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Os meninos dos carrinhos de arame, Cabo Verde

 

Há coincidências na vida bem curiosas, hoje de manhã abri um mail que recebi há um ou dois dias da Eugénia, o Subject era:Obrigatório Ler... , lá dentro um Texto de Fernando Nobre em que se fala do valor do salário mínimo nacional e dos valores altos das pensões, no geral é um texto com o que concordo, efectivamente o Salário Mínimo é baixo quando comparado com muitos dos países da Europa comunitária e há pensões que são um escândalo. Mas o que me chamou a atenção e me levou a responder à Eugénia foi a seguinte frase:

 

"Os números dizem 18% de pobres... Não me venham com isso. Não entram nestes números quem recebe os subsídios de inserção, complementos de reforça e outros. Garanto que em Portugal temos uma pobreza estruturada acima dos 40%, é outra coisa que me envergonha..."

 

O sublinhado não é meu.

 

Dei por mim a pensar na conversa do Taxista numa das viagens para o interior da ilha em Cabo Verde. "O Salário mínimo são 9000 Escudos, mas eu conheço pessoas que ganham metade disso" Para obter o valor em Euros basta dividir por 100. Tudo na vida é uma questão de perspectiva, se tivermos em conta que o preço das coisas nos supermercados custa o mesmo ou mais que cá, se chamamos pobres a 40% da população portuguesa, o que dizer do povo de Cabo Verde? E dizia-me alguém que Cabo Verde é dos países com melhor nível de vida em África.

 

Curiosamente a meio da tarde vi esta noticia do Público em que o senhor diz que é candidato à Presidência da República. ... Para alguém que é presidente da AMI, alguém que deve ver muitas vezes situações piores que as de Cabo Verde, acho que as afirmações acima estão completamente fora de perspectiva.... e só as entendo se as enquadrar na pré-campanha eleitoral.

 

Quando estava em Cabo Verde e apareceram as crianças das fotografias com os carrinhos feitos de arame, lembrei-me de uma conversa com o meu pai, em que ele contava que quando era criança fazia os seus próprios brinquedos com arames e madeira, tal qual os que as crianças traziam. Reparem, o meu pai tem mais de 60 anos, estamos a falar do Portugal de há  de 50 anos atrás.... .. é essa a situação actual das crianças em Cabo verde. E eu vi muitas crianças nas ruas e nas estradas, mas para além de uma ou outra bola, não vi mais brinquedos que estes...e não me lembro de ter visto uma loja de brinquedos, ou um centro comercial.. aliás, para além de dois ou 3 supermercados e muitas lojas de chineses, não vi lojas.

 

Tudo na vida é uma questão de perspectiva,eu também acho que deve ser difícil viver com 450 Euros por mês, e concordo que o salário mínimo deveria ser aumentado, mas não me digam que 40 % das pessoas em Portugal são Pobres, nunca neste país se viveu tão bem, alguém deveria dizer ao senhor o que é ser pobre, e todos deveríamos de vez em quando visitar Cabo Verde, ou outro país onde realmente exista pobreza... só para entrarmos em perspectiva.

 

Quanto ao Sr Fernando Nobre, é cedo para a campanha eleitoral..e se como presidente da Ami ainda não conseguiu colocar-se em perspectiva sobre a realidade do mundo em que vivemos, o melhor é que se continue a dedicar à Medicina e deixe a politica de lado.

 

Jorge Soares

 

PS:imagens minhas do Momentos e Olhares

publicado às 21:31


23 comentários

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De Cris a 17.02.2010 às 22:35

Bom, deve ser a primeira vez que vou discordar do Jorge. Concordo que não se possa comparar a pobreza de Cabo Verde com a de Portugal. Mas, com 450 euros, como é que se pode pagar uma renda, a água, a luz e a comida? Eu digo que não se pode. Eu sei que não se pode. E ainda aqueles que ainda têm medicamentos para pagar todos os meses (eu acho que somos supramedicados aqui em Portugal...)? Há muita gente que tem acesso a muitas coisas, outras há que vivem de aparências, mas eu digo que se vive muito mal aqui em Portugal, aliás, eu sei que se vive muito mal aqui. E também se vive muito bem (uns poucos). A percentagem pode nem ser correcta, mas não deve andar muito longe.
Quanto à candidatura do Sr. à presidência, não sei se sou a favor.
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 21:40

Olá

Cris, eu também acho que se vive mal com 450 Euros, mas não posso acreditar que 40% da população seja pobre, há uma enorme diferença entre ser pobre e ter dificuldades...

