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Um Rei Assim, José Saramago

por Jorge Soares, em 13.08.09

José Saramago

 

Imagem de aqui

 

Na verdade eu nem sou grande fan do Homem, também é verdade que ainda não li a maioria dos seus livros, e dos que li, ou adorei ( O evangelho segundo Jesus Cristo) ou não gostei por aí além (Todos os nomes) problema o meu e dos meus fracos gostos, quem sabe e daqui a uns tempos retomo a leitura ... mas não queria deixar de partilhar este texto...  fantástico

 

Um Rei Assim, José Saramago

 

 

O rei assim é o sr. D. Duarte de Bragança, pessoa medianamente instruída graças aos preceptores que lhe puseram logo à nascença, mas que, não obstante, detesta a literatura em geral e o que escrevo em particular, primeiramente porque considera que no Memorial do Convento lhe insultei a família e em segundo lugar porque a dita obra é, de acordo com o seu requintado linguajar de pretendente ao trono, uma “grande merda”. Não leu o livro, mas é evidente que o cheirou. Compreende-se, portanto, que, durante todos estes anos, eu não tenha incluído o sr. D. Duarte, de Bragança, note-se, na escolhida lista dos meus amigos políticos. Não me importo de levar uma bofetada de vez em quando, mas a virtude cristã de oferecer ao agressor a outra face é virtude que não cultivo. Tenho-me desforrado apreciando devidamente as qualidades de humorista involuntário que este neto do senhor D. João V manifesta sempre que tem de abrir a boca. Devo-lhe algumas das mais saborosas gargalhadas da minha vida.

 

Isso acabou, a monarquia foi restaurada e há que ter muito cuidado com as palavras, não vão aparecer por aí, redivivos, o intendente Pina Manique ou o inspector Rosa Casaco. Como que restaurada a monarquia? perguntarão os meus leitores, estupefactos. Sim senhor, restaurada, afirmou-o quem tem as melhores razões para dizê-lo, o próprio pretendente. Que já não é pretendente, uma vez que a monarquia acaba de ser-nos restituída pelo drapejar da bandeira azul e branca na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Os moços do 31 da Armada (assim os escaladores se designam a si mesmos) têm já o seu lugar assegurado na História de Portugal, ao lado da padeira de Aljubarrota de quem se desconfia que afinal não matou castelhano nenhum. Não é o caso de agora, A bandeira esteve lá durante alguma horas (haverá um monárquico infiltrado na Câmara para ter impedido a retirada imediata?), pretende-se averiguar quem foram os autores da façanha, e isto acabará como sempre, em comédia, em farsa, em chacota. O sr. D. Duarte não tem estaleca para exigir na praça pública, perante a população reunida, que lhe sejam entregues a coroa, o ceptro e o trono.

É pena que uma tão gloriosa acção vá acabar assim. Mas como, no fundo, sou uma pessoa cordata, amiga de ajudar o próximo, deixo aqui uma sugestão para o sr. D. Duarte de Bragança. Crie já uma equipa de futebol, uma equipa toda de jogadores monárquicos, treinador monárquico, massagista monárquico, todos monárquicos e, se possível, de sangue azul. Garanto-lhe que se chega a ganhar a liga, o país, este país que tão bem conhecemos se ajoelhará a seus pés.

 

Via  O Caderno de Saramago

 

Jorge Soares( em contagem decrescente)

 

publicado às 21:09


1 comentário

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De Óscarito a 15.08.2009 às 21:59

Ler (pelo menos) um livro de Saramago é uma coisa que pretendo fazer mas que vou deixando "para amanhã". Sem outro motivo que não seja interessar-me por outros livros. Bem, e achá-lo antipático também deve ter algum peso na minha decisão.
Mas este texto está muito bom. Gostei!
Bastantes vezes faz falta responder nestes termos às críticas baratas, ordinárias, peçonhentas, cujas motivações (não poucas vezes) não são mais do que dores de cotovelo.
Abraço/Óscar

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