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Álvaro de Campos ODE TRIUNFAL

por Jorge Soares, em 14.01.19

alvaro-de-campos.jpg

 

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical - 
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força - 
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, 
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma máquina! 
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 

Fraternidade com todas as dinâmicas! 
Promíscua fúria de ser parte-agente 
Do rodar férreo e cosmopolita 
Dos comboios estrénuos, 
Da faina transportadora-de-cargas dos navios, 
Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 
Do tumulto disciplinado das fábricas, 
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 

Horas europeias, produtoras, entaladas 
Entre maquinismos e afazeres úteis! 
Grandes cidades paradas nos cafés, 
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas 
Onde se cristalizam e se precipitam 
Os rumores e os gestos do Útil 
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 
Novos entusiasmos de estatura do Momento! 
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas, 
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos! 
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific! 
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis, 
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, 
E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram 
Pela minh'alma dentro! 

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule! 
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras! 
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos; 
Membros evidentes de clubes aristocráticos; 
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes 
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presença demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) 
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente, 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma lá dentro! 

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) 

A maravilhosa beleza das corrupções políticas, 
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, 
Agressões políticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regicídio 
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus 
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana! 

Notícias desmentidas dos jornais, 
Artigos políticos insinceramente sinceros, 
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes - 
Duas colunas deles passando para a segunda página! 
O cheiro fresco a tinta de tipografia! 
Os cartazes postos há pouco, molhados! 
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca! 
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, 
Como eu vos amo de todas as maneiras, 
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto 
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) 
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! 
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós! 

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! 
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência! 
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, 
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, 
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios! 

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos! 
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! 
Olá grandes armazéns com várias secções! 
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem! 
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem! 
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! 
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! 
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! 
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. 
Amo-vos carnivoramente. 
Pervertidamente e enroscando a minha vista 
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, 
Ó coisas todas modernas, 
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima 
Do sistema imediato do Universo! 
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus! 

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, 
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes - 
Na minha mente turbulenta e encandescida 
Possuo-vos como a uma mulher bela, 
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, 
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima. 

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! 
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! 
Eh-lá-hô recomposições ministeriais! 
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, 
Orçamentos falsificados! 
(Um orçamento é tão natural como uma árvore 
E um parlamento tão belo como uma borboleta). 

Eh-lá o interesse por tudo na vida, 
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras 
Até à noite ponte misteriosa entre os astros 
E o mar antigo e solene, lavando as costas 
E sendo misericordiosamente o mesmo 
Que era quando Platão era realmente Platão 
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, 
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele. 

Eu podia morrer triturado por um motor 
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. 
Atirem-me para dentro das fornalhas! 
Metam-me debaixo dos comboios! 
Espanquem-me a bordo de navios! 
Masoquismo através de maquinismos! 
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho! 

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, 
Morder entre dentes o teu cap de duas cores! 

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! 
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!) 

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! 
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas. 

E ser levado da rua cheio de sangue 
Sem ninguém saber quem eu sou! 

Ó tramways, funiculares, metropolitanos, 
Roçai-vos por mim até ao espasmo! 
Hilla! hilla! hilla-hô! 
Dai-me gargalhadas em plena cara, 
Ó automóveis apinhados de pândegos e de..., 
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, 
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria! 
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! 
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, 
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, 
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto 
E os gestos que faz quando ninguém pode ver! 
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, 
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome 
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos 
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas 
Nas ruas cheias de encontrões! 

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, 
Que emprega palavrões como palavras usuais, 
Cujos filhos roubam às portas das mercearias 
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - 
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada. 
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa 
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. 
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães 
Que está abaixo de todos os sistemas morais, 
Para quem nenhuma religião foi feita, 
Nenhuma arte criada, 
Nenhuma política destinada para eles! 
Como eu vos amo a todos, porque sois assim, 
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, 
Inatingíveis por todos os progressos, 
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! 

(Na nora do quintal da minha casa 
O burro anda à roda, anda à roda, 
E o mistério do mundo é do tamanho disto. 
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. 
A luz do sol abafa o silêncio das esferas 
E havemos todos de morrer, 
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, 
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa 
Do que eu sou hoje...) 

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! 
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. 
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios 
De todas as partes do mundo, 
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! 

Eh-lá grandes desastres de comboios! 
Eh-lá desabamentos de galerias de minas! 
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! 
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, 
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, 
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim, 
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, 
E outro Sol no novo Horizonte! 

