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As mulheres portuguesas o quê?

por Jorge Soares, em 19.06.09

As mulehres portuguesas são o quê?

 

Há uns tempos atrás, e a propósito de um romance da blogosfera, já a madrugada ia adiantada, estava a ter uma conversa com uma amiga que versava sobre mulheres, especificamente as mulheres brasileiras e as portuguesas, como na maior parte das vezes, eu e a minha visão do mundo estamos um bocadinho a leste da visão do resto do mundo, com a agravante que a conversa era com uma senhora e o tema er precisamente esse... senhoras!

 

Esta semana lembrei-me desse dia, estava a dar uma olhadela pelos jornais online quando encontrei no ionline  uma noticia que chamou a minha atenção e me transportou até aquele dia e aquela conversa. 

 

A noticia fala sobre portugueses... homens portugueses, sobre viagens ao Brasil e os motivos das mesmas. Não me tinha apercebido que já existe em Portugal este conceito das férias sexuais, e confesso que fiquei um bocado admirado com algumas coisas que li.

 

Mas o que me chamou mesmo a atenção e o que me levou à recordação da conversa com a minha amiga, foi a imagem que é transmitida das mulheres, das brasileiras e das portuguesas, especialmente esta frase:

 

A discussão acaba invariavelmente na comparação com a mulher portuguesa, tida como pudica, conservadora e preconceituosa.

 

Está demais dizer que não partilho esta ideia, uma mulher é uma mulher em qualquer parte do mundo e nem as mulheres portuguesas correspondem a esta descrição, nem as mulheres brasileiras corresponderão à imagem que se pretende passar na noticia e que será contrária a esta.... 

 

É evidente que a cultura brasileira é diferente da nossa, a vida e as relações são vistas de forma diferente, nunca estive no Brasil, mas imagino que lá como cá há haverá de tudo, quem diz que as mulheres Portuguesas são pudicas conservadoras e preconceituosas.... de certeza absoluta que só conheceu as mulheres erradas.    e algum motivo haverá para eles precisarem de ir ao Brasil para conseguirem ter sexo..... palavra de homem.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:18

Eu no história Devida VI

por Jorge Soares, em 18.06.09

Gistória Devida

 

Depois de O Quebra cabeças de arame, de O perfume daquela rosa, de A carta, de  O Caminho dos Medronhos e de O menino Valente  agora foi a vez de A bola de Berlim

 

Recebi o seguinte email da Antena 1:

 

Caro Jorge Soares:

No Domingo, dia 21 de Junho, vamos ler a história que nos enviou, «A Bola de Berlim», numa emissão que tem como convidado o actor e encenador Tiago Rodrigues.

Pode ouvi-la na Antena 1, a partir das 13h.

Para se manter actualizado em relação ao programa, consulte o nosso blogue: ahistoriadevida.blogs.sapo.pt

Cumprimentos, e boas histórias,
Inês Fonseca Santos.

 

Acho que se me acabaram as histórias...... vamos ver, entretanto, este é o texto que vai ser lido no próximo Domingo:

 

A Bola de Berlim

 

 

No outro dia em Oliveira de Azeméis numa das muitas pastelarias que por lá há, observávamos a quantidade e variedade de bolos que enchiam as montras  e em jeito de provocação eu  insistia com a R. para que escolhesse um. A minha filha não gosta de bolos, coisas doces e/ou com creme não são com ela. Na montra havia um tabuleiro cheio de bolas de Berlim, enormes, frescas e com aspecto delicioso, com montes de creme. É claro que ela não quis.... mas a conversa fez-me avivar as minhas memórias, e retroceder até ao dia em que vi pela primeira vez uma bola de Berlim.

 

Tinha eu 9 anos quando fui para o ciclo, naquela altura o ciclo estava dividido por dois locais, o segundo ano era no edifício da escola e o primeiro era num velho casarão, as salas estavam divididas pelos diversos andares do velho edifício e por um anexo pré-fabricado que ficava no antigo quintal da mansão. Eu tinha aulas numa das salas do pré-fabricado e lembro-me de um dia em que a chuva e a saraiva eram tantas, que não nos conseguíamos ouvir dentro da sala.

