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A caçada

por Jorge Soares, em 28.03.09

Ave

 

Quando ao romper da manhã o Felismino, ouviu bater à porta, admirou-se da pressa do companheiro. Estava madrugador, o Leoniz. Sim, senhor!

 
Riscou um palito, acendeu a candeia e saltou da cama. A mulher, como sempre, espapaçada no seu canto, sem dar acordo de si.
 
- Joaquina!
 
- Ahn?!
 
- Raios te partam e mais ao sono! - e puxou-lhe a roupa.
 
O que a gente se faz! Que ruína de corpo! Dantes, mal a via assim descoberta, exposta, não resistia. Caía-lhe em cima como um abutre, mesmo antes de ela acordar. Agora podia olhá-la à vontade, que a natureza nem lhe estremecia. Velho também, era o que era!
 
Com um arrepio, a companheira abriu os olhos estremunhada e desceu a camisa pudicamente.
 
- O galo já cantou?
 
- Não. Mas está o Leoniz a bater. Tinha enfiado as calças e abotoava a braguilha, quando novas pancadas impacientes ressoaram no silêncio.
 
- Lá vai! - gritou. Meteu os pés nas botas de atanado e, sem apertar os cordões., foi à janela. Abriu., pôs a cabeça de fora e chalaceou:
 
- Madrugaste!
 
O vulto, em baixo, não respondeu. - Que horas são? Via-se mal. Enevoado, o céu só à custo se deixava atravessar pelos primeiros laivos da alvorada.
 
- Hoje deu-te a espertina! Enquanto falava ia espetando os olhos na negrura- Começava a desconfiar que não era o Leoniz que chamava
 
- Quem está aí ? - perguntou, a certificar-se.
 
- Gente. Não identificou a voz. E, contudo, apenas a ouviu, o coração deu-lhe um baque.
 
- Que é gente, vejo eu. Mas que gente?
 
- Não me conhece? Agora sim, conhecia... O cabrão do Marta! Mordeu o beiço e coçou a barba.
 
- Olá! - Quer vir às perdizes? Nada mal imaginado, não senhor! Por aquela não esperava ele... Mas tinha que ser. Enterrou as unhas no lambril da janela e respondeu, sem deixar tremer as palavras:
 
- Posso ir. Tirou a cabeça para dentro, voltou-se, e viu a mulher a enfiar a saia.
 
- Torna-te a deitar. - E o farnel? - já não é preciso. - O Leoniz leva que chegue?
 
- O Leoniz não vai. Se ele aparecer, diz-lhe que tive um convite e não pude recusar.
 
- Um convite de quem?
 
- Não interessa. Acostumada a obedecer cegamente, a Joaquina meteu-se outra vez na cama e adormeceu quase logo. Calmamente,, o Felismino acabou então de se vestir foi à gaveta do pão buscar uma côdea, e quando acabou de mastigar bebeu dum trago um cálice de aguardente- Depois., pôs o cinturão, tirou a arma do prego onde estava pendurada, abriu-a e meteu-lhe um zagalote no cano esquerdo e um cartucho de chumbo cinco no direito Finalmente, desceu e destrancou a porta.
 
Mais negra que a escuridão, a figura do Marta parecia um tronco carbonizado. A noite apagava-lhe inteiramente as feições, e era uma impressão maciça e tenebrosa que vinha daquela presença. Mas pouco a pouco, ajudado pela memória dos olhos, o Felismino, foi passando para a tela da claridade o negativo que tinha em frente.
 
- Bons dias!
 
- Viva... Enquanto os dois se cumprimentavam assim, os cães rosnavam também.
 
- Onde é a caçada?
 
- Qualquer sítio serve...
 
O Felismino contraiu-se por dentro. Já sabia que não eram as perdizes que interessavam ao visitante. O bandido não lhe perdoava tê-lo enfrentado na feira da Vila e vinha vingar-se.
 
- Podemos então ir por aí fora... - disse, num tom desprendido.
 
Começaram a caminhar lado a lado, calados como velhos,,, amigos que já não têm que dizer. Quem os visse, mal diria que cada um levava às costas a vida do outro., apertada nas câmaras da caçadeira.
 
Assim atravessaram a povoação adormecida, subiram a encosta dos soutos e entraram pela serra dentro, agora a entremostrar as corcovas do lombo à teimosia de uma luz oculta. Às tantas, o Felismino ergueu a mão, num sinal de silêncio.
 
- Aí estão elas... - acrescentou em voz baixa.
 