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto 
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, 
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? 
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, 
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, 
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico, 
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes 
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. 

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, 
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, 
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, 
Engenhos brocas, máquinas rotativas! 

Eia! eia! eia! 
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! 
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! 
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! 
Eia todo o passado dentro do presente! 
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! 
Eia! eia! eia! 
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! 
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. 
Engatam-me em todos os comboios. 
Içam-me em todos os cais. 
Giro dentro das hélices de todos os navios. 
Eia! eia-hô! eia! 
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade! 

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! 
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia! 

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! 

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! 
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o! 

Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! 

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa .

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publicado às 21:52

 

Feliz natal a todos os que alguma vez nos sentimos ouriço cacheiro e a todos os amigos que nos ajudaram a esconder os picos.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 14:30

 

Vídeo do Observador, carreguem na imagem para ver

Acho que não há palavras para o que vemos aqui, estes senhores foram eleitos para representar o povo  e estão na assembleia da república a denegrir o povo. 

 

Sei que são ambos do PSD, não faço ideia porque distritos foram eleitos mas era engraçado ir perguntar a quem os elegeu, quem votou no partido deles nesses distritos, se foi para isto que os elegeram e se se sentem representados nestes comportamentos.

 

Evidentemente deviam deixar os lugares de deputados de imediato, isto para além de mais é fraude.

 

Triste a imagem destes politicos, depois querem que votemos neles?

 

Jorge Soares

 

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publicado às 07:51

Conto - A Constituição de Tal

por Jorge Soares, em 24.11.18

ovos.JPG

Foto: Faces em ovos de galinha, série criada por kozyrev-vjacheslav 

 

Domingo, oito da noite. Rua pequena, cidade grande. O tropel de cinco ou seis pares de botas não tem testemunhas senão a própria vítima. Socos, pontapés, massacre. Um grito de medo, muitos de impotência. 
 
Mais tarde, no leito de um hospital público, não é a dor que enlouquece o paciente, mas as palavras que estacionaram em seus ouvidos, como mantras do mal: Viado! Viado aidético!
 
João José Manuel Raimundo de Tal tem a cabeça rachada em três lugares. Ou, para falar no jargão médico, sofreu traumatismo craniano. Sofre, ainda, da incredulidade de que tudo tenha mesmo acontecido. 
 
Esse cenário de violência homofóbica repete-se dia sim outro também nas cidades, nos jornais e na história dos que apanham por serem diferentes do que lhes tenta impor a massa obtusa. Apanham por serem o que são. Pessoas. Como a bailarina cujos dedos do pé são feios e tortos. Como o mecânico cujas unhas estão sempre negras de graxa. Como a freira cuja fé repele os homens da Terra para se entregar à Trindade dos céus. Vontades libertadas por prazer, hábito ou fé. Escolhas. 
 
Enquanto isso, no hospital público, João José Manuel Raimundo de Tal, cidadão trabalhador, filho de alguém, irmão de alguém apalpa a cicatriz que desce pela face. Vidro cortado; enterrado com sadismo em sua bochecha. Quer entender também a cusparada que levou antes do corte. Porque cuspe é mais que dor de corte. É humilhação. E compreender a dor de desespero que arde e coça dentro do peito. Mais que a cicatriz.
 
O policial de plantão cumpre o seu papel. Anota nome, endereço, detalhes e dá a queixa como prestada. Segue para o próximo caso. Um travesti de programa. Estupro seguido de esfaqueamento. Ninguém responde por ele. O traveeti foi morto e o policial com a prancheta se aborrece porque acredita que preencher a papelada é tarefa menor. Ele pega bandido. Papel é coisa de babaca. Mas tem muito crime e poucos homens para cobrir a megalópole, cada vez mais inchada. 
 
João José Manuel Raimundo de Tal consegue um advogado. Um doutor que lhe conta a que leis vai recorrer para colocar atrás das grades os agressores, capturados em razão de novos ataques a homossexuais. De Tal presta atenção às palavras bonitas da Constituição brasileira. E acredita que, perante a lei, é igual a qualquer outro homem, protegido do preconceito, da surra, do cuspe na cara. Não sabe ainda que, no Brasil, a incoerência, o deboche e o ódio não acontecem pelo texto ilibado da lei, mas pela prática diária da impunidade, pelo abrandamento das penas, pela vilania disfarçada em bons modos. 
 
