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O rastro do teu sangue na neve

por Jorge Soares, em 13.12.08

 

Rosa triste
 
Um dia, teria eu 13 ou 14 anos, descobri este conto publicado nas páginas centrais de um jornal, comecei a ler e já não consegui parar, a seguir ao conto veio um livro, e depois desse, muitos outros livros, o conto fez-me descobrir o autor, um grande escritor, um dos maiores. Gabriel Garcia Marquez. 
 
O rastro do teu sangue na neve.

Ao anoitecer, quando chegaram à fronteira, Nena Daconte notou que o dedo com a aliança de casamento continuava sangrando. O guarda-civil com a manta de lã sobre o chapéu de três pontas e verniz-charão examinou os passaportes à luz de uma lanterna de carbureto, fazendo um grande esforço para não ser derrubado pela pressão do vento que soprava dos Pireneus. Embora fossem dois passaportes diplomáticos em regra, o guarda levantou a lanterna para comprovar que os retratos se pareciam às caras. Nena Daconte era quase uma menina, com uns olhos de pássaro feliz e uma pele de melaço que ainda irradiava o sol do Caribe no lúgubre anoitecer de janeiro, e estava agasalhada até o pescoço com um abrigo de nucas de visom que não poderia ser comprado com o salário de um ano da guarnição inteira da fronteira. Billy Sánchez de Ávila, seu marido, que dirigia o automóvel, era um ano mais jovem que ela, quase tão belo, e usava um paletó escocês e um boné de jogador de beisebol. Ao contrário de sua esposa, era alto e atlético e tinha as mandíbulas de ferro dos valentões tímidos. Mas o que revelava melhor a condição de ambos era o automóvel platinado cujo interior exalava um hálito de animal vivo, como não se havia visto outro por aquela fronteira de pobres. Os assentos traseiros iam atopetados de maletas demasiado novas e muitas caixas de presentes que ainda não tinham sido abertas. Lá estavam, além disso, o sax-tenor que tinha sido a paixão dominante de Nena Daconte antes que sucumbisse ao amor contrariado de seu doce bandoleiro de balneário.
 
Quando o guarda devolveu seus passaportes carimbados, Billy Sánchez perguntou-lhe onde poderiam encontrar uma farmácia para fazer um curativo no dedo da sua mulher, e o guarda gritou-lhe contra o vento que perguntassem em Hendaya, do lado francês. Mas os guardas de Hendaya estavam sentados à mesa em mangas de camisa, jogando baralho enquanto comiam pão molhado em canecas de vinho dentro de uma guarita de vidro cálida e bem iluminada, e foi só olhar o tamanho e o tipo do automóvel para indicar-lhes com gestos que entrassem na França. Billy Sánchez buzinou várias vezes, mas os guardas não entenderam que os chamavam, e um deles abriu o vidro e gritou com mais raiva que o vento:
- Merde! Allez-vous-en! 

Então Nena Daconte saiu do automóvel embrulhada no agasalho até as orelhas e perguntou ao guarda num francês perfeito onde havia uma farmácia. O guarda respondeu por costume com a boca cheia de pão que aquilo não era assunto dele, e menos com semelhante borrasca, e fechou a janela. Mas depois reparou com atenção na menina que chupava o dedo ferido embrulhada no resplendor dos visons naturais, e deve tê-la confundido com uma aparição mágica naquela noite de assombrações, porque no mesmo instante mudou de humor. Explicou que a cidade mais próxima era Biarritz, mas que em pleno inverno e com aquele vento de lobos talvez não houvesse uma farmácia aberta antes de Bayonne, um pouco mais adiante.

- É alguma coisa grave? - perguntou.
- Nada - sorriu Nena Daconte, mostrando o dedo com a aliança de diamantes em cuja ponta era levemente perceptível a ferida da rosa.
 
- É só um espinho.
 
 
Continua.... no próximo sabado.
 
Jorge
PS:Fotografia minha... há mais aqui:Momentos e Olhares

 

publicado às 21:17

Deus não existe, ponto final!

por Jorge Soares, em 11.12.08

deus é Solidão

 

A propósito do post sobre o natal que escrevi há dois dias, recebi o seguinte comentário por email:

 

 "Espertinho o menino!...  "como é o vosso natal, falem-me do vosso natal..." ;-)) Ora nega lá que o que esperas mesmo é ver aí a malta  a dissertar sobre o primeiro parágrafo..."

