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Ainda a professora de história...

por Jorge Soares, em 19.05.09

A professora de história

Imagem retirada do HenriCartoon

 

Nos países hispânicos da américa latina e aqui ao lado na vizinha Espanha, para os professores  é utilizada a palavra maestro, que traduzido à letra significa mestre. Um mestre é um individuo que com o tempo e a educação adquiriu um conhecimento numa determinada área, que utiliza para  orientar e transmitir aos seus pupilos

 

Antes de mais, estou um bocadinho baralhado, desde que ontem publiquei o post até este momento, os contadores ali ao lado registaram muito perto de 1000 visitas ao blog, tendo em conta que a média diaria das ultimas semanas anda perto dos 350....  temos que concordar que este é um tema que interessa às pessoas.  Bom, mas vamos ao que interessa.

 

Eu sou pai, tenho dois filhos que estão a terminar o primeiro ciclo e que brevemente entrarão na idade da curiosidade, do aprender, sou a favor da educação sexual na escola e em casa, e se um dia algum deles me vier contar que uma das professoras passou uma aula a falar de educação sexual e que falou de orgias e de sexo  eu tenho a certeza de que não vou ficar chocado nem vou armar nenhum alarido. O sexo faz parte da educação e deve ser tratado por pais e professores... mesmo que isso implique que se fale de orgias. Mas tentar confundir o que ouvimos naquelas gravações com educação sexual ou tentar dizer que o que se passa aqui é fruto de pais pudicos e falso moralismo é querer tapar o sol com uma peneira.

 

Há quem tente defender a senhora, eu não vejo como se possa defender algo como isto, o papel dos professores é formar, já seja pela transmissão de conhecimentos ou pelo exemplo, e eu não consigo entender como é que podemos ver o que aqui se passou como uma aula ou formação, que exemplo pode dar esta senhora? Todos nós sabemos que as crianças são dificeis, que não são inocentes, mas deve haver uma fronteira que separa o comportamento do aluno e do professor, é essa fronteira que define a autoridade dentro da sala de aula, quando o professor não consegue manter-se do seu lado da fronteira, o que resta aos alunos?

 

Também encontrei quem tente ver aqui mais um acto de perseguição da ministra ou do governo, meus senhores, tenham juizo. Isto é um caso disciplinar, li algures que já haviam queixas antigas contra a professora e que a escola nunca fez nada, talvez se tivessem feito, isto não estaria agora a acontecer.

 

Sei que entre os autores dos blogs que visito e que me retribuem a visita há muitos professores, pessoas que aprendi a admirar e a respeitar pela imagem que transmitem nos seus blogs, pela forma como escrevem e como levam a vida. Não sou pessoa de avaliar o todo pela unidade, nunca seria capaz de generalizar, mas também não nos podemos enganar, como em todas as profissões, há bons e maus professores, infelizmente, esta senhora foi noticia porque realmente só pode ser uma má professora... nunca poderia ser um maestro ... ou um mestre.... mesmo que exista lá na escola quem a ache o máximo, como podemos ver nesta noticia do Publico:

 

Alunos consideram professora suspensa de escola de Espinho como "a mais espectacular"

 

Como li algures noutro blog,...se calhar, se quando eu tinha 13 anos alguma das minhas professoras viesse para as aulas falar de orgias ..eu também a acharia o máximo.... nãaaa, nada disso.

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:36

Maus professores

Imagem retirada da internet

 

Eu hoje ia falar sobre educação sexual,  uma reportagem na RTP sobre a forma como as religiões vêem a distribuição gratuita de preservativos na escola, fez-me voltar ao nono ano a uma aula algures há muitos anos atrás, em que se falava de sexo, de homossexualidade e de gostos, já lá vão muitos anos disso. Entretanto tudo isto foi ultrapassado por esta noticia do Publico:

 

"Uma professora da Escola Básica 2,3 Sá Couto, de Espinho, está suspensa e enfrenta um processo disciplinar na sequência de alegadas alusões a orgias sexuais, durante uma aula, gravadas em áudio por uma educanda."

 

Acabo de ouvir uma parte da gravação na TSF e estou estupefacto, ameaças, acusações, há de tudo um pouco.... Estamos a falar de uma professora, um adulto supostamente formado e responsável e de crianças entre os 12 e os 14 anos, que tipo de pessoa desce o nível de uma sala de aula até este ponto?

