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Os olhos do meu filho

por Jorge Soares, em 17.04.09

filhos do coração

 

Há dias em que sentimos que não temos nada para dizer, aqueles dias em que todos os temas nos parecem banais, sem interesse... mas há coisas que me fazem acordar, vim ver os mails, alguém, uma pessoa que nunca vi, uma pessoa que só me conhece de aqui, do pouco de mim que vou deixando aqui todos os dias, enviou-me um mail que me deixou com lágrimas nos olhos.

 

Há algo de muito errado neste país... há mesmo, porque eu vou responder ao email e apesar de ir usar de todo o meu carinho para pessoas que estão  a passar por uma situação que eu também já passei, eu vou ter que ser realista...e quando falamos de adopção em Portugal, a realidade é muito triste.

 

 Agora, vou-me repetir... peço desculpa a quem já leu.

 

 Os olhos do nosso filho

 
Os olhos do nosso filho
São ainda de cor incerta
Não sei sequer se existem
Vão ser de Deus uma oferta
 
Existem na minha alma
Cravados no meu semblante
Os olhos do nosso filho
Que teve nascer errante
 
Foste esculpido a preceito
Nas entranhas de outro ser
Não vais sorver do meu peito
Este meu longo querer
 
E nestas voltas da vida
Cuidou-te Deus sem saber
Para que não herdes no sangue
Este meu estéril sofrer
 
Não vais nascer de mim
De outro ventre virás
Mas filho da minha alma
Tão amado serás!
 
E nesta triste incerteza
Me pergunto em desalento
Já nascente de alguém?
Ou é Deus que te traz?
 
Ala dos Reis
 
 
A dor de se querer ter um filho e não se conseguir é algo que não se consegue explicar, de inicio vamos tendo desilusões, depois começa o sofrimento, ver passar o tempo, ouvir as pessoas a perguntar:
 
-Então, é para quando?
-Quando vamos ter um neto?
-Então, e filhos?
 
Respondemos às pessoas com um sorriso de circunstância e sofremos em silêncio. lembro-me de ir pela rua, olhar os casais com bebés e pensar: E eu? porque é que eu não tenho direito?. Chega uma altura em que começa a ser doloroso ver crianças na rua. E depois há as expectativas das pessoas que estão à nossa volta, as lágrimas em casa cada vez que aparece um novo período , as lágrimas em silêncio na nossa solidão. Com o tempo, os meses transformam-se em anos e a tristeza em resignação. Nós decidimos que não íamos continuar com dor, e não íamos seguir a via sacra dos tratamentos, decidimos partir para a adopção.
 
No fundo, mudamos a expectativa, as coisas deixam de depender de nós e passam a depender de outras pessoas, processos longos, morosos, complicados, muitas vezes inumanos ...e novas expectativas, e novas esperas. O Poema traduz um pouco do que é querer ser pai adoptivo, traduz a espera desesperante por um telefonema, por uma noticia, saber que o nosso filho poderá estar neste momento nos braços de alguém. Cada pessoa é diferente, mas atrevo-me a dizer que os pensamentos são comuns..será que o meu filhos já nasceu?..será que está bem?, será .......
 
Eu sou uma pessoa que não crio expectativas da vida, a maior parte do tempo limito-me a viver, um dia de cada vez, só crio expectativas com as pessoas, por norma entrego-me de alma e coração às pessoas de quem gosto...e dos meus filhos.
 
Sei que uma boa parte dos leitores chegam ao blog à procura de informação sobre adopção, a todos eles, a todos os que estão, ou vão passar por isto, deixo uma palavra de carinho e  de força, não desistam, não deixem de acreditar.
 
Jorge
PS:Imagem retirada da internet
PS2.No blog está o meu email, ali do lado esquerdo, está o endereço da associação Bem me queres, não duvidem em pedir ajuda.
 

