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Amor

por Jorge Soares, em 16.05.09

Miguel Torga, Amor

 

Nasceu aquela flor em Covelinhas, dum castanheiro velho, o Lourenço Abel, e duma urze mirrada, a Joana Benta. Nasceu e cresceu tão linda, tão airosa, que o povo em peso punha os olhos nela. Só tinha um defeito...

- Verduras da mocidade! - pretextava a Cláudia, quando o homem, ao lume, censurava os namoros da rapariga.

- Ultrapassa as marcas! Dá trela a quantos há na freguesia...

- Ainda hão-de ser mais as vozes do que as nozes.

- É, ê! No dia das inspecções lá se viu... A Cláudia calou-se. Na comprida crónica da montanha não havia página mais negra do que essa a que o homem fazia alusão. Acabadinhos de sair das garras da junta, onde nus em pêlo pareciam cordeiros tosquiados, três de Paços, dois de Fermentões, um de Vilela e outro de S. Martinho armaram tamanha guerra na Sainça, que só faltou tocar os sinos a rebate. O de Vilela, aqui-del-rei que a rapariga era dele; o de S. Martinho que o varava logo ali se continuasse com as gabarolices; o mais possante dos de Paços que não consentia trigo do seu forno na boca de cães... Um inferno. Segue-se que daí a nada ia tal polvorosa pelos montes, que Deus nos acudisse. Não morreu ninguém, felizmente, mas chegou para afligir.

A Lídia é que não queria saber de desgraças. Muito bem feita, muito corada, com aqueles dois olhos de veludo que ameigavam tojos, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava pela rua acima em direcção às hortas como se nada fosse. E o povo inteiro rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho.

- Tu a quantos atendes? - perguntava-lhe em confidência a Mariana, já com cinquenta e dois e ainda de olhinho a reluzir.

- A nenhum. Ninguém me quer, tia Mariana! E dava uma gargalhada das dela, muito clara, muito pura, pondo à mostra uns dentes que cegavam a gente.

- Raios te partam, rapariga! Trazes um regimento à corda, e a dizer que ninguém te quer!

- À consciência!...

E toda ela se dava e se recusava num requebro enigmático, com os seios a enfunarem-lhe a blusa de chita.

- Olha., fazes tu muito bem! Enquanto dura, é doçura...

E a doçura era naquele inverno gelado, noites a fio, o Pedro Verdeal comido de ciúmes a guardar o Lúcio, e o Lúcio, comido de ciúmes, a guardar o Verdeal.

- Que cegueira! Perdidinhos de todo! Um sincelo de meter medo e nenhum arreda pé! Ao menos tem pena deles, cachopa. Manda pôr uma braseira debaixo do negrilho e outra no cruzeiro...

- Eles não têm frio. Quanto mais, deixe falar, tia Cláudia! Se andam de noite, lá andam à sua vida. Cá comigo não há nada. Querem coisa mais alta.

E continuava a receber cartas do Lúcio, do Verdeal, do Vitorino, e até recados do Teodoro, um homem já viúvo! A Violante do correio entregava-lhe essas letras de amor às escondidas de toda gente, mas ia dizendo:

- Eu não sei como tu podes com tal cainçada atrás de ti!...

A Lídia, porém, era aquele coração aberto a quantos lhe batiam à porta. Como uma terra de semeadura em pousio, dizia a todas as sementes que deixassem apenas chegar a primavera... Não havia maldade nem cálculo nas promessas que fazia. Diante de cada solicitação masculina, sentia-se como que chamada a dar contas da sua íntima natureza de mulher. E todos podiam pedir-lhas com igual autoridade, justamente porque não amara ainda nenhum a valer. Limpo, o seu corpo estava destinado a pertencer a um daqueles pobres obcecados, que andavam à sua volta como lobos à volta de uma ovelha. A um deles teria de se entregar, mais dia, menos dia. Mas a qual?

- Tu é que sabes. Se fosse comigo, escolhia o mais jeitoso e mandava os outros à tábua. Sarilhos desses é que não! - repetia a Violante, apavorada com tanta carta e tanto enredo. - Vê lá!

- Deixe correr, que ainda bota, ti Violante. Uma carta custa apenas o selo e o papel.

- Parece-te! Pode custar muita lágrima. Não estiques a corda demais...

Boas palavras, realmente. Pena é que não tivessem eco nos ouvidos da Lídia. Por mais que quisesse, não conseguia decidir-se por nenhum. Os homens eram como os ramos de rebuçados na mesa da doceira: pareciam-lhe todos iguais.

- Não são, não. Repara bem, que verás... - respondia-lhe a Cláudia, cheia de paciência.

Reparava e via o mesmo desejo a arder nos Olhos de cada um. As palavras, os gestos, os amuos significavam em todos a mesma coisa. P’ra a virgindade que lhe pediam, quer o dissessem, quer não. E continuava, conciliante, a prometer-lha e a negar-lha.

- Qualquer dia estoira para aí tamanho sarrabulho, que vai ser uma vergonha... - ia insistindo o Leopoldino, agoirento.

