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O indiano dos ovos de ouro

por Jorge Soares, em 06.06.09

 - “Lá vem Abdalah, o monhé da Muchatazina”.

Sabia-se que era ele, o próprio, pelo tilintar que saía do cuecão dele. Diziam que o gajo tinha ouro dentro dos tomates. Me desculpem a descortesia da palavra. Dizem, quem pode jurar? Os boatos viajam à velocidade do escuro. Façamos o gosto à voz: aceitemos que o monho tinha a tomatada recheada. Suponhamos que os ditos dele pesavam uns quilates. Se acredito, eu? Sei lá. Minha crença é um pássaro. Sou crente só em chuva que cai e esvai sem deixar prova.

Aceitei assim perseguir essa estória do Abdalah. Sou metido em alheiação, gosto do dito e do não dito. Me deram o caso para que lhe desvendasse os acasos. Cada crime mortífero esconde quantas vidas?

Sempre que há sangue as versões correm, em inventanias. O povo fabricou as mais múltiplas explicações. O monhé, sabendo da revolução, tinha transferido sua riqueza para os orgãos. Melhor banco que aquele? Outra versão: tinha sido feitiço. Suspeitas maiores inclinavam em Sarifa Daúdo. Ela, com certeza. Mulher estranha, fechada em duas paredes, ela era origem da desformidade do indiano.

Me aconselharam começar por Sarifa, com quem o fulano tinha estreado amores. Sarifa era sua primeira prima, a quem ele deitou olho de mel. Dizem que primeiro namorisco vem sempre de primo e prima. Também eu rimei com elas, também as primas me deram primazias.

Me endereço a casa da moça. Continua solteira, é uma dor ver tal beleza sem prova nem proveito. Acompanho seus magros gestos, servindo o chá com que me anfitriou. Em certas mulheres nos encanta a concha, noutras o mar. Sarifa se tinha desmulherado, ela retirara o gosto do gesto. Agora, nem concha, nem mar.

Lhe peço, enfim, que fale de Abdalah. Agora, até seus olhos se vazam, negras espirais se enrolando em búzios. Mas a lembrança lá veio, chegada em vozícula quase insonora. Afinal, o namoro correra às maravilhas. O amor é como a vida: começa antes de ter iniciado. Mas o que é bom tem pressa de terminar. Sombra eterna só dentro do caracol. A moça era conflituosa, uma escaramoça? Nem por isso, ela tinha grandes habilidades de silêncio. O nó gordo estava nele, o Abdalah.

- “Mas porquê, Sarifa? Qual o motivo dele se desmotivar?”

Ela corrigiu uma lágrima no convexo da mão. O indiano batia-lhe? Lombava-a? Não, pelo menos não aparentava violências. Homem que morde não ladra? O senhor é capaz de encostar sofrimento em mulher?

- “Vou perguntar de novos modos: o senhor já amou uma mulher, com paixão de verdade e jura?”

Não me saiu nenhuma voz. Eu vinha ali despachar pergunta. Posto perante o espelho de uma interrogação me sentia como o lagarto que acha que os outros bichos é que são animais. Já à saída ainda escutei:

- “Foi tudo por causa do dinheiro”.

Desfiz um passo atrás. Mas ela não voltou a falar. Lavava as chávenas com espantável lentidão. Suas mãos acariciavam o vidro por onde eu havia bebido. Senti como se ela me tocasse os lábios e me retirei nesse embalo de ilusão.

Me dirigi para casa, sem vontade de caminho. Demorei em coisas nenhumas.

Nisto, uma estrelícia, simples flor, me deflagra os olhos. O vendedor me cativa a atenção, agitando a crista laranja da flor. Comprar? Para quê, para quem? Mas, sem saber, inexplicável, eu desbolso dinheiros. As mãos se ridicularizam com a intransitiva flor. Chego a casa e a flor se extravaganta ainda mais. Nunca eu tinha encenado flor em jarra.

Sentado, frente a uma cerveja deixo entrar em mim a voz: preciso é de mulher. Necessito de um acontecimento de nascência, uma lucinação. Careço de um lugar para esperar, sem tempo, sem mim. Devia haver um feminino para ombro. Porque ombra era o nome único que merecia o encosto daquela mulher.

