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Conto:O nome gordo de Isidorangela

por Jorge Soares, em 12.12.09

Conto: O nome gordo de Isidorangela

 

Isidorangela era o nome da obesa moça. Nome gordo, ao travar da pena. Na rua, na escola, ela era motivo de riso. E havia razão para chacotear: a miúda sobravade si mesma, pernas rasas arrastando-se em passitos redondos e estofados. Para mais, um sorriso tolo lhe circunflectia o rosto. Ela e o planeta: dois círculos concêntricos. O “Monumento”, assim lhe chamávamos, nós os rapazes, era homenagem ao seu tamanho vasto e demorado.

Como pedra no charco, Isidorangela fazia espraiar uma onda de zombaria. Mas rir declarado e aberto ninguém podia, a moça era filha do presidente da câmara, Dr. Osório Caldas. Como meu pai dizia, o homem era a autoridade. “O nosso chefe”, assim era mencionado lá em casa. Meu pai reverenciava o presidente Osório como se dele dependessem os destinos do mundo. A minha mãe muito se apoquentava com tanta deferência, o presidente Osório isto, o chefe Osório aquilo.

- Poça, homem, até parece devoção estranha, coisa de amores homosensuais...

- Tenho pena dele, Marta. Pobre homem, deve sofrer com aquela filha.

Todo o fim do mês, o presidente levava Isidorangela ao baile do Ferroviário, mas ninguém nunca a convidara para dançar. Os outros bailavam, rodopiavam corpos, entonteciam corações. As moças passavam de mão em mão, todas bailadas, estontecidas. Só Isidorangela ficava sentada, chupando um interminável algodão-doce. Ela mesma parecia um algodão-de-açúcar, com seu vasto vestido de roda, toda em pregas rosáceas.

À medida do tempo, meu pai crescia em seus submissos modos, todo manteigoso e sempre arquitectando cumprimentos e favores. Minha mãe perdia paciência:

- Um dia ainda se casa com esse seu presidente!

E rematava: nunca pensei ter ciúme de um homem! Meu velhote devolvia sempre a mesma resposta. Nós, sendo mulatos, tínhamos sorte em receber as simpatias do chefe. Até uma promoção lhe havia sido prometida. Os pequenos esperam olhando para cima. Nem eu sonhava a quanto levaria meu pai esse desejo de agradar ao chefe.

Naquela tarde, de inesperado, ele me deu ordem que me penteasse, podendo até usar a sua brilhantina.

- Mas vou aonde, pai?

Não obtive esclarecimento. Meteu-me em roupa de estreia, escovou-me o casaco e me conduziu por entre as magras ruelas de nossa pequena cidade. À porta da residência - os pobres têm casa, os ricos têm residência, explicou-me meu pai - ele me mandou descalçar os sapatos.

- Vou entrar descalço, pai?

- Qual descalço? Vai é calçar estes.

Numa bolsa, ele trazia uns sapatos novos, sem vestígio de poeira. Nem eu nunca havia calçado sapatinhos tão pretos. Mal os coloquei me queixei, sofrido, que apertavam.

- Pois encolha os pés, você tem muita mania de se esticar- advertiu meu pai.

No seguimento, tocou à campainha com respeitos tais que seu dedo mal roçou o botão.

- Não chegou a tocar, pai - avisei.

Tocara, sim, eu é que não ouvira. E explicou, pronunciando um português que eu nunca escutara: aqui, nas residências finas, todo o mínimo é logo um barulho. E que eu nunca ruidasse enquanto em visita aos Caldas. E puxasse lustro ao meu melhor lusitano idioma.

Esperámos um infinito. Meu pai recusava-se a insistir. Os sapatos apuravam apertos sobre meus dedos. Eis que, enfim, uma cortina se move lá dentro e Dona Angelina espreita à porta. Entrámos, cheios de vénias, meu pai falando tão baixo que ninguém o conseguia entender. Angelina, a distinta esposa, nos fez entrar pelos salões recheados de mobílias e bugigangas. Instalado numa poltrona, o presidente pouco nos anfitriou. Um displicente aceno para meu pai e, de novo, o olhar recaiu sobre um jornal. A dona de casa explicou: o Dr. Osório estava acabando umas palavras cruzadas, havia que terminar antes que a energia eléctrica fosse. Sim, daí a pouco a tarde se adensaria e a luzinha fosca do petromax não seria suficiente para terminar o passatempo favorito do presidente. E que havia o excelentíssimo encalhado em original palavra: “cabala”. Com seis letras, exactamente.

