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O ultimo amor do principe

por Jorge Soares, em 04.04.09

Contos Orientais


Conto O Ultimo amor do Principe - Marguerite Yourcenar

 

Quando Genghi, o resplandecente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Asia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exactamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar. A sua terceira esposa, a Princesa do Palácio do Poente, enganara-o com o genro, tal como ele enganara o pai nos seus tempos de juventude com uma imperatriz adolescente. Representava-se a mesma peça no palco do mundo, mas desta vez sabia que lhe estava apenas reservado o papel de velho, e a semelhante personagem preferia a de fantasma. Por isso mesmo distribuiu os seus bens, reformou os seus servos e preparou-se para acabar os seus dias num eremitério que tivera o cuidado de mandar construir na encosta da montanha. Atravessou pela última vez a cidade, seguido apenas por dois ou três companheiros dedicados que não se resignavam a despedir-se, nele, da sua própria juventude. Não obstante a hora matinal, havia mulheres com o rosto encostado às delgadas ripas das persianas. Murmuravam em voz alta que Genghi era ainda muito belo, o que provou uma vez mais ao príncipe que chegara a hora de partir.
Levaram três dias a alcançar o eremitério, situado em pleno campo silvestre. A casita erguia-se à sombra de um bordo centenário; como era Outono, as folhas daquela bela árvore revestiam-Ihe o telhado de colmo com uma coberta de oiro. A vida nesta solidão revelou-se ainda mais simples e mais dura do que nos longos exílios que na sua turbulenta juventude Genghi suportara no estrangeiro, e aquele homem requintado pôde finalmente saborear à saciedade o luxo supremo que consiste em abdicar de tudo. Breve se anunciaram os primeiros frios; as encostas da montanha cobriram-se de neve como amplas pregas das vestes acolchoadas que se usam no Inverno, e o nevoeiro abafou o sol. Da aurora ao crepúsculo, à parca luz de um braseiro avaro, Genghi lia as Escrituras e achava naqueles austeros versículos certo sabor de que eram doravante falhos os mais patéticos versos de amor.
Mas breve se deu conta de que estava a perder a vista, como se todas as lágrimas que vertera sobre as suas frágeis amantes lhe houvessem queimado os olhos, e teve de reconhecer que, para ele, as trevas começariam antes da morte. De quando em vez, um correio transido chegava da capital, arrastando os pés inchados de cansaço e de frieiras, e apresentava-Ihe respeitosamente mensagens de parentes ou amigos que desejavam visitá-Io uma derradeira vez neste mundo, antes dos encontros infinitos e incertos da outra vida. Mas Genghi receava inspirar aos seus hóspedes mera compaixão ou respeito, dois sentimentos a que tinha horror e aos quais preferia o esquecimento. Sacudia tristemente a cabeça, e aquele príncipe outrora famoso pelo seu talento de poeta e calígrafo mandava o carteiro de volta com uma folha em branco. Pouco a pouco, os contactos com a capital abrandaram; o ciclo das festas sazonais continuava a girar longe do príncipe, que em tempos as dirigia com um aceno do leque, e Genghi, abandonado sem pejo às tristezas da solidão, agravava sem cessar o mal que lhe afligia os olhos, pois já não se envergonhava de chorar.
Duas ou três das suas antigas amantes haviam-lhe proposto virem partilhar o seu isolamento cheio de recordações. Chegavam-lhe as mais ternas cartas da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem: era uma antiga concubina de casta meã e de beleza medíocre; servira fielmente Genghi e durante dezoito anos amara o príncipe sem nunca se cansar de sofrer. Ele fazia-lhe de vez em quando umas visitas nocturnas, e esses encontros, embora raros como estrelas em noite de chuva, haviam sido o bastante para alumiar a pobre vida da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem. Pois que não alimentava ilusões acerca da sua beleza, nem do seu espírito, nem do seu nascimento, a Dama, única entre tantas amantes, tributava a Genghi uma terna gratidão, porquanto não achava nada natural que ele a tivesse amado.
Como as suas cartas continuavam sem resposta, alugou uma modesta carruagem e fez-se conduzir à cabana do príncipe solitário. Empurrou timidamente a porta feita de ramos entrançados; ajoelhou-se com um risinho humilde, para se desculpar de estar ali; Foi na época em que Genghi reconhecia ainda o rosto dos que o visitavam, quando se aproximavam de muito perto.
Uma raiva amarga o tomou frente àquela mulher que despertava nele as mais dolorosas recordações dos dias mortos, não tanto pelo efeito da sua própria presença, mas porque as suas mangas continuavam impregnadas do perfume que usavam as suas defuntas mulheres.
Suplicou-lhe tristemente que a retivesse pelo menos como criada. Implacável pela primeira vez, expulsou-a; mas ela guardara amigos entre os poucos velhotes que asseguravam o serviço do príncipe, e estes davam-lhe notícias de quando em quando. Cruel também pela primeira vez na vida, ela vigiava de longe a progressão da cegueira de Genghi, como uma mulher impaciente de juntar-se ao amante espera que a noite caia por completo.
Quando o soube quase totalmente cego, despiu a sua indumentária da cidade e cobriu-se com um vestido curto e grosseiro, como os que usam as jovens camponesas; entrançou os cabelos à maneira das raparigas do campo; e armou-se de um fardo de tecidos e de louças, como os que se vendem nas feiras de província. Assim enfarpelada, deixou-se conduzir ao sítio em que o exilado voluntário vivia na companhia dos corços e dos pavões da floresta; percorreu a pé a última parte do percurso, para que a lama e o cansaço a ajudassem a desempenhar o seu papel. A chuva miúda da Primavera caía do céu sobre a terra mole, afogando os derradeiros lampejos do crepúsculo: era a hora em que Genghi, envolto no rigor das suas vestes de monge, passeava lentamente pelo carreiro donde os seus velhos servos haviam cuidadosamente afastado o menor seixo, não fosse ele tropeçar. O seu rosto ausente, esvaziado, embaciado pela cegueira e as investidas da idade parecia um espelho plúmbeo que em tempos reflectira beleza, e a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem não precisou de fingir para começar a chorar.
Aquele som de soluços femininos Genghi sobressaltou-se e dirigiu-se lentamente para o lado donde vinham as lágrimas.
-Quem és tu, mulher ? -perguntou inquieto.
- Sou Ukifune, a filha do rendeiro So-Hei -disse a Dama, sem se esquecer de adoptar a pronúncia da aldeia. - Fui à cidade com minha mãe, para comprar tecidos e tachos, porque me casam para a próxima lua. E eis que me perdi nos caminhos da montanha, e choro porque tenho medo dos javalis, dos demónios, do desejo dos homens e dos fantasmas dos mortos.
-Estás encharcada, menina -disse o príncipe pousando-lhe a mão no ombro.
Estava realmente ensopada até aos ossos.
O contacto daquela mão que tão bem conhecia fê-la estremecer da ponta dos cabelos aos dedos dos pés descalços, mas Genghi pensou porventura que ela tremia de frio.
-Vem para a minha cabana -retomou o príncipe com voz calorosa. - Poderás aquecer-te à minha lareira, muito embora tenha menos brasas do que cinzas.

 

Continua ....

Reirado de : Contos da Aula

publicado às 21:40


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