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Ainda as crianças difíceis e a hiperactividade

por Jorge Soares, em 12.05.10

Hiperactividade e défice de atenção

 

O post de há dois dias em que se falava de crianças e castigos, fez-me recordar algumas coisas... A Anabela é mãe de uma criança hiperactiva e  nos comentários dizia o seguinte:

 

Por norma não há palmadas la em casa (por norma, porque às vezes a paciência falta...), até porque em crianças impulsivas com é o caso das hiperactivas, uma palmada pode levar a um ataque de fúria difícil de controlar. Mas há castigos. Passado 5 minutos de uma birra ou asneira, um hiperactivo esquece o que se passou, os castigos têm que ser imediatos e curtos, de nada adianta dizer "ficas proibido de computador 1 mês, porque passado 2 dias já não sabe porque está proibido, mas retirar algo no imediato, explicar bem o porquê e ir relembrando ajuda muito.

 

Lembro-me que numa das primeiras vezes em que tivemos um episódio com fósforos o N. ficou sem prendas de natal, conseguem imaginar o que significará para uma criança de 5 ou 6 anos passar o natal , ver as crianças receberem prendas e não poder tocar nas dela? Ele passou por isso. Qualquer um de nós ficaria com isso na memória  e demoraria anos a voltar a fazer outra... o Natal é em Dezembro, ele faz anos em Maio.. se não me engano no ano a seguir não teve festa de anos,.. porque já tinha havido um novo episódio.

 

De resto, nem castigos, nem palmadas, nem gritos, a verdade é que nada adianta, como diz a Anabela, estas crianças são impulsivas e acreditem, lidar com elas pode ser desesperante. E se é desesperante para nós que temos consciência que tudo isto é resultado de uma doença, como será para os pais que não tem esta consciência? ... Ou para os que simplesmente se resistem a acreditar que seja mais que mau comportamento?.

 

Lembro-me que durante muito tempo eu achava que o conseguia controlar, que era uma questão de ser autoritário e de impor a minha autoridade de pai... até que  tive que me render à evidência, há coisas que são mais fortes que eles..e que são muito mais fortes que nós.

 

É claro que estas coisas têm tratamento, que se não resolve, pelo menos ajuda a controlar.  Cá em casa e por muito que a mim me custe, a Ritalina há muito que é a nossa melhor aliada, e a diferença entre o N. que toma o comprimido de manhã e o que não toma é tal que nos dias em que por algum motivo nos esquecemos, a professora pergunta logo porque é que ele não tomou o comprimido, tal é a diferença de comportamento nas aulas.

 

Eu sou e serei sempre contra a utilização deste tipo de medicamentos, há uns tempos a professora da R.,  que na altura era professora dos dois, sugeriu que ela também deveria tomar, disse logo que nem pensar.. mas no caso do N. e em casos como o dele, tenho que me render à evidência, se com o tratamento ele é uma criança difícil, sem ele imaginem como será.

 

Para terminar deixo aqui um trecho de este post da Anabela, palavras que todos os pais de crianças hiperactivas deveríamos ler e ter em conta:

 

... um hiperactivo sofre.

Sofre por não saber controlar-se, sofre por ser demasiado impulsivo, sofre por se sentir frequentemente rejeitado, sofre porque sabe que é diferente e é incapaz de controlar essa diferença, porque isso não depende da sua vontade.

Mas ser diferente também é ser especial e ser especial também é bom.

 

Não queria terminar sem deixar um apelo a todos os pais de crianças difíceis, a hiperactividade é uma doença, as crianças devem ser seguidas e tratadas, por muito que nos achemos pais capazes e com autoridade para os controlar, a verdade é que não o conseguimos, porque há coisas nesta doença que estão mais além deles e de nós... se suspeita que o seu filho possa ter esta doença, fale com o pediatra... quanto mais tempo passar sem ser diagnosticado e tratado, mais sofre ele e mais sofrem os pais.

 

E não deixem de passar pelo blog da Anabela.. é o Abigai

 

Jorge Soares

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publicado às 21:52


7 comentários

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De Existe um Olhar a 12.05.2010 às 23:00

Junto ao teu apelo o meu testemunho.
Houve um ano em que tive um aluno no 4º ano com hiperactividade. Durante os anos anteriores foi considerado o terror da escola. Na minha sala não foi excepção á regra. Consegui convencer a mãe a ir ao médico, nessa altura nem eu percebia o que estava a acontecer, apenas a intuição me dizia que deveria haver explicação e tratamento para comportamentos tão inexplicáveis.
O B.finalmente começou a tomar Ritalina e mudou completamente.
Há dias encontrei-o, já está no sexto ano, continua a ser medicado, não é um aluno brilhante, mas com a continuação da medicação, vai equilibrando a sua vida e deixou de ser aquele miúdo terrível de antigamente.
Penso que os pais, colegas, familiares e todos os que convivem com casos destes, devem entender que isto é uma doença e não falta de educação.
Este post foi muito oportuno Jorge, espero que muita gente o leia .
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De Leamar a 13.05.2010 às 09:25