Pararam e ficaram a ouvir. Perto deles, no seio da penumbra, um alegre e descuidado cacarejo respondia ao apelo que lhe fora feito mais adiante.
 
Apesar de já se terem olhado de soslaio por diversas vezes, não conseguiam ainda distinguir claramente a cara um do outro. Viam-se como retratos desfocados.
 
Insofridos., os cães agitavam-se à volta deles, a pedir liberdade de movimentos.
 
- Aqui, Liró!
 
- Nero, quieto! Subitamente, o perfil da montanha apareceu gravado na tela imensa do horizonte. Uma toalha de luz cinina descera do céu e pousara na terra sem eles darem conta. Mas em vez de extasiarem os olhos no mar de oiro que os rodeava, encararam-se mutuamente.
 
- Podemos começar... - disse o Marta, escarninho, ao fim de algum tempo.
 
No mesmo gesto automático, como soldados num exercício, tiraram as armas dos ombros e com elas empunhadas entraram no mato orvalhado.
 
Ia ser bonito aquilo! Com que então, um tiro à falsa-fé, e depois, claro, fora um acidente! Filho de uma porca! E o Felismino ajeitou o dedo indicador ao gatilho como se entortasse um prego sobre o encabadoiro da enxada.
 
Cautelosamente, numa recíproca vigilância, foram-se afastando até chegarem à distância regulamentar. Então, começaram a caminhar paralelamente. Adiante deles, num incansável vaivém do instinto, os cães iam farejando as urgueiras.
 
No esplendor do outono, o grande panorama da montanha escancarara-se à luz do sol. Denunciadas por um tufo de fumo que se erguia delas, as povoações circundantes surgiam milagrosamente na paisagem.
 
Em dado momento, o perdigueiro do Felismino estacou. Alguns segundos de expectativa, passos cautelosos do dono e, por fim, duas perdizes saltaram, mansas, de rabo, inocentes ainda. Uma única detonação alarmou a quietude das fragas.
 
- Dá cá! De arma pronta, o Marta ficara parado, à espera. E ao ver a segunda perdiz distanciar-se sem fogo, cuspiu fora, numa raiva mal contida.
 
Pouco depois chegou a sua vez. Logo adiante, o resto do bando ergueu-se-lhe aos pés, todo em girândola, num pavor desordenado. Mas deu-lhe também um tiro apenas.
 
- Claro... - rosnou o Felismino, com os seus botões.
 
Ambos elucidados, mal o Liró entregou a peça caída, puseram-se novamente a caminhar pela serra fora, batendo o terreno conscienciosamente, sem se perderem de vista e guardando sempre um cano carregado. Ajudavam-se como podiam, combinando os movimentos no sentido do melhor rendimento da caçada, adiantando-se ou atrasando-se conforme as revoadas e os relevos, nunca emendando, o tiro, e carregavam rapidamente o cano vazio de olhos pregados no companheiro.
 
O dia, que começara fresco, aquecia de hora a hora. E, por volta das onze, a serra parecia incendiada pelo sol a refulgir na mica das fragas. Quente, o perfume do rosmaninho aumentava a secura. Mas os dois caçadores, a suar em bica, continuavam a palmilhar o chão de Lareira, no mesmo ritmo incansável e conjugado.
 
- É preciso ir àquelas!...
 
- Vamos lá.
 
O de cima parava, o de baixo rodava, e daí a pouco, na mesma formatura impecável, mudavam de rumo e até de encosta.
 
Quando a uma da tarde chegou, os cães já mal procuravam. Esfalfados, com a língua de fora, eram máquinas vivas a arfar. Se casualmente uma perdiz se levantava perto deles, olhavam-na numa espécie de espanto resignado, e ficavam-se.
 
- Ferido! Boca lá, boca! Pois sim! O chão apenas lhes cheirava a urze queimada. E deitavam-se na primeira sombra, impotentes e comprometidos. Os donos é que pareciam invulneráveis à torreira e à fadiga.
 
- Valerá a pena entrar no giestal?
 
- Pousaram lá... Desciam e subiam incansavelmente, como bonecos a que uma secreta mão desse corda. Nem à sede torturante atendiam. Ao transpor qualquer ribeiro, olhavam-se de esguelha e passavam adiante.
 
A certa altura, uma perdiz saltou entre os dois e quando o Felismino se refez da momentânea emoção do levante e se propunha visá-la, deu com a arma do Marta apontada na sua direcção. Agachou-se com a rapidez dum raio e o tiro passou-lhe por cima.
 
- Este era para mim!... - galhofou, já com os olhos da sarrasqueta pregados no inimigo.
 