No tribunal, os skinheads são julgados. Seis meses depois. E condenados a prestar serviços à comunidade. Mas João José Manuel Raimundo de Tal não se impressiona com a morosidade da Justiça. Nem com o número de crimes similares de que são acusados os nazistas de cabeças-raspadas. Nem a pena branda. O que mais lhe chama a atenção é o juiz que profere a sentença sem olhar na sua direção ao menos uma vez. O juiz que repudia a homossexualidade de João José Manuel Raimundo de Tal. Mas que se faz de imparcial, porque é um homem de leis. 
 
A dor do traumatismo passou. A da cicatriz de dentro continua. Sem previsão de passar. É dor de preconceito. 
 
Cinthia Kriemler

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publicado às 19:42

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Imagem da RTP

"Os trabalhadores eventuais são contratados ao turno e, quando fazem mais do que um ou dois turnos, podem ser contratados e despedidos duas e três vezes no mesmo dia” (retirado de aqui)

 

Segundo a mesma noticia esta situação mantém-se desde há pelo menos 25 anos, 25 anos? Há pessoas que se sujeitam a isto durante anos e anos?  

 

Eu consigo perceber que alguém se sujeite a algo assim por necessidade durante uns meses até arranjar um emprego a sério, mas durante anos e anos? Porquê? Estas pessoas pagam segurança social? Tem direito a férias, a subsídios de natal e de férias? Será que um dia terão direito a reforma? São muitas perguntas... 

 

Imagino que nada disto seja ilegal, mas como é que o estado permite tal coisa? Como é que uma empresa que é tão importante para o porto de Setúbal, para as empresas que o utilizam e até para a economia do país, pode funcionar há anos e anos sem ter o mínimo de funcionários para garantir o seu funcionamento?

 

Todos ouvimos falar dos funcionários em greve, mas será que realmente isto é uma greve? Afinal nenhuma daquelas pessoas tem emprego, para todos os efeitos são desempregados, se o contrato é feito e desfeito todos os dias, se não se apresentam ao trabalho não estão em greve, estão desempregados. É válido um pré-aviso de greve que se refere a pessoas que não são empregadas da empresa?

 

Tudo isto é no mínimo bizarro, pode ser legal, mas não é de certeza ético, não pode ser ético contratar e despedir dezenas de pessoas todos os dias e por um único dia. Se as leis o permitem então as leis estão erradas e alguém as devia mudar.

 

Hoje havia deputados do bloco de esquerda e do PCP entre os manifestantes que foram retirados pela policia da entrada do porto, percebo o objectivo de lá estarem, mas espero sinceramente que esse apoio se continue a manifestar sobre a forma de projectos de alteração à lei de modo a que no futuro nada disto seja permitido. Se não o fizerem então só lá estiveram para tirar vantagem política da luta dos trabalhadores.

Jorge Soares

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publicado às 22:05

Em Borba não há consciência

por Jorge Soares, em 20.11.18

pedreira borba.jpeg

Imagem da TSF

Nas minhas idas e vindas diárias tenho sempre a Antena 1 sintonizada no rádio do carro, nos dois últimos dias ouvi vários depoimentos sobre o passado recente da estrada que liga Borba a Vila Viçosa. Pelos microfones da rádio passaram populares, empresários das pedreiras, ex-autarcas e autarcas.

 

Desde o primeiro momento em que ocorreu o demoronamento ficou claro, para mim e acho que para o resto do país, que havia muita gente a achar que a estrada devia estar encerrada. Alguém disse que tinha estado numa reunião em que se discutiu a segurança e o futuro da mesma, até porque já existe uma variante. Reunião essa inconclusiva porque não teria havido o acordo entre a câmara, dona da estrada, e alguns dos empresários das pedreiras.

 

Acho que não restam dúvidas que havia conhecimento sobre o perigo latente e a noção de que mais tarde ou mais cedo isto poderia acontecer.

 

Hoje nas noticias da manhã entrevistaram o presidente da câmara de Borba que ante a tragédia que todos conhecemos, com a maior das calmas dizia que tem a consciência tranquila... 

 

Vejamos, a estrada é municipal logo da responsabilidade da câmara, ou seja, dele. A câmara, ou seja, ELE, sabia que a havia um perigo latente e  apesar desse conhecimento e até de alguns avisos, nada fez para evitar a derrocada e a  tragédia que agora aconteceu. Sabemos que há pelo menos duas vitimas mortais e suspeita-se que possam ser 5 ou 6...  E o senhor tem a consciência tranquila.... será que ele sabe o que é a consciência?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:36

Eu e o meu mau feitio, promoções do Continente

por Jorge Soares, em 18.11.18

continene.jpgImagem de aqui

Já cá faltava o meu mau feitio, eu não mudo e reclamar faz parte, sobretudo quando me deparo com erros e abusos.

