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Ainda o Algarve e o livro de reclamações

por Jorge Soares, em 16.04.09

Praia da Rocha, Portimão

 

Uma das coisas engraçadas dos Blogs dos SAPO, é que estão ligados com o SAPO noticias, isto faz com que cada vez que a malta escreve algo sobre um concelho qualquer do país, durante umas horas o post aparece listado na página do SAPO noticias de esse concelho.

 

Quando eu no outro dia escrevi aquele post sobre o livro de reclamações no café em Portimão, eu sabia que o post ia aparecer na página dos Sapo Noticias de Portimão, ou seja, aqui. E também sabia que havia alguma probabilidade de que alguém de Portimão viesse cá parar ... o que evidentemente não me impediu de contar o que se passou nem de emitir a minha opinião. A coisa foi em Portimão, mas podia ter sido em Faro, em Lisboa,  em Bragança ou no Porto... eu tinha feito o mesmo e da mesma maneira.

 

Nada me move contra o Algarve ou os Algarvios, sou sim contra o mau serviço e a falta de profissionalismo e tenho por norma reclamar os meus direitos quando sinto que estão a ser escamoteados, como foi o caso. Pelos vistos há pessoas que quando são mal servidas se limitam a virar as costas e a não voltar ao sitio, cada um é como é, eu não sou assim, porque se eu me limitar a virar as costas, como alguém sugeriu, o que vai acontecer é que tudo vai continuar da mesma forma, ou seja, mal.

 

Eu não reclamo por capricho ou mau feitio, reclamo porque acho que todos temos direito a receber um serviço de qualidade pelo dinheiro que pagamos,,,, e só reclamando e exigindo os nossos direitos podemos fazer com que as coisas melhorem. A si Teresa Sena, o conselho que lhe dou é que quando voltar a Setúbal e for mal servida, faça como eu, reclame.. talvez assim quando lá voltar as coisas não sejam tão más.

 

O Algarve é uma região que vive principalmente do Turismo e os turistas só voltam se forem bem servidos, e isso é válido para todos os turistas, estrangeiros e Portugueses..e nesse sentido falta muito por fazer. No Sábado à noite fui jantar a um restaurante no Carvoeiro, a historia dava para um post com algum humor, talvez um destes dias, hoje só vou referir que o comportamento dos empregados foi de tal ordem que  pela primeira vez em muito tempo vi pessoas levantarem-se das mesas e irem-se embora sem consumirem, e eram estrangeiras, para não falar de outras pessoas nem se chegaram a sentar e se foram embora ao serem ignorados completamente..e não, o restaurante não estava cheio. E nós só não nos fomos embora porque estávamos com  duas crianças esfomeadas e já tínhamos comido as entradas.

 

Não nos vamos enganar, o maior problema do Algarve é a falta de profissionalismo nos serviços, um empregado de restaurante que vira as costas aos clientes e os deixa a falar sozinhos a meio do pedido é um mau profissional, o mesmo empregado que fica chateado com o colega porque este atendeu uma mesa e o mostra de tal modo que este se despede na hora, é um mau profissional... e isto é verdade no Algarve, em Aveiro ou em qualquer lugar do mundo.  

 

Que me lembre nunca tinha apagado um comentário neste blog... há sempre uma primeira vez para tudo na vida, o blog é dos leitores e todas as opiniões são bem vindas, mas o insulto fácil e a má educação eu não tolero. O blog vai permanecer com os comentários anónimos moderados....  e já agora, recordo que em todos os comentários é guardado o IP do computador de onde foi feito.. se não sabem o que é e para que serve, investiguem.

 

Jorge Soares

PS:Imagem minha

PS2:Como devem imaginar, este post vai aparecer no sapo noticias de muitas cidades...foi de propósito

 

publicado às 22:14

Meninos do Mundo

por Jorge Soares, em 15.04.09

Adopção internacional

 

Conheci a Maria João há uns 4 ou 5 anos no primeiro encontro nacional de adopção aqui em Setúbal, ela foi a precursora da adopção internacional em Portugal, foi ela que desbravou os caminhos, naquele dia ela contou a sua saga, toda a luta necessária para poder ter as suas filhas. Havia mais de cem pessoas na sala e lembro-me que dei por mim a olhar à volta e ver uma grande parte a chorar.

 

A Maria João é uma lutadora, uma daquelas raras pessoas que tem o dom de fazer as coisas acontecerem. É ela a mentora da associação Meninos do Mundo (Adopção Internacional) e é em grande parte responsável pela existência da Missão criança.

 

Hoje é a Maria João que fala aqui, vou copiar um comentário que ela deixou no meu post sobre a Madonna e a adopção, o post de hoje é teu amiga, obrigado por existires e por ser como és.

 

De Maria João a 10 de Abril de 2009 às 18:47
 

Conheço muito bem a adopção internacional. Travei uma grande luta em Portugal há quase 10 anos, adoptei a minha primeira filha no âmbito da adopção internacional e continuei a lutar. Dois anos depois adoptei a minha segunda filha, também internacionalmente.