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publicado às 22:37


15 comentários

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De xana a 18.04.2009 às 00:14

Apenas posso deixar um incentivo, que é nunca desistir, porque quando se dá um passo em frente então há que seguir com o outro pé, e ir seguindo pé ante pé. Eu sempre desejei ser mãe de uma familia numerosa. Acontece que a vida nunca é como a planeamos e hoje com quase 3... continuo solteira, com uma desilusão do tamanho do mundo, e sem perspectivas de algum dia vir a ser mãe. A partir de uma certa idade a nossa fertilidade começa a diminuir drasticamente e é nesse ponto que começo a ficar. Imagino o sofrimento de quem ainda mais novo tenta ter um filho e não consegue, mas depois há a hipótese da adopção, apesar de todo o sofrimento inicial de não se conseguir ter um filho biológico, há uma luz ao fundo do túnel. Para mim, existe apenas escuridão, sou sozinha, não tenho meios que me permitam ter uma casa própria, e da forma que vão as coisas jamais terei condições de sequer poder adoptar uma criança, mesmo sozinha, o que eu não faria, porque acho que não dveria sujeitar uma criança a uma opçao minha de não ter um pai para lhe dar. Uma coisa é ter um pai que vive separado, mas está lá, outra é não ter nenhum...
Por isso, a quem está num processo de adopção, digo, não desistam, o primeiro passo é o mais dificil, e se já puseram um pé, agora é só ir em frente, que a espera pode ser longa e dolorosa, mas a compensação é concerteza um Bem Maior.
bjk
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De Maria João a 18.04.2009 às 03:09

Xana,

De certo que um hipotético seu filho preferia mil vezes tê-la como mãe, sem um pai a seu lado do que ficar o resto da vida numa instituição. Não se culpabilize por não ter um companheiro. A vida não se escreve conforme a idealizámos mas pode ser escrita com a nossa vontade.
Se quer muito ter esse filho de sonho, inscreva-se e vá em busca do seu filho.

Felicidades.

Maria João
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De Jorge Soares a 19.04.2009 às 23:34

A Maria João já disse o que eu ia dizer.... mas eu percebo-te ...e acredito que um destes dias vais ter as condições.. porque tu não és de desistir e porque mereces.

Obrigado pelas tuas palavras
Beijinho
Jorge
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De Rosa Maria a 18.04.2009 às 01:37

Lindo!

Um bem haja para ti, esposa e filhotes!

Estava aqui a tentar escrevinhar algo ..... mas nada faz sentido com relacção ao meu sentir!

Beijinhos
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De Jorge Soares a 19.04.2009 às 23:35

Olá

Não precisas de dizer mais

Beijinho e boa semana
Jorge
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De umbreveolhar a 18.04.2009 às 03:07

Amigo Jorge,
Li o texto e poema com muita atenção, como é meu hábito, e estou inteiramente de acordo contigo.
Abrindo-me um pouco mais também, só tivemos uma filha ao fim de 12 anos de casados. A alegria foi indescritível. Actualmente tem 14 anos e é a nossa melhor prenda que recebemos.
Dizes e muito bem: " não devemos perder a esperança", também na adopção. A mim diziam-me os menos instruídos: Um casal sem filhos é como um jardim sem flores. Onde chega o descaramento de certas pessoas!
Um grande abraço,
Carlos Alberto Borges
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De Jorge Soares a 19.04.2009 às 23:39

Olá

Quem passou por estes momentos sabe o difícil que é ouvir algumas palavras...

Mas nunca se deve perder a esperança.. porque algures, agora ou no futuro, há uma criança que espera... e há sempre mais amor para dar

Abraço
Jorge
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De alex a 18.04.2009 às 10:50

pois... sei exactamente do que falas... também não nos quisemos aventurar pela via sacra dos tratamentos intermináveis... e felizmente não demorámos muito tempo a decidir pela adopção. A adopção sempre tinha uma opção, se bem que não totalmente maturada, pensada... mas assim que percebemos que iria ser díficil ter 1 filho biológico foi muito rápido decidir pela adopção. O nosso objectivo foi sempre ter filhos e cada vez mais acho que a biologia está over rated... aliás sei hoje que se quisessemos ter mais filhos dificilmente iria tentar engravidar (mesmo que soubesse que iria ser fácil). Nunca senti aquele apelo da maternidade no ventre, do bebé dentro de mim... mas sempre quis ter filhos. Tlvz não me consiga explicar bem...