Digo e volto a dizer, nunca se viveu tão bem em Portugal, nunca houve acesso tão fácil à educação, nem as pessoas tiveram tantas coisas.

É verdade que há muita gente que não sabe lidar com a situação, há muita gente que gasta mais que o que tem, há muita gente que não sabe fazer contas....mas desculpem lá, esses não são pobres, são pessoas que não sabem utilizar o dinheiro, e isso é algo que é transversal às classes sociais.

Sim, é difícil viver com 450 Euros, mas haveria que ver qual a percentagem da população que vive com esse dinheiro.

E claro que alguma vez haveríamos de não estar de acordo...isso só faz de nós ambos, melhores pessoas, porque podemos sempre aprender algo mais um com o outro

Jorge
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De Cris a 18.02.2010 às 22:59

Jorge, olhe que a percentagem é muito grande, principalmente aqui no norte. Eu ainda tenho comida, roupa, um tecto. Não tenho é emprego. E o dinheiro não dá para tudo e não chega para sempre. Ainda sou sortuda, mas não sei por quanto mais tempo. E como eu há milhares, embora só conheça pessoalmente umas dezenas.
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De xana a 17.02.2010 às 23:48

Eu tinha aqui um testamento... sem saber como apaguei... era algo que dava para uns posts catitas...
Para se ocupar poleiros como os canários, é preciso saber-se cantar... a perspectiva desse sr. é entre a diferença de salário de um médico que deve salvar vidas, e o salário do P.R. que deve governar vidas...
bjks
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 21:42

Opá..... só por casa disso, vou deixar o post amadurecer mais um dia... quem sabe e hoje não te inspiras e deitas cá para fora....

Gostei da tua análise do canto do canário... valeu

Beijinho Xana
Jorge
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De xana a 18.02.2010 às 23:51

