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Não, não aconteceu nada!

por Jorge Soares, em 26.02.10

Não, não me aconteceu nada

 

Imagem do Público

 

“Não aconteceu nada.” Repito e repito a quem liga. Estou intacta, os “meus” estão intactos, suponho que não aconteceu nada.

 

Mas é um “nada” cheio de pessoas desaparecidas, é um “nada” repleto de cadáveres sujos, é um “nada” com muitas despedidas, com filhos perdidos, com mãos vazias.

 

E, sim, tenho lama até à cintura e pedregulhos no coração. E à noite, entre sonhos e pesadelos, tenho a casa inundada, filhos a escaparem-me dos braços e gritos maternos ecoam-me no peito e caem no colo saqueado.

 

E, sim, quando a chuva cai, em gotinhas miudinhas e inofensivas, não consigo respirar, vejo-me presa no carro vazio e sou arrastada para o fim do mundo e nada me prende e morro uma e outra vez.

 

E, sim, de vez em quando, vou a correr para casa e espero que ela lá esteja, rezo para que ela lá esteja, que as fotos de quem eu era, de quem os avós eram, esses que já cá não estão, lá estejam. Porque tenho medo de não ter mais passado, de sucumbir no meio da lama, da terra, do entulho e de me tornar invisível. Medo de acordar e já não existir.

 

E, sim, quando ando na rua olho de soslaio a ribeira, que vai murmurando baixinho, e as montanhas imponentes, que recortam o céu, e já não lhes adivinho nenhuma beleza…oiço-as troçar de mim, dos que choram, dos que partiram, dos que ficaram.

 

E, sim, a cada passo que dou, as pontes e as estradas parecem abrir buracos e as fendas invisíveis atormentam-me e não me surpreenderia cair no vazio e perder-me de mim, dos outros e não mais me encontrar ou ser encontrada.

 

E, sim, espero que me salvem e admira-me que me vejam a lama até à cintura, os pedregulhos na alma e não chamem ninguém para ajudar, espanta-me que na minha casa, inundada e vazia, não haja bombeiros atarefados, jornalistas curiosos a relatar ao mundo a tragédia que me assolou, que nos assolou a vida.

 

Parece que as ruas vão ficando limpas, algumas…e parece que decretaram que temos de sorrir e acenar e andar e comer e trabalhar e, de novo, sorrir e até, quem sabe, rir.

“Não, não aconteceu nada.”

 

Texto escrito e enviado por Lena Câmara Pacheco

Advogada/Madeira

 

Via Meninos de Ninguém

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publicado às 17:15


10 comentários

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De Anónimo a 26.02.2010 às 18:52

Percebo tão bem este texto. Também eu digo aos meus que está tudo bem mas omito aquela parte de ficar cheia de medo quando oiço que vai chover, que não consigo fazer muito mais do que o caminho "casa-trabalho", que acordo de noite muito mais vezes do que o normal e vou à janela ver se "está mesmo tudo bem", que agora deixo o "novo" carro bem longe de casa mas num sítio alto, que olho para as ribeiras com outros olhos, que não me esqueço de ter ficado "isolada" em casa sem luz, sem água, sem televisão.
Enfim, é verdade, as ruas estão a ficar limpas. Só falta mesmo o resto.
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De Jorge Soares a 01.03.2010 às 22:22

Olá Inês

Ainda bem que apareceste, durante a semana passada lembrei-me várias vezes de ti, tenho ideia que estás para os lados da Ponta do Sol, onde as noticias não foram tão más.. mas...

É dificil imaginar o que as pessoas possam sentir, mas imagino a tua ansiedade... e tens razão, limpar as ruas, erguer paredes, reconstruir estradas é fácil... o resto é muito mais dificil, porque as pessoas não se reconstroem de um dia para o outro.

Beijinhos e ainda bem que estás bem.

Jorge
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De Inês a 26.02.2010 às 18:53

O comentário anterior é meu, humpf!
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De julieta barbosa a 26.02.2010 às 21:41

Parece-me que existe um "Haiti" em cada país... "Não, não aconteceu nada!" Vamos hastear a Bandeira e orgulhosos, cantemos o Hino Nacional. Os políticos agradecem!
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De Jorge Soares a 01.03.2010 às 22:26

E já agora a festa segue... ainda há quem acredite que pão e circo alimentam o povo...

Obrigado pela visita e pelo comentário

Jorge
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De Lou Alma a 27.02.2010 às 01:24

Não faço sequer uma menor ideia o que é sentir -se inseguro no nosso próprio chão, a terra que vemos como nossa de repente se virar contra nós. Ficar sem parte do que define a nossa existência ficar só copo e memórias mas ficar enquanto outros foram. O medo deve ser terrível, que tudo volte de novo...Um abraço é tudo o que posso dar. Desejar muita força para reconstruir.
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De Jorge Soares a 01.03.2010 às 22:27

Olá

Sim, é dificil imaginar..

Obrigado pelas visitas e pelos comentários.

Jorge
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De Lena Câmara Pacheco a 01.03.2010 às 10:44

Obrigada por divulgar o que escrevi, que é o que sinto!!
Sigo atentamente este blog porque os temas acerca da adopção interessam-me muito (espero tornar-me uma mãe adoptiva daqui a uns tempos).
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De Jorge Soares a 01.03.2010 às 22:30

Olá Lena

Em primeiro lugar obrigado pr esta partilha, estivemos dias a ver as mesmas imagens na televisão, milhares de horas de imagem, centenas de entrevista, mas na realidade mostraram muito pouco sobre o que sentem as pessoas...e é importante, até porque há quem queira mesmo fazer com que não se tenha passado nada... e na verdade passou-se tanto, não é?

Os posts sobre adopção seguem dentro de momentos, quando o coração acalmar.

Obrigado pelas visitas, pelo texto e pelo comentário

Jorge

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