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Conto:Tentação

por Jorge Soares, em 17.04.10

Tentação

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

«O comboio pôs-se em marcha e ficámos sós. Só então, por estranho que pareça, atentei bem nela. A sensação que tive, não lha posso descrever. Eu nunca tinha visto e nunca mais voltei a ver ninguém a quem melhor pudesse servir a expressão «anjo do Senhor». Nem as virgens dos primitivos nem as dos italianos, nem mesmo as dos místicos espanhóis, em que, apesar de tudo, a carne se revela, por melhores que sejam os disfarces, para atestar a sua origem humana. Mas nela não. Ela, era a imagem da pureza absoluta, como a dum ser que tivesse sido gerado antes do pecado inicial. E não julgue que a sua figura era destas que podem ser concebidas pela imaginação de um asceta. Não; não havia nela nada de esquálido, ou de anguloso, nem esses lábios finos nem esse olhar mortiço que teoricamente são os atributos da castidade perfeita. Não; era uma mulher de olhar luminoso, de lábios cheios e formas harmoniosas que se moldavam nitidamente sob a severidade do hábito. O que havia nela de integralmente puro, posso mesmo dizer, de divino, era qualquer coisa que vinha de dentro e que, revelando-se através da doçura do olhar e da suavidade da voz, envolvia a sua configuração humana num halo imponderável e intangível de beleza etérea. Senti-me enleado e qualquer outro se sentiria no meu lugar; mas não havia no meu enleio, pode crer, outra coisa que não fosse uma espécie de arroubo místico, uma vontade de ajoelhar e de rezar como se Deus me tivesse concedido uma graça imerecida e inesperada...

 