As ideias perdem-se muitas vezes quando as deixamos cair ainda verdes... é o caso... mas acredito que as pessoas em Cabo Verde são mais felizes com muito menos que algumas pessoas em Portugal com muito mais. O problema em Portugal, é a pobreza escondida, não aquela que se vê, que é aparente(isso mesmo, aparente). Quem é mesmo pobre, muitas vezes ninguém sabe, porque as pessoas têm vergonha, e passam fome, frio e todo o tipo de necessidade, sempre escondidas. As pessoas que se vê na televisão, na maioria dos casos são pobres, sim, de espírito. Não há nada que mais me revolte que ver as pessoas na televisão a queixarem-se que vivem sem condições, em casas cheia de humidade, e depois vêm-se paredes negras da humidade, mas aí, é um caso de higiene, não de pobreza, porque uma vassoura, um pano e lixivia, tratam disso em três tempos, e acredita que sei do que falo, porque a minha casa leva as paredes lavadas a cada 15 dias, ou mesmo a cada 8 dias. As pessoas queixam-se que o Estado não as ajuda, quando são elas que não querem ser ajudadas, porque se aceitarem trabalhar, as coisas até nem são tão más, mas pronto o Estado que não as ajuda até lhes paga o rendimento social de inserção... as pessoas queixam-se, mas o que fazem? Continuam a queixar-se do Estado, que ninguém faz nada, e elas em nada ajudam porque recusam todas as ofertas de trabalho, em que tem de descontar para a segurança social, como tu, como eu, e como grande parte das pessoas que levantam o cú da cama, bem cedo para trabalhar e ter comida na mesa todos os dias. As pessoas muitas vezes dão-se ao luxo de deitar fora as roupas que receberam de instituições, e depois vão para os centros comerciais comprar roupa de marca no dia a seguir. As pessoa querem que o Estado lhes dê uma casa, com condições, quando nunca descontaram um cêntimo nem para impostos, nem para a segurança social, tu, ou eu, ou quem trabalha, não tem direito a casa, se queres um tecto, tens de pedir dinheiro ao banco... Eu que tenho um ordenado um pouco nada, acima do ordenado mínimo, se tivesse um filho com 6/7 anos, receberia 30€ por mês de abono de família, para fazer face à alimentação, despesas com educação, saúde, o normal que uma criança necessita, enquanto os que não descontam, ou nunca descontaram recebem mais, e mais ainda se tiverem mais filhos. Há umas semana vi um documentário, em que um casal tem 10 filhos, e só o pai trabalha, numa pequena empresa de brindes publicitários, que é sua. A mãe, não trabalha para poder dar apoio a uma familia tão numerosa, sendo que a mioria dos filhos estuda, e até são alunos exemplares. Este casal rcecebe de abono de família 30€ por cada filho... porque o pai é empresário e trabalha por conta própria. Este casal, tem filhos educados, que estudam com mérito, e que serão cidadãos honestos, e responsáveis no futuro, e não é ajudado, quando ajudou no crescimento do país com cidadãos responsáveis. Aqui ao meu lado há um casal com 5 filhos que recebe cerca de 600 € do Estado, para os filhos, mais o rendimento de inserção para a mãe. A mãe está grávida do 6º filho, de propósito, porque assim recebe mais para estar em casa e cuidar dos filhos, e ainda recebe comida da cáritas. Afinal, parece que a pobreza existe, sim, escondida, e para quem trabalha que não tem apoios de lado nenhum. Quem nunca descontou, ganha balurdios para não fazer nada, para se multiplicar em grande número de filhos que vão viver do mesmo, à conta da segurança social, que é paga com os teus, com os meus descontos, com os descontos de quem trabalha. Se o teu vizinho se queixar que tu maltratas os teus filhos, ainda que não o faças, tens a segurança social à porta, que depois os leva para uma instituição, lá o mais longe possível da tua casa. Nos bairros de lata, e aos ciganos a segurança social não vai retirar crianças, porque passem fome, frio ou sejam maltratadas, nem sequer passam lá perto, quanto mais lá entratrem... O Estado dá dinheiro aos ciganos, e a quem nesses bairros vive, e que não quer trabalhar, e dá-lhes casas. Eu tenho que trabalhar, descontar, e se for ao banco, vão-me dizer que o meu ordenado não é suficiente para pedir um empréstimo para uma casa, mas o Estado a mim também não me ajuda. O povo de Cabo Verde é pobre, mas o povo português, em grande número... é hipócrita!
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De Jorge Soares a 21.02.2010 às 22:21

Olá Xana

E mais não digo, porque não é preciso..

Beijinho e boa semana
Jorge
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De DH a 18.02.2010 às 09:17

Bom dia Jorge.
Com certeza vais responder à Cris, mas não me parece que tu digas que se vive bem com 450 euros. Mais do que isso gasto eu com os meus filhos, com ATLs e actividades... Tu e a P. sabem bem o que é isso.
Bom, eu só queria sublinhar exactamente o que tu dizes, que 40% de pobres em Portugal é um número que me custa acreditar.
Eu vim de Angola com 3 anos. Os meus pais vieram de férias com 3 filhos (eu era a mais nova) e quando íam regressar os meus avós, que ainda lá estavam, disseram-lhes para não o fazerem, que estava para "rebentar" uma guerra, que já tinham morto um amigo nosso. Bom... imaginas o que é de repente teres tudo o que é teu a uns milhares de quilómetros, e estares noutro país só com roupa para férias, sem emprego e sem casa? Eu não imagino o que é... E foi assim que, do nada, os meus pais (re)construiram a sua vida. Se passei fome? não creio, mas durante anos não soube o que era comer um bife (agora também não como, mas por outras razões). Se passei frio? Não, mas vesti sempre a roupa que já ninguém queria. Se tinha brinquedos? Pouquíssimos, mas talvez por causa disso foram brinquedos muito amados e "brincados". Lembro-me de fazer em casa os enfeites para a árvore de Natal, lembro-me de nunca se fazer uma sobremesa que levasse natas ou leite condensado, por serem muito caros... Lembro-me de a minha mãe fazer rissóis e bolos de bacalhau, para fazer "crescer" a carne ou o bacalhau...

