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Isabel Allende:Conta-me um conto

por Jorge Soares, em 23.01.10

Rosa

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 Tiravas a fita da cintura, largavas as sandálias, deitavas para o canto a tua grande saia, de algodão, parece-me, e soltavas o nó que te apanhava o cabelo num rabo de cavalo.Tinhas a pele arrepiada e rias. Estávamos tão próximos que nos podíamos ver, ambos absortos nesse ritual urgente, envoltos no calor e no cheiro que, de nós, se desprendia. Eu abria passagem pelos teus caminhos, as minhas mãos na tua cintura levantada e as tuas impacientes. Deslizavas, percorrias-me, trepavas por mim, envolvias-me com as tuas pernas invencíveis, dizias-me mil vezes vem com os lábios nos meus. No momento final tínhamos um vislumbre de completa solidão, cada um perdido no seu abismo ardente, mas logo ressuscitávamos do outro lado do fogo para nos descobrirmos abraçados na desordem das almofadas, debaixo do mosquiteiro branco. Afastava-te o cabelo para te olhar nos olhos. às vezes sentavas-te a meu lado, de pernas encolhidas e o teu xaile de seda sobre um ombro, no silêncio da noite que mal começava. Assim te recordo, calmamente.

 

Pensas em palavras, para ti a linguagem é um fio inesgotável que teces como se a vida se fizesse ao contá-la. Eu penso em imagens congeladas numa fotografia, no entanto, esta não está impressa numa placa, parece desenhada à pena, é uma recordação minuciosa e perfeita, de volumes suaves e cores quentes, renascentista, como uma intenção captada sobre um papel granulado ou uma tela. É um momento profético, é toda a nossa existência, tudo o que foi vivido e está por viver, todas as épocas simultâneas, sem princípio nem fim. A certa distância olho esse desenho, onde também estou. Sou espectador e protagonista.

 

Estou na penumbra, velado pela bruma de um cortinado translúcido. Sei que sou eu, mas sou também o que observa de fora. Conheço o que sente o homem pintado sobre a cama revolta, num quarto de vigas escuras e tectos de catedral, onde a cena aparece como um fragmento de uma cerimónia antiga. Estou ali contigo e também aqui, sozinho, noutro tempo da consciência. No quadro o casal descansa depois de fazer amor, a pele de ambos brilha húmida. o homem tem os olhos fechados, uma mão no peito e outra na coxa dela, em íntima cumplicidade. Para mim esta visão é recorrente e imutável, nada se altera, sempre o mesmo sorriso plácido do homem, a mesma languidez da mulher, as mesmas pregas dos lençóis e cantos sombrios do quarto, sempre a luz da lâmpada a iluminar os seios e as faces dela do mesmo ângulo, e o xaile de seda e os cabelos escuros a cair com igual delicadeza.

 

 

Cada vez que penso em ti, vejo-te assim, assim nos vejo, detidos para sempre nessa tela, invulneráveis ao estrago da má memória. Posso recriar longamente essa cena, até sentir que entro no espaço do quadro e já não sou o que observa, mas o homem que jaz junto a essa mulher.

 

 Então rompe-se a quietude simétrica de pintura e escuto as nossas vozes muito perto.

 - Conta-me um conto - digo-te, - Como queres que ele seja? -

Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém.

ROLF CARLÉ

 
Do Contos de Eva Luna - Isabel Allende

publicado às 19:24


3 comentários

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De stiletto a 24.01.2010 às 14:37

Isabel Allende é uma das minhas escritoras favoritas. Adoro a maneira de escrever dos autores sul americanos. A maneira como descrevem os cheiros, os sabores, a cultura sul americana. Outra autora que adoro é Laura Esquivel. Curiosamente, acho que nunca li autores sul americanos homens, só mulheres. Este livro de que falas também faz parte da minha biblioteca mas nunca o li na totalidade. Já o "Eva Luna" adorei. Agora ando numa fase mais anglo saxónica, Karen Rose, americana, que escreve policiais, Nora Roberts, americana, histórias românticase misteriosas e agora estou a ler "Nunca me esqueças" de Lesley Pearse, inglesa. Na sexta feira estive para comprar o "Jesusalém" que tens ali ao lado. Recomendas?
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De Jorge Soares a 26.01.2010 às 22:30

Olá

Sim, recomendo o Jerusalém que é um livro ao estilo do Mia Couto, de que adoro o contos.

Eu sou um admirador do Realismo Mágico, o estilo literário dos escritores latinoamericanos, não costumo ler muito autores de lingua inglesa... mas nunca é tarde para começar.

Jorge
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De marta a 28.01.2010 às 10:50

amo Isabel Allende.
gosto muitíssimo.
e, aqui há uns anos, espreitei, no Alentejo, a filmagem de "A casa dos Espíritos" :)

beijo


ps. em dia de aniversário do meu blog, quero agradecer-te ter-me cruzado com o teu. foi por ele que, também, fui ter às Histórias de VIDA. e foi importante.
obrigada.

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