O Marta teve um sorriso amarelo. E tentou disfarçar a traição.
 
- Foi sem querer. Disparou-se-me a arma... Mesmo assim o Felismino não se afastou da linha. Manteve a distância que até ali os separava e apenas redobrou de atenção.
 
Os perdigueiros seguiam agora atrás deles, na dura disciplina de uma escravidão domesticada. E a caça, sem o radar canino a farejá-la, ferrava-se nas moitas e nos pedregulhos. Mas a penitência dos dois continuava.
 
- Tem de ser a calção! - gritou de lá o Marta., inexorável.
 
- Não há outro remédio... Apesar de alagados e de estômago vazio, nenhum dava sinais de fraqueza. E redobravam o esforço para que o terreno ficasse honradamente varrido.
 
- Caiu mais adiante. Aí. Por volta das quatro, o sol começou a perder a força tropical e uma aragem subtil acariciou-lhes as caras tisnadas.
 
Sobe-se? É melhor. Ao dobrar o cerro, o Felismino vislumbrou num gesto equívoco do Marta nova tentativa de agressão. Mas o seu instinto, numa manobra instantânea da arma,, sustou o tiro no momento preciso. O outro, comprometido, pôs-se a vasculhar um bitoiro.
 
Até que a tarde empalideceu de vez e a serra começou a cobrir-se de uma poalha de penumbra. Uma perdiz atravessou a linha e erraram-na ambos.
 
- Já se não vê. Talvez não valha a pena continuar...
 
- É consigo... - respondeu o Felismino, sem sombra de cansaço na voz.
 
Sempre a andar, como se traçassem com os pés duas rectas convergentes., foram-se aproximando. Em frente um do outro, mediram-se ainda, num último e mudo desafio.
 
- Morreram poucas... - disse o Marta, a quebrar o silêncio.
 
- Podia ser pior... Tinham doze cada um.
 
- Mas há umas perdizes. E o terreno é bom.
 
- Se quiser voltar, às ordens...
 
O Marta teve um sorriso onde o ódio se adoçava Fica longe. A brincar, a brincar, daqui a Bouças são duas léguas. Hoje é que me deu na veneta vir por aí acima... Trazia esta fisgada...
 
- Foi uma boa ideia. já com os traços do rosto esfumados no lusco-fusco, o Marta meteu um cigarro à boca e fez lume. O clarão do fósforo aceso desenhou-lhe a dureza do perfil. Tirou duas fumaças, ajeitou a bandoleira, da arma no ombro e ficou indeciso.
 
- Não sei que faça. Se desça, se meta a direito...
 
- Veja lá. A corta-mato encurta um pedaço.
 
- Está resolvido. Sigo por aqui. Liró, vamos embora!
 
O navarro ergueu-se nas patas doridas e deu ao rabo cordialmente.
 
- Até qualquer dia.
 
- Boa noite. Rodaram e puseram-se a caminhar, cada qual em sua direcção.
 
De repente, houve uma pausa na restolheira que o Marta ia fazendo no matagal. O Felismino, atento, aguçou o ouvido, mas não se voltou. Continuou no seu chouto sossegado.
 
E, em vez do tiro que esperava, bateu-lhe nas costas a voz grossa do Marta, quente como uma baforada de vento suão:
 
- E ouça: o que lá vai, lá vai...
 
Miguel Torga, Novos Contos da Montanha
Retirado de: Contos da Aula

publicado às 21:45


3 comentários

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De Pedro Oliveira a 30.03.2009 às 11:10

Boa semana Jorge,
depois de umas mini-férias blogosféricas cá estou eu novamente.A caça nada me diz, tal como as touradas.respeito quem gosta.
hoje há bola no vila forte.
abraço
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De Jorge Soares a 31.03.2009 às 23:01

Olá Pedro

Pois, a mim também não,..mas a escrita do Miguel Torga, cada dia me diz mais.

Abraço e continuação d eboa semana
Jorge
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De Maria Eugénia Pinto a 01.04.2009 às 00:46

Olá
Muito bom!
Não vais acreditar... Estive hoje a almoçar com uma amiga com quem não estáva há imenso tempo. Tinha um presente para mim... um livro... "Doze contos peregrinos"... e esta?
Mas quero dizer-te outra coisa. Acabei de ler um livro absolutamente fantástico. Dos melhores livros que já li. Chama-se "A Catedral do Mar" é de um espanhol que eu não conhecia Ildefonso Falcones. É um romance histórico, baseado em factos reais que se passaram no se. XIV. Recomendo vivamente.
Beijinhos

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