Sabes o que ainda hoje custa mais à minha mãe? Ter deixado em Angola as fotografias dos filhos quando eram bebés. Há coisas que o $ não pode comprar...

Bom, Jorge, com isto só quis dizer que se vive hoje muito melhor do que se vivia há uns anos atrás. Tenho amigos pouco mais velhos do que eu que passaram fome, frio e falta de tudo...

Hoje vejo os meus alunos a deixar no prato metade da sandes que pediram no bar. Vejo imensas pessoas a deixar comida no prato, a pedir um exagero de comida num restaurante... Vejo garrafas com mais de metade da água lá dentro a serem deitadas no lixo. Vejo pessoas a tomarem duches de 20-30 minutos... ... E poderia continuar com a lista de exageros a que eu não me permito.
Bjs
Dulce

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De Inominável a 18.02.2010 às 09:27

Dulce, a tua resposta também me sai da boca... os meus pais vieram de Angola em situações semelhantes (mas já depois do rebentamento da guerra). Já nasci em Portugal, mas as dificuldades e as lembranças são as mesmas. O que mais custa, no meio de tudo, é esta pobreza intelectual a que assistimos e o resto vem de arrastão...

Se actualmente sou completamente fanática por leitura e livros foi porque nunca pude ter nenhum livro que fosse meu antes: tinha que os pedir emprestados, requisitar nas bibliotecas ambulantes, sei lá mais o quê... Hoje compram-se livros porque dão estatuto... (há excepções, eu sei, mas eu desacredito tanto no que vejo).
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 22:06

Olá

Pobreza intelectual... isso sim...e muito mais que os 40%

Bem vinda ao meu cantinho e obrigado pelo comentário

Jorge
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 22:05

Dulce

A maioria das pessoas não tem as recordações que tu tens, e como não passaram por isso não conseguem entender que há mais mundo para além do que conhecem, todos sempre tiveram televisão, e telemóvel e consolas e todas as regalias. É claro que a maioria destas coisas é à custa de créditos e salários adiantados, e as pessoas gastam tudo um ou dois meses antes de receberem o salário, mas não há problema, porque o banco dá sempre mais... até um dia.

Outra coisas que acontece é que as pessoas dão por adquirido que a vida que tem vai durar para sempre e não se preocupam em poupar, depois quando um dia a vida muda, não tem a que agarrar-se, e depois são pobres... mas será isto ser pobre?

Da juventude de hoje em dia nem falo, lembro-me de quando voltei à faculdade, eu que era o que tinha o melhor emprego e se calhar o que tinha melhores condições, era dos poucos que não tinha um portátil, a maioria dos meus colegas, que viviam com o salário mínimo ou pouco mais, tinha um portátil.... mas a vida actual é assim, estamos habituados a ter tudo, sem importar o que custa ou se é ou não necessário... depois um dia, o dinheiro não dá e somos pobres..... desculpem lá, mas pobreza de espírito é muito diferente de pobreza material.... e em Portugal o que há realmente é muitos pobres de espírito.