Manhã seguinte, regressei a casa de Sarifa movido não sei se por gosto de a rever se por obrigação de profissão. A mulher nem levantou cabeça: assim, olhos no chão me revelou sobre Abdalah. O homem só fazia amor, depois de espalhar por debaixo dos lençóis uma matilha de notas. Às vezes, eram meticais, outras randes. Só lhe vinham as quenturas quando, previamente, cumpria este ritual. Se deitava de costas, as mãos a acariciar o lençol, os olhos cifrando-se no infinito. Sarifa ficava com sentimento de que ela não existia. Com a desvalorização da moeda o ardor dele variava. Às vezes, demorava a ser homem, másculo e maiúsculo.

Uma noite, porém, não conseguiu. Começou-se a enervar. Levantou os lençóis, inspeccionou as notas. Lhe nasceu, então, a lancinante suspeita: as notas eram falsas. Alguém havia retirado as verdadeiras para, em seu lugar, espalhar imitações.

- “Sarifa, foi você?”

A prima, ao princípio, nem entendeu. Um murro carregado de raiva lhe enegreceu as vistas e aclarou o pensamento: havia suspeita sobre os dinheiros. O indiano bateu, rebateu. Sarifa ficou estendida. Vaziando sangue. Quem a apanhou no chão foi o tio Banzé, homem dado a espiritações. Refez a sobrinha, passou-lhe uma demão nas mazelas e correu a engasganar o indiano. “Você foi longe e de mais, meu velho. Você mistura amor e cifrão?” Lhe espetou o indicador na costela e ameaçou:

- “Pois eu lhe vou seguir os sonhos a ver o que vai sair deles!”

O desafio era o seguinte: tio Banzé iria visitar os próximos sonhos do indiano, nas dez seguintes noites. Caso dinheiro somasse mais que mulher então uma maldição recairia sobre Abdalah.

- “De Abdalah te transformo em abadalado!”

Não chegou a haver dez noites. Na sétima já o indiano sofria de um peso extra no baixo do ventre. O homem nunca mais visitou Sarifa, nunca mais amou nenhuma mulher. E agora, que ele perdeu acesso a namoros, seus sonhos se destinam unicamente em mulheres. O ouro lhe entrou nos ditos, a mulher lhe saiu dos devaneios. A punição do sonho é aquela que mais dói. Pergunte-se a Abdalah, o indiano dos ovos de ouro.

 

 

Mia Couto, Contos do nascer da Terra

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publicado às 22:24

Porque ajudar não custa

por Jorge Soares, em 05.06.09

Estava aqui a tentar escrever qualquer coisa... hoje é um daqueles dias em que até tenho muitos temas, mas nada sai... tinha desistido, hoje não ia haver post, entretanto, fui dar uma olhadela aos blogs que costumo seguir...e a Sónia tinha lá este post... 

 

Façam favor ler o texto da Sónia e ir assinar a petição.

A minha, nossa, amiga Helena precisa do nosso apoio, do nosso grito, contra uma situação que é no mínimo revoltante… o seu filhote precisa de uma cadeira de rodas, que já foi preescrita pela médica várias vezes, e o Estado continua sem cumprir a sua obrigação. Deixo aqui as suas palavras e peço a todos que, por favor, assinem a petição que reclama o direito a uma vida de qualidade para o JP…

“O meu nome é Maria Helena Barbara Grilo, sou mãe de um menino deficiente de 4 anos- João Pedro Grilo Garcia. Tem paralisia cerebral desde o nascimento. Sempre foi seguido no Hospital do barreiro, logo será este o hospital com obrigação de fornecer todo o material de ajudas técnicas e auxiliares de marcha que o meu filho venha a precisar.

Há três anos que travo uma batalha para fornecerem ao meu filho o que ele tem direito: uma cadeira de transporte e posicionamento, pois ele tem uma paralisia cerebral com cerca de 80 % de incapacidade.