 

O primeiro parágrafo falava sobre o facto de eu ser ateu e de "deus não existe, ponto final". A minha amiga Linda achou que o resto do post era para encher e que o verdadeiro motivo era este... pois não, a minha ideia era tentar perceber os sentimentos das pessoas sobre o natal... aquele parágrafo era só para explicar o contexto do meu sentimento sobre o natal.

 

Mas ela dizia mais, dizia o seguinte:

 

"Sabes que eu acho um nadinha pretensioso esse teu jeito de afirmar; "sou ateu, Deus não existe e ponto final"

Na minha modesta opinião, alguém que como tu, perentóriamente, se afirme assim, tem de provar que Deus não existe."

 

Qualquer tentativa de demonstração da existência ou não de deus é tempo perdido, porque algures vai esbarrar no "É uma questão de fé"... e isso é algo que não tem discussão. Sou sincero, eu não consigo perceber qualquer argumento que comece ou termine em, "é uma questão de fé", e portanto resta-me um só caminho, deus não existe, ponto final.

 

Fui batizado e educado na religião católica, catequese e comunhão solene incluida. Um dia dei por mim a pensar que aquilo não fazia sentido, primeiro deixou de fazer sentido tudo o que dizia respeito à igreja, a católica ou qualquer outra, aquele deus capaz de perdoar e de castigar, Jesus, a virgem, os santos, a criação, o pecado, nada fazia sentido. Com o tempo o próprio conceito de deus deixou de fazer sentido.

 

Dei por mim a pensar que as pessoas precisam de um deus porque se sentem sós, porque não conseguem encontrar carinho e apoio em quem os rodeia. O conceito de deus existe porque falhamos como seres humanos, porque não somos capazes de ajudar e apoiar as pessoas que estão à nossa volta. Muita gente se escuda na fé, vão à igreja, rezam, acreditam, mas não são capazes de dar um bocadinho de si para tornar mais leve e mais feliz a vida de quem os rodeia. Deus é tantas vezes a ultima esperança, porque já batemos a muitas portas e elas não se abriram, porque já apelamos a muitos sentimentos e só recebemos o vazio como resposta, ou porque já batemos tantas vezes com a cabeça na parede e não fomos capazes de aceitar a ajuda que se nos oferecia, que já não há quem seja capaz de nos ajudar.... nessa altura, deus é a resposta. Quando todas as pessoas à nossa volta nos falharam ou quando nós próprios falhamos, resta-nos a fé.

 

Devemos ter fé sim, mas é em nós, nas nossas capacidades e nas das pessoas de quem gostamos e devemos ter a humildade de suficiente para aceitar que somos simplesmente humanos e que por vezes precisamos de ajuda. A vida é dar e receber, mas é dar e receber de seres humanos como nós, não de um qualquer deus. Os primeiros humanos chamavam deus a tudo o que não conseguiam explicar, com o tempo tudo se foi explicando, agora, chamamos deus à nossa solidão.

 

Pronto, e agora podem dissertar à vontade.... sobre, deus não existe, ponto final!

 

Update

 

 

           NATAL
"Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e ser menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos."
 
Miguel Torga 
(Obrigado Linda)

 

Jorge

PS:Imagem retirada da internet

 

 

publicado às 21:56

Mijam de pé sim!

por Jorge Soares, em 09.12.08

 

Mijam de pé sim!

 

Por vezes basta um click para nos avivar a memória, este Post da Cigana e dois minutos de conversa a espicaçar no messenger, fizeram-me  lembrar da dona Alzira.

 

Eu passei recentemente dois meses de muletas e sem poder apoiar o pé no chão, em primeiro lugar por prescrição médica, em segundo lugar e muito mais importante, porque as dores no tornozelo eram apreciáveis, logo, urinar sentado era mesmo a única opção. Diz a Cigana que homem que é homem mija de pé.... isso agora depende, homem que é homem e consegue  estar de pé, mija de pé, caso contrário... sentado é óptimo.