 

E não, o que me chocou não foi a conversa sobre as orgias que fez a manchete de tudo o que é jornal online, essa parte nem ouvi, o que me chocou foi a forma autoritária como ela falou, o abuso de poder, a linguagem brejeira e deformada e a forma como tenta impor a autoridade pelo medo, as ameaças... isso foi o que me chocou.

 

Eu acredito que lidar com alguns alunos e algumas turmas não seja fácil, mas o que acabei de ouvir não tem desculpa possível. Espero que esta senhora seja castigada severamente.

 

Update, podem ver o video da SIC, aqui:


http://sic.aeiou.pt/online/video/informacao/noticias-pais/2009/5/professora-suspensa.htm

 

Update à noticia do Publico:

 http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1381437&idCanal=58

 

Jorge Soares

publicado às 22:00

Socorrooooooo!

por Jorge Soares, em 17.05.09

Com o Magalhães a servir de máquina fotográfica

 

Vai fazer um ano que num post em que falava de genes e de mulheres escrevi o seguinte:

 

Por vezes pergunto-me como é que a natureza faz para entre os genes do pai e da mãe, escolher os conjuntos certos para um determinado filho. Como é que faz para entre todas as características contidas no genoma humano, escolher precisamente aqueles genes  e não outros.

 

Cá em casa tenho duas mulheres, que não podiam ser mais parecidas uma com a outra, nas virtudes.....e sobretudo nos defeitos.... como é que é possível que a filha tenha herdado todos os defeitos da mãe...... e ainda por cima, tenha misturado com os defeitos do pai?

 

Ter filhos é muito complicado, muito mesmo, longe de melhorar, a guerra entre a rainha e a princesa cá de casa, piora dia a dia, e claro que à medida que a guerra vai aumentando de tom, o meu papel de árbitro vai sendo mais e mais solicitado... o pior é que eu não tenho jeito nenhum para a diplomacia e convenhamos, que não é lá muito bom para a minha saúde meter-me no meio de duas guerreiras de garras afiadas.

 

Por norma tenho a mãe a queixar-se de que eu não faço nada e de que não a apoio, a verdade é que a mim a miúda raramente me responde assim, e também é verdade que eu sou muito mais duro com o N. que com a ela, o que não abona nada em meu favor... mas também é verdade que ela não faz 10% das asneiras.... tem é a língua mais afiada, especialmente com a mãe.

 

Há alturas em que me sinto perdido, sem saber se dar um berro e mandar ambas terem juízo, ou fugir porta fora antes que sobre para mim, depois dou por mim a pensar onde ficou aquela menina doce e amorosa, aquela miúda de que todo o mundo gostava e que a maioria das pessoas diziam que era uma criança que parecia estar sempre de bem com o mundo? 

 

Porque é que os nossos filhos crescem?.. e porque é que com eles crescem de forma acentuada os nossos defeitos e não as nossas virtudes?, ou será que como nos vemos ao espelho somos muito mais exigentes com eles porque queremos que eles sejam melhores que nós?

 

Vida complicada a de pai!

 

Jorge

 

 

publicado às 22:09

Amor

por Jorge Soares, em 16.05.09

Miguel Torga, Amor

 

Nasceu aquela flor em Covelinhas, dum castanheiro velho, o Lourenço Abel, e duma urze mirrada, a Joana Benta. Nasceu e cresceu tão linda, tão airosa, que o povo em peso punha os olhos nela. Só tinha um defeito...

- Verduras da mocidade! - pretextava a Cláudia, quando o homem, ao lume, censurava os namoros da rapariga.

- Ultrapassa as marcas! Dá trela a quantos há na freguesia...

- Ainda hão-de ser mais as vozes do que as nozes.

- É, ê! No dia das inspecções lá se viu... A Cláudia calou-se. Na comprida crónica da montanha não havia página mais negra do que essa a que o homem fazia alusão. Acabadinhos de sair das garras da junta, onde nus em pêlo pareciam cordeiros tosquiados, três de Paços, dois de Fermentões, um de Vilela e outro de S. Martinho armaram tamanha guerra na Sainça, que só faltou tocar os sinos a rebate. O de Vilela, aqui-del-rei que a rapariga era dele; o de S. Martinho que o varava logo ali se continuasse com as gabarolices; o mais possante dos de Paços que não consentia trigo do seu forno na boca de cães... Um inferno. Segue-se que daí a nada ia tal polvorosa pelos montes, que Deus nos acudisse. Não morreu ninguém, felizmente, mas chegou para afligir.