Foram meses de avaliação e mais outro tanto tempo de espera. Pela minha segunda filha esperei 1 ano e meio. Não me meti num avião certo dia e voltei passados 3 dias.

 

Concordo em pleno com a Margarida: nós (quem adopta internacionalmente) somos os primeiros responsáveis para que a adopção internacional seja olhada como um bem para os milhões de crianças no Mundo e não como um meio de tráfico de crianças.

ADOPÇÃO INTERNACIONAL, SIM. TRÁFICO DE CRIANÇAS, NÃO.

 

Conheço muito da adopção internacional, conheço quem tenha adoptado em Cabo Verde, Timor, Brasil, Macau, Tailândia, Polinésia Francesa e Vietname. Tudo processos com respeito pela legalidade mas muitos haverão por esse mundo fora que não respeitaram os trâmites legais, claro.

 

A adopção internacional é uma resposta a milhões de crianças que, como diz o Jorge, se não formos nós dos países desenvolvidos jamais serão adoptadas.

 

A adopção internacional é um bem para muitos Meninos do Mundo e por isso luto, lado a lado com outras pessoas, por uma adopção internacional séria e digna, na qual os mecanismos de controle da legalidade são uma necessidade.

 

Quem passou por um processo de adopção internacional sente na pele e impotência de nada poder fazer perante a fome, a doença e o abandono de muitas crianças nos países em desenvolvimento. Vamos buscar uma mas muitas ficam para trás. Percebo que quando se fale de adopção internacional, o tráfico seja o problema que vem à cabeça das pessoas, em geral, mas a adopção internacional encerra em si muitas outras questões.

A adopção internacional desperta consciências ou deveria despertar. Quem passa por um processo de adopção internacional nunca mais é a mesma pessoa. Em certos países, e não muito longe de nós, morrem crianças por abandono e negligência que acabam por ser comidas pelas moscas.

 

Num Mundo sério todos os Estados se empenhariam em proteger os Meninos do Mundo e garantir-lhes a possibilidade de adopção, criando sérios controles ao tráfico de crianças mas ao mesmo tempo investindo na adopção internacional, permitindo, assim, aos milhões de meninos espalhados pelo mundo uma vida digna conforme vem estabelecido na Declaração dos Direitos da Criança.

 

Como diz o Jorge, na dúvida opte-se pela criança, sim é verdade. O mundo seria um mundo bem melhor se os Estados assumissem a adopção internacional como um bem para milhões de crianças.

 

Julgo que foi o Pedro que falou em outros "Mundos". Grande verdade, Pedro. Outros Mundos que passam completamente ao nosso lado, que não temos consciência deles mas eles existem e todos fazem parte deste nosso Mundo, o Planeta Terra!!!!!!!

Controles de legalidade internos, acordos bilaterais, acompanhamento em período de pré-adopção e se necessário pós-adopção mas dêem às crianças do Mundo inteiro a oportunidade de VIVEREM...porque muitas delas, simplesmente morrem...COMIDAS PELAS MOSCAS...
(
www.meninosdomundo.org)

Maria João

 

Uma criança é uma criança em qualquer parte do mundo!

 

Ps:Imagem retirada da internet

publicado às 21:30

Adopção:Crianças devolvidas, porquê?

por Jorge Soares, em 13.04.09

 

Adopção de crianças
 
Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi falar de crianças devolvidas por pais adoptivos, mas como devem imaginar é um assunto que me choca, se já é mau que uma criança seja abandonada, imaginem o que sentirá quando é abandonada uma segunda vez.  É difícil sequer imaginar o que possa sentir uma criança que por vezes está anos à espera, uma criança que muitas vezes anseia por uns pais que lhe dêem amor e carinho e que quando finalmente acha que os encontrou, é posta de lado como se de um brinquedo defeituoso se tratasse, conseguem imaginar o que se possa sentir?
 
Já ouvi umas 4 ou 5 histórias de devoluções de crianças, ontem um dos jornais falava de um casal que devolveu uma criança porque ela não se conseguiu entender com o cão da família. Acreditem ou não, este não foi o caso que mais me chocou. O caso de devolução que mais me chocou foi um em que o motivo para a devolução era... que a criança era carinhosa demais. A candidata a mãe (ia dizer mãe, mas há pessoas que não merecem esse nome) dizia que a criança se tinha apegado demais a ela, que só queria beijinhos e abraços e que nem no centro comercial desgrudava. Quando me contaram isto eu simplesmente não consegui acreditar.... 
 
Segundo  o mesmo jornal, no últimos 4 anos 80 crianças foram devolvidas aos centros de acolhimento, há uns meses o número era de 70, agora passou para 80, não faço ideia de onde tiraram a informação, mas eu entendo que mais que o número, o que interessa aqui é  perceber o que falhou, sim, porque é muito fácil deitar as culpas para quem devolve a criança, mas falta o resto, e o resto está evidentemente em quem avaliou e aprovou essas pessoas como candidatos a adoptar.
 
Os processos de adopção demoram pelo menos 6 meses, é necessário responder a questionários com muitas e complicadas questões, são necessárias entrevistas sociais e psicológicas.... o que falha?
 