Jorge Soares
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De Leamar a 18.02.2010 às 11:24

O "problema" Jorge é que:
- em Cabo Verde o facto de uma criança não frequentar escola não faz de uma pessoa um mau pai...enquanto que cá torna-se péssimo.
- em Cabo Verde uma criança andar descalça ou suja torna-se normal...cá és um porco porque não tens os filhos asseados.
- em Cabo Verde a assistência médica é praticamente inexistente...cá não. Mas encarregam-te de te depenar as contas em três tempos com medicação, tratamentos adequados e urgentes. Se não a comprares ou fizeres por falta de dinheiro és uma "merda" de pai (desculpa a expressão) que nem para medicamentos ganhas.
Por exemplo: a minha menina foi operada aos ouvidos. Já não ouvia praticamente de um. O médico diz-me que é urgente a operação porque já estava a afectar o osso e estava a tornar-se crónico, podendo afectar a audição futura da minha menina de 3 anos. Como não tinha essa quantia, ainda falei e perguntei sobre as listas de espera...mas levei logo com esta: "Então para comprar carros, casa e outras coisa fazem empréstimos...e para uma operação pensam duas vezes?!" Senti-me a pior mãe do mundo! Fizemos um empréstimo e operaram a minha filhota! Uma das recomendações pós operatórias é a de que não posso molhar os ouvidos à minha filha. Todos os cuidados e mais alguns...mas...
Esta semana um dos ouvidos da minha filha começou a deitar um líquido tipo cera em grande quantidade. Telefonei ao médico... "Pois minha senhora, foi falta de cuidado sua..." Novamente me fez sentir o mais anormal dos seres! Tenho tanto, mas tanto cuidado...ninguém imagina! A hora do banho põe-me fisicamente mal disposta, agoniada...Então depois disto...
É principalmente esta carga moral, psicológica sobre nós (pais) que não existe em Cabo Verde. Mas se me perguntares...
Antes pobre em Portugal do que pobre em Cabo Verde! Principalmente porque sei o que é viver como se cá vive. As angústias das pessoas são diferentes!...assim como as sociedades! Mas não nos podemos conformar com: "ah eles vivem pior então eu tenho de estar com cara alegre o tempo todo" NÃO!!!
A minha filha tinha direito a ser operada pela caixa sem eu ter de me sentir uma caca de mãe por isso. Eu trabalho e desconto para isso! Mas não... porque demora demasiado tempo...e isso seria prejudicial para ela! O problema não deveria estar em mim mas sim no sistema...mas o sistema encarrega-se de me imputar essa carga, senão sentir-me-ia mal o resto da vida por isso. E eles sabem disso e valem-se disso. E o sistema dificilmente será "reparado" ou rectificado. Melhorado...talvez! Mas para quem está à beira da morte jamais se pode valer de um sistema...e o pobre "paga a factura" de ser pobre...e morre mais depressa.
Em Cabo Verde...esse "mais depressa" é extraordinariamente cedo, uma vez que nem de um sistema de jeito eles têm para reclamar como eu estou a fazer!

Bem acho que já misturei tudo, alhos com bugalhos e personalizei a "coisa"...mas eu sou assim! Os meus problemas também os tenho de deitar para fora. Importas-te de os ler??
Que remédio... não é?
Fica bem.
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 22:16

Olá

Bom, não podemos confundir o que funciona mal em Portugal, e a saúde é mesmo do que funciona pior... apesar de eu da única vez que precisei ter sido atendido de forma mais ou menos razoável, mas dizia eu que não podemos confundir o mau funcionamento das estruturas com a pobreza da população. Concordo que há coisas que funcionam mal e que isso torna a vida das pessoas mais dificil, mas isso não faz delas pobres.

Não foi a minha intenção dizer que como há lugares onde se vive bem pior, por cá todo o mundo vive bem, eu só tentei comparar as realidades de dois povos e as dificuldades de uns e outros para tentar concluir que dizer que 40% da população é pobre é um enorme exagero, basta ver que mais de 40% da população tem internet em casa..e não me venham dizer que alguém que consegue pagar a internet é pobre... porque me recuso a acreditar.

Quanto à situação da tua filha, bom, eu tenho um que também foi operado aos ouvidos, e aos olhos, e precisou de terapia da fala..e de apoio para a dislexia e..... e tudo isto são muitos milhares de Euros ... que eu me dou feliz por poder pagar..... mas é à custa de muitas contas....e de felizmente me terem ensinado a poupar e a pensar que o que não gasto hoje pode ser muito util amanhã.....

É um prazer ler-te... tu deverias ter um blog... a sério.