Mas a verdade também é que tendo sido o nosso processo mt rápido desde o momento em que decidimos ter filhos até de facto os termos passaram 5 anos. E connosco foi tudo mt rápido... até o processo de adopção foi mt rápido... ou seja nem consigo imaginar o que passarão outros casais... além de que nós somos os 2 muito pragmáticos... e não passámos por situações de choro nem de pressão familiar...
Boa sorte a todos,
alex
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De Jorge Soares a 19.04.2009 às 23:41

Olá

Não há muita gente com o vosso valor.... e sabes que mais... tu mereces todo o carinho e felicidade do mundo.

Beijinho
Jorge
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De susana Rodrigues a 18.04.2009 às 21:00

Eu não sei avaliar esse vosso sofrimento, porque nunca passei por isso e ainda me falta um pouco ( MUITO) para pensar em ter filhos. Costumo dizer que se por alguma inevitabilidade não poder ser mãe biologicamente não é algo que me vá pesar muito, porque eu valorizo igualmente a adopção como caminho para a maternidade.
Espero quando chegar à minha altura tudo o que vamos fazendo pela melhoria do sistema em que nos regemos, tenha surtido efeitos e os tempos de espera não sejam os mesmos.
Um abraço e bom fim-de-semana!
su
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De Jorge Soares a 19.04.2009 às 23:42

Olá Su...sim, esperemos que as coisas mudem, que melhorem, porque as crianças merecem.

Beijinho e obrigado pelos teus comentários
Jorge
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De mimi a 20.04.2009 às 09:41

Olá Jorge,

Eu tive a felicidade de conseguir engravidar as vezes que quis, apesar de uma delas não ter chegado ao fim, tenho 2 meninos maravilhosos.
O meu sonho sempre foi ter 3 filhos, mas neste momento da minha vida e já com 38 anos se optar por ter outro filho, não será da mesma maneira, irei optar pela adopção ou pelo apadrinhamento, que apesar de já ter lido alguma coisa ainda não estou completamente esclarecida sobre este novo método.
O que realmente pretendo, é um dia poder dar a uma criança, aquilo que ela jamais terá numa instituição, uma família.

Bjs

PS: Admiro-te imenso. Desejo a ti e à tua família muita força para levar este processo até ao fim.
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De Jorge Soares a 21.04.2009 às 22:45

Olá

Quando entenderes podemos falar do assunto :-)

Espero que esse teu desejo de dar uma família e amor a uma criança se cumpra.

Beijinho e obrigado pelas tuas palavras
Jorge
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De Ana a 29.04.2009 às 13:39

Ao ler este post, sinto-me em frente a um espelho, há uma cumplicidade inevitavel que se apodera de mim quando leio estas palavras. Não conseguiria descrever melhor se quizesse o sentimento aqui espelhado.

Obrigada por partilhares, é importante sabermos que não estamos sozinhos.

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De Existe um Olhar a 30.09.2009 às 11:33

Olá Jorge
Depois de ler o poema e o texto, dei graças por ter tido um filho e por não ter passado pelas agruras dos que não os conseguem ter, no entanto tu sabes que acompanhei durante muitos anos o caso dos meus amigos que finalmente conseguiram adoptar uma criança.
Lembro-me da minha amiga me contar, sempre que vinha de férias, o incómodo e mau estar que sentia, quando chegava á aldeia e lhe faziam precisamente aquelas três perguntinhas que tu colocaste ali em cima...Como doía!!!
Estás á vontade para colocar aqui toda a luta que travaram para conseguirem adoptar um bebé. Nunca se sabe quantas portas se poderão abrir.
Beijos
Manu

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