Do meu ponto de vista falham muitas coisas, evidentemente que em primeiro lugar falham os candidatos, para a adopção é necessário ir com o coração, há muita gente que só vai para a adopção em ultimo recurso, quando já esgotaram todos os restantes recursos, pessoas que sonham e anseiam com um bebé, sangue do seu sangue...e que depois quando recebem uma criança que de bebé já não tem nada, quando lhes entra pela casa dentro um estranho com vontade própria e que muitas vezes tem uma historia de vida que não se recomenda a ninguém, simplesmente concluem que não são capazes.
 
Mas será que estas situações não deveriam ser detectadas pelas equipas de avaliação? Do meu ponto de vista é claro que sim, se a maioria dos processos até leva mais que os seis meses de lei, porque é que estas coisas acontecem, como é que uma psicóloga não detecta algo estranho numa mãe que depois devolve uma criança porque é carinhosa demais? 
 
Este é um tema muito complicado, mas termino como comecei, no meio de tudo isto quem sofre são as crianças, ser abandonado uma vez, ser colocado num centro de acolhimento onde muitas vezes não se passa de mais um numero, ser esquecido pela família e pelo estado e quando finalmente se pensa que se encontrou uma vida...ser abandonado de novo como se de uma peça defeituosa se tratasse..deve ser algo que marca para toda a vida...e nenhuma criança deveria ter de passar por isso.
 
Adoptar uma criança não é fácil, não tem nada a ver com passar-se 9 meses a ver crescer uma barriga, pensar nos nomes que iremos escolher, ver as fotografias das eco grafias, sonhar com a cor dos olhos, adoptar não é nada disso. Adoptar é receber nos nossos braços um ser humano que existe, um ser humano que já viveu e que muitas vezes tem opinião e maus hábitos. Adoptar  é receber em nossa casa um estranho que não nos diz nada e que de um dia para o outro veio para ficar.
 
A maioria dos candidatos cria expectativas, sonha com esse filho que tanto deseja, idealiza pessoas e situações, acreditem em mim, a probabilidade de que as coisas sejam como as idealizaram.. é muito pequena... mesmo muito pequena... e na maior parte dos casos, não é nada fácil, porque não podemos esquecer que estamos a falar de crianças que já foram marcadas pela vida muito antes de nos conhecerem. Por isso, adoptar tem que vir do coração.
 
Jorge
 
 

 

publicado às 22:06

Livro de reclamações?... para quê?

por Jorge Soares, em 12.04.09

Proibido Fumar?.. no Algarve não

 

Fui passar 4 dias ao Algarve, por norma só vou tão para Sul em épocas em que não há muito calor e sobretudo grandes confusões.. e claro que cada vez que lá vou, além de algumas cores mais para o bronzeado, traigo sempre que contar..  esta vez não podia ser excepção.

 

No Sábado o dia acordou meio farrusco,  bastantes nuvens e até alguns pingos... passageiros, que o sol por ali nunca anda muito longe. Chegamos a Portimão e o tempo não convidava muito à praia, pelo que optamos por um passeio pelo circuito pedonal que fizeram da parte de cima da Praia da Rocha. Passado um bocado decidimos tomar um café e entramos no primeiro sitio que não falava de  beans and bacon, que tinha aspecto de estar aberto e ter café expresso.

 

Mal entrei reparei no intenso cheiro a cigarro, a minha primeira ideia foi que tinha entrado num sitio onde era permitido fumar,  um rápido olhar em volta desfez as duvidas, lá estavam bem visíveis os anúncios vermelhos... Proibido Fumar. Ao lado de um desses anúncios estava sentado um senhor de cinzeiro na mesa e cigarro na mão, que conversava alegremente com uma senhora na mesa do lado... que também fumava.

 

Comentei para a empregada que nos servia os cafés que as leis no Algarve deviam ser diferentes do resto do país.  Ela lá me explicou que isso eram coisas da patroa.. que  ela deixava os clientes fumarem. Comentei que achava mal e que se os anúncios estavam lá deviam ser cumpridos.

 

Entretanto, o senhor que ouvia a conversa, puxou de outro cigarro e ficou a olhar para mim descaradamente. Aqui foi quando surgiu o meu mau feitio e pedi o livro de reclamações. A empregada chamou a patroa.. que adivinhem lá.. era a senhora que conversava com o dito senhor e que estava a fumar também.

 

A conversa foi surreal... mas terminou assim:

 

-Minha senhora eu quero o livro de reclamações.

-Na verdade eu não sei onde está.

-Não sabe?

-Não, não me consigo lembrar, quem tratava disso era o meu marido, ele faleceu e eu não me lembro onde ele o guardava.

-A senhora tem ali o anuncio do livro, eu quero reclamar, a senhora tem que me apresentar o livro.

-Sim, eu tenho o livro..mas não me lembro onde ele está.

-Nesse caso, eu vou chamar a policia.

-Chame!