Jorge
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De Leamar a 18.02.2010 às 11:41

Jorge, deixa-me personalizar ainda mais...
Eu tenho agora 30 anos. Sou portanto uma jovem...
Venho de uma família muito problemática, com pai alcoólico. Não tive casa de banho em casa até aos meus 11 / 12 anos. Não tivemos carro até aos meus 14 anos. Andei muito a pé. Não tinhamos férias. A minha mãe emigrou (deixando-me a mim e ao meu irmão cá com os meus avós) durante ano e meio para o Canadá para pagar dívidas do meu pai, e enviou-me uma Barbie de presente. Fiquei felicíssima porque todas as minhas amigas tinham carradas de bonecas. A minha avó não me deixava brincar com ela para não a estragar.
Não tinhamos tv. Não tinhamos rádio. Mas sempre tive o amor da minha mãe que é uma valente!
Mas quando me perguntam: "Tiveste uma infância feliz?" Tenho que dizer que sim...
Porque a minha mãe sempre se esforçou por esconder os problemas de nós. Porque tinha muitos amigos vizinhos com quem brincar. Porque podia andar à chuva sem um adulto a chagar-me o juizo! Porque faziamos cabanas no meio do mato. Porque brincávamos ao calhau. Porque nunca tive bicicleta mas quando experimentei andar numa de um colega meu, parti os queixos e nunca mais pensei nesse assunto....
Uma infinidade de coisas...e não estou a falar de tempos muito longínquos. A minha mãe teve uma infância com mais mordomias que a minha própria infância...e por isso sofreu muito! Diz ela porque não conseguiu dar-nos aquilo que os pais dela lhe deram. Mas já lhe disse tanta vez: deu-me o principal...AMOR às paletes! Força para me superar! Coragem para me afirmar! Amizade para compartilhar!
É hoje a minha melhor amiga: aquela a quem tudo confio, apesar de nem sempre concordarmos com tudo. Claro está...hoje está divorciada...solteira mas bem acompanhada: por dois filhos e duas netas!
A felicidade encontra-se até em Cabo Verde! Disso estou certa.
Beijos...e desculpa lá...é agora!
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 11:48

Não tens que pedir desculpa.... tu sabes que és sempre bem vinda e as tuas opiniões são sempre importante.

Decidi abrir uma excepção e comentar fora de horas , logo no horário de expediente blog comento com mais tempo, mas não podia deixar de fazer-te uma pergunta:

Tu consideras-te pobre?, é claro que todos nos achamos pobres, ou remdiados, mas eu acho que pobre é que mpassa dificuldades, quem chega ao fim do dia e não comeu uma refeição decente nem tem como a comer..... estou errado?

É claro que é possivel ser pobre e ser feliz.. mas não é possivel ser mesmo pobre e ser feliz.... certo?

Jorge

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De Leamar a 18.02.2010 às 14:14

Não, não estás nada errado!!
Eu sou remediada...trabalho e o meu marido trabalha. Basta isto para não se ser pobre. Se passo fome? Não...não passo! Frio...um bocado, não tenho aquecimento, mas tenho aquecedores!
Mas quando o médico me falou naquela operação que me custou os olhos da cara (claro que para muitos não passa de trocos) senti-me pobre! Pobre porque não tinha assim na base do toma lá, dá cá! Naquele momento senti-me pobre...mas com trabalho tudo se arranja! Pode até ser psicológico, posso até ser descompensada mas...
...passei a detestar aquele médico!
Eu acho que até os ricos se sentem pobres em alguns momentos da vida! Nem que seja por qualquer estupidez supérflua! É obvio que eu não sou pobre relativamente a muita, mas mesmo muita gente de Portugal quanto mais de Cabo Verde...mas aquele foi o único dia em que me senti pobre! Acreditas?? Diz a minha mãe que não tinha leite para me dar, dinheiro para comprar pão, que eu era uma esfomeada por iogurtes, mas não os podia comprar etc etc... Não me lembro! Sou sincera...não me lembro mesmo! Só agora quando o médico falou comigo naqueles termos é que senti isto. E não gostei nadinha de nada! Penso que a diferença está entre o ser e o sentir!