- Cabala?! - perguntou meu pai, todo atrapalhaço. E dirigindo-se para mim: - Ainda ontem não vimos essa palavra na revisão dos seus trabalhos?

E eu, de mim para ninguém: com certeza, a fêmea do cavalo. Reando que meu pai não me forçasse a dar o explicado do vocábulo.

- Passemos ao salão para aproveitar o tempo - disse Dona Angelina.

No salão estava o “Monumento”: Isidorangela, envolta em seu vestido rosa. O que mais me surpreendeu: em sua mão continuava, hasteado, o pauzinho envolto em açúcar em rama. Aquilo me deu uma volta: algodão açucarado era a minha perdição. Come conseguia Isidorangela ter aquela guloseima em sua casa? Não era coisa exclusiva das feiras e quermesses;

- Então, lã vou animando a música - anunciou a esposa do presidente.

Uma espécie de valsa preencheu o vasto silêncio da sala.

- Vá, convide Isirodangela para voltear.

A palavra soou-me como obscena: voltear? A minha cara devia ser o lastimoso retrato da parvoíce brilhantina escorrendo sobre a testa, sobrolho denunciando o aperto nos pés e uma constrição do lábio superior em cobiça do algodãozinho. Um ma disfarçado empurrão de meu velho me colocou no caminho da gorducha. Nos braços do “Monumento a melhor dizer. Então era isso, meu pai queria passar uma graxa no chefe e me usava nesses psiquiátricos desígnios de descomplexar a gordona?

Me deu uma raiva tal que, quando enlacei Isidorangela, ela até vacilou, em desequilíbrio. Quase caiu sobre mim e o pauzinho de algodão ficou como bandeira arriada entre os nossos rostos. A tentação contrastava com as minhas penas e dei por mim dizendo:

- Vou-lhe dar uma dentada.

- A mim? - a gorducha aflautou um riso nervoso.

A gula venceu-me e, língua em riste, desmanchei aquele castelo de doçura enquanto arrastava a volumosa criatura pelo soalho encerado. Acreditando que a queria a ela, Isadorangela fechou os olhos e se inclinou disposta e disponível. Meu pavor era ela escorregar e desabar, em desamparo, sobre mim. Fui rodando pelo salão, entre a agonia dos pés e o deleite dos açúcares desfazendo-se-me na boca.

Num desses passos, reparei com surpresa que meu velhote e Angelina também dançavam. No cadeirão afastado, o presidente cabeceava ensonado

. E, de repente, o que descobri? Coração apertando-me mais que os sapatos, vi as mãos de Angelina se entrelaçarem, em ternura esquiva, nos dedos de meu pai. O disco girando no gramofone, as luminações desmaiadas do petromax, a rodopiação da gorda, tudo isso me embalou em tontura. E já não havia algodão-doce a não ser no rosto de Isidorangela. Um impulso irresistível me fez linguar aquela réstia de doce. A moça entendeu mal a lambidela. E eu senti nela, estranhamente, um odor suado que era, afinal, o meu próprio e natural perfume. Senti o cabelo dela, encarapinhado, por baixo da lisura aparente. E olhando, quase a medo, revi sob o seu redondo rosto a ruga de família, o sinal que eu acreditava ser obra exclusiva da minha genética.

Quis ofuscar-me do mundo, em desvalência. Mas já os dedos de Isidorangela entrançaram os meus, com igual volúpia com que sua mãe ia apertando meu velho pai. Num sofá obscurecido Osório Caldas ia descruzando palavra enquanto cabeceava, pesado, sobre um velho jornal.

 

Mia Couto, In O Fio das Missangas

 

Via Contos de Aula

publicado às 16:50

Aminatu Haidar

Imagem do Público

 

 

Aminatou Haidar, está em greve de fome há 25 dias nas Canárias para onde o governo de Marrocos a expulsou, ela está em greve de fome porque não a deixam regressar à sua casa, ao lugar que ela considera  o seu país.