 

É claro que ela não me conhecia, porque se conhecesse sabia que eu estava a falar a sério, passado uma meia hora eu voltei lá com a policia... e achava eu que entretanto o livro teria aparecido... engano meu. O certo é que o senhor se tinha mudado com os cigarros para a esplanada e os cinzeiros tinham desaparecido das mesas. Mas nem com a policia e a ameaça de multa a dobrar, o livro apareceu. O que apareceu foram muitas lágrimas e uma história de fazer chorar as pedras da calçada... e claro, ela não viu ninguém a fumar lá no café, a única que estava a fumar era ela... não sabia ela que eu tinha a máquina na mão e tinha registado em primeira mão a prova do crime.

 

Segundo o policia, casos como este são às dezenas, pelos vistos no Algarve alguns comerciantes acham que as leis que fazem lá por Lisboa não são para cumprir.. não conhecem é o meu mau feitio.

 

Mas o dia não se ficou por aqui... que ao jantar a coisa também foi de morrer a rir... bom, se não fosse triste.. mas disso falo noutro dia.

 

Jorge

 

 

publicado às 22:42

O ultimo amor do principe

por Jorge Soares, em 11.04.09

Gravura japonesa

 

 

Continuação do conto O ultimo amor do principe, escrito por Marguerite Yourcenar, podem ver a primeira parte aqui

 

 

.....

A Dama seguiu-o, tendo o cuidado de imitar o andar simplório de uma camponesa. Acocoraram-se os dois junto ao lume quase morto. Genghi estendia as mãos para o calor, mas a Dama escondia os dedos, demasiado delicados para uma rapariga do campo. 

-Estou cego -suspirou Genghi ao cabo de um instante. -Podes despir sem pejo a tua roupa molhada, menina, e aquecer-te nua junto à lareira. 
 
A Dama despiu docilmente o seu vestido de camponesa. O lume rosava-lhe o corpo esguio, que parecia talhado no mais pálido âmbar. De repente, Genghi murmurou: 
-Enganei-te, menina, pois não estou ainda completamente cego. Adivinho-te através de uma névoa que talvez mais não seja do que o halo da tua própria beleza. Deixa-me pousar a mão no teu braço ainda tremuroso. 
 
Foi assim que a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem voltou a ser a amante do príncipe Genghi, que humildemente amara durante mais de dezoito anos. 
 
E não se esqueceu de imitar as lágrimas e as hesitações de uma rapariga no seu primeiro amor. O seu corpo mantivera-se surpreendentemente jovem, e a vista do príncipe era demasiado fraca para distinguir os seus parcos cabelos grisalhos. 
 
Chegados ao fim das carícias, a Dama ajoelhou-se aos pés do príncipe e disse-lhe: 
-Enganei-te, príncipe. Sou realmente Ukifune, a filha do rendeiro So-Hei, mas não me perdi na montanha. A glória do príncipe Genghi espalhou-se até à aldeia e vim por minha vontade, para descobrir o amor nos teus braços. 
 
Genghi levantou-se cambaleante, como um pinheiro vacila ao embate do Inverno e do vento. Com voz sibilante, gritou: 
 
-Maldita sejas, que acabas de trazer-me a lembrança do meu pior inimigo, o belo príncipe de olhar aceso cuja imagem me traz desperto todas as noites... Vai-te daqui... 
E a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem afastou-se, lamentando o erro que acabava de cometer. 
 
Durante as semanas que se seguiram, Genghi ficou só. Verificava com desalento que continuava enleado nos enganos deste mundo e bem pouco afeito ao despojamento e à .renovação da outra vida. A visita da filha do rendeiro So-Hei despertara nele o gosto pelas criaturas de pulso esguio, de longos peitos cónicos, de riso patético e dócil. Depois que começara a cegar, o sentido do tacto era o seu único meio de captar a beleza do mundo, e as paisagens onde fora refugiar-se já não dispensavam qualquer consolo, pois o barulho de um regato é mais monótono que a voz de uma mulher e as curvas das colinas ou as madeixas das nuvens são feitas para quem as vê e pairam demasiado longe para se deixarem afagar. 
 
Decorridos dois meses, a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem fez segunda tentativa. Desta feita vestiu-se e perfumou-se com esmero, mas teve o cuidado de dar ao corte dos tecidos qualquer coisa de acanhado e tímido em toda a sua elegância, e de deixar que o perfume discreto, mas banal, sugerisse a falta de imaginação de uma mulher jovem saída de um honrado clã da província e que nunca viu a corte. 
 
Desta vez, alugou carregadores e uma liteira imponente, mas à qual faltavam os últimos aperfeiçoamentos da cidade. E arranjou maneira de alcançar as proximidades da cabana de Genghi já de noite cerrada.
O Verão chegara à montanha antes dela. Sentado ao pé do bordo, Genghi ouvia os grilos cantar. Ela aproximou-se, escondendo um pouco o rosto por detrás de um leque, e murmurou embaraçada: 
-Eu sou Chujo, a mulher de Sukazu, fidalgo de sétima ordem da província de Yamato. Vou em peregrinação ao templo de Isê, mas um dos meus carregadores acaba de torcer um pé e não posso prosseguir caminho antes da aurora. Indica-me uma cabana onde possa hospedar-me sem receio de calúnias e dar descanso aos meus criados.
-Onde estará uma mulher nova mais abrigada das calúnias do que na casa de um velho cego? -disse o príncipe amargamente. 
 
