Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A vindima

por Jorge Soares, em 07.03.09

Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. E à noite, na cardenha, o Vitorino, com a namorada ali quase à mão de semear, não parava sobre a palha centeia, o colchão de todos. Era um rolar sem tino para um lado e para o outro, que metia aflição.

- Tu que tens? - perguntava-lhe o Rasga, farto de conhecer a causa do formigueiro.
- Nada... - e continuava a mexer-se, cada vez mais insofrido.
Como troncos derrubados, os restantes homens da roga jaziam estendidos e adormecidos no chão. Apenas os dois amigos velavam, a vigiar-se mutuamente.
- Vou até lá fora - disse por fim o Vitorino, sem poder mais. - Não me apetece dormir...
E saiu.
Pé ante pé, o Rasga foi-lhe no encalço. E o que havia de ver?... Um noivado ao luar, com a terra empapada de doçura a servir de lençol.
Passou a mão pelo restolho da barba, numa melancolia de faminto sem pão, e deixou os felizardos na paz do Senhor. Quando de madrugada o outro voltou à cama, só lhe disse:
- Valha-te Deus, homem! E agora?
- Agora caso com ela, pois então! Isto nem tira nem põe. O que se há-de fazer ao tarde...
Pela manhã a vindima continuou. Orvalhados, os bardos de moscatel eram polipeiros de olhos irónicos e coniventes. E a Lúcia, sumida no entrançado de vides e de folhas, enquanto cegava aquelas pupilas abelhudas, parecia um rouxinol:
 
Eu já vi a Tiraninha 
A beber numa cabaça, 
Olha a raça da Tirana 
Que até no beber tem graça.
 
Ninguém lhe levava a palma. Desde a saída de Lamares que não se calara mais. À frente da estúrdia, de xaile à cabeça e cesta no braço, atirava com a voz bonita pelos montes a cabo, que nem o pai, no maio, a semear milhão.
O harmónio repenicava-se todo em redor dela. Os ferrinhos a dizerem que sim, que sim. E o bombo, apesar da tristeza a que a pele de cabra o condenava, a fazer quanto podia para dar também um ar da sua graça.
A lama de cinco meses de inverno, que a primavera apenas endurecera, era agora uma camada de poeira fofa pelo caminho além, a escaldar. O sol, depois de empassar as uvas, queria empassar a terra. Invulnerável, porém, o raio da rapariga rompia por ali adiante, com asas nos pés. E, mal o Doiro apareceu lá em baixo, ao fundo, como uma veia aberta a escoar-se morosamente do corpo ciclópico dos montes, atirou logo:
 
Foi no Pinhão... 
Ia a vindimar um cacho, 
Vindimei-te o coração.
 
Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto, onde a alma corre de fraga em fraga, sempre à vista do céu. Encostas negras, em escada, cobertas de estevas ou eriçadas de zimbro, faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao pé. À esquerda, um despenhadeiro de meter medo; à direita, uma penedia por ali acima, que só de vê-la faltava a respiração; ao longe, mortórios escalvados e desiludidos. Mas o grande rio doirado, que a luz da tarde transformara numa barra cintilante, chamava a si toda a atenção dos olhos, e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada.
Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la, ou inspirada pela beleza do cenário., a Lúcia punha o coração a voar:
 
A oliveira da serra
O vento leva a flor...
 
Só mesmo por alturas de S. Cristóvão é que esmoreceu. Ao passar diante do cemitério aproado como uma galera de morte no mar verde dos vinhedos, uma tristeza súbita calou-a. Obra dum suspiro, apenas. Daí a nada arrebitou outra vez, e, ao chegar à Arrueda, levava tudo adiante.
 
Rita, arredonda a saia, 
Rita, arredonda-a bem...
 
Nem a cara seca e vermelha do Sr. Berkeley, o patrão, lhe meteu medo. Enquanto os mais, num respeito de escravos, se descobriam ou cumprimentavam aquele símbolo do trabalho e dos ganhos na Ribeira, continuou a cantar como se nada fosse, e à noite, ao deitar, ainda trauteava uma moda.
Foi a Guilhermina, já enfastiada, que a mandou calar.
- Não estás farta, mulher?! Riu-se e continuou na dela. E agora, ao cabo de quatro dias de azáfama, tinha ainda a voz fresca como uma alface. E com segundas...
 
Eu hei-de te amar, Tirana, 
Eu hei-de te amar, eu hei... 
Eu hei-de te amar, Tirana, 
Duma maneira que eu sei...
 