Bom dia Jorge.
Vou perguntar à mãe de um menino da turminha da N. se já foi com ele ao pediatra. É que o menino dela...só visto. Só faz disparates! Mas é um doce de menino. Quando está ao colo é um mimo. Já não faz mal a ninguém. Quando vai para o chão é uma pestinha. Não sei se é hiperactivo ou se é só regila. Em todo o caso pergunto.
No início do ano a N. tinha muito medo dele. Não queria ir para a escola nem nada...mas também ainda estava no periodo de adaptação.
Espero que o teu N. e todos os meninos hiperactivos sejam melhor compreendidos e ajudados atempadamente e conscientemente.
Beijinhos.
Leamar
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De Leamar a 17.05.2010 às 09:59

Já falei com a mãe do menino...
Ela realmente já foi ao pediatra, mas não é hiperactivo!...é mesmo e só muito regila! Ela também chegou a pensar o mesmo...
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De Thaysa a 13.05.2010 às 10:23

Bom dia Jorge,
Sou psicóloga e trabalhei vários anos em contexto educativo, sei o quanto sofrem as crianças hiperactivas com a impossibilidade/dificuldade extrema de auto-controlo. Sei também que muitas vezes, primeiro os pais e depois os professores têm alguma resistência em aceitar que se trata de uma incapacidade (por motivos diversos), o que aumenta o sofrimento e o isolamento destas crianças.
Por príncipio não sou apologista do uso de medicação, mas reconheço que em casos graves, só o acompanhamento psicológico(controlo da impulsividade; treino cognitivo-comportamental) não resulta, é necessário que este seja complementado com a farmacologia.
Também me parece importante clarificar que irrequietude não é hiperactividade, uma criança mais activa, irrequieta não é hiperactiva. Infelizmente nos dias de hoje também se caí muitas vezes no extremo oposto, no da patologização e da medicalização excessiva, que começa cada vez mais cedo, nomeadamente no pré-escolar.
Neste sentido,reforço a importância de um diagnóstico correcto e de um acompanhamento adequado a cada situação.
Óptimo dia,
Thaysa
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De Abigai a 13.05.2010 às 11:14

Olá Jorge, antes de mais obrigada pela divulgação...
Durante muito tempo também pensei que era tudo uma questão de autoridade e de educação e questionei muito as minhas capacidades de educadora, achava que o defeito era meu e na verdade, confesso que era menos difícil culpar-me pelas atitudes e comportamentos do G. do que admitir que tinha uma perturbação real que necessitava de tratamento. Hoje, entendo que não era bem assim e que, com o tratamento adequado posso proporcionar-lhe uma vivência melhor, mais controlada e minimizar o seu sofrimento.
Eu também não era muito a favor da medicação, fez-me alguma confusão medicar o G., mas após algum esclarecimento e conversas com especialista, acabei por me conformar e não me arrependo. O metilfenidato não causa habituação e permite "sossegar" o cérebro de uma criança hiperactiva, fica mais alerta, mais atento, e a criança sente que controla o seu comportamento. A questão principal prende-se essencialmente em encontrar o medicamento certo e a dose mais adequada. O G. substituiu a Ritalina no passado mês de Abril, pelo Concerta e a mudança foi radical. Está muito menos apático, mais alerta, não sente alterações de apetite e, uma vez que o tempo de acção é mais alargado, consegue finalmente fazer os trabalhos de casa, o que melhora de alguma forma os resultados escolares.
Não costumava medicá-lo ao fim-de-semana nem nas férias, entendia que ele tinha todo o direito de ser como é, que a medicação era apenas uma arma para enfrentar o dia-a-dia escolar. A pediatra de desenvolvimento que o acompanha aconselhou-nos a medicá-lo de forma contínua até ao final do ano léctivo para tentar melhorar os resultados académicos, uma vez que, embora não cause habituação, a toma contínua mantem o nível de alerta. Confesso que me custou um pouco, mas o G. é o primeiro a dizer que se sente melhor assim. Curiosamente, no seminário do passado sábado ouvi pela primeira vez uma pediatra de desenvolvimento questionar o porquê da interrupção, segundo ela, não há motivo nenhum para os professores terem o privilégio de ter criança controladas e os pais não.
São opiniões...
Importante para min é tudo fazer para minimizar o sofrimento do G. e vê-lo feliz, pouco me importa agora os comentários que por vezes ainda ouço, sei que não é mal-educado e que as suas atitudes não dependem da sua vontade e para mim, é suficiente.
Anabela
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De Ribatejan a 13.05.2010 às 18:39

Olá. Desculpa estar a "spamar" este tópico, mas pensei que gostasses de responder a isto:

http://www.deco.proteste.pt/familia-e-vida-privada/adopcao-em-portugal-conte-nos-como-foi-s598831.htm

beijocas
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De energia-a-mais a 14.05.2010 às 22:17

Olá, também eu sou mãe de um hiperactivo e por momentos revi-me numa frase deste post - a de que era uma questão de ser autoritário, de impôr mais disciplina e assim o iria «controlar»! mas também eu, avessa a medicação, tive de me render à evidência...sem ela, o comportamento do meu filho é tão diferente que julgo ter duas crianças numa só!
Conheço a Anabela pelo blog e tive o prazer de a conhecer pessoalmente no seminário que organizei com a APCH, sei que com empenho e dedicação os nossos filhos terão um futuro equilibrado, espero sinceramente que a sociedade (que somos todos nós) dê a estas crianças a oportunidade de mostrarem o que valem - sem rótulos e sem preconceitos!
Boa noite

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