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O ultimo amor do principe -Fim

por Jorge Soares, em 18.04.09

O ultimo amor do principe

 

Continuação do conto O ultimo amor do principe, escrito por Marguerite Yourcenar, podem ver a primeira parte aqui

 

O Outono chegou, mudando as árvores da montanha noutras tantas fadas vestidas de ouro e púrpura, mas destinadas a morrerem com os primeiros frios.

 
A Dama descrevia a Genghi aqueles castanhos-cinza, aqueles castanhos-dourados, aqueles castanhos-malva, tendo o cuidado de os referir só por acaso, e evitando sempre dar mostras de ir ostensivamente em seu auxílio. E a toda a hora encantava Genghi com a invenção de engenhosos colares de flores, de pratos requintados de tão simples, de letras novas adaptadas a velhas modas ternas e dolentes. Já no seu pavilhão de quinta concubina, onde Genghi a visitara em tempos, fizera valer aqueles mesmos encantos; distraído, porém, por outros amores não dera conta deles. Pelo fim do Outono, as febres subiram dos pântanos. Os insectos pululavam no ar empestado, e cada respiração era como um gole de água sorvido numa fonte envenenada, Genghi caiu doente e deitou-se na sua enxerga de folhas mortas, sabendo que não voltaria alevantar-se. Envergonhava-se da sua fraqueza e dos cuidados humilhantes a que a doença o obrigava frente à Dama, mas àquele homem, que toda a sua vida procurara em cada experiência aquilo que ela tinha simultaneamente de mais único e de mais dilacerante, apenas restava provar o que aquela intimidade nova e miserável entre dois seres acrescentava às estreitas doçuras do amor. 
 
Certa manhã em que a Dama lhe massajava as pernas, Genghi ergue-se apoiado nos cotovelos, procurou as mãos da Dama, tacteando e murmurou: 
- Jovem mulher que cuidas deste que vai morrer, enganei-te. Eu sou o príncipe Genghi. 
- Quando vim ao teu encontro, não passava de uma provinciana ignorante -disse a Dama -, e não sabia quem era o príncipe Genghi. Sei agora que foi o mais belo e o mais desejado de entre os homens, mas não precisas de ser o príncipe Genghi para seres amado. 
Genghi agradeceu-lhe com um sorriso. Desde que se lhe haviam emudecido os olhos, dir-se-ia que o seu olhar lhe palpitava nos lábios.
- Vou morrer -disse a custo. - Não me queixo de uma sorte que partilho com as flores, com os insectos, com os astros. Num universo onde tudo passa como um sonho, seria censurável durar sempre. Não me queixo de que as coisas, os seres, os corações sejam perecíveis, porquanto parte da sua beleza é feita desse infortúnio. O que me aflige é que sejam únicos. Antigamente, a certeza de obter em cada instante da minha vida uma revelação que não mais se repetiria constituía o que havia de mais luminoso nos meus prazeres secretos: agora, morro envergonhado como um privilegiado que tivesse assistido sozinho a uma festa sublime que apenas terá lugar uma vez. Queridos objectos, apenas tendes por testemunha um cego à beira da morte. Outras mulheres hão-de florescer, tão sorridentes como as que amei, mas o seu sorriso será diferente, e aquele sinal que me apaixonava na sua face de âmbar ter-se-á deslocado a espessura de um átomo. Outros corações hão-de ceder ao peso de um amor insuportável, mas não serão nossas as suas lágrimas. Mãos húmidas de desejo continuarão a enlear-se sob as amendoeiras em flor, mas nunca a mesma chuva de pétalas se desfolha duas vezes sobre à mesma felicidade humana. Ah! Sinto-me como um homem levado pela cheia, que quisera encontrar ao menos um quinhão de terra seca para aí deixar algumas cartas amarelecidas e alguns leques de cores já desbotadas...Que será de ti quando já aqui não estiver para me enternecer contigo, Recordação da Princesa Azul, minha primeira mulher, em cujo amor apenas acreditei no dia seguinte ao da sua morte? E Dor de ti também, desolada Recordação da Dama-do-Pavilhão-das-Volúveis, que morreu nos meus braços porque uma noiva ciumenta teimara em ser a única a amar-me? E de vós, insidiosas Recordações da minha demasiado bela madrasta e da minha demasiado jovem esposa, que se encarregaram de me ensinar à vez quanto se sofre ao ser-se o cúmplice ou a vítima de que uma infidelidade? E de ti, subtil Recordação da Dama-Cigarra-do-Jardim, que por pudor se esquivou, de tal modo que tive de consolar-me junto do fim seu jovem irmão, cujo rosto infantil reflectia alguns traços daquele tímido novo sorriso de mulher? E de ti, cara Recordação da Dama-da-Longa-Noite, que tão doce foi e consentiu em ser tão-só a terceira em minha casa e no meu coração? E de ti, pobre e breve Recordação pastoral da filha do rendeiro So-Hei, que em mim apenas no meu passado amava? E sobretudo de ti, de ti, deliciosa Recordação da pequenina Chujo que neste momento me massaja os pés e nem tempo terá de ser recordação? Chujo, que gostaria de ter encontrado mais cedo na minha vida; mas também é justo haver frutos reservados para o Outono mais tardio... 
 
Ébrio de tristeza, deixou tombar a cabeça no travesseiro duro.
A Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem inclinou-se para ele e murmurou tremurosa: 
-Não havia acaso em teu palácio outra mulher, cujo nome não pronunciaste? Uma mulher meiga? Uma mulher chamada Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem? Ai, recorda-te... 
Mas já os traços do príncipe Genghi haviam conquistado aquela serenidade que só aos mortos é reservada. O termo de toda a dor apagara do seu rosto o menor vestígio de saciedade ou de amargura e parecia tê-lo convencido a ele próprio que tinha ainda dezoito anos. A Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem deitou-se ao chão, gritando para além de toda a medida; as lágrimas salgadas devastavam-lhe as faces como a chuva da tempestade e os cabelos que arrancava às mancheias voavam como penugem. O único nome que Genghi esquecera era precisamente o dela.
 
Marguerite Yourcenar, in Contos Orientais
 
Retirado de : Contos da Aula

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publicado às 20:55


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