Como já te disse sou uma pessoa bastante baralhada...

Sobre esta frase:
“É claro que é possivel ser pobre e ser feliz.. mas não é possivel ser mesmo pobre e ser feliz.... certo?”

Não sei se viste uma reportagem na sic sobre os “órfãos da sida”. A certa altura falam com um adolescente que cria 3 ou 4 irmãos. Perguntam-lhe se lhe falta alguma coisa. Ele pensa, pensa e responde que não. Tem os irmãos com ele e com saúde...não quer mais nada...que está feliz! Consegues acreditar?? E é realmente pobre!
Esta reportagem impressionou-me!! Mesmo...
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 22:27

Tu a mim não me pareces nada baralhada... bem pelo contrario, bem lúcida.

Tens razão, todos nos sentimos pobres alguma vez na vida, eu sinto-me pobre cada vez que preciso de fazer contas para comprar algo e chego à conclusão que é necessário recorrer ao banco...e a P., que ela é quem trata das finanças, passa dias a fazer contas e a ver como é que fazemos para ficar-mos a pagar o mesmo possível.... e nós temos por norma nunca comprar nada, seja uma casa, um carro ou o que seja, sem termos pelo menos metade do dinheiro para dar.... e fazemos sempre as contas a ver se mesmo que um dos dois fique sem emprego, o salário do outro dá para pagarmos tudo e vivermos.... aí sinto-me pobre, porque sinto que nuca nada é meu... é sempre pelo menos metade do banco..... e já me dou por feliz por poder pensar que estamos preparados para algum azar da vida.... porque conheço pessoas que até ganham bem, que se por acaso algum dos dois tem um azar... é o fim, porque até o ultimo cêntimo já tem destino..... e tantas vezes fico a pensar que eles são mais felizes que eu.....

Quanto ao teu ultimo paragrafo.... só posso concluir que para quem tem pouco, é necessário muito pouco para se ser feliz...e que quanto mais se tem, mais difícil é ser feliz..deve ser por isso que vim de Cabo verde a pensar que eles são um povo de pessoas felizes e bem dispostas.

Jorge


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De Pedro Oliveira a 18.02.2010 às 17:42

A minha perspectiva é que desperdiçamos muito e não damos valor ao que temos, porque tudo é efémero,não custa a ganhar....
Quanto ao Dr. Nobre. Penso que é um bom sinal vir alguém da dita sociedade civil quebrar a hegemonia dos politicos que vão fazer uma comissão de serviço por serviços prestados à nação,como PR´s.
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De Jorge Soares a 18.02.2010 às 22:30

Olá Pedro

Tocaste no ponto.. desperdício, é aí que está a clave de tudo.. há muita gente a achar que é rico quando não passa de remediado....

Quanto ao Dr Nobre... a mim parece-me que é um ataque à candidatura de Manuel Alegre...e que há alguém que deve estar muito contente nesta altura ....

Abraço
Jorge
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De Existe um Olhar a 11.04.2010 às 16:28

Olá Jorge
Sempre nutri uma grande admiração por este senhor e pelo trabalho humanitário que tem desenvolvido. Tive oportunidade de o conhecer pessoalmente na apresentação do livro de Daniela Santiago (jornalista), Inferno no Paraíso em que descreve 15 dias no Sri Lanka depois do Tsunami e onde conviveu de perto com Fernando Nobre
Fiquei com a ideia que era uma pessoa com valor enquanto homem e médico, agora pasme-se...político?! Não essa não. Por que será que a política tem essa capacidade de desviar pessoas de espírito nobre e altruísta para um outro, que se tem provado ser, egoísta, corrupto, e oportunista?!
A não ser que os senhor em questão decida acabar com a pobreza , a injustiça e as desigualdades que existam no nosso país.
Por mim prefiro continuar a vê-lo como tenho visto até aqui.