 

Saara Ocidental é um território na África Ocidental, durante séculos foi uma colónia Espanhola, em 1976 declarou-se independente e foi reconhecido internacionalmente por 45 países, imediatamente foi invadida por Marrocos.

 

Uma historia muito parecida com a de Timor: uma colónia, um país, uma invasão, um povo oprimido. Em Timor foi necessária a massacre do cemitério de Santa Cruz para chamar a atenção do mundo para o sofrimento de um povo oprimido.

 

Todos nós demos as mãos por Timor e rejubilamos com a sua liberdade, não deixemos que o silêncio que caiu sobre o Saara Ocidental e o seu povo continuem, que o sacrifício de Aminatou Haidar não seja em vão

 

Aminatou Haidar, também conhecida simplesmente por Aminatu ou Aminetu (24 de Julho de 1966) é uma activista em prol da República Árabe Saaráui Democrática e dos direitos humanos.

 

O Saara Ocidental (Sara Ocidental ou Sahara Ocidental) é um território na África Setentrional, limitado a norte por Marrocos, a leste pela Argélia, a leste e sul pela Mauritânia e a oeste pelo Oceano Atlântico, por onde faz fronteira com a região autónoma espanhola das Canárias. Capital: El Aaiún. O Sahara Ocidental está na Lista das Nações Unidas de territórios não-autônomos desde a década de 1960. O controlo do território é disputado pelo Reino de Marrocos e pelo movimento independentista Frente Polisário.

 

Em 27 de Fevereiro de 1976, este movimento proclamou a República Árabe Saaráui Democrática, um governo no exílio. A RASD é reconhecida internacionalmente por 45 estados e mantém embaixadas em 13 deles, sendo membro da União Africana desde 1984, carecendo no entanto de representação na ONU. O primeiro estado que reconheceu a RASD foi Madagáscar em 28 de Fevereiro de 1976.

 

Jorge Soares

publicado às 21:58

Livro:As escolhas da Doutora Cole

por Jorge Soares, em 10.12.09

 

A escolha da Dra Cole

 

 

Depois de ler O Físico e Xamã, foi com alguma ansiedade que tentei encontrar este terceiro livro da trilogia em que é narrada a história de uma família  de médicos, os Cole, desde a idade média até à idade actual.

 

Se os dois primeiros eram excelentes relatos históricos, este ultimo é um relato por vezes pungente da sociedade rural americana e da forma como na actualidade é praticada a medicina nos Estados Unidos.

 

Roberta Cole quebrou uma tradição mantida pela família desde a Idade Média. O primeiro filho era homem e depois tornava-se médico, Roberta além de ser mulher, decidiu que o seu caminho não seria a medicina e sim o Direito.

 

Ela herdara um dom e tal como alguns dos seus antepassados Coles, era capaz de pressentir a morte de uma pessoa ao pegar-lhe nas mãos, um dia, pressentiu a morte do seu marido. Nesse dia ela soube que o seu destino era o mesmo de muitos dos seus antepassados, a Medicina.

 

Era já uma das médicas mais respeitadas do Lemuei Grace Hospital, de Boston, quando, pela primeira vez se viu confrontada com os desafios da competição profissional do mundo moderno. A sua recusa em aceitar algumas das  regras impostas pelo cargo que ocupava fê-la perder a chefia de um importante departamento do hospital. Desiludida decide mudar de vida e vai trabalhar para uma pequena cidade rural no interior de Massachusetts e é aí que começa a sua verdadeira saga.

 

Os livros da trilogia de Noah GordonNa versão que eu tenho, que é  de 1998, o livro ainda se chamava Opções, agora chama-se As escolhas da Dra Cole. qualquer dos nomes se adequa perfeitamente, porque é das opções e de escolhas que é feita a nossa vida. As escolhas da Dra Cole levam-nos a percorrer os diversos caminhos da Vida, O Amor, o Aborto e a sua prática, o sistema de saúde americano, a vida nas pequenas cidades americanas, tudo no livro é uma fonte de descobertas.... 

 

Fiquei fan deste autor, que sem dúvida nenhuma escreve muito bem e com enorme rigor histórico e cientifico.

 

Se puderem, leiam, os 3 livros.