 

O bar da escola era num pequeno vão de escada no 3º andar do casarão, quem tinha aulas nos anexos raramente entrava no edifício, o recreio era já ali. Demorei muito tempo a descobrir que havia um sitio onde comprar coisas, a primeira vez que lá fui foi a acompanhar alguém que ia comprar um pacote de batatas fritas para o lanche.  Em quanto o meu colega comprava as batatas fritas, fiquei a olhar para umas enormes bolas castanhas cobertas com açúcar branco. Lembro-me de perguntar o que era aquilo, e de alguém dizer:

 

-É uma bola!

-Uma bola?

-Sim, uma bola, é doce e tem creme!

-E quanto custa?

-5 escudos, queres uma?

-Não!

 

5 Escudos era muito dinheiro, para mim que não tinha nenhum era muitíssimo dinheiro, e estava fora de questão eu os obter para comprar um doce. Um dia, já os meus pais tinham emigrado e eu fora viver em casa da minha tia, descobri que não era preciso ter dinheiro. Além de bolos e batatas fritas, vendiam-se outras coisas, lápis, folhas, material escolar, coisas que de vez em quando eram necessárias, a senhora que geria o bar tinha um caderno onde anotava as coisas que cada um levava e no fim do mês enviava a conta. Descobri isso quando precisei de umas folhas para um teste e evidentemente não tinha dinheiro, alguém me explicou como funcionava, e lá se abriu a folha com o meu nome.

 

Não me lembro bem se foi no primeiro dia ou no dia a seguir, mas é evidente que a coisa seguinte que ficou anotada no livro foi:

 

-Bola - 5 escudos.

 

Ainda hoje consigo recordar o sabor daquela bola com creme. Os tempos mudam, tinha eu 9 anos quando vi pela primeira vez uma bola de Berlim, de certeza que se eu perguntar, nenhum dos meus filhos se lembra da primeira vez que as viu, no imaginário deles elas sempre existiram, junto com muitas outras coisas a que eu só tive acesso muito mais tarde.

 

A R. nem gosta de doces, eu também não gostava... porque nem sabia que eles existiam.

 

 

Jorge Soares

PS:Imagens retiradas da internet

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publicado às 22:43

FAZER UM DOWNLOAD É ROUBAR?.. CLARO QUE SIM!

por Jorge Soares, em 17.06.09

 

Pirataria é ilegal

 

A sociedade em que vivemos é feita de muitos contrastes, há coisas que simplesmente tomamos como certas porque as vamos fazendo ou sempre as fizemos, por vezes a fronteira entre o que é licito e o que é ilícito torna-se tão ténue que damos por nós a fazer as coisas e a ficar muito admirados quando descobrimos que afinal estamos a infringir alguma lei.

 

Vem tudo isto a propósito de uma notícia do Publico que começa assim : Fazer um download é roubar? Sou informático há mais de 20 anos, sempre trabalhei na área das aplicações de gestão e nunca fiz nada comercial, mas evidentemente que valorizo o meu trabalho, aquilo que desenvolvo é meu e de quem me paga o salário e dificilmente o cederia a troco de nada,tenho uma família para alimentar e se trabalhasse à borla não sei como o poderia fazer.

 

Há dois ou 3 anos quando voltei à faculdade tive esta discussão várias vezes, a maioria dos meus colegas e até alguns dos meus professores tentaram em vão fazer-me entrar em razão, mas não conseguiram. Sou casmurro?, não, simplesmente vivo do meu trabalho, gosto de ver o meu trabalho respeitado  e entendo que devo respeitar o trabalho dos outros.

 

Voltando à notícia, gostei especialmente desta parte:

 "Sinceramente, estou-me a borrifar para as leis.",  

 

Será que ele se está a borrifar só para estas leis ou está-se a borrifar para todas? o senhor diz-se estudante de engenharia, será que quando ele terminar o curso vai desenvolver projectos e os vai colocar na internet para que todos os possam utilizar livremente?... ou ele só se está a borrifar para as leis que regem os direitos de autor de música, vídeo e software?

 

O que é que difere o trabalho de um arquitecto e o de um engenheiro civil de o de um informático?, porque é que ninguém copia o Siza Vieira, mas todos copiamos o ultimo filme do Copola?, porque é que é tão mau copiar um estilista, mas ninguém se importa de copiar um CD? Aqui mesmo na blogosfera, há tanta gente a ficar indignada quando encontram um dos seus textos plagiados, mas todos utilizamos software pirata para aceder ao blog?