- Olha não estoires tu do miolo! - repontava a mulher, a fazer de valente.

- Deu com o pai já comido da terra, e com a lambaças da mãe, que é uma pobre de Cristo. Posse minha filha e eu te diria. Era com uma soga por aquele lombo...

- A mãe que há-de fazer? Proibi-la de se divertir ?!

A Cláudia estava farta de saber que o homem tinha carradas de razão. Quantas e quantas vezes falara já com a Joana Benta sobre a filha. Valia de bem! A coitada ouvia, concordava, gemia, apagava-se rasteira na escuridão da cozinha. noite é que lá se atrevia a dizer uma palavra à rapariga.

- Tu não terás juízo, mulher! Coisa assim!

- Não se aflija, que não me dá o lampo. Palavras leva-as o vento...

Mas com palavras tinha ela posto a cabeça do Verdeal e do Lúcio a andar à roda. A mangar, a mangar, jurava a cada um que não queria mais ninguém e que os outros lhe rondavam a casa por palermice. Que não era culpada de quantos homens havia no concelho lhe andarem a cheirar o rasto...

Na véspera do S. Miguel, a Olívia, que era sua amiga do coração, ao vir da missa pôs-lhe os pontos nos ii.

- Tu tem lá mão na manta, que isto não acaba bem. Dá o sim-ou-sopas a um e emponta o resto. Muitos burros à nora não é negócio; escoicinham-se uns aos outros... O Verdeal anda sobre o Lúcio como um cão. Se o agarra a jeito, esfandega-o.

- Mas porquê -Ainda perguntas?

- Oh! E aconteceu o que tinha de acontecer. Nessa mesma noite, depois da ceia, o Verdeal, ao voltar a esquina da eira, viu um vulto à porta do quinteiro da moça. Disfarçou-se na sombra e chegou-se perto. Era o Lúcio a falar com ela. Avançou até junto deles. No calor da conversa, nem o viram.

- Então, muito boas noites... - cumprimentou., já de mão na pistola.

- Boas noites - responderam ambos, ela com a mesma cara, e o Lúcio cego de raiva.

- Pode-se saber quando é a boda?

- Pode... 

Mediram-se os dois de cima abaixo. 

- É capaz de ser, no dia de juízo...

- Conforme... 

- É que a bocada às vezes parece que está quase na boca e não está...

Alheia, numa volúpia de irresponsabilidade, a Lídia assistia àquela disputa de que era a causa, divertida como uma criança. Quase que nem ouviu o simultâneo deflagrar das armas.

- Canalha! Seguiram-se mais dois estalidos secos.

- Cabrão! Os insultos como que eram apenas um comentário desdenhoso à margem dos tiros rápidos e sucessivos.

- Excomungada! A inesperada maldição entrou na alma da Lídia como um punhal de quem vinha? Da boca do Lúcio, ou da boca do Verdeal?

Mas não pôde sabê-lo. Ambos jaziam quase a seus pés, cada um no último arranco. E quando a mãe, espavorida, em saiote, abriu a porta, veio encontrá-la ainda alheada junto dos dois mortos, a tentar compreender a violência daquela queixa.

 

Miguel Torga, Contos da Montanha

Retirado de Contos de Aula

publicado às 22:03


4 comentários

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De umbreveolhar a 17.05.2009 às 15:51

Como leitor assíduo do teu Blog e vice-versa e devido aos comentários recíprocos que vamos fazendo um ao outro, advém daí daí uma grande amizade, ainda que virtual. É bonito!
Conhecemo-nos através das palavras sempre agradáveis e é assim, o funcionamento dos Blogs...
Mas, não conhecemos a voz e a pessoa que está do outro lado, sendo por isso que amizade não é pessoal!
Eu resolvi, sem qualquer receio, publicar três fotos minhas no slide do template do meu blog, numa perspectiva de " tornar o virtual mais próximo do real" ...
Assim, se os meus amigos e amigas fizerem o mesmo, seria, na minha opinião, muito interessante! Aqui deixo o repto a todos os amigos e amigas adicionados.
Cumprimentos,
Carlos Alberto Borges
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De Jorge Soares a 17.05.2009 às 22:01

Olá Carlos

Desde o inicio que tenho uma fotografia minha no meu perfil, porque entendo que as pessoas devem ter pelo menos uma ideia de quem está por trás das palavras, não critico quem não o faz, é uma questão de opções e não por isso que deixo de visitar e admirar as pessoas.

Já lá vou passar a espreitar,

Boa semana
Jorge
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De Maria Eugénia Pinto a 17.05.2009 às 18:08

Olá
Adoro os teus contos de sábado...
Por muito atarefada que ande (e ando muito!) não resisto a vir cá espreitar!
São sempre muito bem escolhidos...
Quando estiver mais "aliviada" ponho as leituras em dia.
Beijinhos
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De Jorge Soares a 17.05.2009 às 22:02

Olá

Não é dificil, o Miguel Torga tem contos fantásticos.

Beijinho
Jorge


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