 

Jorge Soares

publicado às 21:35

Hoje não ia haver post, estava a dar tempo a que quem é contra a co-incineração se desse valor para entrar na discussão do post de ontem, afinal, parece que 80% da nossa população é a favor.. pelo menos foi isso que retirei dos comentários..... ainda estão a tempo, vão lá e comentem... é aqui

 

Dizia eu que não ia haver post, mas há coisas que são más demais para as deixar passar, hoje foi o dia em que pelas mãos de Maria José Nogueira Pinto e Ricardo Gonçalves, o circo desceu à comissão Parlamentar da Saúde (noticia do Público)... deve ser a proximidade do natal.. época de circo.

 

Este tipo de situações é cada vez mais comum no nosso parlamento e curiosamente acontece quase sempre com deputados dos dois principais partidos..... os que tem mais deputados, imagino que os deputados dos partidos mais pequenos, como são menos tem mais que fazer que andar a espalhar vergonhas destas.

 

 

Figuras tristes de quem foi eleito pelo povo para representar o povo, como diz alguém no fim do vídeo, nem os palhaços nem os inimputáveis tem culpa alguma e são muito mais dignos que alguns senhores deputados

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:48

De Copenhaga a Souselas

por Jorge Soares, em 08.12.09

Sim à co-incineração

 

Desde que me lembro que me habituei a falar de Kioto, uma cidade japonesa onde há muito tempo se escreveu um protocolo que pretendia lançar uma serie de medidas que iriam fazer com que o mundo em que irão viver os nossos filhos e netos fosse um mundo melhor. A maior parte dessas medidas nunca saíram do papel porque o protocolo nunca foi rectificado pelas principais economias, entendeu-se que tomar medidas para defender um mundo melhor seria penalizador para as empresas (poluentes e pouco eficazes) desses países e o verde do dinheiro foi mais importante que o verde da natureza. 

 

Por estes dias discute-se em Bruxelas um novo protocolo, há quem tenha esperanças de um resultado diferente,.... ver para crer, que a cor do dinheiro que impera na economia mundial, continua a ser o mesmo verde.

 

Entretanto por cá, e à semelhança do que havia acontecido com o a cimenteira da Arrábida em Setúbal, segundo esta noticia do Público o tribunal deu luz verde para a co-incineração de resíduos perigosos na cimenteira de Souselas, perto de Coimbra.  Neste como em muitos outros temas, recuso-me a ir a favor do vento, acho que na actualidade a única solução sustentável para os resíduos é mesmo a incineração, (seja ela co ou não) que é feita em unidades preparadas e controladas. A maioria das pessoas com quem falo é contra, mas quando lhes pergunto qual é a alternativa que apresentam, o uníco que ouço é que os resíduos devem ser enviados para outro lado qualquer, de preferência para outro país, depois o que fazem com eles lá, já não importa.

 

Enviar os resíduos para outro lado qualquer não é resolver o problema, é simplesmente passar a bola para outros, não resolve nada, simplesmente tira o lixo de debaixo do nosso nariz.. pelo menos enquanto a pilha que o vizinho acumula não é mais alta que o muro e não transborda de novo para o nosso lado.

 

A tecnologia actual não permite que a maioria dos resíduos de que falamos sejam tratados de uma forma eficaz, quanto a mim é melhor que estes sejam queimados a que sejam colocados em aterros clandestinos onde mais tarde ou mais cedo se converterão num veneno que pouco a pouco irá matar tudo o que está à volta, incluindo-nos a nós.

 

Sei que a maioria das pessoas não está de acordo comigo e que não sou dono da verdade, mas se alguém acha que existe uma solução melhor, uma solução que não seja enviar para o quintal do vizinho, gostaria de ser esclarecido.

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:02

Gripe a e sexo

 

Já aqui se falou sobre a gripe A, sobre a vacina para a gripe e sobre a forma como estamos todos a tratar o assunto, eu já tenho ali a credencial para ir tomar a vacina e só estou à espera que chegue a minha vez... mas hoje não vou ir por aí, hoje vou dar uma de serviço publico.