 

Mas esta conversa toda fez-me lembrar um livro que li de uma só vez numa noite de natal, comecei a ler a seguir ao jantar e terminei por volta das 5 da manhã... acho que foi o único livro que li de uma só vez, de fio a pavio. O amor dos tempos de cólera, de Gabriel Garcia Marquez. Há uma parte da historia em que o protagonista fala das coisas que fez por amor, começou por falar dos concursos de urinar mais longe ou com mais pontaria, da forma como conseguia acertar com o gargalo de uma garrafa a dois ou três metros de distancia, e sem deixar cair um pingo para fora... e terminou a dizer, que por amor, quando a idade fez com que essa pontaria e precisão começassem a falhar, e porque a sua amada não gostava dos pingos na sanita, ele mijava sentado. 

 

Como podemos ver, gajo que é gajo mija de pé, mas por amor fazemos qualquer coisa, até mijar sentado..e estamos a falar de um qualquer macho latino-americano.... e de uma das mais belas histórias de amor que já se escreveram.

 

Mas dizia a Cigana, que gaja que é gaja mija sentada.... foi aí que me lembrei da dona Alzira, que morava numa casa muito velha e que alguma vez fora pintada de um cor de rosa escuro. A Dona Alzira era uma mulher dura, sozinha amanhava todo o quintal à volta da casa, batatas, cebolas, favas, tremoços, milho, feijão, abóboras.. tudo. No Outono víamos a Dona Alzira chegar do monte, carregada com troncos que ela mesma converteria nas achas que assegurariam o calor  para combater o frio inverno que só nas casas antigas se consegue sentir.

 

Frente à velha casa de rosa desbotado, havia um largo onde com improvisadas balizas jogávamos à bola, um dia, quando a meio do jogo a bola fugiu para o quintal da dona Alzira, calhou-me em sorte subir ao muro para a ir buscar. Subi e olhei, a Dona Alzira preparava os regos para plantar as batatas, de repente parou, abriu as pernas e por entre as longas saias que chegavam quase até ao chão, ouvi a longa cascata..... amiga Cigana, talvez fossem outros tempos, os tempos em que se utilizavam sete saias mas não se utilizavam cuecas, mas ao menos nesse tempo, as mulheres mijavam de pé!

 

Jorge

publicado às 22:35

É natal, é natal.... falem-me do vosso natal

por Jorge Soares, em 08.12.08

Natal

 

Não sei se já disse aqui, mas sou um ateu convicto, deus não existe, ponto final. Ora se deus não existe, festejar o natal não deixa de ser algo bizarro. Uma vez em conversa com um amigo, ateu como eu, e quando lhe falei de lhe enviar um postal de natal, ele disse que não, que ele não festejava o natal, mas teria muito gosto em receber um cartão para festejar o dia dos inocentes, que para os latino-americanos é o dia 28 de Dezembro, sendo que é nesse dia que se festeja o dia das mentiras.

 

Para mim o natal costuma ser quase uma peregrinação, os meus pais estão em Oliveira de Azeméis e os meus sogros estão em Portalegre, todos os anos tenho uma viagem de 1000 Kms, ceia de natal num lado, almoço do dia 25 no outro. Mas não deixa de ser a festa da família, porque os 1000 Kms são mesmo para isso. É evidente que não festejo o nascimento de um menino numa manjedoura, nem vou à missa do galo, mas eu sou uma pessoa que gosta de tradições.

 

Quando a ceia de natal é em casa dos meus pais, começo a petiscar a meio da tarde e quando chega a hora da ceia o apetite já é muito pouco, mas não deixo de comer nem que seja um bocadinho de bacalhau cozido com as correspondentes batatas e muito azeite. 

 

Passei alguns anos na Venezuela em que não havia bacalhau, não havia divisas para importações. E por muito peru, carne assada, leitão,  que me apresentassem, o natal não me sabia a natal, ficava sempre algo por preencher. Sei que é uma parvoíce, mas há coisas que estão dentro de nós, coisas que fazem parte das nossas memórias e que dificilmente morrem.

 

Em casa da minha sogra não há bacalhau cozido na ceia de natal, há bacalhau assado no forno e isso é em minha honra, não deixa de ser natal e uma festa familiar...  