 

Se calhar sou eu que tenho azar, a primeira vez aceitamos o erro, à segunda desconfiamos, à terceira achamos que há algo de errado com o sistema.

 

Há coisa de um ano abriu um Continente Bom Dia aqui na esquina, por uma questão de comodidade passei a ser cliente, especialmente das promoções. Com o tempo percebi que apesar de que se pode aproveitar muito, convém termos atenção, porque há coisas que falham .. e que se não estamos atentos o barato pode ser mesmo caro.

 

A primeira vez foi com um detergente para a loiça, era a caixa maior da marca topo de gama, o preço normal era acima de 19 Euros e estava em promoção por pouco mais de 4 .... a diferença era tão grande que não havia como não notar na conta, apanhei um susto. Tive que ir ao sitio com a menina na caixa porque ela insistia que o produto não estava em promoção .... depois de ver na prateleira lá se convenceu.

 

A segunda vez foi com uma garrafa de vinho rosé alentejano, preço normal 12 Euros, preço em promoção 3 e qualquer coisa, de novo tive que lá ir com a menina, que inicialmente me levou a um local onde o vinho estava a 12 Euros, mas eu levei-a onde estava com preço de 3... eles tinham o vinho em dois locais da loja com dois preços diferentes.

 

A última vez foi no dia de halloween, latas de sidra marcadas a 90 cêntimos que na caixa apareceram a 1.6... esta vez eu não fui lá, disse à menina que faltava a promoção da sidra,  ela foi lá sozinha e voltou com a etiqueta na mão, a dizer que a promoção tinha terminado no dia 29.. dois dias antes,. Pois, mas eu não tenho culpa que não troquem as etiquetas ... a contragosto e depois de uma reposta não vou dizer torta, mas dada de uma forma que eu não chamaria conveniente, lá veio a supervisora que desceu o preço para mim. Em dois dias quantas pessoas terão sido levadas ao engano?

 

Eu percebo que haja enganos, mas três vezes em poucos meses é abuso, e sinal de que temos que estar atentos, porque pelos vistos o rigor é coisa que não abunda, pelo menos nesta loja.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:19

Conto - A câmara pornográfica

por Jorge Soares, em 17.11.18

pornográfica.jpg

Quando Lobato faleceu ninguém tinha ou sabia da chave do escritório, e evitando a janela lateral, pois situava-se o apartamento no oitavo andar, viúva e neto recorreram a um chaveiro com a finalidade de ordenar o seu espólio. Sendo ele investigador de polícia, adentraram o recinto na expectativa de relatórios, inquéritos e documentos, mas ali debateram-se com outro espetáculo: era o crepúsculo de uma quarta, e nem o sol moribundo como fonte de iluminação deixou de projetar nas muralhas daquele covil um sem número de silhuetas lascivas, concebidas a partir dos periódicos estocados em caixas e armários, tantas as revistas eróticas quanto as categorias de depravação.

A viúva, mulher franzina e apagada, cheia de hesitações, se não foi molestada pelas protuberâncias e quinas o foi pela simples existência, pelo que viu e sentiu ao defrontar-se com as obsessões do falecido. Colocou uma das mãos na testa e a segunda no peito, e acudida pelo neto, que antes enxotou o animado chaveiro, sentou-se de cócoras.
 
Ai, ciciou Helena, como dói.
 
Tamanho susto resultou no cancelamento da missa de sétimo dia e no silêncio dos familiares, e já então, graças à faxineira, conhecidos e desconhecidos discutiam o evento e os mal-intencionados atribuíam tais indecências à viúva e não ao velho. Roger, o neto, desdenhando as fofocas e servindo-se do sono barbitúrico de sua avó, com interesse técnico folheou uma ou duas, ou três ou trinta, e ao decidir livrar-se delas recorreu a um terceiro, desembolsando o triplo do acertado quando o mesmo viu as gravuras e recusou-se a trabalhar.
 