 

Há muitíssima gente que decidiu não tomar a vacina, muitíssima gente que deverá ter portanto cuidados redobrados, porque mesmo que o H1N1 não seja tão mau como o tentam pintar, uma gripe é uma gripe, e quem a apanhar não se livra de 3 ou 4 dias deitado abaixo. É sabido que o vírus se transmite de pessoa a pessoa e quanto mais próximo seja o contacto mais possibilidades há de contágio..... assim de repente, que contacto haverá mais próximo que uma relação sexual? Para quem não quer passar por uma temporada de abstinência em nome da saúde, deixo aqui copia de uma noticia que retirei do IOL:

 

 

Kamassutra da gripe A"A gripe A pode ser «apanhada» em situações que nem imaginamos. Sob esse pretexto, a revista «Cosmo» norte-americana, nas bancas este mês, elaborou um trabalho sobre as formas de evitar o contágio do vírus H1N1 durante as relações sexuais.

Segundo a publicação, a posição «reverse cowgirl» - onde a mulher fica por cima e de costas viradas para o homem - apresenta vantagens em relação à tradicional posição «missionário» avançando a explicação: «Quanto mais distantes estiverem as bocas e narizes do par, menos são as hipóteses de inspirar o vírus»."

 

Há quem desaconselhe os beijos, abraços e festinhas..... e se bem é verdade que um pouco de imaginação naquela hora nunca está demais, assim de repente arranjava-se já um kamasutra para a gripe A, com mascaras e látex  ..  ....tudo em nome da saúde... eu cá, acho que prefiro tomar a vacina... é de certeza mais seguro e além disso, quem é que naquele momento se lembra da gripe?.

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:25

Conto:Maria Pedra no cruzar dos caminhos

por Jorge Soares, em 05.12.09

Maria Pedra no cruzar dos caminhos - Mia Couto

 

Quando deu conta do tempo, Maria Pedra foi a correr para o cruzar dos caminhos, na encosta da Chão Oco, e ali se deitou, saia levantada à espera que algum macho a encontrasse. Era de Dezembro, ela tinha anos e era virgem.

 

E assim ficou cinco dias e cinco noites, destapada e oferecida até que um vizinho a trouxe inanimada. Depositou o corpo à porta de casa, ali onde a praça se enche de luz, avistosa de todos, redonda como a vozearia da aldeia.

 

O que acontecera? Tinham passado tantos, e tantos dela fizeram uso que ela ficara ofendida, mal-procedida para a vida inteira. Isso dizem uns. Outros juram que ninguém ousou tocar-lhe. Que ela assim, estendida e de olhos cerrados, parecia já possuída por forças do outro mundo. E lhe escapava até, viscosa e amarelenta, uma baba dos queixos. Nem o mais carente e maiúsculo dos másculos desejaria mulher naqueles escangalhos. Ou ainda, segundo outros escondidos rumores, o vizinho se tinha despenteado com ela, anoitrevido? Esse vizinho sempre saíra um mosca-viva, homem com desculpas no cartório.

 

Mas a mãe assegurou: ela tinha chegado virgem. Ela mesma confirmara, espreitando-lhe as partes, abaixo dos pêlos públicos. As marcas de dentes que trouxe no peito eram mordidelas de bicho, desses tão nocturnos que nunca ninguém esteve desperto para os testemunhar. Naquelas cinco noites ninguém em casa se mexeu, com medo que fosse cumprimento de promessa, um preventivo de feitiço.

 

Pelo sim pelo enquanto, a família ficou de olho no ventre de Maria Pedra, alertada para o mais leve arredondar. Passaram-se meses e a moça mantinha-se magra, rectilinda. Um suspiro percorreu todos. Se houvesse gravidez, a desconfiança rondaria entre todos. O culpado poderia ser qualquer um e até irmãos e tios caberiam entre os suspeitos.

 

Nove meses escoaram e, todo esse tempo, a moça não falou uma palavra que fosse. No resto, cumpria os afazeres: casa para parente para aguar, bosque para lenhar. E, de novo, em cada noite, o sonhado fogo regressava à cinza: o infinito ciclo do seu inexistir.

 

Cumpria-se o último dia de Setembro quando a moça arrumou uns panos, avolumou com eles uma trouxa e atou esse volume à cintura. Quem a visse caminhar, no lusco-fulgir da madrugada, diria que Maria Pedra despertara subitamente grávida. Para onde se descaminhou? Pois se dirigiu, de novo, ao cruzar dos caminhos e ali se deitou, enroscada, pteridófíta. Foram avisar a mãe. Que a moça sofrera de novo acesso.