Todos os anos a médica Isabel Melo do Hospital Nossa Senhora do Rosário prescreve a cadeira. Porque nós nunca deixamos de lutar para que o nosso filho venha a andar e tenha posições correctas. Não temos infelizmente 3500 € para dar pela cadeira.
Esta ano, após mandar uma carta para a administração do hospital de nossa senhora do rosario, com o conhecimento da ministra da saúde e do IPSS não recebo qualquer resposta formal, mas um novo telefonema da assistente social Dª Irene dizendo que novamente as verbas estavam esgotadas.

Trabalho honestamente. Cumpro todas as minhas funções para com a segurança social e finanças. Assim como o meu marido. Que se passa ?
Não desejo esta situação a ninguém.
Porque não cumpre o estado com as suas obrigações ?”

ASSINEM AQUI:

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N85
 
Por, favor, passem a palavra! Obrigada.

 

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publicado às 21:46

Quando eu for grande...

por Jorge Soares, em 04.06.09

O tempo em que todos os sonhos eram permitidos

 

Há coisas na vida que nos marcam, já passaram mais de 20 anos, numa mesa do bar da faculdade de educação da Universidade Central da Venezuela, os mesmos de sempre discutíamos tudo e nada, quando temos 18 anos, liberdade e amizade, todos os sonhos são permitidos..e nós fartávamo-nos de sonhar. Não sei a propósito de quê, mas nesse dia discutíamos o facto de alguém ter necessitado de um documento e, como era normal por aqueles lados, ter untado as mãos a alguém para o conseguir mais rápido.

 

Como cada vez que a discussão ia para esse lado, eu era o único que defendia que isso estava errado, já nessa altura eu ia contra o mundo...já lá vai tanto tempo disso que já tive tempo de perceber que se calhar sou eu que estou errado... o mundo não pode estar errado. Como na maior parte das vezes, a conversa de amigos terminava em sim, eu estava cheio de razão, mas não era assim que as coisas funcionavam, portanto, era eu que estava errado... raio de sina a minha.

 

Ontem ao fim do dia dei comigo a lembrar-me desse grupo de amigos, isto a propósito de uma conversa que tive separadamente com duas pessoas de quem gosto muito. Foi a propósito do ultimo post, da menina Russa, do caso do Martim e das duas mães.  

 

Ambas as minhas amigas defendiam que a Alexandra não deveria ter sido entregue à mãe biológica e que o Martim deveria ser entregue à mãe, não é nada estranho, ontem à noite dei uma volta pela blogosfera e encontrei vários blogs com dois posts seguidos a defender estas mesmas posições. Como as minhas amigas reconheceram, isto é um contra-senso, mas quer uma quer a outra seguiram na sua, apesar do contra-senso. Confesso, eu não consigo perceber, e lá terminei outra vez a sentir que o mundo não pode estar errado... apesar de que o meu bom senso me diz que está.

 

Felizmente a Sandra veio em meu auxilio, ela diz o seguinte:

 

"Quando a situação / história é apresentada de uma perspectiva adultocêntrica (adulto vítima) as pessoas tomam uma posição. Quando a perspectiva apresentada é centrada na criança (vítima), as pessoas tomam outra posição. Mesmo que a situação de fundo e o perigo (ou não) a que a criança está sujeita sejam exactamente os mesmos. "

 

Quando perguntei às minhas amigas qual a diferença entre a Natacha, a mãe da Alexandra e a Ana a mãe do Martim, nenhuma das duas me conseguiu responder, mas nenhuma das duas mudou a sua opinião.

 

Passaram mais 20 anos.... e eu quero voltar a viver a época em que todos os sonhos são permitidos.... e  quando eu for grande, talvez, queira girar para o mesmo lado do mundo, é bem mais fácil.

 

Jorge

PS:Imagem minha retirada de Momentos e olhares

 

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publicado às 21:51

 

O martim..e a justiça que é presa por ter cão e por não ter

Imagem do DN

 

Sabem, eu estou meio baralhado, andamos uma semana a ouvir meio mundo bater numa mãe que decidiu que queria a sua filha consigo, que a queria levar para junto de si no seu país. Ouvimos meio país a bater naquela mãe, quilómetros de papel escrito a bater na justiça, horas e horas de noticias na televisão a falar do juiz e da sentença, todo mundo tinha uma opinião, todo mundo achava muito mal que tivessem entregue aquela criança à mãe.