A Lídia é que não queria saber de desgraças. Muito bem feita, muito corada, com aqueles dois olhos de veludo que ameigavam tojos, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava pela rua acima em direcção às hortas como se nada fosse. E o povo inteiro rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho.

- Tu a quantos atendes? - perguntava-lhe em confidência a Mariana, já com cinquenta e dois e ainda de olhinho a reluzir.

- A nenhum. Ninguém me quer, tia Mariana! E dava uma gargalhada das dela, muito clara, muito pura, pondo à mostra uns dentes que cegavam a gente.

- Raios te partam, rapariga! Trazes um regimento à corda, e a dizer que ninguém te quer!

- À consciência!...

E toda ela se dava e se recusava num requebro enigmático, com os seios a enfunarem-lhe a blusa de chita.

- Olha., fazes tu muito bem! Enquanto dura, é doçura...

E a doçura era naquele inverno gelado, noites a fio, o Pedro Verdeal comido de ciúmes a guardar o Lúcio, e o Lúcio, comido de ciúmes, a guardar o Verdeal.

- Que cegueira! Perdidinhos de todo! Um sincelo de meter medo e nenhum arreda pé! Ao menos tem pena deles, cachopa. Manda pôr uma braseira debaixo do negrilho e outra no cruzeiro...

- Eles não têm frio. Quanto mais, deixe falar, tia Cláudia! Se andam de noite, lá andam à sua vida. Cá comigo não há nada. Querem coisa mais alta.

E continuava a receber cartas do Lúcio, do Verdeal, do Vitorino, e até recados do Teodoro, um homem já viúvo! A Violante do correio entregava-lhe essas letras de amor às escondidas de toda gente, mas ia dizendo:

- Eu não sei como tu podes com tal cainçada atrás de ti!...

A Lídia, porém, era aquele coração aberto a quantos lhe batiam à porta. Como uma terra de semeadura em pousio, dizia a todas as sementes que deixassem apenas chegar a primavera... Não havia maldade nem cálculo nas promessas que fazia. Diante de cada solicitação masculina, sentia-se como que chamada a dar contas da sua íntima natureza de mulher. E todos podiam pedir-lhas com igual autoridade, justamente porque não amara ainda nenhum a valer. Limpo, o seu corpo estava destinado a pertencer a um daqueles pobres obcecados, que andavam à sua volta como lobos à volta de uma ovelha. A um deles teria de se entregar, mais dia, menos dia. Mas a qual?

- Tu é que sabes. Se fosse comigo, escolhia o mais jeitoso e mandava os outros à tábua. Sarilhos desses é que não! - repetia a Violante, apavorada com tanta carta e tanto enredo. - Vê lá!

- Deixe correr, que ainda bota, ti Violante. Uma carta custa apenas o selo e o papel.

- Parece-te! Pode custar muita lágrima. Não estiques a corda demais...

Boas palavras, realmente. Pena é que não tivessem eco nos ouvidos da Lídia. Por mais que quisesse, não conseguia decidir-se por nenhum. Os homens eram como os ramos de rebuçados na mesa da doceira: pareciam-lhe todos iguais.

- Não são, não. Repara bem, que verás... - respondia-lhe a Cláudia, cheia de paciência.

Reparava e via o mesmo desejo a arder nos Olhos de cada um. As palavras, os gestos, os amuos significavam em todos a mesma coisa. P’ra a virgindade que lhe pediam, quer o dissessem, quer não. E continuava, conciliante, a prometer-lha e a negar-lha.

- Qualquer dia estoira para aí tamanho sarrabulho, que vai ser uma vergonha... - ia insistindo o Leopoldino, agoirento.

- Olha não estoires tu do miolo! - repontava a mulher, a fazer de valente.

- Deu com o pai já comido da terra, e com a lambaças da mãe, que é uma pobre de Cristo. Posse minha filha e eu te diria. Era com uma soga por aquele lombo...

- A mãe que há-de fazer? Proibi-la de se divertir ?!

A Cláudia estava farta de saber que o homem tinha carradas de razão. Quantas e quantas vezes falara já com a Joana Benta sobre a filha. Valia de bem! A coitada ouvia, concordava, gemia, apagava-se rasteira na escuridão da cozinha. noite é que lá se atrevia a dizer uma palavra à rapariga.