- A minha cabana é demasiado pequena para os teus servos, que poderão instalar-se debaixo desta árvore, mas ceder-te-ei o único colchão do meu retiro. 
Levantou-se tacteando para lhe ensinar o caminho. 
 
Nem uma única vez ergueu os olhos para ela, que por este sinal reconheceu que ele estava completamente cego. 
 
Depois que ela se estendeuno colchão de folhas secas, Genghi retomou o seu lugar melancólico à entrada da cabana. Estava triste, e nem sequer sabia se aquela mulher jovem era bela. 
 
A noite estava quente e luminosa. A lua despejava um clarão no rosto erguido do cego, que parecia esculpido em jade branco. Ao cabo de um longo momento, a Dama deixou o seu leito campestre e foi também sentar-se à entrada. E disse com um suspiro: 
-Está uma noite bonita e não tenho sono. Deixa-me cantar uma das canções de que trago o peito cheio. 
 
E sem esperar pela resposta entoou uma romança de que o príncipe gostava muito, pois muitas vezes a ouvira, em tempos, nos lábios da sua mulher preferida, a princesa Violeta. Perturbado, Genghi aproximou-se insensivelmente da desconhecida: 
-Tu donde vens, jovem mulher que sabes canções que tanto afeiçoávamos na minha juventude? Harpa onde se dedilham árias de antigamente, deixa-me passar as mãos nas tuas cordas.
 
E acariciou-lhe os cabelos. Ao fim de um instante, perguntou-lhe: 
- Ai de mim! Pois não é o teu esposo mais belo e mais jovem do que eu, jovem mulher do país de Yamato? 
- O meu esposo é menos belo e parece menos jovem -respondeu simplesmente a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem. 
Assim se tornou a Dama, sob novo disfarce, a amante do príncipe Genghi, a quem em tempos pertencera. De manhãzinha, ajudou-o a preparar umas papas quentes e o príncipe Genghi disse-lhe: 
- És terna e hábil, jovem mulher, e creio que nem o príncipe Genghi, que tão feliz foi no amor, jamais teve amante mais doce do que tu. 
- Nunca ouvi falar do príncipe Genghi -disse a Dama sacudindo a cabeça.
- Quê? -exclamou Genghi amarga mente. -Pois tão depressa o esqueceram? 
E todo o dia se manteve sombrio. A Dama compreendeu então que se enganara pela segunda vez, mas Genghi não falava em mandá-la embora e parecia feliz de ouvir o sussurro do seu vestido de seda na erva. 
 
Continua
 
Retirado de : Contos da Aula
 

publicado às 21:15

As melhores frase dos piores alunos

por Jorge Soares, em 10.04.09

rir é o melhor remédio

 

Quando lerem isto estarei algures a sul... ir para fora cá dentro é mesmo o que está a dar... e como para mim férias é mesmo férias, o unico aparelho electrónico permitido é mesmo a máquina fotográfica, e não há computadores para ninguém.

 

Este post é pré cozinhado e é cortesia da Sofia (Obrigado!)

 

Tenham uma boa pascoa e não comam muito chocolate!

 

**O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra! *  

(Tá bem... décima millonésima???)

 
**O cérebro humano tem dois lados, um para vigiar o outro.* 
(no teu caso andam os dois distraídos)
 
**O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia, praticamente, toda a gente tem um.* 
(Lá está, se fossem todos...tu também tinhas!)
 
*Quando o olho vê, não sabe o que está a ver, então ele amanda uma foto eléctrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver.* 
(Amanda... há muita gente por aí com a máquina fotográfica avariada!..está explicado!)
 
**O nosso sangue divide-se em glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e até verdes! * 
(Os verdes são dos lagartos... atão e azul?.. o Porto não tem direito?)
 
**Nas olimpíadas a competição é tanta que só cinco atletas chegam entre os dez primeiros.* 
(hummm, lá está, só importa quem ganha,,, o resto até fica fora dos cinco!)
 
**O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.* 
(sério?)
 
**O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.*.* 
(é mais para dizer que tão antigamente foi..mas andou lá perto!)
 
 **Antes mesmo da guerra a Mercedes já fabricava Volkswagen 
(A única altura em que o povo andou de Mercedes!)
 
**Pedofilia é o nome que se dá ao estudo dos pêlos.* 
(humm..ia dizer uma asneira!)
 
**O pai de D. Pedro II era D. Pedro I, e de D. Pedro I era D. Pedro 0* 
(E antes dele era a dinastia dos negativos!)
 
**Nos aviões, os passageiros da primeira classe sofrem menos acidentes que os da classe económica.* 
(A partir de hoje só viajo em primeira classe!)
 
**O índice de fecundidade deve ser igual a 2 para garantir a reprodução das espécies, pois precisa-se de um macho e uma fêmea para fazer o bebé. Podem até ser 3 ou 4, mas chegam 2.* 
(Se forem 3 ou 4 o índice muda de nome.. para Orgia!)
 