 

Porque é que o trabalho de uns vale tanto e o de outros não deve valer nada?

 

Ainda sobre a notícia, será que o senhor se vai estar a borrifar para as leis quando tiver um emprego e o patrão não lhe pagar o seu trabalho ou o despedir sem justa causa?

 

Somos uma sociedade estranha..e cada vez mais ambígua.

 

Jorge Soares

 

 

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publicado às 22:32

Criança triste.. vidas roubadas

 

Hoje, nos meus habituais 45 minutos de paz e sossego na volta para casa, ouvi na Antena 1 o programa Dias do Avesso, Isabel Stilwel e Eduardo Sá falavam do Martim e da sua Mãe.

 

Nem sempre concordo com o Eduardo Sá, mas hoje a maneira como abordou o assunto fez-me lembrar uma discussão que tive há um ou dois anos atrás no grupo de mail Nós adoptamos. Na altura discutíamos o facto de a segurança social demorar muitas vezes anos a decidir os processos dos candidatos à adopção, porcessos que por lei devem demorar no máximo 6 meses, ou o facto de demorarem anos a decidir os projectos de vida das crianças quando a lei estipula que no máximo deve demorar um ano.

 

Muitas vezes as crianças são retiradas às famílias e colocadas no centros de acolhimento de emergência, a lei diz que elas só devem lá estar no máximo 6 meses, mas na verdade elas ficam por tempo indefinido, porque os processos arrastam-se nos tribunais. Na altura e ante mais um destes casos, eu questionava o grupo se não seria possível alguém processar o estado porque este não cumpre as suas próprias leis. O estado não é pessoa de bem, o estado não cumpre, logo deveria haver maneira de alguém o fazer pagar por isso.

 

No programa de rádio, o Eduardo Sá questionava precisamente o mesmo que eu, independentemente da razão ou não da mãe da criança, porque é que o estado tinha demorado quase 3 anos a decidir sobre o futuro desta criança?

 

Porque é que se a lei fala em no máximo um ano, os tribunais arrastam estas questões durante anos e anos e roubam anos de vida e de felicidade às crianças? Muitas vezes estas situações arrastam-se durante 4, 5 ou 6 anos, quando finalmente decidem que a criança vai para adopção, ela tem 6 ou 7 anos e dificilmente se encontra alguém disposto a a adoptar, não é o estado culpado de ter roubado a vida a estas crianças?

 

Como dizia o Eduardo Sá e muito bem, todos ouvimos os deputados a pedir a destituição do governador do Banco de Portugal porque não supervisionou como deve ser o BPN, será que nenhum desses deputados se preocupa pela falta de supervisão do trabalho da segurança social e pelo roubo continuo e constante da vida de tantas crianças?

 

Na altura as juristas e advogadas do grupo disseram-me que sim, que haveria essa possibilidade, mas que dificilmente algum advogado aceitaria um caso desses, ninguém enfrenta o estado, mesmo quando queremos defender a vida e a felicidade das crianças esquecidas pelo estado.

 

Eu sei que sou lírico, mas custa-me a aceitar esta resposta, não há por aí nenhum advogado que queira ficar famoso e pro bono, enfrentar o estado e obrigar a que este deixe de roubar a vida das nossas crianças?

 

Sim, eu sei...sou mesmo lírico!

 

Jorge Soares

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publicado às 22:04

No Alentejo...longe do mundo....

por Jorge Soares, em 15.06.09

Flores do Alentejo

 

Já não me lembro como é que tudo começou, lembro-me de um dia dar por mim a comprar uma tenda e de passados uns tempos a ter colocado com o resto das coisas no carro e de ter partido para a Galiza num mês de Setembro quente. Eu nunca na vida tinha acampado e nem tal coisa me tinha passado pela cabeça. Desde essa altura já lá vão mais uns 12 anos, que não passo sem os meus períodos longe de tudo e do mundo, sem computador, sem relógio, sem televisão. O único que me une ao mundo é um pequeno rádio de pilhas que mesmo quando estou em Portugal, utilizo para ouvir a Radio Nacional de Espanha ou a Cadena Ser, desde os meus tempos de estudante em que todos os dias adormecia a ouvir  El Larguero, que gosto da radio espanhola e dos muitos programas de opinião.