- Tu não terás juízo, mulher! Coisa assim!

- Não se aflija, que não me dá o lampo. Palavras leva-as o vento...

Mas com palavras tinha ela posto a cabeça do Verdeal e do Lúcio a andar à roda. A mangar, a mangar, jurava a cada um que não queria mais ninguém e que os outros lhe rondavam a casa por palermice. Que não era culpada de quantos homens havia no concelho lhe andarem a cheirar o rasto...

Na véspera do S. Miguel, a Olívia, que era sua amiga do coração, ao vir da missa pôs-lhe os pontos nos ii.

- Tu tem lá mão na manta, que isto não acaba bem. Dá o sim-ou-sopas a um e emponta o resto. Muitos burros à nora não é negócio; escoicinham-se uns aos outros... O Verdeal anda sobre o Lúcio como um cão. Se o agarra a jeito, esfandega-o.

- Mas porquê -Ainda perguntas?

- Oh! E aconteceu o que tinha de acontecer. Nessa mesma noite, depois da ceia, o Verdeal, ao voltar a esquina da eira, viu um vulto à porta do quinteiro da moça. Disfarçou-se na sombra e chegou-se perto. Era o Lúcio a falar com ela. Avançou até junto deles. No calor da conversa, nem o viram.

- Então, muito boas noites... - cumprimentou., já de mão na pistola.

- Boas noites - responderam ambos, ela com a mesma cara, e o Lúcio cego de raiva.

- Pode-se saber quando é a boda?

- Pode... 

Mediram-se os dois de cima abaixo. 

- É capaz de ser, no dia de juízo...

- Conforme... 

- É que a bocada às vezes parece que está quase na boca e não está...

Alheia, numa volúpia de irresponsabilidade, a Lídia assistia àquela disputa de que era a causa, divertida como uma criança. Quase que nem ouviu o simultâneo deflagrar das armas.

- Canalha! Seguiram-se mais dois estalidos secos.

- Cabrão! Os insultos como que eram apenas um comentário desdenhoso à margem dos tiros rápidos e sucessivos.

- Excomungada! A inesperada maldição entrou na alma da Lídia como um punhal de quem vinha? Da boca do Lúcio, ou da boca do Verdeal?

Mas não pôde sabê-lo. Ambos jaziam quase a seus pés, cada um no último arranco. E quando a mãe, espavorida, em saiote, abriu a porta, veio encontrá-la ainda alheada junto dos dois mortos, a tentar compreender a violência daquela queixa.

 

Miguel Torga, Contos da Montanha

Retirado de Contos de Aula

publicado às 22:03

Sexo e religião

 Imagem retirada do Salpicos de Luz

 

"o sexo no casamento não deveria ser enfadonho, e sim «apimentado, surpreendente e cheio de fantasia»."

 

Ora aqui está uma frase com a que a generalidade das pessoas concordará, hoje ao dar uma olhadela pelo  ionline, encontrei um titulo que me chamou a atenção "Sexo como deus Manda", não é muito comum encontrar as palavras sexo e deus na mesma frase, a menos que sejam acompanhadas por inferno e pecado... principalmente se estivermos num país católico e se a religião estiver por perto.

 

Bom, acreditem ou não, aparentemente esta frase foi escrita por um padre católico e a fazer fé em algumas coisas que li depois de uma pesquisa no Google, ele diz muito mais.

 

Ksawery Knotz é um padre franciscano polaco e escreveu um livro que se chama Seks "for married couples who love God" e que promete trazer uma verdadeira revolução à mentalidade católica. O que dizer da seguinte frase:

 

"Cada acto - um tipo de carícia, uma posição sexual - com o objectivo de excitar é permitido e agrada a Deus. Durante a relação sexual, casais casados podem demonstrar o seu amor de todas as maneiras, (eles) podem fazer um ao outro as carícias mais desejadas"

 

De onde terá tirado um monge celibatário e solitário estas ideias? É sem duvida uma maneira de diferente de ver o sexo e as relações entre casais, tudo o que li tinha a mesma origem, um artigo do The Guardian, e não há muito mais disponível, mas fiquei com curiosidade. Também não li em lado nenhum quais foram as reações dos outros padres e das hierarquias da igreja, pena que nenhum jornalista decidiu explorar o assunto.

