2014 às 16:37

E esqueci-me... este é um dos aspectos que maior dificulta a nossa produtividade. E por muitos feriados que se elimine, se não se elimina estes aspectos, não vai haver impactos significativos na produtividade. Eu acho que a solução passa pela educação (como sempre), mas como estamos a desaparecer, não sei se vamos a tempo. (desculpa os 2 comentarios longos...)
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De Jorge Soares a 13.10.2014 às 23:59

Não tenhas dúvida, a história dos feriados foi para calar a troika, porque todo o mundo sabe que se ponderarmos ganhos e perdas da economia, se calhar o país saiu a perder... de resto concordo, a questão da produtividade é um problema cultural e só se resolve com educação e mudança de mentalidades

Jorge
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De Jorge Soares a 13.10.2014 às 23:56

Concordo com tudo o que dizes.... o problema é que para que as coisas funcionassem como dizes, primeiro era necessário que se conseguisse colocar os sistemas individualmente a funcionar... e não sei se isso interessa a alguém, se calhar há um motivo para que as coisas não funcionem... como deve haver um motivo para que a plataforma que gere a justiça não funcione....

repara há centenas de empresas neste país que conseguem ligar fábricas, lojas e locais pelo país e até com o estrangeiro, conhecimento e experiência não falta.... Eu trabalho numa empresa que tem fábricas em 4 países e escritórios em mais dois... e está tudo ligado e funciona.... como é que o estado com muito mais recursos humanos e dinheiro não consegue ligar os tribunais?

Deve haver uma explicação lógica qualquer, não achas?

Jorge

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