Ante o sorriso do porteiro levaram-nas dentro de caixas e despejaram-nas numa carroça, e depois de seis viagens o aposento enfim cintilava, em harmonia com o crucifixo acima da janela. Por ela ingressavam os raios da tarde silenciosa, destacando-se nos móveis um suor endurecido como cera de vela, estrias feitas à unha e, no chão, entre os ladrilhos de madeira, fios de musgo, e isso viu Helena da última leva sair. À noite sua ínfima compleição assumiu outra estatura sobre a cama, onde esparramou-se alegre, satisfeita, joelhos escancarados e ventre arejado, dir-se-ia uma vítima de atropelamento. De manhã acordou com os automóveis, e após saborear o café armou-se de esfregão e balde, decidida a tornar o escritório habitável. Para lá foi assoviando, e sua felicidade excedia, e muito, o luto, não mais expresso na escuridão dos trajes ou no cansaço do rosto, resultando esse sentimento de uma ingenuidade e devoção animalesca ao presente. Saltitante, largou os utensílios ante a porta, e de abrir a fechadura esmoreceu: o quarto, novamente, estava atulhado de revistas pornográficas.
 
Ao vir em seu auxílio, o neto, impaciente, questionou-a, indagou se não era ela quem servia-se da ocasião com o intuito de jogar fora as suas, e só suas, imundícies, mas a velha, usando de argumentos lógicos e lúcidos, demonstrou que não teria a força exigida para movimentar tanto peso, ou mesmo que as dimensões do apartamento não comportariam tal volume.
E, de noite, não ouvi nada, assegurou.
Ríspido e nervoso Roger chamou o papeleiro, que ao ir embora em sua carroça era acompanhado por um séquito de bêbados alvoroçados, malucos desnudos e crianças peçonhentas, todos enfrentando as chicotadas do condutor e disputando as brochuras que porventura caíam. Essa madrugada Helena enfrentou desperta, virando-se e explorando os limites da cama, ouvindo os roncos do neto que, desconfiado da avó, pernoitou na sala e com a aurora redescobriu pela terceira vez o aposento atulhado de publicações, um pôster orgiástico exibindo-se num dos armarinhos.
 
Mas isso é o cúmulo, ralhou ele, e Helena lacrimejava ao seu lado.
 
Desconsolados, neto e avó sentaram-se e discutiram a ocorrência. Bebericando água com açúcar, chegaram à conclusão de que nenhuma hipótese verossímil explicaria o fenômeno, e por fim reputaram o mesmo a uma assombração. Helena prontificou-se a convocar o pastor local, Benício, e feita a ligação telefônica no mesmo dia o religioso adentrava a sala e alisava as revistas com o cuidado de quem maneja explosivos. Era um homem de noventa anos, forçado à pequena estatura pelo tempo, mas outrossim enérgico, com mãos translúcidas e compridas, desproporcionais ao corpo. Disse ele que não era aquele um caso de assombração ou possessão, era sim a mítica figura da câmara erótica, descrita no evangelho apócrifo de Rocco e nas crônicas de Zabed, o sábio, além de mencionada em numerosos episódios da história ocidental e oriental.
 
Essa câmara, essa distinção arquitetônica, disse ele, é a manifestação sexo-espacial do universo, um local destinado às múltiplas variantes carnais existentes. Secando o canto da boca com seu lencinho, também disse que alguns eruditos inferiam a possibilidade de tais recintos serem expurgados via liturgias heréticas, e a terminar seu discurso trancou-se no aposento e enfrentou a madrugada e sabe-se lá quais e quantos demônios, com as últimas estrelas assomando dali abatido, o braço direito caído e sem forças.
 
O rito falhou, confessou ele à viúva enquanto Roger encaminhava-se ao escritório. O rito falhou. Envolvia seus olhos avermelhados uma bolsa de escuridão, e trêmulo e fora de si quis tascar um beijo sulfuroso, final, em Helena. Lutaram os dois, e arranhando-o de cima a baixo, chutando-o na canela, conseguiu expulsá-lo dali. Roger, retornando do quarto, ao ver a avó perguntou se Benício fora embora, pois nada ouvira do embate. Ela nada falou, abatida, somente abraçou o neto e entreviu, no bolso de sua calça, uma revista enrolada.
 
Vou descansar, disse, soltando-o, e evitou seu rosto. 
 
Mas e a senhora não sair um pouco, esquecer esse lugar, indagou ele.
 
Helena recusou a oferta. Queria dormir, descansar, e de Roger sair, convencido, agarrou ela um frasco de álcool e uma caixa de fósforos e dirigiu-se ao escritório. Sentou-se na cadeira do falecido, rota e rasgada mas nunca rangente, e dali observou o local. Premiam-lhe os lábios a infeliz musculatura da boca e uma maçaroca de rugas acinzentadas. Suspirou a viúva, avó e mulher, e pegando do chão uma publicação intitulada ‘Colegiais Japonesas Albinas e Tentáculos de Outro Mundo’, massageou os seios combalidos e deu-se por vencida.
 