 

- Vou lá - disse a mãe, passando um gesto rápido frente ao espelho.

Alisava o ventre que engordara, fruto das preocupações que a filha lhe trouxera. O que ela sofrera, naqueles nove meses de angústia! E como se ganhasse mais decisão, repetiu:

- Vou lá, antes que seja tarde.

- Para ela há muito que já é tarde.

Era o pai, em murmúrio, num canto da sala. Inválido, o homem vivia entre o vazar de garrafa e o desarolhar de outra garrafa. O vizinho, solícito, sossegou-a:

- Vá, à vontade. Eu tomo conta aqui do nosso homem.

E empurrou o assento e o assentado. O marido bateu com ambas mãos nos braços da cadeira de rodas. Agredia o seu próprio destino:

- Você devia era arranjar-me uma garrafa de rodas!

E voltou a apagar-se, escuro no recanto escuro. O vizinho fez um sinal para que a dona de casa se afastasse, rumo aos seus afazeres.

A mãe cruzou a aldeia. Primeiro, apressada. Queria adiantar-se aos rumores, enxotar as vergonhas. Mas à medida que ia descendo a encosta, o seu passo foi esmorecendo. Vagarosa como sombra se chegou à filha que se conservava enroscada sobre a rocha do entroncamento.

- Venha, minha filha. Volte a casa.

- Agora não posso - respondeu Maria Pedra.

Uma tremura na voz? A miúda chorava. Seria dessas inventadas mágoas, dessas que ela criava apenas para se sentir existente?

- Venha, traga essas roupas, antes que a aldeia acorde.

 

A mãe puxou pelos panos que nela se enrodilhavam. A moça resistiu, as duas mulheres se disputaram com violência, até que se envolveram corpo contra corpo. Houve rasgo e unha: já sangue escorria pelas pernas da mãe. Foi quando se descortinou, por entre o emaranhado das roupas, o corpo de um menino, recém-nado. E o choro inaugural de um novo habitante.

A mãe ficou anichando o recém-recente no ofegante ventre. As duas deitadas, lado a lado, alongaram um silêncio.

- Esse filho é seu, Maria Pedra!

- Sossegue, mãe. Eu digo que é meu.

 
Mia couto, in O Fio das MIssangas
Retirado de Contos de Aula

publicado às 21:30

Li no Ionline que vão recolher assinaturas a favor do referendo nos jogos de futebol, já  no JN diz-se que em muitas igrejas, os padres para além de utilizarem o púlpito para arremeterem contra os direitos das pessoas, estão a convidar os fieis a passarem pela sacristia para assinarem a petição a favor do referendo..

 

Continuo a não perceber o que tem a igreja a ver com tudo isto, que eu saiba é do casamento civil que se trata,... mas pronto. 

 

Acho que já todos sabem a minha opinião sobre o assunto, por isso, hoje deixo a do Ricardo Araújo Pereira para vossa reflexão.

 

 

Ricardo araujo Pereira e os referendos

 

Retirado da Visão

 

Isto precisa é de um referendo em cada esquina 

 

 

Confesso que não sei se as pessoas nascem com essa característica ou se optam por adoptar o comportamento desviante que a Bíblia, aliás, condena - mas, na minha opinião, os canhotos não deveriam poder casar. Nem adoptar crianças. Um casal de pessoas, digamos, normais, acaricia a cabeça dos filhos como deve ser, da esquerda para a direita. Os canhotos acariciam da direita para a esquerda, o que pode ter efeitos perversos na estrutura emocional das crianças. Na verdade, sou contra a adopção por casais heterossexuais em geral, sejam ou não canhotos. Atenção: não tenho nada contra os heterossexuais. Tenho muitos amigos heterossexuais e eu próprio sou um. Mas não concordo que possam adoptar crianças. Em primeiro lugar, porque é contranatura. Quando olhamos para a natureza, não vemos casais de pardais ou de coelhos a adoptarem crias de outros. Pelo contrário, esforçam-se por colocar as suas crias fora do ninho ou da toca o mais rapidamente possível. Ou usam as suas próprias crias para produzir novas crias. Mas não adoptam. Provavelmente, porque sabem que é contranatura. Por outro lado, a adopção por casais heterossexuais pode condicionar a sexualidade das crianças. Todos os homossexuais que conheço são filhos de casais heterossexuais. A influência de heterossexuais tem, por isso, aspectos nefastos que merecem estudo cuidadoso. Por fim, há a questão do estigma social. Suponhamos que uma criança adoptada por um casal heterossexual é convidada para ir a casa de um colega adoptado por um casal de homens. Como é que o miúdo que foi adoptado por heterossexuais se vai sentir quando perceber que a casa do colega está muito mais bem decorada do que a dele?