**O homossexualismo, ao contrário do que todos imaginam, não é uma doença, mas ninguém quer tê-la. * 
(A homossexualidade não..mas a discriminação sim!)
 
**Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.* 
(Deve ser nessa altura que eu me reformo..  velhos, façam favor de morrer todos antes!)
 
**O verme conhecido como solitária é um molusco que mora no interior, mas que está muito sozinho.*.* 
(E sendo assim.. porque não quer sair?)
 
**Na segunda guerra mundial toda a Europa foi vítima da barbie (queria dizer, decerto, barbárie) nasista.* 
 
(Se fosse a barbie.. não tinha havido babarie!)
 
**Cada vez mais as pessoas querem conhecer a sua família através da árvore ginecológica.* 
(Bom... não deixa de ser verdade.. é por aí que tudo começa!)
 
 
**O hipopótamo comanda o sistema digestivo e o hipotálamo é um bicho muito perigoso.* 
(e todos temos um na cabeça?)
 
*A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação.*.* 
)
 
**Lenini e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia.* 
(Isso foi antes ou depois do Rambo?)
 
**Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo.* 
(Pelo menos!)
 
Bom fim de semana e boa pascoa a todos

publicado às 22:00

 ... em risco e institucionalizada.

 

Missão Criança

Para que não aconteçam mais histórias como a que contei neste post, para que os centros de acolhimento não sejam depósitos de crianças esquecidas, para que cada vez existam menos crianças a passar a vida inteira sem conhecerem o amor e o carinho de uma família, para que todas as pessoas e entidades ligadas à protecção, acolhimento e defesa das crianças cumpram o seu papel, para que neste país se façam cumprir as leis, para lutar por tudo isto e muito mais, nasceu a Associação Missão criança

 

Por enquanto somos só um grupo de pessoas cheios de vontade de trabalhar em prol das crianças, mas em breve esperamos ser muitos mais e converter as boas vontades em acções concretas.. e claro, espero contar com todos vocês.. porque as crianças devem ser antes de mais uma preocupação de todos nós.

 

Visitem o blog Missão Criança e leiam os nossos objectivos

 

Agora, este senhor vai para férias... uma boa e santa Pascoa a todos.

 

Jorge Soares

PS:Imagem retirada da internet

publicado às 22:30

Escolha genéricos

 

 

Não sou dos que passo a vida a insultar o Sócrates, ou a dizer que eles não estão lá a fazer nada e que se deviam ir embora, já vivi o tempo suficiente para já ter sido governado por estes e pelos outros e para saber que ou mudam muitas coisas, ou dificilmente irá para lá alguém melhor... até porque se há pessoa de quem não gosto, essa pessoa é a Manuela Ferreira leite. Mas confesso que hoje ao fim da tarde quando ouvia as notícias na rádio.. me apeteceu insultar alguém.. aliás... insultei mesmo!

 

"O Serviço Nacional de Saúde não vai pagar às farmácias a comparticipação dos medicamentos que forem substituídos pelo genérico sem autorização do médico. O anúncio foi feito esta manhã pela ministra da Saúde que revelou ainda que todas as receitas substituídas contra a vontade do médico vão ser devolvidas às farmácias."

 

Isto é em primeiro lugar uma vassalagem ao lóbi dos médicos e dos grandes laboratórios farmacêuticos, e em segundo lugar é um insulto a todos os Portugueses.

 

Eu trabalho numa empresa que produz substâncias activas para medicamentos, é uma empresa que exporta 100% da sua produção, portanto não me venham acusar de estar a defender o meu emprego, simplesmente sei do que falo. Os genéricos são medicamentos que existem há muito tempo, muito antes de chegarem a Portugal já estavam completamente difundidos em muitos países, sendo que em muitos deles cobrem a maioria do mercado dos medicamentos, nestes países o normal é a pessoa utilizar genéricos e não marcas.

 

O que é um genérico e de onde surge? A maioria dos princípios activos é descoberto pelas grandes multinacionais que investem muitos anos e muitos milhões em investigação, quando descobrem um produto que tenha aplicação comercial, seguram a patente do processo e garantem que durante alguns anos mais ninguém consegue comercializar o seu produto. Quando está a chegar o fim do o fim do período de protecção, algumas outras empresas, como a que me dá emprego, gastam tempo e recursos para descobrir um processo de fabrico que no final garanta a obtenção do mesmo principio activo a um preço competitivo, dentro das normas de qualidade e segurança exigidas pela lei. Nem sempre se consegue, mas quando isso acontece, nasce mais um medicamento genérico.

 

Para terem ideia do controlada que é esta indústria, posso dizer que para além de todas as autoridades nacionais de qualidade e saúde, a empresa em que trabalho é auditada pelo FDA americano e pelas autoridades de alguns outros países.. para além dos clientes, que por norma são outras multinacionais. Por norma há duas ou três auditorias por semana.

