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Os amantes aprovados

por Jorge Soares, em 11.07.09

Os amantes aprovados

 

É uma história simples. No ano de mil novecentos e trinta e tal, vivia na vilazinha de ..., no litoral, uma viúva respeitável, gorda, de olhar brando e bandós a picarem de cinzento. Tinha tido onze filhos, dos quais nove sobreviviam, e toda a aventura da sua vida fora a de, como mulher dum magistrado pobre, ter percorrido o país no decurso duma carreira anónima e sem fé. Triste, talvez não. O marido fora um tipo folgazão, sociável em extremo e que fizera grandes amigos, dos quais muitos também sobreviviam. A sua morte, acontecida em pleno vigor físico e quando esperava a promoção a juiz de segunda classe, provocara uma crispação de pânico nos nervos dos colegas e de toda uma pandilha fervorosa dos vícios de província, que são a má-língua, a política e o interesse - essas fístulas crónicas dos homens de quarenta. Os órfãos, de princípio socorridos com uma generosidade exaltada demais para permanecer fiel, foram aos poucos deixados sob a mão de Deus Padre, para que se criassem. Sabia-se que a mãe era senhora séria e de bons princípios, e isto sossegava - vamos saber porquê! - as consciências. Tinha ela na terra uma casa, pouco mais que um sobrado de pescadores, e para lá se arrumou com as crianças. Duas, protegidas por padrinhos, teriam estudos pagos e donativos de vestuário; os outros cresceram um pouco à sorte, no hábito dessa tragédia ensossa, pasmada, fria, da burguesia pelintra. Podia-se dizer que existiram entre a escola e o emprego na burocracia, sem conhecerem a cor do dinheiro. Entalados numa engrenagem de dívidas, promessas, esmolas, de caridade sopesada até à última gota na balança dos que em cada dádiva ou tutela parecem endossar a batata podre dum conceito inútil, da moralidade mais rapada e sem brilho, adquiriram todos uma sobreposição de personalidade que os fazia muito idênticos. Assim, todos sabiam dissimular e nunca manifestavam a tempo qualquer sentimento; reagiam por aprendizagem, não por instinto, e na sua alma tudo estava pregado e postiço como a lua no teatro do próprio Shakespeare.

 

   Com o tempo e a colocação do mais velho como prefeito dum colégio, mudaram-se para uma sobreloja, deixando o bairro excêntrico em cujas valetas os detritos de peixe atraíam grandes moscas verdes. Viviam pior que nunca, mas tinham conseguido o que se chama "ganhar pé". Possuíam um relativo crédito e, comprovada a sua penúria, os seus antecedentes duma honesta monotonia e o facto abonatório de que tinham vivido bem, a sociedade apaziguara-se um tanto e concedera-lhes certos direitos. Por exemplo, as raparigas traziam golas de velha pele sarnenta, sem que o mundo se risse, porque, nelas, os atributos da classe, o luxo, eram por assim dizer uma aquisição histórica. Admitiam-nas na intimidade superficial das pessoas finas, homenageando-as com a confiança de lhes pedirem favores como os de passarem bilhetes de rifa ou recortarem florinhas de papel para o Dia do Capacete. Enfim, podia-se afirmar que tudo corria bem, se algo de muito estranho e de imprevisto não abalasse a comovida paz dos benfeitores que são a multidão em geral quando se sente despreocupada. Constou que a viúva tinha um amante. Tínhamos dito que era ela mulher gorda, grisalha, de olhar brando, mas não seria bem assim. Era de facto um tanto pesada, com um andar cambaleante de quem sempre calçou chinelos de pasta ou de corda ou de seleiro; não vestia mais do que batas de algodão preto e parecia bastante mal, mesmo aos domingos, sobretudo aos domingos, quando, na missa das nove, se ajoelhava na sua almofadinha de setineta vermelha, ao lado do "altar das Dores". Tinha um rosto inexpressivo do muito que a fadiga se sobrepusera às emoções, e não parecia gostar de rir nem de chorar, nem sequer de observar os outros nessas ocupações. De resto, possuía ainda belos olhos, e a sua frieza de maneiras dava-lhe uma graça um tanto hostil que infundia ternura, depois de ter provocado receio. Era frequente vê-la atravessar a ruazinha de velho macadame, para vir arrastar pelo braço um ou outro filho que se filiava na trupe de garotio para, no átrio do cinema, esmolarem a quantia bastante à entrada. Fugiam-lhe para, no poleiro da geral que era como uma assembleia de jurados apinhados em degraus rente às coxias, uivairem ameaças contra "o cínico" daqueles filmes do Tim Mac Coy de belos dentes que se rolava num fosso da pradaria em chamas. Ai a linguagem desses ladrões de gado, dessessheriffs, dessas "cavadoras de oiro" que sugeriam fome e água de lavar pratos! "Labora num grande erro" - diziam, explicando a intriga e a traição, enquanto, com um rumor de vento infiltrado por fendas de pedreiras, ardia um rastilho de dinamite. Os rapazes precipitavam-se, no intervalo, até à rua, engalfinhavam-se possessos de coragem, imitando tiros; e iam, na lojeca próxima, comprar um pão encortiçado, de domingo, com talhadas de marmelada, ou cartuchos de paciências ou pastilhas Naval que chupavam laboriosamente, mostrando-as na língua uns aos outros, para suscitar invejas. 


