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Criança triste, os filhos não se devolvem

Imagem da internet

 

Antes de mais um esclarecimento para todos os leitores e que a maioria dos jornalistas deveria ler, em Portugal não há devolução de crianças adoptadas, é um erro que vemos muitas vezes repetido já seja na imprensa escrita ou na falada. Depois de decretada a adopção não há diferença nenhuma entre um filho biológico e um adoptado, a devolução de um filho tem outro nome, abandono. O que efectivamente acontece algumas vezes, 16 vezes durante o ano 2009, é a entrega das crianças durante o período de pré adopção por parte dos candidatos a pais.

 

Mas o que me levou a falar deste assunto, foi esta noticia do IonlineNorte-americana devolve filho adoptado à Rússia, uma noticia que para os nossos princípios é chocante mas que à luz da realidade americana é algo comum, tão comum que em nenhuma das noticias sobre o assunto ouvimos falar de penalizações para a senhora. A cultura americana é muito diferente da nossa e mesmo nas séries americanas que vemos por cá, é muito comum ouvirmos falar da história de vida dos criminosos e da passagem por várias casas de acolhimento e de adopção.. é mesmo assim..e é evidente que não é muito difícil perceber um dos motivos que leva estas pessoas ao crime e à violência.

 

Mas estas coisas também acontecem em Portugal, esta noticia no DN fala do caso da casal que devolveu a criança porque não se dava com o cão, que será o motivo que mais nos choca, quer dizer....  qualquer noticia que fale de uma devolução de uma criança é uma noticia chocante. As crianças não são objectos, não se compram na mercearia da esquina e assim como não vêm com livro de instruções, não se devolvem. Nos últimos 10 anos conheci muitos pais e candidatos e muitas crianças adoptadas, tive conhecimento de uma devolução.. Um casal que recebeu dois irmãos e que passados dois ou três dias os devolveu.

 

Acreditem, para nós pais adoptivos, há poucas coisas que nos choquem mais..e na altura todos tivemos que engolir muitos sapos para não dizermos o que nos ia na alma.

 

Mas o que leva à devolução de uma criança?... há algo que eu costumo repetir muitas vezes, uma adopção é um processo em que de um dia para o outro nos entra pela casa dentro um estranho, e nós nem sempre temos capacidade de gostar de imediato dos estranhos que vamos conhecendo, ora, se este estranho fica a viver em nossa casa... e se ainda por cima este estranho é uma criança que já passou por situações de vida em que foi maltratado, violentado, abandonado.. o mais certo é que não seja o filho ideal que a maioria das pessoas sonhou. E do meu ponto de vista esse é o maior problema, as pessoas idealizam os filhos, criam uma imagem do filho perfeito que vai chegar ávido de amor e carinho e vai receber os pais de braços abertos.... meus amigos, isso não existe.

 

O primeiro que faz uma criança adoptada é testar os limites dos novos pais, esticam a corda ao máximo e quanto mais corda damos, mais eles esticam, faz parte do processo normal. Até se sentirem seguros, até concluírem que a ligação é mesmo definitiva eles fazem trinta por uma linha.. com o tempo acalmam... mas entretanto mais de um pai que deveria ser babado, já entrou em desespero. Depois há que recordar que estamos a falar de crianças que vêm de instituições, crianças que a maior parte das vezes estão habituadas a viver com regras que não tem nada a ver com a vida familiar.. se a isto juntarmos a pouca auto-estima que tem alguém que já foi abandonado... temos uma mistura muitas vezes explosiva...e nem sempre estamos preparados para isto.

 

Mas a culpa vai mais além, muitas vezes as crianças não são preparadas devidamente para a nova situação de vida, há bem pouco tempo vimos uma reportagem na televisão, em que explicavam o caso de uma criança que foi levada a conhecer os supostos novos pais sem que nunca lhe tivessem falado do assunto antes, é claro que a criança rejeitou a adopção. Muitas das instituições não tem equipas técnicas capazes de preparar as crianças para a adopção, muitas destas instituições não acham que a adopção possa ser a solução .. portanto não é estranho que a responsável da segurança social de Lisboa tenha dito no encontro nacional de adopção que sabem perfeitamente se as coisas vão ser mais fáceis ou mais difíceis .. porque depende da instituição. E claro, há muita culpa em quem avalia crianças e candidatos, porque é difícil de acreditar que não se detecte nas entrevistas do processo de avaliação dos candidatos que a pessoa está a idealizar.. ou que o cão é mais importante que o filho que aí vem.