 

O natal começou por ser uma festa pagã que festejava o solstício de inverno, depois foi herdado pelos cristãos que festejam o nascimento do seu salvador, e do meu ponto de vista, voltou a ser uma festa pagã, em que se celebra uma árvore e um senhor de barbas e se trocam presentes.... mas, o mais importante, muito mais importante que o consumismo, é que é uma festa em que se juntam pessoas, há pessoas que viajam milhares de Kms só para estarem com quem amam.. e só por isso, é uma festa bonita.

 

E vocês?, como é o vosso natal, esqueçam o consumismo e a troca de prendas, falem-me do vosso natal, de aquilo que significa e  lhes deixa no coração.

 

Jorge

PS:Imagem retirada da internet

 

publicado às 21:40

Ser diferente é bom

por Jorge Soares, em 07.12.08

 

Ser diferente é bom

 

É bom quando as almas são exactamente como as lemos. Ontem foi a apresentação do livro da Sónia, finalmente o sonho fez-se realidade e o livro viu a luz do dia. Foi bom ver o brilho nos olhos dela, e ela saiu-se muito bem, apesar dos nervos que dizia ter.... está uma autêntica figura publica.... breve não nos fala.

 

Mas ontem também foi dia de conhecer pessoalmente algumas pessoas que me habituei a ler, e foi bom saber que há pessoas que pessoalmente são tal e qual como as imaginamos... não fisicamente, que as fotografias guardam momentos e as pessoas vão mudando, mas sim espiritualmente.

 

Ontem conheci a Pessoinha que além do Nuno, até levou alguns dos seus alunos dos que tanto lemos... a Sonia e a Lidia. A Pessoinha e a Lídia são pessoas que leio diariamente, pessoas que vou conhecendo e que me vão conhecendo, já seja através dos meus blogs, já seja através dos comentários. Como dizia no início, é bom saber quando as almas são assim como as imaginamos, porque elas, Sónia incluída, são exactamente aquilo que mostram nos seus blogs e com os seus escritos.... pessoas lindas e excepcionais.. que adorei conhecer. 

 

Obrigado Sónia, pelo livro e por nos teres dado esta oportunidade.

 

 

publicado às 23:00

Isaura entrou para sempre dentro de mim!

por Jorge Soares, em 06.12.08

Mulata

 

Isaura entrou pelo bar como se entrasse pela última porta e nós fôssemos os deuses que a aguardássemos do outro lado. Fora ficava esse céu todo azulzinado, os zunzuns da gente no bazar.


A aparição da mulher fez estancar meu coração, suspenso na rédea do espanto. Escutei íntimos desacordes, sangue para um lado, veias para outro. É que eu não via a Isaurinha há mais de vinte anos, mais de metade do tempo que eu amealhava existências. De repente, me chegaram lembranças como se em meu peito desembarcassem imagens e sons, atropelando-se em desordem.


Foi no tempo colonial. Eu e a Isaurinha éramos empregados domésticos na mesma casa. Ela empregada de dentro, eu de fora. Ambos, miúdos, em idade mais de brincar. Aos fins da tarde, quando ela despegava me vinha contar as novidades, segredos da vida dos brancos. Era hora de eu passear a cãozoada. Ela me acompanhava, rodávamos pelos quarteirões enquanto ela me fazia rir, com as suas revelações. Que o patrão a empurrava nos cantos sombrios e a apertava de encontro às paredes. Não havia parede em que ele, de pé, não tivesse deitado.


Tudo aquilo lhe dava nojeira, reviragem nas vísceras. Queixar a quem? A Deus? Eu sonhava que me subiam coragens e enfrentava o patrão. Mas adormecia sem ousadia sequer de terminar o sonho.