 

Como disse, a empresa onde trabalho exporta 100% da produção e não produz medicamentos comerciais, mas imagino que todas as industrias terão os mesmo tipos de controlos... que garantem a qualidade dos medicamentos. Agora, alguém me explique com base em quê um médico pode dizer que eu não posso comprar um genérico e tenho que pagar o dobro por um medicamento de marca que se calhar até foi produzido no mesmo sítio.

 

Senhora ministra, senhores do governo, senhores médicos, não gozem com as dificuldades do povo, não brinquem connosco.

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:22

Madonna e a adopção...razão ou coração

por Jorge Soares, em 05.04.09

Madonna e o seu filho adoptivo

Retirada do Publico

 

Desde há uns anos a esta parte, a adopção tornou-se uma espécie de moda entre os ricos e famosos, não vou tecer juízos de valor, sempre e quando as crianças sejam bem tratadas e lhes seja dada uma família em todos os sentidos da palavra...

 

É claro que no meu espírito ficam sempre dúvidas, como pai e candidato à adopção já ouvi muitas histórias e sei que em muitos paises mais que um acto de amor e coragem, já é de um negócio que se trata.

 

Estes dias o tema veio de novo à ribalta, a Madonna que já tinha adoptado uma criança no Malawi em 2006, decidiu que estava na hora de arranjar um irmão para o seu filho, para isto dirigiu-se de novo ao Malawi e colocou um pedido ao tribunal para adoptar uma criança que está num orfanato desde que nasceu.

 

Existe o detalhe de que no Malawi só pode adoptar quem tem mais de 18 meses de residência no país, coisa que já era válida em 2006 e que deixa algumas questões no ar sobre a forma como ela conseguiu essa primeira adopção. Esta vez o tribunal não foi em histórias de ricos e famosos e negou à cantante a hipótese de saltar a lei.... o que para mim, que sempre defendi que as leis são para se cumprirem, faz todo os sentido. Se eu tenho que passar por um processo de avaliação e tenho que cumprir todos os requisitos... porque raio é que a Madonna deve ser a excepção?

 

Pensava assim até que dei por mim a ler esta noticia do Publico e a ouvir a noticia na RTP, fiquei na duvida, nem sempre as coisas são a preto e branco, por vezes há muitos tons de cinzento pelo meio. Acredito que o Malawi tenha adoptado esta lei para evitar abusos e até o tráfico de crianças, mas quando ouvi na noticia que a criança está num orfanato desde que nasceu e que já tem 4 anos fiquei a pensar.... quais serão as probabilidade de que alguém que vive no Malawi vir a adoptar esta criança com 4 anos? quais serão as probabilidade de que esta criança saia alguma vez daquele orfanato onde está desde que nasceu? Como será a vida de uma criança num orfanato no Malawi? Será que esta lei faz mesmo sentido?

 

Na duvida.... pense-se na criança!.... não?

 

Jorge

publicado às 22:08

O ultimo amor do principe

por Jorge Soares, em 04.04.09

Contos Orientais


Conto O Ultimo amor do Principe - Marguerite Yourcenar

 