 

Passei os últimos 5 dias assim, a acampar no Alentejo, longe de tudo e do mundo..., bom, quase. .. por muito longe do mundo que alguém tenha estado, ninguém conseguia escapar ao Cristiano Ronaldo e aos 93 milhões de Euros.... Mesmo longe do mundo eu consegui ouvir meio mundo a dar a sua  opinião sobre o assunto ... um dos problemas da costa Alentejana é que fica longe de mais da Espanha para que o meu pequeno rádio de pilhas consiga apanhar as emissoras espanholas, e a maior parte do tempo tive que me contentar com algumas portuguesas... não havia portanto forma de escapar a tantos disparates, pobre país o nosso em que até o presidente da Republica tem opinião sobre uma transferência de um jogador de futebol de um clube inglês para um espanhol.

 

Mas eu ia falar do Alentejo, acampar em Portugal pode ser uma odisseia, a maioria dos parques  está mais próximo de um bairro de lata do que de um parque de campismo, nos países normais as estruturas fixas são proibidas, por cá as pessoas vão tomando posse do espaço ao longo dos anos e só falta mesmo fazerem paredes em volta... é claro que espaço para quem quer acampar, é mentira. Felizmente restam alguns parques onde ainda é possível, e o do Sitava nos arredores de Milfontes é um desses, é claro que há coisas a melhorar.... mas é organizado e limpo...e resta espaço onde montar a tenda. 

 

De resto a costa alentejana é dos lugares mais bonitos de Portugal, praias, paisagem, gente, e esta vez não ouve livro de reclamações nem chatices com o serviço..  só paz, descanso e natureza..... muita natureza.

 

Jorge

Fotografia minha, retirada de Momentos e olhares

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publicado às 22:40

Um pouco de ternura

por Jorge Soares, em 13.06.09

Vendo Ternura

Imagem retirada da internet

 

Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras. 

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é? 

— Bom…bom — Não sabia o que responder.

— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.

 

Conto de Batista Bastos, retirado de Releituras

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publicado às 21:43

Ainda a hiperactividade.

por Jorge Soares, em 09.06.09

Criança hiperactiva

 

Por norma sei quando um tema é muito ou pouco tratado na internet pelos logs aqui do meu cantinho, há temas que desde o mesmo momento em que os toco, passam a ter visitas diárias, em alguns casos muitas visitas, foi assim com a Adopção em Portugal, e com as famílias de acolhimento, todos os dias há pessoas que chegam ao blog porque fizeram uma pesquisa no Google, são de longe os que trazem mais visitas, em ambos falei de temas que são pouco debatidos e sobre os que há pouca informação na internet.

 

Desde há dois dias reparei que há muita gente que vem parar ao post em que falei da hiperactividade, é outro tema do que pouco se fala, apesar de que há muita gente que tem opinião, principalmente a opinião que há muito de falta de educação e pouco de doença. Não deixa de ser verdade em muitos casos, mas também é doença em muitos outros.

 

Há mais de um ano escrevi um post que  tinha como titulo Eu pai, confesso-me incapaz e que começava assim:

 

"6:55 da manhã, toca o despertador, é sexta feira, Jorge, cheira a queimado, não cheira nada, Jorge, cheira mesmo a queimado,!

 

-N. tu estás a queimar coisas?

 

-Não mamã!

 

O facto de ele a essa hora estar acordado, já é mau sinal, a P levanta-se e vai ver, de facto cheirava muito a queimado, ela grita qualquer coisa com ele... e é aí que eu me levanto, ela tinha encontrado uma daquelas caixas de fósforos de brinde na cama..... eu encontrei uma caixa de fósforos das grandes..... e depois disso, a tampa de uma caixa com restos de plásticos, de papel, de não sei quantas coisas queimadas e ainda quentes..... tudo isto na cama, debaixo de edredão, onde também tinha encontrado os fósforos."

 

Nesse dia eu interiorizei que tínhamos um problema, até ali eu achava que era uma questão de educação, eu achava que o meu rigor e mão dura iam fazer com o N. deixasse de fazer asneiras e traquinices umas atrás das outras, nesse dia, e ante o facto de que podíamos todos ter morrido queimados, eu aceitei que realmente era preciso mais, que sozinhos não íamos lá. 