E agora Isaura interrompia o meu tempo de existir, rompante adentro da cervejaria. Estava quase na mesma, o tempo não a redesenhara. magra, como sempre fora. Olhos acesos como réstias de brasa. Em seus dedos um cigarro me sacudiu lembranças. Como se o centro de minha memória fosse um fumo. Sim, o fumo de cigarro que ela, vinte anos antes, trazia de dentro da casa dos patrões para as traseiras onde eu a esperava. Fazia o seguinte pegava a beata distraída num cinzeiro de salão e chupava umas boas passas.       Enchia as bochechas de fumo vinha ter comigo ao pátio. Ganhava um ar apalhaçado, com dupla cara como a coruja. Chegava-se a mim e vizinhávamo-nos, cara com cara. Depois, boca com boca, os lábios meus em concha recebiam os dela. Isaura soprava para dentro de mim esse fumo. Sentia aquecer-me meus interiores, a saliva quase fervendo. Depois, não era só a boca todo o meu corpo se ia esquentando. Era assim que fumávamos, a meio hálito, boca de um cruzamento e peito do outro.


Praticávamos o quê? Fumigação boca-a-boca? Uma coisa era de certeza meu endereço era o céu, nesses instantes. Isaura me exaltava eternidades, lábios vaporosos me roçando o coração. Tudo ali na cubata das traseiras.


Simples procedimento aquele Isaura aparava as unhas dos cigarrinhos, beatas ainda moribundas. Não parecia que Isaura deitasse valor naquele trocar de lábios. Ela gostava mesmo era de tabaco, pouco a pouco se adentrando no vício das fumagens. Eu e a descarga suja em meus pulmões eram simples acidentes sem percurso.


Até que, certa vez, o patrão nos surpreendeu naquelas disposições. Choveram insultos, imediatas pancadas. E logo eu, desculpando Isaura, assumi as inteiras culpas. Construí a versão eu a tinha assaltado, obrigado contra as suas vontades. Nesse mesmo dia, fui expulso, despedido. Nem me despedi de Isaurinha. Levei meus pertences, por baixo de uma lua tristonha. E nunca mais Isaura, nunca mais notícias dela.


Vinte anos depois, Isaura desarrumava a tarde, interrompendo o bar. Para mais, ela trazia entre os dedos um cigarro, fumejante.


Ela se sentou em minha mesa e, sem me olhar, desatou as falas. Tanta lembrança boa. Mas a favorita é você, Raimundano. Lhe digo esse fumo todo que lhe deitei sabe o que eu queria, só mais nada? Era um beijo.


Estremeci. Aquilo era a justa navalha, me lacerando? Mas ela seguia, no avanço de seus ditos. Sim, que ela em tempos, me amara. Nunca mostrara aquele querer dela, por motivo de decências. É que era tão magra que era má educação se exibir. Que ela escolhia para mim suas melhores belezas, como quem tem prendas mas não sabe nem a quem dar.


- Porquê, Isaura? Porque nunca me procurou?
- Porque lhe deixei de amar. Foi aquele sua mentira para me proteger. Isso, me fez muito mal.


Desde o momento que eu a defendera, o sentimento tombara, sobra de sombra.
Ofensa de quê? Nunca saberei. Isaura, ali sentada, não me explicaria nada. Como se tivesse passado não o tempo, mas a vida inteira. Levantou-se, arrastou a cadeira como se arrumar os móveis fosse mais importante neste mundo. E se dirigiu para a saída, a angústia me resumindo como se, pela segunda vez, minha vida se ecoasse por aquela porta. Minha voz, nem a reconheci


-Sopre-me outra vez um fumo, Isaura. Um fuminho, só.


Ela me olhou, os olhos tão longe que parecia nem ter focagem. Aspirou fundo o cigarro, refreou umas tosses e veio em minha renteza. Quando ela colou seus lábios em mim, se fabulou o seguinte a mulher se converteu em fumo e se desvaneceu. Primeiro no ar e, depois, lento, na aspiração de meu peito. Nessa tarde, eu fumei Isaurinha.
 

 

Mia Couto

publicado às 21:11

 

Uma das coisas mais complicadas que pode haver na educação de uma criança é a alimentação, tive uma colega que chegava sempre irritada de manhã ao emprego. tinha uma luta diária com um diabinho de um ano que não se deixava convencer que devia engolir o pequeno almoço.

 

Há crianças que simplesmente não comem, vá lá a gente perceber porquê, mas elas não tem apetite..e isso para os pais é o maior dos dramas, vão por mim, sei do que falo.