 

Hoje a seguir ao almoço, deparei-me com esta noticia no publico: Rapariga de 15 anos manifesta-se contra a adopção do filho, dei comigo a pensar que depois de tudo o que tinham dito sobre aquela outra mãe, esta ia ser no mínimo crucificada.... engano meu, afinal e atendendo aos comentários que vou lendo nos sites dos jornais, já seja no DN, no do Publico  ou no do Expresso, afinal, esta mãe já tem direito ao seu filho e a desgraçada da justiça portuguesa quer impedir que ela o tenha......  pobre justiça portuguesa, é presa por ter cão e por não ter....  Será que o facto de a outra mãe ser Russa e esta Portuguesa tem alguma coisa a ver com o assunto? 

 

Não vou tecer muitos comentários sobre o assunto, não gosto de falar de cor, não sei o que se passou e de certeza que há muito mais por explicar que aquilo que foi dito. Mas há algumas coisas que conheço e sobre as que posso falar, até porque já as disse há bastante tempo neste post. 

 

Ao contrário do que já li hoje algures, em Portugal ninguém retira crianças às famílias por estas serem pobres, não faço ideia o que levou o tribunal de menores de Cascais a retirar a criança à família, mas de certeza que não foi o facto de a família ser pobre e imagino que terá havido algum motivo válido. Por outro lado, há coisas que me pergunto. Onde andou a "família grande" de que tanto se fala, durante estes dois anos?, onde andou o pai e a família do pai?, onde andaram os avós que agora se oferecem para ficar com a criança?, onde estava a mãe daquela criança de 13 anos quando esta teve um filho? Porque é que essa mãe, avó do Martim, não ficou com o neto quando este nasceu?. Porque só agora apareceu toda esta gente?

 

Eu conheço as leis que regem a adopção e sei que as crianças só vão para acolhimento e adopção quando ninguém da família alargada se oferece a ficar com elas...será que todo o mundo achava que a criança estava muito bem no Aboim Ascensão?, que até é a instituição com melhores condições em todo o país, porque só agora que souberam que a criança vai para adopção resolveram fazer barulho?

 

É incrível, passamos anos a falar do caso Esmeralda e a reclamar porque os juízes dão primazia à família biológica, passamos semanas a bater no juiz que decidiu entregar a Alexandra à mãe.....e agora vamos passar semanas a bater no juiz que decidiu não dar primazia ao biológico e decretar que aquela criança ia para adopção.....  eu começo a achar que a comunicação social e o povo português gostam é telenovelas da vida real..e não importa por onde vai a coisa, o que importa é fazer barulho.... poupem-me!

 

E já agora, as pessoas que tanto me bateram no post sobre a miuda Russa expliquem-me lá o que acham agora.

 

E sim, podem voltar a bater.

 

Jorge 

 

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publicado às 21:26

No dia da criança:Os olhos do nosso filho

por Jorge Soares, em 01.06.09

Os olhos do meu filho

 

Os olhos do nosso filho

 
Os olhos do nosso filho
São ainda de cor incerta
Não sei sequer se existem
Vão ser de Deus uma oferta
 
Existem na minha alma
Cravados no meu semblante
Os olhos do nosso filho
Que teve nascer errante
 
Foste esculpido a preceito
Nas entranhas de outro ser
Não vais sorver do meu peito
Este meu longo querer
 
E nestas voltas da vida
Cuidou-te Deus sem saber
Para que não herdes no sangue
Este meu estéril sofrer
 
Não vais nascer de mim
De outro ventre virás
Mas filho da minha alma
Tão amado serás!
 
E nesta triste incerteza
Me pergunto em desalento
Já nascente de alguém?
Ou é Deus que te traz?
 
Ala dos Reis

 

 

Não vou à bola com os dias, nem com este nem com nenhum.... feitio... porque este é um dia de prendas, de consumo..deveria ser um dia para reflectirmos, pensar em todas as crianças que não tem família, que não tem que comer, que não tem onde dormir...e são tantas, tantas.

 

Jorge

PS:Fotografia minha.. poema de alguém que anseia por dar amor.

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publicado às 21:48

Pág. 3/3



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