 

Jorge

 

publicado às 22:44

Adopção em portugal

 

 

Esta semana o grupo nós adoptamos tem estado animado, a conversa tem versado sobre a forma como as assistentes sociais abordam as entrevistas e como os candidatos devem reagir e comportar-se.

 

A dada altura dei por mim a lembrar-me daquele dia em que tive a conversa telefónica com a assistente social, e que me deixou completamente angustiado, como expliquei naquele post em que falava de viver ou  limitar-me a existir. A verdade é que desde esse dia não voltei a ver a assistente social, ainda estou à espera da reunião de esclarecimento que me foi prometida e na única entrevista que tivemos, só esteve a Psicóloga, a senhora com quem falei ao telefone decidiu arranjar algo que fazer para aquela hora, isto apesar de ser a responsável do processo.

 

Esta semana ao ler a série de emails em que a maioria das pessoas fala em não fazer ondas, em não questionar muito, em parecermos todos muito simpáticos e atinadinhos, eu pergunto-me, mas somos candidatos à adopção, pessoas adultas e bem formadas ou um monte de carneirinhos a tentar fugir à degola? Mas porque carga de água é que havemos de levar com a incompetência e o desleixo das senhoras da segurança social e reagir que nem parvinhos? porque é que não havemos de reclamar?, porque é que não podemos exigir que se cumpram as leis e que elas façam o seu trabalho como deve ser?

 

É claro que há uma resposta simples para tudo isto.... porque as pessoas que estavam a participar naquela conversa querem ser pais...e pelos vistos neste país quem reclama, quem exige que se cumpram as normas, quem levanta ondas, deixa de ter direito a ser pai... pelo menos parece que é essa a conclusão que retiram os candidatos à adopção ... pelo menos foi isso que eu percebi no fim de ler os mais de 30 mails que compunham aquela conversa.....

 

Desculpem-me todas as pessoas que participaram...mas é muito triste.

 

Há uns dias escrevia um post em que se falava de sermos um povo triste, nos comentários eu tentei dar o meu ponto de vista e dizer que não o somos, afinal, se calhar tenho que me render à evidência, eu estou enganado, além de tristes, somos medrosos e parvos. Sim, somos, porque isto não é uma característica só dos candidatos à adopção, é uma característica geral, somos incapazes de fazer valer os nossos direitos, limitamo-nos a olhar para o lado... pior, muitas vezes pactuamos com as situações, deixamos ir para não nos chatearmos, deixamos andar para não sairmos escaldados, entretanto, a incompetência e o desleixo seguem o seu caminho e quem reclama é tildado de mal educado ou de ter mau feitio.... Depois falamos muito, deitamos  a culpa ao  governo, ou a alguém, a culpa nunca é nossa.. na verdade, nós somos os culpados, porque somos nós que deixamos andar, somos nós que não reclamamos, que não exigimos.

 

É triste, mas a conclusão que eu tiro, é que temos os funcionários públicos que merecemos, temos os serviços que exigimos, e como não somos capazes de exigir mais... nunca teremos mais!

 

Jorge

 

publicado às 21:57

 Mulher perfeita

Se tivesse de me despedir da vida, ainda hoje,
e tivesse alguns segundos lúcidos,
reservar-te-ia o último segundo,
com o firme propósito de o tornar eterno
E fosse eternamente o primeiro

 

(retirado da internet)

 

 

Hoje tive um daqueles dias, não consegui fazer absolutamente nada de jeito durante o dia todo, ainda que  não parei um minuto..... o meu telefone deve ter tocado umas mil vezes...a meio da tarde apetecia-me fugir..e para mais tinha um auditor a fazer perguntas parvas e a minha colega que era suposto aturar o homem, não fazia mais que vir perguntar-me as coisas a mim.... completamente para esquecer.

 

Num dos poucos momentos de paz, fui espreitar o mail do blog e tinha esta pérola

 

"Olá, muito bom-dia!

 

O meu nome é ........ e sou jornalista do programa "As Tardes da Júlia" da TVI. Estava a fazer uma pesquisa na internet para um tema que estou a preparar sobre "Mulheres fantásticas" e deparei-me com o seu blog. Resolvi tentar a minha sorte... Nunca se sabe! O que eu, efectivamente, procuro é o testemunho de homens que consigam dar muito valor à mulher que têm do lado e que a considerem uma mulher fantástica; a mulher que é esposa, mãe, dona-de-casa mas que, ao mesmo tempo, tenha uma profissão e ainda arranje tempo para cuidar da sua imagem. Percebi que fala com grande carinho da sua esposa e, por isso, resolvi escrever este mail, no sentido de perceber se, de facto, a sua esposa é esta "super-mulher" e, se assim for, convidá-lo a vir ao nosso programa prestar-lhe esta pequena homenagem. O que me diz?"