Os dois rapazes riram-se, num mútuo entendimento da significação oculta da cantiga. Depois, maldoso, o Rasga comentou:
- O que vale é que a Tirana tem as costas largas...
Ergueu o vindimeiro, ajeitou-o na troika e foi juntar-se aos outros companheiros, enquanto o Vitorino ficou a olhar com ternura a rapariga, bem feita, desembaraçada, certamente fecundada já pelo seu amor.
Dispersa pela encosta, a roga mais parecia festejar um deus generoso e pagão do que trabalhar. Os geios eram degraus do Olimpo, onde crescia e se colhia o espirito celeste. Cada canção - um hino de louvor. E os cestos acogulados, que desciam a escadaria de xisto aos ombros dos fiéis devotos, numa fila indiana, sonora e ritual - a dádiva desse amantíssimo Senhor, que só pedia contentamento em troca dos seus frutos.
Dir-se-ia que tudo naquele paraíso suspenso se movimentava lúdica e religiosamente. Nenhuma mágoa, nenhum ódio, nenhuma desconfiança do futuro. Alegre, a alma de cada romeiro entregava-se pressurosamente ao esquecimento colectivo que alijara do mundo as misérias e os desenganos. O tear mágico urdia desumanização. E só quando um dos fios da meada emperrava, e havia - um solavanco no ritmo do cerimonial, é que se via que uma vontade prática subjazia ali, vigilante e profana. Ainda o Vitorino não acabara de sair da sua contemplação, já o Seara, o feitor, lhe berrava aos ouvidos:
- Tu andas parvo ou quê? Mexe-te! Ergue e espera-me no armazém, que tens que preparar uma vasilha.
 
Chora videira, ó videirinha; 
Chora videira, ó vida minha...
 
Cantavam todos. E o bombo, com a sua voz pesada, como que dava forma à incorpórea harmonia que, descuidada, descia em cascata pelos socalcos.
 
Chora videira, ó videirão; 
Chora videira, ó meu coração.
 
Não havia tristeza que entrasse naquelas almas. Principalmente na de Lúcia, cada vez mais agradecida ao céu pela sua redenção terrena.
Entretanto, porque o deus da abundância não se cansava de multiplicar o mosto no lagar, para arranjar onde o meter, o Vitorino deslizava submisso pela portinhola dum tonel, tal as vítimas dos sacrifícios antigos pela boca do dragão.
Lá fora continuava o coro. E o Seara, por causa daquele barulho e do ouvido duro do Sr. Berkeley, quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre, quase teve de berrar.
Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez.
Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia.
Transida e comandada por tão grave silêncio, a roga emudeceu também.
Só a Casimira velha, desgarrada numa valeira solitária, que não ouvira nada da morte do Vitorino, asfixiado dentro do bojo da cuba, continuou a agoirar a tarde com o seu lamento fanhoso:
 
A mulher é desgraçada
Até no despir da saia; 
Não há desgraça na vida 
Que aos pés da mulher não caia...
 
Miguel Torga, Contos da Montanha
Conto retirado de:http://contosdeaula.blogspot.com/

publicado às 22:12


6 comentários

Imagem de perfil

De Paola a 07.03.2009 às 22:56

Como eu gosto de Miguel Torga... Sempre que o leio e releio, sinto o sabor a da verdade... A escrita de Torga tem o perfume da terra... das pessoas, das flores, das ervas, dos frutos ... estas uvas vindimadas têm a alegria nos bagos... na abundância das palavras.

Beijinhos
Imagem de perfil

De Jorge Soares a 09.03.2009 às 22:34

Olá

Curiosamente só há bem pouco tempo descobri este autor Português... coisas de crescer no estrangeiro.... mas cada vez gosto mais.... este conto é fantástico.... adorei.

Beijinho
Jorge
Imagem de perfil

De umbreveolhar a 08.03.2009 às 02:08

Olá Jorge,
Os meus parabéns! Fiquei deliciado com a leitura deste extraordinário conto de Miguel Toga sobre a vindima.
É o que eu digo: admiro-o em prosa e verso. Gostei muito.
Um grande abraço e um bom Domingo
Carlos Aberto
Imagem de perfil

De Jorge Soares a 09.03.2009 às 22:35

Olá

Sim, este conta é excelente... a cada leitura vou decsobrindo mais deste poeta e autor Português...

Abraço
Jorge
Sem imagem de perfil

De José A a 08.03.2009 às 02:08

Eu lembro-me de ter dado Miguel Torga, na escola, no oitavo ano, e não sei bem se pertence a estes Contos, "O Leproso" mas acho que sim. É que todos na aula, lê-mos um conto e o que me calhou, foi exactamente "O Leproso" e quando acabei de o ler, levantei a cabeça e a cara de todos os colegas da turma, olharam-me com umas caras de nojo que me assustaram. Mas a escrita dele é magnifica.
Imagem de perfil

De Jorge Soares a 09.03.2009 às 22:38

Olá

Curiosamente, até há bem pouco tempo, Miguel Torga não passava de uma vaga referência para mim.... agora vou descobrindo pouco a pouco...e quanto mais leio mais gosto...

Tenho de ir ver se encontro esse O leproso... :-)
Abraço
Jorge

Comentar post



Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D