 

Quado nos entregaram o N. com um ano de idade, ele era um bebé gorducho e bem alimentado, a vida dele resumia-se a comer e dormir, passava o dia na cama de tal modo que nem tinha cabelo atrás. A informação que nos deram era que era um bebé pachorrento que comia muito bem.... Para nós foi um choque, porque connosco não comia, com um ano não gatinhava, com 14 meses corria....era super mexido e não comia, claro, emagreceu.

 

Uma criança que não come pode ser, e normalmente é, uma fonte de desestabilização familiar, porque há sempre um pai ou uma mãe mais permissivos e o outro que acha que ele deve comer, connosco era eu que achava que ele devia comer e a P. que era permissiva. Para piorar a situação, a nossa experiência era com uma bebe que comia tudo o que lhe aparecia à frente, tudo mesmo.... a R. sempre comeu bem, de tal modo que com seis meses o médico mandou dar chá em vez de leite e papa... apesar de que agora está a ficar esquisita.

 

À medida que ele ia crescendo as coisas pioravam, porque não comia e ia inventando estratégias para não o fazer, desde o clássico passar 4 horas na mesa para almoçar, ir acumulando comida na boca até ficar com umas bochechas que nem um esquilo a guardar nozes, esperar que virássemos costas para despejar a comida para dentro do tacho, ou para o caixote do lixo. Uma das vezes encontramos o almoço dentro de um sapato... e outra nas plantas.

 

Eu sempre achei que era mania, um dia em casa dos meus pais esteve duas horas à mesa sem comer quase nada, de repente alguém falou de ir ao Parque infantil e em menos de dois minutos limpou o prato. É claro que a tensão cá em casa era enorme, acho que nunca na vida estivemos tão perto do divórcio, acreditem, uma criança assim pode dar cabo de qualquer estabilidade.

 

Com o tempo aprendemos a utilizar estratégias, quando descobrimos que ele adorava meloa, passamos a dar uma garfada de meloa e uma de carne, passamos por aquela de "não sais da mesa até terminares" e por aí fora. Uma que deu resultado por uns dias foi guardar o resto da comida para a refeição seguinte, ele sempre comeu bem ao pequeno almoço, se o deixássemos comia dois ou três pratos de papa... até que a carne  que não tinha comido ao jantar lhe começou a aparecer ao pequeno almoço.... primeiro não comeu, mas a fome é sempre boa conselheira.

 

Um dia, depois de muita conversa e muita discussão, lá arranjamos a solução, que passa por não nos chatearmos, ele só come o que quer, mas a refeição acaba ali, ou seja, não queres a carne? não comes, mas não há sobremesa.... o truque é colocar as sobremesas à vista, e de preferência as preferidas dele... quem não tem fome para a carne, não tem para a sobremesa. E o problema resolveu-se.... bom mais ou menos.. que de vez em quando ele resolve armar-se em esquisito...e continua magro!

 

Jorge

PS:Imagem retirada da internet

publicado às 22:33

Das favas ao bacalhau escondido

por Jorge Soares, em 04.12.08

 

Favas
 
Uma conversa ontem à noite com uma amiga, fez-me voltar às minhas memórias. Era eu criança e não gostava de favas, cada vez que a minha mãe as cozinhava, era um suplicio, eu que não queria comer, que não gostava e o meu pai que eu tinha que comer, cenas de filme que mais de uma vez terminavam com lágrimas nos olhos e o prato limpo à força... Um dia, devia eu ter 7 ou 8 anos, fomos ajudar uma vizinha a colher milho, chegada a hora do almoço, a mulher puxou do taxo e dos pratos e saiu... frango guisado com favas..... e não sei se era do ar do campo ou porque a vizinha cozinhava as favas melhor que a minha mãe, eu nem me lembrei que não gostava, para grande espanto da todo o mundo previamente avisado que eu não gostava de favas, devorei tudo o que tinha no prato e até repeti. É claro que durante anos..e até agora, sou gozado pela minha mãe cada vez que se fala de gostar ou não de algo. Na verdade nunca fui má boca, se exceptuarmos as malfadadas favas, sempre comi o que me apareceu à frente... bom, quase tudo.
 