 

Não consegui conter uma enorme gargalhada... que deixou o auditor e os meus colegas a olhar para mim..... não faço ideia qual o post que a senhora leu, imagino que terá sido este... mas dei por mim a pensar, que a minha meia laranja tinha que ler aquilo.... 

 

Enviei-lhe o mail, resposta imediata:

 

-Livra-te, se sonhas sequer em dizer que sim, é divorcio pela certa!

 

Não faço a minima ideia de qual é o programa em questão,  raramente vejo a TVI e nunca durante o dia. .. e está visto que tendo eu a mulher maravilhosa que está descrita acima.. não me quero divorciar..... tenho que enviar um mail à senhora a dizer que com muita pena minha tenho que declinar o convite.

 

Só há algo que me intriga... e deste marido e pai exemplar...deste lirico que acredita na emancipação femenina... ninguém quer falar?  não?... lá estou eu a ser lirico outra vez..e ainda por cima convencido...  que coisas!

 

Jorge

 

publicado às 21:37

 

Pelo direito a uma família

 

Ia escrever o meu post mensal sobre a nossa  espera, mas não há muito para dizer, a P. ligou esta semana para a segurança Social, só para elas se lembrarem de nós, perguntou para as nossas características quantas pessoas ainda estavam à nossa frente... 13, foi a resposta. Estes dias soube de um casal que se inscreveu depois de nós em Lisboa e já há uns meses que recebeu uma criança com as características que nós colocamos.... alguém falou de lista nacional de adopção? ..... não?, pois, bem me parecia.  Entretanto o processo avança em Cabo Verde. 

 

Bom, mas não era disso que ia falar, certamente que se lembram da campanha nacional que organizamos e da petição para o dia nacional da adopção, a ultima vez que vi havia mais de 5000 assinaturas. Depois da entrega das assinaturas na Assembleia da Republica, e da apresentação da petição aos diversos grupos parlamentares, o bloco de esquerda decidiu avançar com uma moção que foi discutida há umas semanas atrás. 

 

Todos os partidos acharam o tema relevante, o PS achou que apesar do tema ser importante, não justifica a existência de um dia nacional, já há o dia da criança e portanto nesse dia podemos celebrar o que quisermos. Eu não estive lá, não sei se foram estas as palavras exactas, mas foi esta a ideia. Entretanto a moção nem foi a votação, e caberá ao governo decidir.. sendo o governo do PS.... 

 

Já o disse aqui várias vezes, sou contra os dias, não gosto, pronto, aderi à ideia de mais este dia porque acho que qualquer iniciativa que chame a atenção para a problemática da adopção, para as crianças que estão esquecidas nos centros de acolhimento, para as crianças que crescem sem nunca conhecerem o amor e o calor de uma família,  é uma iniciativa importante.

 

O PS não acha importante, o partido do governo não acha importante.... é pena. Este é um ano de eleições, muitas eleições, eu ainda não sei em quem vou votar, mas já tenho a certeza de em quem não vou votar...  quem não acha o tema da adopção importante, quem não acha que chamar a atenção para as crianças esquecidas é importante,.... não merece o meu voto.

 

Jorge Soares

publicado às 21:36

Setúbal desde o rio Azul...o Sado

 

Vivo em Setúbal desde 1995, a primeira vez que cá vim foi em Julho, visita exploratoria à baixa, almoço de peixe grelhado e praia à tarde em Troia. Eu Gostei. Em Setembro viemos viver para Cá.

 

Curiosamente viemos viver para Setúbal porque apesar de nem eu nem a minha meia laranja sermos de cá, ambos recém licenciados, arranjamos emprego por cá. Desde o inicio que ouvia os mesmos comentários por parte das pessoas com quem ia falando, familia, amigos, conhecidos, a maioria das pessoas nunca cá tinha estado, mas todos tinham uma opinião formada.

 

-Vais viver para Setúbal?

-Sim

-Dizem que aquilo por lá está mau, não há empregos.