 

A hiperactividade vai muito mais além da falta de educação, é verdade que existe muita gente que se aproveita da palavrinha para explicar a falta de educação dos filhos, mas também é verdade que há muitos casos em que a doença existe mesmo.

 

Mas uma coisa certa, hiperactividade não é sinal de falta de educação, o N. é uma criança traquinas e que está sempre pronto a aprontar, mas é educado e sabe comportar-se em casa e na rua.

 

Vou deixar aqui o comentário da Anabela (obrigado), ela explica muito bem o que é a hiperactividade e o que sentimos os pais.

 

"Pois é... sou mãe de uma criança hiperactiva!

 

É verdade que há uma tendência geral em chamar hiperactivo a qualquer criança activa, irrequieta ou até mal-educada, uma forma de desculpar esta ou aquela atitude... é verdade, sim.

 

Mas contudo, a hiperactividade existe, é um distúrbio da aprendizagem e do comportamento muito difícil de viver, quer para o hiperactivo, quer para seus familiares.

 

E não é a dizer que não passa de uma desculpa para o desresponsabilizar que se vai resolver um problema tão complexo.

 

O distúrbio de défice de atenção com hiperactividade (DDAH) e que muitas vezes vem acompanhado de dislexia, dificulta muito a vida da criança que não pode, não consegue controlar os seus impulsos. Não é uma questão de educação, mas claro está, não impede de dar educação.

 

O meu filho tem imensas dificuldades, quer na escola, quer na sua vivência diária, mas não é mal educado. Não falta ao respeito a ninguém, o que também não quer dizer que não faça asneiras... Uma criança "hiperactiva" não é apenas mexida... tem outras dificuldades... Aprende com castigos como qualquer outra criança, mas o défice de atenção e a sua incapacidade em manter-se atento, leva a que não consiga "lembrar-se" que não pode fazer determinadas acções. A informação está lá e depois da asneira feita até é capaz de se lembrar, mas as acções são mais rápidas que o pensamento...

 

Saio com o meu filho e ele não se porta mal... foram anos de treino, de paciência, de explicações, de conversas meigas... porque as palmadas, os ralhetes... não resolvem nada nestas crianças, pelo contrário, porque são crianças com comportamentos compulsivos, por vezes até agressivos. Agressividade gere agressividade... não sabem medir consequências e se o exemplo que damos é que se pode dar palmadas, assim o fazem porque não têm capacidade para entender de outra forma. Não nada fácil lidar com crianças com DDAH, por muita teoria que se tenha, nem sempre temos a paciência necessária.

 

A medicação resolve o défice de atenção, permite ter mais concentração... não resolve nem cura a doenças. São normalmente crianças inteligentes mas com imensas dificuldades na aplicação dos conhecimentos. É como estar descansadamente no sofá a ver TV e mudar de canal com o comando, mas sem ele não sabe como fazê-lo. É este o problema do DDAH, não tem comando, os canais estão lá, mas não tem como mudá-los. E tem noção dessa limitação, o que, a cada dia que passa, lhe diminui a auto-estima.

 

Toda esta conversa é irritante para os pais de crianças realmente hiperactivas, os problemas destas crianças já são suficientes, não precisam de ser catalogadas de mal-educadas.

 

Não há nada que doa mais a uma mãe que ver o seu filho, à noite, na cama, antes de dormir, a chorar por não saber como parar, dizer que "se calhar sou burro, mas vale desistir... não sei fazer nada bem"

 

Muito mais há a dizer,.. fica para outro dia

 

Jorge Soares

 

PS:imagem retirada da internet 

PS2:Bons feriados e bom fim de semana a todos, que aqui o senhor vai para o Alentejo, longe de blogs e computadores.

 

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publicado às 21:45

Paulo Rangel... diga lá outra vez!!!!!!

por Jorge Soares, em 09.06.09

 

 

O nariz do Paulo  Rangel também vai crescer

 

Como podemos ler nesta noticia do Publico, o Presidente da republica vetou a lei do financiamento dos partidos,  uma lei absurda e sem sentido onde o limite ao financiamento em dinheiro vivo passava de vinte e dois mil para mais de um milhão de Euros.