As de copas
 
Retirado de Samizdat

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publicado às 20:47

Livro - O Heroi Discreto - Mário Vargas Llosa

por Jorge Soares, em 13.11.18

O-Heroi-Discreto.jpg

Terminei de ler há bocadinho, no fim dei por mim a olhar para  a capa e a pensar:

 

-O Herói discreto??, raio de coisa, li o livro até ao fim e não fazia ideia do nome.

 

Mário Vargas LLosa é um dos meus escritores preferidos, desde "A cidade e os cachorros" que li e me marcou ainda adolescente, passando por o fantástico "A tia Júlia e o escrevedor"  até "Travessuras de uma menina má" de que falei aqui nos primórdios do Blog, se não li todos, li a maioria dos seus livros.

 

Hoje percebi que comprei o livro não pelo nome mas sim pelo autor, aliás, se olharmos para a capa percebemos que o objectivo será mesmo esse, o nome quase que se perde no meio do nome do autor.

 

O autor tem uma forma de escrita característica, as várias histórias vão-se contando entre capítulos numa linha desconexa que algures se há-de encontrar lá para o fim. A sensação com que ficamos é que não estamos a ler uma história, mas sim duas ou três.. ou várias.

 

Neste livro é ainda mais estranho,  há histórias e até diálogos que se misturam no meio dos capítulos, sem que isso nos faça perder o fio à meada ou o interesse pela história

 

Podemos gostar mais ou menos dos livros, mas Vargas Llosa não perde o jeito, eu não tinha gostado nada de um dos últimos que li e que supostamente até o levou ao prémio Nobel, e de que falei neste post, este fez-me reconciliar com o autor. As histórias de cada uma das personagens vão-se compondo pouco a pouco até nos deixarem uma imagem forte da sociedade e das formas de vida do Peru e do seu povo.

 

Um excelente livro, que aconselho vivamente

 

Sinopse:

"Felícito Yanaqué é um homem de cinquenta anos, respeitado pela comunidade e proprietário de uma empresa de transportes que fundou e fez prosperar na cidade de Piura, no noroeste do Peru. Sem instrução, oriundo de uma família pobre e gestor cuidadoso dos seus bens, Felícito conquistou tudo a pulso, de uma forma tranquila, discreta e constante, atributos que se poderiam também aplicar à sua personalidade. Casado, com filhos já adultos, Felícito Yanaqué mantém uma amante de longa data, exuberante beleza da cidade. E também outra relação - não de natureza sexual - com Adelaida, uma vidente cujo conselho Felícito segue quase sempre, quer se trate de negócios ou de matéria puramente pessoal ou, mesmo, íntima.

Tudo corre bem na sua cidade; tudo normal. Só que Felícito Yanaqué começa a receber cartas anónimas de extorsão; e quando a ameaça de represálias passa à concretização, Yanaqué decide resistir a tudo isto sem apoio, estoica e discretamente. Como um herói.

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publicado às 22:55

Conto - A Selva

por Jorge Soares, em 10.11.18

aselva.jpg

 

Há muito que os homens saíram da selva. Não lhes servia tanta incerteza, tanto perigo de vida. Aos poucos, com avanços e recuos, organizaram-se para autodefesa, assistência mútua, caça. Criaram normas de funcionamento coletivo do grupo, muitas vezes tácitas, outras bem expressas. Para evitar aproveitamentos egoístas. Para que o grupo fosse o lar de cada um. E afastaram-se da selva e das suas práticas ferozes.
 
 
Sem que o percebessem, os animais observavam-nos, curiosos, e acabaram por conseguir copiar o Conselho da Tribo. Pelo menos em alguns dos seus aspetos formais. Chamaram-lhe o Conselho da Selva e funciona desde então. Reúne-se uma vez por ano, ou a qualquer momento, em sessão extraordinária, a pedido de algum grupo. Geralmente, é apresentado um problema, levantada uma questão, feita uma queixa ou uma reivindicação. Segue-se alguma troca de ideias, muita algazarra, mas por fim o Conselho costuma concluir com uma declaração por maioria absoluta.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
*
Imagem: Henri Rousseau (o alfandegário), Cavalo atacado por um jaguar, 1910.
 
Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13


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