 

A mim nunca me pareceu, eu vinha de viver em Lisboa e antes disso em Caracas, a mim Setúbal parecia-me um lugar especial, praia e serra, cidade e campo, longe e perto do bulicio da cidade. Nunca me senti inseguro, bem pelo contrario, à medida que fui conhecendo a cidade e as pessoas fui gostando mais, e fui ficando. Agora a minha vida é cá, os meus filhos nasceram cá, gosto da cidade, das suas pessoas, do seu rio Azul... sou de cá.

 

Nos ultimos dias os comentários voltaram, todos ouviram falar da Belavista e do que por lá se passa. Mas o que se passa?

 

Hoje ouvia o Marcelo Rebelo de Sousa falar do assunto e não posso estar mais de acordo, ao contrario do que algumas pessoas tem tentado fazer passar, o que se passa na Belavista é um caso de policia, e é à policia que cabe resolver. 

 

Na Belavista vivem muitos milhares de familias, a grande maioria delas vive lá há 30 ou 40 anos e são pessoas de bem, é um bairro com muitas infraestructuras, com escolas, com creches, com instituições de solidariedade, com praças e jardins. Os meus filhos vão nadar à Belavista, foi na Belavista que organizamos dois encontros nacionais de adopção, já lá fui muitas vezes, nunca senti medo, nunca me senti a mais, ou pressionado.. ou inseguro.

 

É evidente que quando juntamos num bairro do tamanho de uma pequena vila todas as familias carenciadas da cidade, o mais normal é que com o tempo apareçam problemas sociais, problemas sociais que devem ser resolvidos como o devem ser em qualquer outro lugar.

 

Quem tenta olhar para a Belavista e ver o que aconteceu em França ou na Grecia, ou não sabe do que está a falar, ou está a tentar obter vantagem politica. Setúbal não é Paris, os portugueses não são os franceses e nunca serão.

 

Eu continuo a olhar para Setúbal e ver  a Cidade do rio Azul e dos bairros com vista para o Sado.. cada vez mais a minha cidade, e porque como dizia no outro dia no Momentos e olhares cada vez mais,..... a cidade somos nós

 

 

Jorge

publicado às 22:00

Destinos

por Jorge Soares, em 09.05.09

Destinos, Miguel Torga

 

Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

 

- Não dás um ramo, ó Coiso? - perguntou do caminho a rapariga.

 

- Dou, dou! Anda cá buscá-lo. Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

 

- Não estás de caçoada? - Falo a sério!

 

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

 

- Olha que aceito! - E eu que estimo... Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

 

- Não teimes muito...

 

- Valha-me Deus!... A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha,

 

- Segura lá na abada... Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

 

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

 

- Terão bicho?

 

- Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

 

Sem querer,, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

 

- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei... À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

 

- Segura lá esta pinhoca... Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

 

- Que lindo! - É para que saibas... Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

 

- Cautela!

 

- Não há perigo. No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

 

- Queres mais? - Não, bem hajas... Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira. .- Adeus!...

 

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena elo ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.

 

Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado - e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

 

- Que diz vossemecê? - perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

 

- A mim agrada-me... É boa rapariga, e limpa, é jeitosa... - Lá isso... Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

 

- Fala à gente! Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

 

- Ainda não lhe falaste em nada? - Indagava a Teodósia, insárida.

 

- Não. Mas amanhã... - Ou quererás tu antes que eu lhe diga... ? - Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

 

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento.

 

Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

 

- O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo... - começou a Natália, à saída da missa.

 

- Ah, sim? E depois? - perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

 

- Pediu-me namoro... - deixou ela cair com melancolia.

 

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

 

- Bem, tu é que vês... Ele não é mau rapaz... Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

 

- Eu queria lá um farçola daqueles! Estou muito bem assim...

 

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

 

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

 

- Sabes o que me disseram hoje na fonte? - Que a Natália tem namoro com o João Neca... - respondeu, vencido.

 

- Nem mais. - Pois tem...

 

- Já sabias?! Então... e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

 

- Eu sei lá o que foi... Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

 

- Casam-se para a semana... - ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

 

- Já sei. - O padre leu hoje os banhos... - Pois leu... Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

 

- Morria por ti! - disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três., e se transformara num pesadelo.

 

Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

 

- Também eu gostava dela... Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.

 

 

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha

 

Retirado de :Contos de aula

 

publicado às 21:31



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