 

Na altura achei uma aberração que esta lei fosse aprovada e uma aberração ainda maior que o fosse por todos os deputados menos um. Estou portanto completamente de acordo com este veto por parte de Cavaco Silva.

 

Há pouco, enquanto esperava pela saída da escola da minha filha, estava a ouvir as noticias na antena 1 e qual não foi o meus espanto quando ouvi uma entrevista a Paulo Rangel, chefe da bancada parlamentar do PSD e "grande" vencedor das eleições do passado Domingo. Foi assim:

 

-O presidente da Republica acaba de vetar a lei de financiamento dos partidos, o que acha?

-Estamos completamente de acordo, aquela lei não faz sentido.

.-... Mas vocês votaram a favor.

-Sim, mas foi só para estabelecer consenso... nós sempre fomos contra.

 

Fiquei de boca aberta a olhar para o rádio do carro, eles sempre foram contra?... só votaram a favor para estabelecer consenso?.. mas este senhor acha que somos parvos?..se eram contra abstinham-se... ou votavam os suficientes para fazer passar a lei.... Todos os deputados do PSD votaram a favor da lei... todos... e na altura eu não ouvi ninguém do PSD dizer que era contra, bem pelo contrário.

 

Como é que era aquela caricatura do Sócrates com o nariz do Pinóquio?

 

Há quem diga que este senhor é candidato a líder do PSD... pobre país o nosso.

 

Jorge Soares

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publicado às 18:16

A Espera, o primeiro ano ....

por Jorge Soares, em 08.06.09

Adopção

 

 Vai fazer um ano do primeiro post de a espera, e começava assim:

 

 

"Ontem foi o dia zero, dia da entrega da documentação na Segurança Social, é curioso, passaram 10 anos desde que iniciamos o primeiro processo de adopção, mas por incrível que pareça, pouco mudou. O local é o mesmo, e ainda que a P. tenha achado que as coisas melhoraram, a mim pareceram-me ... iguais, nem mais nem menos, exactamente iguais. Como é natural, nós mudamos, 10 anos é muito tempo nas nossas vidas, agora não há a ansiedade do primeiro filho, nem a angustia de enfrentar o desconhecido.... agora somos espertos nisto e sabemos o que aí vem.

 

Bom, passou um ano, não mudaram muitas coisas, os meus filhos cresceram, hoje olho para eles e não sei se aquela conversa sobre a mana seria possível, o tempo das crianças é muito diferente do nosso, eles crescem muito rápido...

 

Passado um ano não há muito para dizer, depois de recebermos o certificado da segurança social o que se seguiu foi o silêncio, cada vez tenho mais a certeza que tomamos a decisão acertada quando nos decidimos pela adopção internacional, talvez assim os meus filhos consigam ter a mana que tanto desejam em tempo útil.

 

Um dos objectivos deste blog é também o de informar, de vez em quando há alguém que chega ao blog e me envia um mail, hoje recebi um de esses mails, alguém que está a pensar iniciar um processo de adopção e que entre outras coisas me pergunta o seguinte:

 

.......

Mas o que gostava mesmo era que , se tivesse disponibilidade, me explicasse o que vamos esperar em todo este processo.

Como correu o seu? Quanto tempo durou (ou dura) o seu processo. O que se segue após a entrega do questionário e todos os outros documentos? E após as 3 entrevistas?"

 

Apesar de todas as criticas que faço à segurança social eu sempre encorajei as pessoas, a adopção é um acto de amor e de egoísmo, todos temos direito a amar e a querermos ser pais, sempre respondi a todos os mails e sempre o tentei fazer com pensamento positivo... mas não é fácil.

 

Como está a ser o meu processo? a ultima vez que perguntamos, supostamente havia 13 pessoas à nossa frente, isto para uma criança até aos 5 anos e sem escolha de raça, 13 pessoas são anos de espera, muito tempo, tempo demais. Como está a correr o processo?... como responder a esta pergunta?.... que significa o absoluto silêncio por parte da segurança social?... não sei.... mal, acho eu... ou bem, afinal só passou um ano.

 

O que se segue após a entrega da documentação, são as entrevistas, por norma e se os documentos não ficarem esquecido em cima da secretária de uma qualquer responsável, antes dos seis meses obtém-se o certificado, normalmente os processos duram menos de seis meses. Depois disso é a espera, que podem ser meses, soube há algum tempo que entregaram uma criança com todas as características que colocamos a um casal que se inscreveu depois de nós, ou anos, 2, 3, 4.. quem sabe?. Tempo, muito tempo, tempo demais.