Durante 6 anos almocei e jantei em cantinas universitárias, e a única coisa que não comia era pescadinhas de rabo na boca...era chegar, ver a ementa e escolher outro sitio para ir comer... e nem é que não goste.. é mesmo mania...faz-me impressão, de resto, até o famoso e mal amado Red Fish eu comia.
 
Tudo isto porque ia falar de bacalhau, vem aí o natal e na grande maioria das casas portuguesas o fiel amigo é presença garantida.... mas há quem não goste de bacalhau... cá em casa tenho um exemplo. A verdade é que a maioria das pessoas que conheço que não gosta de bacalhau, adora bacalhau com natas ou bacalhau à Braz, ou seja, gostam de bacalhau escondido. Eu costumo dizer que é a geração do bacalhau escondido e dos bitoques. 
 
Sempre achei que gostar ou não de algo é mania das pessoas, a maior parte das vezes nem nunca provaram, mas não gostam. Lembro-me que o meu irmão sempre teve manias dessas, resultados do mimo a mais, a criancinha não gostava de frango guisado e a minha mãe fazia frango frito para ele, não gostava de salada com tomate e fazia-se duas saladas, uma com e outra sem tomate...e por aí fora. Isto para não falar das vezes que se fazia mais que um prato, porque o menino não gostava daquilo. 
 
Para evitar este tipos de situações, cá em casa está instituído que todo o mundo pode gostar ou não de tudo, ninguém é obrigado a gostar, desde que coma o que está no prato, não há problema nenhum em não se gostar.... nada como uma boa democracia para colocar ordem nas refeições.
 
Por certo, cresci e perdi a mania, e claro que adoro favas... de todas as maneiras possíveis.
 
Jorge
PS:Se o meu irmão deixar de me falar.... já sabem porque foi.
PS2:Imagem retirada da internet

 

publicado às 21:34

Zon Reclamar

 

Estou há dois dias sem internet, já liguei para a ZON TVcabo e estou pelos cabelos. Há umas 3 semanas tive problemas com a ligação, depois de dois dias a telefonar para a assistência, lá se convenceram que havia um problema e ficaram de mandar um técnico, isto apesar de eu lhes dizer que o problema era só ao final do dia e que portanto o problema não poderia ser cá em casa, porque quando as ligações funcionam mal, funcionam mal sempre. É claro que para um problema que se manifesta à noite, eles mandam o técnico de manhã... quando a ligação funciona.

 

Lá veio o técnico, que verificou as ligações todas e viu que estava tudo bem, evidentemente ao fim do dia... fiquei sem sinal. É claro que armei um escabeche tal que no dia a seguir me ligaram a dizer que tinham verificado que o problema era na rede da minha zona e que ficaria resolvido em dois dias.... e ficou.

 

Esta semana o problema voltou, ontem liguei para lá, ficaram de verificar durante o dia, hoje ligaram a dizer que vinha cá o técnico a casa para verificar as ligações....e só vem na sexta. É claro que me passei, e exigi falar com um responsável.... para nada, porque por muito que eu lhe tentei explicar que o técnico já cá tinha estado e que as ligações cá em casa foram verificadas.. há 3 semanas.... ele não saia da dele, que tinha que vir cá o técnico...e não houve argumento que o convencesse. Eles tem um protocolo, há problemas, manda-se o técnico. O técnico vem, vê que o problema é na rua, e vai embora, depois mandam outro técnico a verificar os problemas na rua. Entretanto o cliente que paga um balúrdio pelo serviço, espera, dias, semanas até que por milagre, se resolve o problema.

 

Porra, será que na ZON não há alguém que pense? se o técnico cá esteve há 3 semanas e estava tudo bem, para que é que vai  cá voltar?i isto é um prédio novo, as ligações tem 4 meses, porque é que não vem verificar as ligações na rua de uma vez e resolvem o problema? É que com esta história, entre vem técnico, vai técnico e vem a equipa da rua, eu estou dias e dias a pagar para nada.

 

Mas desta vez é a ultima vez, porque amanhã mesmo, vou ligar para a concorrência a contratar outro serviço. E aconselho a todo o mundo a fazer o mesmo..de preferência um serviço onde se pense em lugar de seguir um protocolo estúpido.

 

 Jorge

publicado às 21:34

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