 

Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, mais do que ser a favor de um referendo, sou a favor de vários. Creio que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser referendado caso a caso. O Fernando e o Mário querem casar? Pois promova-se uma grande discussão nacional sobre o assunto. A RTP que produza um Prós e Contras com cidadãos de vários quadrantes que se posicionem contra e a favor da união do Fernando e do Mário. Organizem-se debates entre o Mário e os antigos namorados do Fernando, para que o povo português possa ter a certeza de que o Fernando está a fazer a escolha certa. E depois, então sim, que Portugal vá às urnas decidir democraticamente se concede ao Mário a mão do Fernando em casamento. E assim para todos os matrimónios. Se o objectivo é metermo-nos na vida dos outros, façamo-lo com o brio que essa nobre tarefa merece.

 

Defendo, portanto, uma abordagem especialmente cautelosa desta questão. Sou muito sensível ao argumento segundo o qual, se permitirmos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, teremos de legalizar também as uniões dos polígamos. E sou sensível porque, como é evidente, não posso negar que me vou apercebendo da grande movimentação social de reivindicação do direito dos polígamos ao casamento. Parece que já temos entre nós vários muçulmanos, grandes apreciadores da poligamia. E eu não tenho homossexuais na família, nem entre os meus amigos, mas polígamos, muçulmanos ou não, conheço umas boas dezenas. Se toda esta massa poligâmica desata a querer casar, receio que os notários fiquem com as falangetas em carne viva, de tanto redigirem contratos de união civil. Mas, felizmente, confio que os polígamos sejam, também eles, sensíveis à mais elementar lógica: a poligamia é uma relação entre uma pessoa e várias outras de sexo diferente. A reivindicarem a legalização das suas uniões, fá-lo-iam a propósito do casamento entre pessoas de sexo diferente, com o qual têm mais afinidades. A menos que se trate de poligamia entre pessoas do mesmo sexo. Mas, segundo o Presidente do Irão, parece que entre os muçulmanos não há disso.

 

Ricardo Araújo Pereira

 

PS:Dizem nesta noticia que os gays não entram no reino dos céus... eu acho que o Ricardo também não.... e pensando bem, nem eu   

publicado às 21:01

O Spam já é mais de 90% do mail que recebemos

Imagem da internet

 

Lá no emprego o meu mau feitio é sobejamente conhecido, uma grande parte da minha (má) fama vem da época em que ainda não havia filtros no servidor de mail da empresa e entrava o lixo todo. Desde as latas com mijo de ratos,  até ao dos telemóveis da Nókia, passando pelas criancinhas doentes, os pedidos de sangue, o dos radares na via verde, passando por todos os que davam má sorte se não enviares para não sei quantas pessoas, são milhares e milhares de mails, gigabytes e gigabytes de lixo digital que entope os servidores de mail em todo o mundo. Neste momento mais de 90% do mail que chega a qualquer empresa é lixo, é incrível a largura de banda que é ocupada com mail que nunca pedimos e que na maior parte dos casos (se os servidores estiverem bem configurados) ninguém vai saber sequer que existe.

 

Houve uma altura em que cada vez que recebia um desses mails, ia directamente ao google e passados dois minutos enviava de volta com a explicação de porque era falso, com o tempo deixei de receber, não porque as pessoas deixassem de reenviar, mas sim porque passaram a não enviar para mim. Há coisas que não consigo entender, o que faz alguém acreditar que se não enviar um mail que na maior parte das vezes é parvo, ou lamechas, ou idiota, ou impossível, ou qualquer combinação de tudo isto, lhe poderá acontecer algo mau?

 

Uma vez questionei uma das secretárias porque o fazia, a resposta foi: - Eu sei que não faz sentido, mas não consigo evitar! .. esclarecedor!.. pensando bem, há vícios bem piores.