 

Tudo na adopção é aleatório.... tudo menos a vida das crianças e a nossa esperança.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:49

Hiperactividade ou falta de educação?

por Jorge Soares, em 07.06.09

 

Hiperactividade ou falta de educação?

 

Na sexta, este post do Cocó na fralda chamou a minha atenção, a minha e a de muita gente, é um tema complicado. A fronteira que separa o problema de saúde da falta de educação é muitas vezes muito ténue  e há coisas que estão na moda, uma delas é ao menor desvio levar a criancinha ao especialista.

 

Eu tenho dois filhos em idade escolar, já conheci várias professoras, e muitas crianças e tenho uma opinião formada sobre este assunto.. é claro que ela vale o que vale, não sou médico nem especialista em nada disto... sou só pai e uma pessoa bastante observadora.

 

O que tenho observado é que há uma enorme desresponsabilização por partes de pais e professores, as crianças são medidas por parâmetros, e tanto pais como professores gostam de criancinhas perfeitas, tudo o que sai do normal é rapidamente enviado para especialistas, que claro, detectam de imediato um problema qualquer que deve ser tratado.

 

A R. sempre foi uma criança feliz e de trato fácil, quando chegou à escola não teve problemas nenhuns de aprendizagem e nunca tivemos queixas sobre o seu comportamento, ela absorve tudo o que lhe passa à volta e segundo algumas professoras, só não é uma aluna excepcional porque é completamente distraída... até quando escreve. Para azar dela, no primeiro e segundo ano apanhou uma professora picuinhas, ela tem a letra horrível, não consegue manter um caderno limpo e organizado e a professora decidiu que aquilo não era normal, vai de aí decidiu marcar uma reunião connosco e sugeriu que a levássemos a um especialista. É claro que disse que não, ela é boa aluna, aprende bem e rapidamente. No ano a seguir trocamos a miúda de escola e assunto resolvido.

 

Com o N. as coisas não são tão fáceis, quando começaram os problemas na escola, achamos que ele precisava de mão dura e controlo... quando as coisas continuaram, aqui o céptico teve que se render à evidência, e quando o segundo especialista diagnosticou o as mesmas coisas, tivemos que nos conformar. Défice de atenção e dislexia,... mas acreditem que não foi fácil convencer uma professora rigorosa e à antiga, ela durante muito tempo achava que era fita do miúdo.

 

Mas é claro que no meio de tudo isto há muitas falhas de educação, por muito hiperactiva que seja uma criança, quando eu leio isto:

 

- Acho que chega a um restaurante e pega nos pratos, de uma ponta da mesa à outra, e atira-os para o chão, estilhaçando tudo.

 

Ou o seguinte que li neste blog

 

A festa começou no carro, eles lembraram-se de disputar o lugar do condutor e o avô não achou piada nenhuma...acabamos por perder mais de trinta minutos, com o carro na torreira do sol, tentando sentar os diabinhos nas respectivas cadeirinhas....o melhor que conseguimos foi um Rafa sentado no banco mas sem cinto e um Quico sentado no chão do carro, entalado entre os bancos....pronto, sei que não iam em segurança mas pelo menos estavam no carro!!

 

O que vejo aqui é falta de educação, as crianças até podem ser hiperactivas, mas desculpem lá, mesmo as crianças hiperactivas necessitam de controlo por parte dos pais. As crianças hiperactivas, para além de tratamento, necessitam de mão  firme, deixar que uma criança chegue a um restaurante e desate a partir pratos ou admitir que elas viajem como lhes apetece no carro é irresponsabilidade por parte dos pais.  Lá por as criancinhas serem doentes não se pode permitir tudo, até porque elas vão sempre explorar os limites e vão querer sempre ir mais longe, e ou colocamos rédea curta... ou acontece o que vimos escrito ali em cima. 

 

Peço desculpa se estou a ser injusto com alguém, mas fala a minha experiencia de pai e muitas vezes uma palmada dada na hora certa evita muitos problemas no futuro.

 

Hiperactividade ou falta de educação?... ambos!!!!

 

Jorge Soares

 

 

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publicado às 21:43



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