Beijos
Manu
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De Jorge Soares a 11.04.2010 às 16:38

Olá Manu

Sem duvida que o trabalho da AMI é de louvar... mas está visto que na politica ele vai pelo mesmo caminho dos outros... pior, eu diria que um politico a sério nunca teria feito o que eles fizeram com a minha fotografia.

Beijinho
Jorge
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De mafalda-momentos a 16.04.2010 às 14:11

Olá Jorge
Tu sabes que não costumo comentar aqui. Leio-te algumas vezes, mas comentários não deixo.
Politica é coisa que sinceramente me desiludiu por completo e por isso quanto à candidatura de Fernando Nobre a única coisa que me ocorre é que tal como dizes e eu concordo completamente, politicos é uma classe essencialmente e generalizadamente corrupta. Então porque não dar o beneficio da dúvida a alguém que vem de fora, de outro meio e quem sabe, tenhamos esperança com o ideal de fazer algo de diferente? Eu penso que politicamente era isso que precisavamos. Arrumar no quarto escuro todos os nossos politicos e fabricar uma nova geração com outras posturas, onde não existisse a cobiça, a depravação, a corrupção, atrevo-me até a dizer a ignorância porque para mim, a maior parte nem sabe nada de como governar (no bom sentido) um país. No entanto sabem muito bem como governar-se a si próprios.
E para quem não gosta de falar de politica acho que já falei demais.
Sabes, depois de ler-te e de ler atentamente os comentários (um debate muito interessante), lembrei-ma de um ditado popular que a minha mãe dizia - "Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão".
Para mim isto traduz um pouco aquilo que se passa no nosso país e o que se disse aqui.
É evidente que não se pode comparar o nível de pobreza entre Cabo Verde e nós. Aliás parece-me que esse rasto e mais alguns deixámos nas nossas chamadas "colónias" africanas. O defeito será do nosso povo que não soube semear outras culturas?
É possivel.
Do que aqui foi dito, todos terão as suas razões e eu não lhas tiro. Mas uma coisa é certa, por dois ou três exemplos não se pode generalizar. Que não se pode viver com 450€ não pode, que a saúde para quem não pode recorrer à particular é uma porcaria e mata é verdade, que a educação não é acessível a todos também é verdade, que vivemos numa sociedade consumista, sem dúvida, que deixou praticamente de haver três classes sociais (isto para já não falar nos muito ricos), os pobres, os remediados e os ricos também é verdade. Os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos e a aumentar de número, os remediados estão a passar a pobres. Que dizer dos casais com filhos em que ambos ficaram sem emprego. Conheço quem recorra para alimentar a familia à sopa dos pobres. Que o emprego falta, não é segredo para ninguém. Diz-se que quem quer trabalhar arranja sempre, mas sabemos que não é bem assim. Vivemos tempos aos quais já se chama a geração dos 500 € e mesmo assim felizes daqueles que os conseguem arranjar.
Tenho sinceramente muita pena da geração dos nossos filhos. Quando acabei o liceu não tive qualquer dificuldade em arranjar trabalho, trabalho esse que foi para toda a vida. Quem hoje consegue garantir isso? Vive-se muito bem no nosso país sem dúvida, mas só os acima da média e esses não perfazem a maioria da população. E vês gente a viver muito bem que não sabes como conseguem, porque vivem de expedientes, de negócios pouco claros, porque lhes é permitido, porque não há consciência governativa, porque a esses até convém.
Desculpa Jorge já me alonguei muito.
No fundo só quis dizer que todos temos razão nos protestos que fazemos, mas as comparações não servem de nada, porque as realidades sâo sempre diferentes umas das outras.
Bem hajas por teres aqui um cantinho cheio de humanidade, uma coisa que nos faz muita falta a todos.
Um beijinho para ti
Mafalda
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De Jorge Soares a 16.04.2010 às 14:57

Olá Mafalda

Belo comentário.... muito mais haveria a dizer.. não preciso de dizer que depois dos últimos acontecimentos, não me parece que exista diferença alguma entre esta candidatura e todas as outras, não sei se leste, mas gostaria que lesses, estes meus dois posts:

http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/190411.html
http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/190560.html

Beijinho

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