   - Raça! - exclamava a proprietária, que vinha, por condescendência, ajudar na loja, porque a frequência era aos magotes, e ondas de garotos embatiam contra os mostradores onde melavam os "caramilos" junto das onças de tabaco. Era uma mulher oxigenada, vistosa, cheia de ambições mal encabadas no seu ofício de mestra de meninos. Detestava as crianças, as suas roupetas com cheiro de peixe e de surro, as suas chancas tachadas, as suas sacolas de serrapilheira com flores pintadas e que a chuva esborratava; aplicava nelas o ódio pelo mundo de chateza e de frio que conhecera desde a infância, quando, deportada do seu nabal onde o pai sorvia cotos de cigarro sentado nos montículos de pilado, se fizera letrada. Casara ali na vila com um tipo mesquinho que usava manguitos de cotim e pesava quilos de arroz com a proficiência dum Shylock. A filha, bonita como ela, criara-a para outra classe, outro meio, outra vida. Quantas lágrimas raivosas, esses vestidos de folhos, essas sombrinhas japonesas! Quantos favores equívocos, nauseados, em que acumulava tédio e impotência, para que ambas, na Assembleia, sorrissem um pouco duramente, como quem pressente ter-se enganado na porta e no lugar, e espera a todo o momento uma advertência, uma rectificação! 


   - Raça! - dizia, quando estendia sobre o balcão, procurando não tocar as mãozinhas onde o ranho seco escamava, os confeitos ou os pães varridos de farinha, muito lambidos, cor de cinza. E, em particular, a sua aversão atingia os filhos da viúva. Desprezava-os porque os achava pobres, raquíticos, enfadonhos, sérios; porque tinham hábitos finos, viviam disciplinados como formigas, usavam com naturalidade os seus trapos polidos com benzina, e porque as crianças abastadas os tratavam com deferência. Alguma vez a sua Loló, magra e frenética criatura de olhos verdes, brincara nos jardins dos palacetes, usara as trotinetes dos pequenos burgueses, fora conduzida a casa pelos seus criados? Loló percorria as ruas perseguida por uma turba de catraios de fralda ao vento que se dispersavam quando ela parava para os reconhecer - o que não acontecia nunca. Mesmo assim, denunciava-os a eito, a mãe se incumbia de distribuir reguadas nos nós dos dedos, ferindo, esfolando, com um olhar mau, nublado, e que fazia gritar os menos estóicos antes que se aproximasse deles. Ah, aquela viúva fora por muito tempo um espinho enterrado no centro do peito, fora um pouco como uma sombra projectada sobre um écran onde a paisagem corre! Admirava-lhe as belas maneiras, o ar sóbrio, sem sorrisos, porém sem amargura; invejava-lhe a tranquilidade com que parecia existir entre os filhos, que cresciam feiotes e pelados como ratos dos bueiros. De súbito, apareciam todos grandes, as raparigas com a sua beauté du diable, os seus vestidos inesperadamente à moda, tentando destinos, vivendo; os rapazes tinham agora boas relações, faziam carreira, modestamente, sem importunar, seguros. Também a sua Loló, delgada e cheia de it, dançava um pouco o charleston e namorava um miliciano. Mas as outras crianças, sempre as mesmas, com o seu cheiro de marisco na pele, com os seus narizes lacrados de monco amarelo, com os seus gritos à Tarzan, a sua bola de trapo, essas não cresciam. Continuava a sacudir-lhes as orelhas com varadas, enquanto lhes encaixava as medidas de peso ou de lenha. E um sol tão branco arredondando-se sobre o mar! E o trepidar dos carros no Largo de S. Tiago, na Avenida, na Praça! Meu Deus, meu Deus! Havia uma lampadazinha sobre a mesa onde corrigia exercícios, à noite, e a luz amarela escorria nimbando a sua cabeça oxigenada. Os frequentadores do cinema viam-na, e, na impressão imediata dos cartazes onde se contorciam mulheres como chamas, comentavam: "Parece uma vamp... a Brigitte Helm... a Marlène..." E ela sentia na pele, à flor da sua pele branca, empoada e levemente flácida, que falavam dela, e como. 
 

....... 

Continua

 

In BESSA-LUÍS, Agustina. A brusca, Lisboa, Livros RTP, pp. 89-102.  

 

Retirado de Ficcões

publicado às 21:50



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