 

Tudo isto não passaria de bytes perdidos e redes mais lentas se por trás não existissem coisas bem mais graves, nem tudo o que vem com eles é inocente, desde pessoas que se dedicam a compilar listas de endereços de mail para vender a bons preços, até emails que tem claramente um intuito de marketing negativo para denegrir o bom nome de pessoas ou empresas, há de tudo. Mas há utilizações que entram claramente pelo domínio da ilegalidade, como o envio de vírus e de programas zombies para caçar passwords, ou programas que abrem portas que facilitam a espionagem industrial, ou.... tantas outras coisas, o Spam há muito que se converteu num negócio de muitos milhões.

 

Mas há coisas que me espantam mesmo, hoje, mais de 10 anos depois, voltei a receber um dos primeiros mails que me chegaram, diz assim:

 

Aparentemente, Bill Gates está a partilhar uma porção da sua fortuna. O MS WINDOWS continua a ser o sistema operativo mais utilizado, e isto não é mais do que um teste para a Microsoft e a AOL avaliarem isso pelo nº de envios/reenvios deste mail.

 

Esta frase não mudou nada em mais de 10 anos, lembro-me de que na altura este mail gerou uma discussão e não consegui convencer a pessoa que mo enviou que não há nenhuma forma em que o Bill gates possa saber quem reenviou isto ou não. Na altura a discussão terminou quando eu perguntei ao colega se ele também acreditava no pai natal.. e ele furioso e com copia para umas 20 pessoas, respondeu que sim.

 

Faça como eu, cada vez que receber um destes mail em cadeia, antes de reenviar vá ao google, coloque o titulo do mail, e veja o que encontra, quase de certeza algures está a explicação sobre o porquê é falso... acredite, funciona em mais de 99% dos casos.

 

Jorge Soares

publicado às 21:57

Dia mundial Sida

por Jorge Soares, em 01.12.09

Dia mundial Sida

 

Assinala-se hoje o dia mundial Sida, uma doença que apesar dos avanços da medicina continua a ser um flagelo, calcula-se que desde o aparecimento da doença já morreram no mundo inteiro mais de 25 milhões de pessoas.

 

Segundo esta  noticia do Público, em Portugal existiam no fim do ano passado 34 888 casos registados, sendo que segundo o relatório Da ONUSida, Portugal é o país da Europa em que se regista o aparecimento de maior número de novos casos. Ouvi algures que se calcula em 30% a percentagem de casos não detectados. Tendo em conta que quase 60% dos casos detectados correspondem a heterossexuais casados, nunca está demais chamar a atenção para os comportamentos de risco e para a educação para a saúde sexual.

 

Deixo hoje um post que escrevi há dois anos atrás, uma historia de vida que infelizmente continua tão actual.

 

O quebra cabeças de arame

 

Algures no ano 1992 ou 93, estava eu na loja da Valentim de Carvalho no Rossio... acho que já não existe, e acercou-se a mim um jovem, teria mais ou menos a minha idade, tinha um alicate e arame de cobre na mão, enquanto falava ia moldando o arame. Disse o nome, e que era portador do HIV, falou-me do vírus, e das dificuldades que sentia, ele e os portadores, para poder viver na nossa sociedade.

 

No fim da conversa, ele tinha moldado um quebra-cabeças de arame, e disse-me que era para mim, não custava nada, mas que agradecia se eu o pudesse ajudar com algum dinheiro, não era fácil a vida para ele, não conseguia arranjar emprego.

 

Eu era um estudante deslocado em Lisboa e sem muitas posses, ofereci-lhe 500 Escudos, e algumas palavras, para a média eu era uma pessoa informada sobre o assunto, disse-lhe isso e algumas outras coisas, lembro-me de no fim lhe ter apertado a mão e senti que ele ficou surpreendido, comovido, percebi que ele não estava à espera de aquele aperto de mão.

 

Ora isto foi em 1992 ou 93, na altura não existia a informação que existe agora, não sei o que terá acontecido com aquele ser humano, como não sei o que aconteceu com o quebra-cabeças de arame, de vez em quando lembro-me dele. Estamos em 2007, passou muito tempo, vivemos na era da informação, do google, todos deveríamos saber que o HIV é só mais um vírus

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:34

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