 

Muito mais haveria a dizer.. mas o post já vai longo.. só mais um detalhe, adoptar não é ir ao supermercado e escolher... adoptar é querer ter um filho e dar amor ... logo, FILIPA AMBRÓSIO DE SOUSA do DN, o titulo da noticia até pode servir para vender jornais, mas além de infeliz, é triste.. as crianças não se devolvem... porque os filhos não se devolvem... e é dos nossos filhos que estamos a falar

 

Jorge Soares



publicado às 21:26


5 comentários

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De Pedro Oliveira a 12.04.2010 às 10:46

Mais um excelente post, Jorge.
Os filhos não se devolvem mesmo!
O casos que contas são na realidade chocante,mas mais chocante são as causas que enumeras e a principal é a falta de preparação de Pais e instituição para dar o melhor às crianças: AMOR!
abraço e boa semana
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De Existe um Olhar a 12.04.2010 às 20:56

Olá Jorge
Quando leio ou ouço falar da palavra "devolução" tratando-se de uma criança, fico arrepiada, chocada e a pensar que estamos num mundo de doidos. Por outro lado penso que pessoas que "devolvem", não têm a mínima condição para saber educar alguém, portanto mais vale que não o façam, pena que não vejam isso antes de decidirem fazê-lo.
Se uma criança já tem baixa auto estima interrogo-me como ficará depois de ser devolvida, mesmo que nos esforcemos nunca conseguiremos avaliar tamanho sofrimento.
Penso que deveria ser feita uma cuidadosa análise dos pais candidatos á adopção.
Quem adopta tem que ser verdadeiramente especial.
Beijos
Manu
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De Anónimo a 15.04.2010 às 00:01

Amigo estou de acordo com tigo,ha muitas pessouas que parecem que nao tem coracao por ninguem.
BEIJINHO ZOEY
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De Oficinas Ranha a 21.05.2010 às 14:56

Descobri hoje este blog e tenho estado aqui avidamente a ler alguns posts.
Não tenho contacto com a realidade da adopção e tenho estado plenamente de acordo com as coisas que leio escritas por si. É chocante que os órgãos de comunicação social, impressos pelas políticas governamentais, espalhem a ideia que não há mais crianças por adoptar porque não há pais adoptantes a desejá-las.
O meu trabalho relaciona-se com o sistema de justiça e lido indirectamente muitas e muitas vezes com situações de crianças mal tratadas que são colocadas em instituições... interrogo-me, face a coisas que vou conhecendo, que sistema é este que "agarra" e prende uma criança com pais pouco cuidadores... a ideia da família biológica estar acima de tudo é completamente absurda face a determinadas situações...
Em relação a uma coisa que disse neste post: sou mãe biológica de duas crianças e costumo dizer que tive a sorte de as amar ao primeiro olhar... aliás, de as amar antes do primeiro olhar. Mas sei, por estudos que existem, que nem sempre é assim. Muitas mãe /pai idealizam filhos perfeitos e a realidade com que se deparam ao levá-los para casa está longe disso... É natural que no caso da adopção também aconteça, não...? Talvez as pessoas em causa não estivessem afinal devidamente preparadas... mas isso poderá ser mais um problema do sistema, calculo eu, que terá de nutrir esse tipo de falhas...
Contudo, parece-me que os casos serão mesmo muito poucos... e poderemos então concluir que a questão poderá ser individual... pessoas... as pessoas são complicadas... e há as melhores, as piores, as racionais, as maduras e as imaturas...
Enfim, já vai longo e não sei se disse algo de verdadeiramente aproveitável...
Rita
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De Dona Urraca a 22.02.2012 às 21:38

E aquele rapaz adoptado,estudante de medicina que matou a mãe adoptiva porque achava que ele se estava e intrometer na sua vida porque tinha más notas? Deverá ser respeitado?

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