«De repente, senhor, tudo se transformou, e ainda hoje estremeço de horror e de remorso, ao lembrar-me dessa transformação.
«A Irmã Maria Filipe – era esse o seu nome monástico – começara a falar da sua vocação religiosa. Desde criança que se sentira votada a Deus. Ninguém a induzira a professar e a família, de começo, opusera-se mesmo a isso. Mas ela vencera todas as resistências e tinham acabado por ceder. Começara por ser freira hospitalar, e conquanto o sofrimento dos homens a comovesse, o seu contacto desgostava-a. Por isso pedira – suplicara até – aos superiores que a deixassem ingressar numa ordem mais severa e mais isolada do mundo. E, pela graça de Deus, a autorização tinha chegado. Ia agora para Pau, encerrar-se numa espécie de túmulo, onde não chegavam nem a luz do sol nem as vozes dos homens.
E agora, na solidão e no silêncio, podia entregar-se inteiramente à oração e às alegrias supremas que ela proporcionava. Ia satisfazer o seu mais ardente desejo:
aproximar-se cada vez mais do seu divino Esposo e esperar ansiosamente pelo momento em que Ele a julgasse merecedora e a chamasse para Si.
«Eu começara a ouvi-la encantado. A doçura da sua voz e o entusiasmo místico das suas palavras tinham-me provocado uma espécie de anestesia do pensamento e da vontade que me enleavam completamente... Mas, de súbito, percebi que entre mim e aquela mulher não havia nada de comum. As palavras que dizia não eram para mim, mas para ela mesma. Compreendi então que, para ela, eu não tinha realidade nem física, nem espiritual, que eu, para ela, não existia.
«Ora foi na altura em que tomei consciência disso, nesse preciso momento, que se deu em mim a transformação em que lhe falei. Foi a princípio uma revolta surda, como que a irritação do homem novo em face da mulher jovem que sabe que nunca poderá vir a pertencer-lhe. Mas isso, que tinha ainda qualquer coisa de humano e justificado, durou apenas um instante, para ser substituído por um ódio absurdo e violento que já não dizia respeito nem ao meu instinto nem à minha consciência. Sim, meu caro senhor, era um ódio fora de mim, um ódio que vinha do fundo do Tempo, de tão longe, de tão longe, que ultrapassava os próprios limites da Criação. E aquele ódio não se dirigia contra ela, mas contra Aquele a quem ela se queria entregar: contra o meu Inimigo eterno e natural... Era a tentação – a tentação dominadora e invencível. E naquele momento eu não era outra coisa senão o próprio Satanás. «Julgas – pensei – que Ela vai ser tua? Julgas que vais tirar-ma? Enganas-Te. Porque Tu também Te enganas. Primeiro há-de ser minha, só minha.» Eu não sabia a quem dirigia aquele desafio; o que sei é que era veemente e sincero. E não pense que o que eu sentia era o desejo humano e natural que qualquer homem pode sentir por qualquer mulher. Não; era outra coisa muito diferente: a determinação diabólica e invencível de conspurcar aquela pureza, de aviltar aquele sonho, de aniquilar, para sempre, a tranquilidade espiritual daquela alma... Não sei que transformação se operou na minha fisionomia, o que sei é que ela tomou repentinamente consciência da minha presença e estremecendo murmurou: «Estou a enfadá-lo, irmão?...» «Não, não está a enfadar-me, irmã...», respondi hipocritamente respeitoso.
«Ia sentado no banco em frente dela, e, com o ar mais natural, levantei-me, e fechei a porta do compartimento. Depois, com a mesma naturalidade, puxei as cortinas, baixei a luz, e fui sentar-me ao pé dela.
«Vem frio do corredor, e esta luz é muito forte», disse para justificar os meus actos. Mas a justificação era desnecessária. Naquela alma pura, não havia qualquer desconfiança e muito menos a desconfiança do que se passava dentro de mim. Entretanto eu sabia que íamos sós, quer no compartimento, quer na própria carruagem, e sabia também, por ter ocasionalmente reparado nisso, que a carruagem estava desligada do resto da composição do comboio. Não havia pois o risco de entrar qualquer revisor, e o comboio, que era rápido, só viria a parar em Miranda del Ebro, daí a hora e meia. Não tinha ainda nenhuma intenção formada – ou melhor, não sabia que a tinha – mas o facto de ela estar, quer pela sua inocência, quer pelas circunstâncias, à minha mercê, enchia-me de uma alegria monstruosa.
«A irmã já pensou... – comecei com uma voz convincente, cujo timbre ao mesmo tempo untuoso e metálico eu próprio desconhecia – a irmã já pensou que o acto que vai praticar é um acto de puro egoísmo? Já pensou na injustiça que representa abandonar os seus doentes, os que viam nos seus cuidados a misericórdia e providência de Deus, pelo que pensa serem os exclusivos interesses da sua alma?»
«A Irmã Maria Filipe estremeceu e arriscou timidamente:
«Mas eles têm muito quem cuide deles. Eu não lhes era precisa...»
«Isso é o que a Irmã supõe... Para quantos, não seria a Irmã a única pessoa capaz de lhes mitigar as suas dores? E o que são eles agora? Pobres seres abandonados, por via de uma ambição, que nem por lhe parecer legítima e sagrada deixa de ser egoísta e cruel... Eu sei que a Irmã – porque nunca viveu e porque nunca sofreu – pensa que só há um caminho para a bem-aventurança. E pensa que é o que escolheu. Mas isso não é verdade. As almas não têm caminho certo para chegar a Deus. E o verdadeiro é, por vezes, o mais tortuoso e acidentado, aquele em que a gente pode cair e levantar-se, isto é, pecar e arrepender-se... Veja Nosso Senhor Jesus Cristo – e aqui não hesitei em invocar sacrilegamente o seu sagrado nome –, como Ele desceu à Terra e veio viver a vida dos homens para os poder entender o redimir. E é isso que faz a sua grandeza... Esposa de Cristo, como é que a Irmã quer que Ele a receba em seu divino seio sem ter corrido os mesmos riscos que Ele? Como é que quer subir ao Céu sem o ter merecido?»
«Pálida, a Irmã Maria Filipe olhava para mim com os olhos fixos, como que hipnotizada..

 

Continua...

 

Domingos Monteiro, Histórias Castelhanas

 

Retirado de Contos de aula

publicado às 21:42


2 comentários

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De Cris a 18.04.2010 às 15:49

O que eu gosto deste escritor! E, infelizmente, parece esquecido do panorama da literatura portuguesa.
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De Jorge Soares a 19.04.2010 às 22:22

Olá

Parece mesmo, porque eu nunca tinha ouvido falar.. mas gostei muito deste conto.. que continua na semana que vem
Jorge

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