Quando Genghi, o resplandecente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Asia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exactamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar. A sua terceira esposa, a Princesa do Palácio do Poente, enganara-o com o genro, tal como ele enganara o pai nos seus tempos de juventude com uma imperatriz adolescente. Representava-se a mesma peça no palco do mundo, mas desta vez sabia que lhe estava apenas reservado o papel de velho, e a semelhante personagem preferia a de fantasma. Por isso mesmo distribuiu os seus bens, reformou os seus servos e preparou-se para acabar os seus dias num eremitério que tivera o cuidado de mandar construir na encosta da montanha. Atravessou pela última vez a cidade, seguido apenas por dois ou três companheiros dedicados que não se resignavam a despedir-se, nele, da sua própria juventude. Não obstante a hora matinal, havia mulheres com o rosto encostado às delgadas ripas das persianas. Murmuravam em voz alta que Genghi era ainda muito belo, o que provou uma vez mais ao príncipe que chegara a hora de partir.
Levaram três dias a alcançar o eremitério, situado em pleno campo silvestre. A casita erguia-se à sombra de um bordo centenário; como era Outono, as folhas daquela bela árvore revestiam-Ihe o telhado de colmo com uma coberta de oiro. A vida nesta solidão revelou-se ainda mais simples e mais dura do que nos longos exílios que na sua turbulenta juventude Genghi suportara no estrangeiro, e aquele homem requintado pôde finalmente saborear à saciedade o luxo supremo que consiste em abdicar de tudo. Breve se anunciaram os primeiros frios; as encostas da montanha cobriram-se de neve como amplas pregas das vestes acolchoadas que se usam no Inverno, e o nevoeiro abafou o sol. Da aurora ao crepúsculo, à parca luz de um braseiro avaro, Genghi lia as Escrituras e achava naqueles austeros versículos certo sabor de que eram doravante falhos os mais patéticos versos de amor.
Mas breve se deu conta de que estava a perder a vista, como se todas as lágrimas que vertera sobre as suas frágeis amantes lhe houvessem queimado os olhos, e teve de reconhecer que, para ele, as trevas começariam antes da morte. De quando em vez, um correio transido chegava da capital, arrastando os pés inchados de cansaço e de frieiras, e apresentava-Ihe respeitosamente mensagens de parentes ou amigos que desejavam visitá-Io uma derradeira vez neste mundo, antes dos encontros infinitos e incertos da outra vida. Mas Genghi receava inspirar aos seus hóspedes mera compaixão ou respeito, dois sentimentos a que tinha horror e aos quais preferia o esquecimento. Sacudia tristemente a cabeça, e aquele príncipe outrora famoso pelo seu talento de poeta e calígrafo mandava o carteiro de volta com uma folha em branco. Pouco a pouco, os contactos com a capital abrandaram; o ciclo das festas sazonais continuava a girar longe do príncipe, que em tempos as dirigia com um aceno do leque, e Genghi, abandonado sem pejo às tristezas da solidão, agravava sem cessar o mal que lhe afligia os olhos, pois já não se envergonhava de chorar.
Duas ou três das suas antigas amantes haviam-lhe proposto virem partilhar o seu isolamento cheio de recordações. Chegavam-lhe as mais ternas cartas da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem: era uma antiga concubina de casta meã e de beleza medíocre; servira fielmente Genghi e durante dezoito anos amara o príncipe sem nunca se cansar de sofrer. Ele fazia-lhe de vez em quando umas visitas nocturnas, e esses encontros, embora raros como estrelas em noite de chuva, haviam sido o bastante para alumiar a pobre vida da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem. Pois que não alimentava ilusões acerca da sua beleza, nem do seu espírito, nem do seu nascimento, a Dama, única entre tantas amantes, tributava a Genghi uma terna gratidão, porquanto não achava nada natural que ele a tivesse amado.
Como as suas cartas continuavam sem resposta, alugou uma modesta carruagem e fez-se conduzir à cabana do príncipe solitário. Empurrou timidamente a porta feita de ramos entrançados; ajoelhou-se com um risinho humilde, para se desculpar de estar ali; Foi na época em que Genghi reconhecia ainda o rosto dos que o visitavam, quando se aproximavam de muito perto.
Uma raiva amarga o tomou frente àquela mulher que despertava nele as mais dolorosas recordações dos dias mortos, não tanto pelo efeito da sua própria presença, mas porque as suas mangas continuavam impregnadas do perfume que usavam as suas defuntas mulheres.
Suplicou-lhe tristemente que a retivesse pelo menos como criada. Implacável pela primeira vez, expulsou-a; mas ela guardara amigos entre os poucos velhotes que asseguravam o serviço do príncipe, e estes davam-lhe notícias de quando em quando. Cruel também pela primeira vez na vida, ela vigiava de longe a progressão da cegueira de Genghi, como uma mulher impaciente de juntar-se ao amante espera que a noite caia por completo.
Quando o soube quase totalmente cego, despiu a sua indumentária da cidade e cobriu-se com um vestido curto e grosseiro, como os que usam as jovens camponesas; entrançou os cabelos à maneira das raparigas do campo; e armou-se de um fardo de tecidos e de louças, como os que se vendem nas feiras de província. Assim enfarpelada, deixou-se conduzir ao sítio em que o exilado voluntário vivia na companhia dos corços e dos pavões da floresta; percorreu a pé a última parte do percurso, para que a lama e o cansaço a ajudassem a desempenhar o seu papel. A chuva miúda da Primavera caía do céu sobre a terra mole, afogando os derradeiros lampejos do crepúsculo: era a hora em que Genghi, envolto no rigor das suas vestes de monge, passeava lentamente pelo carreiro donde os seus velhos servos haviam cuidadosamente afastado o menor seixo, não fosse ele tropeçar. O seu rosto ausente, esvaziado, embaciado pela cegueira e as investidas da idade parecia um espelho plúmbeo que em tempos reflectira beleza, e a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem não precisou de fingir para começar a chorar.
Aquele som de soluços femininos Genghi sobressaltou-se e dirigiu-se lentamente para o lado donde vinham as lágrimas.
-Quem és tu, mulher ? -perguntou inquieto.
- Sou Ukifune, a filha do rendeiro So-Hei -disse a Dama, sem se esquecer de adoptar a pronúncia da aldeia. - Fui à cidade com minha mãe, para comprar tecidos e tachos, porque me casam para a próxima lua. E eis que me perdi nos caminhos da montanha, e choro porque tenho medo dos javalis, dos demónios, do desejo dos homens e dos fantasmas dos mortos.
-Estás encharcada, menina -disse o príncipe pousando-lhe a mão no ombro.
Estava realmente ensopada até aos ossos.
O contacto daquela mão que tão bem conhecia fê-la estremecer da ponta dos cabelos aos dedos dos pés descalços, mas Genghi pensou porventura que ela tremia de frio.
-Vem para a minha cabana -retomou o príncipe com voz calorosa. - Poderás aquecer-te à minha lareira, muito embora tenha menos brasas do que cinzas.

 

Continua ....

Reirado de : Contos da Aula

publicado às 21:40



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